Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Converteu-se ao ler um livro sobre Medjugorje. Natália, ex-diretora da SGAE (Sociedade Geral de Autores e Editores): «Medjugorje é o cartão de visita para conhecer Cristo»

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Converteu-se ao ler um livro sobre Medjugorje.
Natália, ex-diretora da SGAE (Sociedade Geral de Autores e Editores): «Medjugorje é o cartão de visita para conhecer  Cristo»

Oração na cruz de madeira da Colina das Aparições em Medjugorje

Jesus Garcia / ReL- 10 dezembro 2013-religionenlibertad.com

A advogada Natália Gomez de Enterria chegou a ser a mão direita de Teddy Batista na Sociedade Geral de Autores (SGAE), em concreto sua Diretora de Recursos Humanos. Após uma experiência que chega a atemorizar, incluídas ameaças de morte, sua vida mudou por completo ao ler um livro sobre Medjugorje.

Seus sucessos profissionais e um grande salário poderiam fazer-nos pensar que sua vida era de revista. Foi nomeada Diretora de Recursos Humanos na Sociedade Geral de Autores e Editores da Espanha, a conhecida SGAE. Mas o caramelo que parecia este trabalho resultou estar envenenado.

Hoje, tendo despertado daquele pesadelo, Natália trabalha em um escritório de advogados e dedica seu  pouco  tempo livre  para levar peregrinos a Medjugorje, o lugar da Terra onde sua vida deu uma volta para o bem e, segundo diz, para sempre. Esta é sua história.



-Natália, como era sua vida antes de conhecer Medjugorje?
-Digamos que insignificante. Minha vida seguia uma direção aparentemente perfeita. Vinha de uma boa família, formei-me na carreira de Direito, me casai… até que sendo ainda bastante jovem e com dois filhos vivi o fracasso de meu casamento. Até então tinha uma vida de conto de fadas, mas não era feliz. Eu passava por esta vida por passar, mas me sentia muito vazia.

- Como era tua vivência da fé?
-Muito tradicional, muito cultural, por costume. Eu venho de uma família católica, como tantas outras da Espanha, mas minha fé não tinha nada de autenticidade. Era uma postura, uma etiqueta. Eu ia à Missa aos domingos porque tinha que ir e  passava inteira distraída, desejando que acabasse, sem valorizar o que realmente ali, no altar, estava sucedendo.

-Consideras um fracasso vital a ruptura de seu casamento?
-De certa maneira sim. Não pela ruptura do Matrimônio, porque na realidade foi nulo e ali não houve Matrimônio, mas sim pela escolha que tomamos nesse dia, e mesmo não havendo Matrimônio, essa é uma ferida que te marca. Porém também tenho que dizer que a maior das alegrias de minha vida foram e são meus dois filhos.

- O que acontece com uma pessoa como você, tradicionalmente católica, quando  vive uma situação tão complexa?
-Mexe com você em tudo. Percebe  que chega a um ponto  que não queria ter chegado e que é um  cenário absolutamente desconhecido. Sua vida se rompe e se questiona  se tudo o que te ensinaram em sua vida  serviu para algo.

- Como você se saiu?
-Pois para começar com o apoio de minha família. Eles sempre me abrigaram. Depois, mudando de trabalho. Surgiu uma oportunidade incrível. A de Diretora de Recursos Humanos da Sociedade Geral de Autores (SGAE), um posto com um salário que nem te conto.

- O que se diz um 'caramelo'.
-Sim, mas estava envenenado.

-Em que sentido?
-Em quinze dias comecei a ver coisas desagradáveis que, como não tem marcha-ré, pois faz como se não acontecem e vai adiante. Vivi uma tensão insuportável, porque não me dobrei a certas pressões e após quatro anos ali, de muita tensão, de muito esgotamento e de inclusive medo, me despediram. Agora todo este assunto está em julgamento.

- O que sentiu quando recebeu pelo correio em sua casa ameaças de morte e quando queimaram seu carro?
-Que estava fazendo algo de mal. Que  foquei mal minha vida. Que nem eu nem meus filhos tínhamos necessidade de tudo isto.   Pergunto-me o que é que fiz de tão mal para que tudo vá tão mal. Percebi que não tenho par, de que levei quatro anos trabalhando como uma mula, aguentando uma pressão brutal e que fora ter ganhado muito dinheiro, a troca tinha ameaças de morte na caixa de correio  de minha casa.

-Para dizer de alguma maneira, via sua vida como um fracasso.
-Sim. Comecei após as ameaças uma época muito má. Era um pesadelo estando acordada. Não comia, não dormia... Não vivia, eu morria. Afundei.

-Estava incomodada com Deus, ou com a Igreja, ou algo assim?
-Não, com Deus não. Com a Igreja tampouco. Mesmo sendo  verdade que uma vez, quando  deram a nulidade de meu casamento, entrei em uma igreja e me pus  a chorar como uma Madalena. Não tinha Missa nesse momento e as pessoas me olhavam como se estivesse louca ou algo assim. Ninguém se aproximou nem para dar  um lenço com  que secar os mucos ou perguntar  se tinha me acontecido algo. Eu pensei: “Vão pra lá cristãos de merda”. Senti rejeição por aquela gente e fui embora. Aquela foi a última vez que eu tinha entrado em uma igreja para rezar, e já fazia anos.

-Não  rezava nada nesse tempo que esteve trabalhando na SGAE?
-Recordo que um dia  escrevi uma pequena oração. Peguei um caderno, abri na primeira página em branco que encontrei, e escrevi: “Meu Deus, muda a minha  vida”. Vinte dias depois me despediram.

-Como aceitou a demissão?
-Fenomenal. Foi uma libertação. Fui dali com minha indenização e tudo acertado, com a consciência tranquila e sabendo que eu não fiz nem mais nem menos do que  tinha que fazer.

-Acredita que a  demissão foi a resposta a sua oração?
-Eu penso que sim. Ainda me surpreende, porque eu não escrevi aquela oração com intenção de rezar, nem de nada. Foi um desabafo, uma frase feita. Acontece que Deus aproveita o pouco que lhe demos para fazer-se presente. Assim foi.

- Como  aproveitou Deus?
-Semeou em mim a inquietude de passar uns dias de descanso em um Monastério. Eu na vida não havia pensado nada igual, e  não era tanto por rezar como por descansar, para tirar todo o ruído de minha cabeça uns dias. Um bom dia, em una livraria qualquer encontrei um livro de freiras intitulado  Que faz una garota como tu em um lugar como este?. Eu o li, gostei e vi que capa do livro tinha outro título do mesmo autor, e como este eu tinha gostado, também  comprei.

- Qual era esse livro?
-Medjugorje, da editora 'Libros Libres'.

- Sabia o que era?
-Não tinha nem ideia do que podia significar essa palavra. Não sabia onde  estava me metendo e sem saber  estava mudando minha vida.



- O que aconteceu ao ler este livro?
-Mudou a minha vida. Devorei-o. Não durou nem duas sentadas. Absorveu-me. Entro em minha pele, nunca tinha me acontecido. Esse livro emana verdade, sinceridade objetiva, o que me fez pensar que que sabe  também Deus podia ter algo para mim   nesse lugar. Fora as qualidades do autor, nesse livro há uma inspiração de Deus, porque conforme vai lendo há algo que transcende a letra, que te chama, que te empurra e que te incendeia por dentro. A mim, pelo menos, quando o lia sentia que o que contava estava certo e que a Virgem existia, que estava ali, em Medjugorje, e me chamava.

-Foi Medjugorje -e não me refiro ao livro, mas ao conteúdo  definitivo para seu encontro com Deus?
-Foi muito importante, mas realmente definitivo foi uma experiência de Deus que tive pouco depois de lê-lo, em Almeria. Uma experiência que sei que é de verdade, que aconteceu, mas  entendo que existe gente que não acredita. Deus se fez presente em minha vida de um modo pessoal, entre os dois.

- Chamou-te para cear ou algo assim?
-Falo sério. Um dia em que íamos à praia subi no carro com minha irmã, meu cunhado e sua pequena. Minha irmã e seu marido estavam alegres e se mostravam muito carinhosos entre eles, e aí, ao ver como se queriam, em um momento em que eu estava muito bem, senti uma pena muito grande no coração, como uma ausência. A ausência de alguém que me quisesse e de alguém a quem querer. Amargou-me uma sensação de solidão, de abandono. Nesse  momento, eu ouvi em meu coração uma voz que disse: “Eu te quero”.

-Ah. Uma voz...
-Sim. Sei que parece uma loucura, mas foi isso com certeza.

- Por que sabe  que foi isso e não produto de sua imaginação?
-Por dois motivos. O primeiro, porque  senti exatamente igual ao que sinto quando me diz  você agora. Eu não tenho nem ideia de como acontece. Nunca antes havia acontecido. É uma frase que vem de fora e que você capta, como quando alguém lhe diz algo. Mas eu nesse momento não estava pensando em nada religioso, nem rezando, nem pedindo a Deus que me dissesse que me queria. Não sei explicar melhor.

- O segundo motivo pelo qual tem certeza?
-Que me brotou um sorriso espontâneo, de orelha a orelha.   Nesse instante, sei perfeitamente que  vivi  algo, que foi alguém que me disse isto. É uma certeza estranha a você. Eu fiquei perplexa, mas ao mesmo tempo com uma paz que te dá  certeza de ter vivido algo e que portanto, sabe  de alguma maneira que é inexplicável, mas que aconteceu. Não inventei. Eu ouvi uma voz.

-Interpreta  que nesse momento  era a voz de Deus?
-Sim. Com toda certeza. Não tive nenhuma dúvida e além disso, se vive com muita paz, por raro que te possa parecer. Não te dá vontade de contar aos outros, nem de passear. Sabe que foi só para você e que  deve ficar nesse momento entre Deus e você. No meio dessa ausência, Deus se fez presença.

-Assim... sem mais...
-Olha, eu ia à praia! Levava meu maiô, minha toalha e meu protetor solar. Ia de carro, não ia pensando em nada especial. De repente acontece isso e uau! E nada mais. Se  quiser  contar pois bem, e se não quiser, por mim também está bem.

- E foi a Medjugorje?
-Sim. Não demorei muito em ir. Ali se confirmou tudo.



-O que viveu ali?
-Na segunda  começava um retiro que davam para os espanhóis, um franciscano da paróquia. Fui e mesmo  aquilo não sendo muito emotivo, de repente eu comecei a chorar como uma fonte. Percebi  em seguida  que não tinha nenhum motivo pelas palavras daquele sacerdote para chorar, mas eu comecei e como se  não fosse nunca acabar. Não parei em uma hora e meia.

-Chorava de pena? Estava triste ou algo assim?
-Não foi um pranto de pena, nem de arrependimentos, nem de dor,  de nada. Chorava simplesmente porque as lágrimas me saíam, mas sem nenhuma causa conhecida nem porque nada do que tivesse dito aquele frade me houvesse comovido. Não  entendi, porém foi bom. Ao sair daquela sala as pessoas me olhavam como dizendo: “ Que terá acontecido a esta?”

»Saí a toda pressa até o Monte das Aparições e comecei a rezar. Seguia chorando enquanto ia subindo, tanto que não via nem as pedras, e nesse momento da subida, sozinha, eu  disse à Virgem: “ Por que me presenteias com isto?”. Porque o que me acontecia é que sem saber porque e de modo irrelevante, eu estava absolutamente feliz. Não tinha feito nada para sentir-me assim e no entanto, estava com tanta comoção. Era impossível sentir-se mais querida que nesse momento em nenhuma parte do mundo, e eu me sentia assim. Sentia-me plena de amor e repetia: “ Por que me dá isto? Eu, que tenho sido tão merda e que passei uma vida tão tonta,  o que fiz para que me presenteies com isto?”.

- A que te referes com “isto”?
-A uma felicidade interior muito grande. Eu sentia que cada dia que passava ali me regalavam com mais coisas. Não  sei te explicar quais, mas por exemplo, o  gosto com que estava rezando, cada dia mais. Via claras que as coisas de minha vida. Esta experiência da presença de Deus não parava de crescer. Cheguei então em cima do monte  e não sei nem como cheguei. Eu não via mais além do meu nariz, de verdade, e chorava sem parar.

»Sentei-me a certa distância da imagem que há lá em cima, em umas pedras. Tentei relaxar e comecei a recordar de certos momentos de minha vida em  que eu vivi uma vida totalmente afastada da Igreja, e não me senti bem. Lembrei também do dia  que entrei numa igreja chorando e ninguém fez nem caso e me enraiveci. Então comecei a falar com Jesus. Disse-lhe: “Que coisa  faz!”. Disse isso porque percebi  que naquele dia também ninguém fez caso de mim, El sim que me fez. Isto  agora é tão forte que fico com os cabelos em pé...

-Não comece a chorar agora, segue com seu relato...
-Pois estava dizendo isso a Jesus, que eu fiquei com raiva porque eu estava ali, numa igreja de Madri, chorando desconsolada e ninguém teve o cuidado de aproximar-se de mim para me dar  um lenço, para ver se tinha me acontecido algo, para por  uma mão sobre o ombro e já estava bom, e justo nesse momento senti em meu ombro uma mão. Levantei o olhar empapada de lágrimas e vi como pude um garoto, por certo lindíssimo, com grandes olhos. Era italiano, e me disse: “Força! A Madona te ama”. Nesse momento, eu disse a Deus: “Bem. Já está bom. Para ou eu morro”. Pedi a Deus que parasse. Meu corpo não podia assumir nada mais. Se Deus me tivesse regalado com algo mais, meu corpo teria partido em algum lado. Disse: “Senhor,  não mais. Basta. Nem me roce. De tanto amor me vai  matar”.

- Esse foi o grande ponto de reflexão em sua peregrinação?
-É possível, sim. Eu já tinha plena consciência do amor de Deus, e lhe asseguro uma coisa. É descomunal. Nosso corpo não  pode assumir. Os cinco dias seguintes não parei de chorar. Com muita calma, não era histerismo nem nada parecido. Não chorava de pena, nem de melancolia, tampouco era de emoção. Era chorar de que não sei o que.

- Qual papel de Cristo em tudo isto?
-Tudo isto é Cristo. Tudo isto me deu Cristo.  El me deu em Medjugorje e me  segue dando aqui e onde eu esteja. A Virgem Maria, em Medjugorje, me levou a Cristo. O que há em Medjugorje é uma paróquia em  que vivem crendo que ali, no Sacrário, está Jesus, vivo. Toda a vida que se derrama de Medjugorje nasce de Cristo.

-Aqui na Espanha, onde encontra   Cristo?
-Sobretudo na Eucaristia. Percebi que sua presença aí é tal, que se dois dias seguidos não comungo, me afeta. Fico triste, me falta algo... Por isso procuro comungar todos os dias.

-Natália,  o que diz para as pessoas que lerem seu testemunho?
-Que vão a Medjugorje quanto antes, antes de que a Virgem deixe de aparecer  ali. Tem que ir. Não se pode perder, por favor. Medjugorje é o cartão de visita para conhecer  Jesus.

Este testemunho se pode ler na íntegra no livro 'Estamos de volta', da editora 'Libros Libres'.

www.jesusgarciaescritor.es

 
 FICHA TÉCNICA COMPRA ONLINE

Título: Estamos de vuelta OcioHispano

Autor: Jesús García

Editorial: LibrosLibres

Páginas: 254 páginas

Precio 20 euros




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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O mais célebre pensador conservador da Inglaterra, Roger Scruton, filósofo inglês abertamente: « A lei sobre a homofobia? Como os processos de Mao»

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Roger Scruton, filósofo inglés sin tapujos: «¿La ley sobre la homofobia? Como los procesos de Mao»

O mais célebre pensador conservador da Inglaterra, Roger Scruton, filósofo inglês abertamente: « A lei sobre a homofobia? Como os processos de Mao»

O filósofo Roger Scruton no  prega o pensamento único nem os truques de linguagem dos lobbys progressistas

Giulio Meotti / Foglio Quotidiano- 6 outubro 2013-religionenlibertad.com

George Orwell já disse tudo em seus famosos ‘dois minutos de ódio’ do livro  ‘1984’”, disse ao Foglio (www.ilfoglio.it) o filósofo e comentarista inglês Roger Scruton (www.roger-scruton.com).

“A questão homossexual é complicada e difícil, mas não pode encarcerar o pensamento com leis sobre a denominada ‘homofobia’ como a do Parlamento italiano, que a única coisa que faz é criminalizar a crítica intelectual sobre o matrimônio homossexual. É um novo crime  intelectual, ideológico, como foi o anti-comunismo durante a Guerra Fria”.

Docente de Filosofia na St. Andrews University, setenta anos, autor de uma trezena de livros que o converteram no mais célebre filósofo conservador inglês (foi definido pelo Sunday Times “the brightest intellect of our time”, “a mente mais brilhante de nosso tempo”), Scruton comenta deste modo a lei que se está debatendo no Parlamento italiano sobre a criminalização da “homofobia”. Também a Anistia Internacional  está se mobilizando em apoio a esta lei.

Como os julgamentos simulados e maoismo

“Esta lei sobre a homofobia me recorda os julgamentos farsa-espetáculos de Moscou e da China maoista, em  que as vítimas confessavam com entusiasmo seus próprios crimes antes de serem executados. Em todas estas causas em  que os otimistas acusam os opositores do ‘ódio’ e ‘o discurso do ódio’ vejo o que o filósofo Michael Polanyi definiu, em 1963, como ‘inversão moral’: se desaprovas o welfare (o bem estar social) te falta ‘compaixão’; se te opões à normalização da homossexualidade é um ‘homófobo’; se crê na cultura ocidental é um ‘elitista’. A acusação de ‘homofobia’ significa o final da carreira, sobretudo para quem trabalha na universidade”.

Distorcendo a linguagem: volta a Orwell

Scruton sustenta que a manipulação da verdade passa através da distorção da linguagem, como na obra de Orwell, com o nome de “Novilíngua”.

“A novilíngua intervém cada vez que o propósito principal da linguagem, que é descrever a realidade, é substituída pelo propósito oposto: a afirmação do poder sobre ela. Aqui, o ato linguístico fundamental coincide só  superficialmente com a gramática assertiva. As frases da novilíngua soam como declarações nas quais a única lógica subjacente é a da fórmula mágica: mostram o triunfo das palavras sobre as coisas, a futilidade da argumentação racional e o perigo de resistir ao encantamento.

Como consequência, a novilíngua desenvolve uma sintaxe especial que, se bem que está estreitamente conectada a que se utiliza normalmente nas descrições ordinárias, evita com cuidado roçar a realidade ou confrontar-se com a lógica da argumentação racional. É o que Françoise Thom   tentou ilustrar em seu estudo, ‘La langue de bois’ (“A linguagem de madeira”). Thom  pôs em relevo algumas de suas peculiaridades sintáticas: o uso de substantivos em lugar de verbos diretos; a presença da forma passiva e da construção impessoal; o uso de comparativos em lugar de predicados; a onipresença do modo imperativo”.



A "homofobia", um fantasma

Com a lei sobre a homofobia, Scruton disse que “se tenta infundir na mente do público a ideia de uma força maligna que invade toda a Europa, albergando-a nos corações e na cabeça das  pessoas que ignora suas maquinações, e dirigindo para o caminho do pecado inclusive o projeto mais inocente. A novilíngua nega a realidade e a endurece, transformando-a em algo alheio e resistente, algo ‘contra o que lutar’ e ao que ‘há que vencer’. A linguagem comum dá calor e abranda; a novilíngua congela e endurece. O discurso comum gera, com seus mesmos recursos, os conceitos que a novilíngua proíbe: correto-incorreto; justo-injusto; honesto-desonesto; teu-meu”.

Uma forma de “reeducação”

Scruton disse que está se expandindo nos países europeus o medo à heresia. “Está emergindo um sistema considerável de etiquetas semi-oficiais para prevenir a expressão de pontos de vista ‘perigosos’. A ameaça se difunde de maneira tão rápida   na sociedade que não é possível evitá-la. Quando as palavras se convertem em fatos, e os pensamentos são julgados pela expressão, uma espécie de prudência universal invade a vida intelectual".

E detalha mais o que acontece quando se fala com medo: "As pessoas moderam a linguagem, sacrificam o estilo a uma sintaxe mais ‘inclusiva’, evita sexo, raça, gênero, religião. Qualquer frase ou idioma que contenha um julgamento sobre outra categoria ou tipo de pessoas pode converter-se, de manhã à noite, em objeto de estigmatização. O politicamente correto é uma censura branda que permite mandar as pessoas à fogueira por pensamentos ‘proibidos’. As pessoas que tem um ‘julgamento’ são condenadas com a mesma violência de Salem”. O do julgamento das bruxas, em Massachusetts. 'A letra escarlate' livro de Nathaniel Hawthorne.

Quem discorda do lobby gay será "homófobo"

“Quem se angustia por tudo isto e quer expressar seu protesto deverá lutar contra poderosas formas de censura. Quem discorda do que  está se convertendo em ortodoxia no que diz respeito aos ‘direitos dos homossexuais’ é regularmente acusado de ‘homofobia’. Nos Estados Unidos existem comitês encarregados de examinar a nomeação dos candidatos no caso de que exista a suspeita de ‘homofobia’, liquidando-os uma vez que se  formula  a acusação: ‘Não se pode aceitar a petição dessa mulher em formar parte de um juri em um julgamento, é uma cristã fundamentalista e homofóbica’”.

Segundo Scruton, se trata de uma operação ideológica que recorda, exatamente, a que teve lugar durante a Guerra Fria.

“Na época se necessitavam definições que estigmatizassem o inimigo da nação para justificar sua expulsão: era um revisionista, um desviado, um esquerdista imaturo, um socialista utopista, um social-fascista. O êxito destas ‘etiquetas’ marginalizando e condenando o opositor corroborou a convicção comunista de que se pode mudar a realidade mudando a linguagem: por exemplo, se pode inventar uma cultura proletária com a palavra ‘proletkult’; se pode desencadear a queda da livre economia simplesmente declarando em voz alta a ‘crise do capitalismo’ cada vez que o tema é debatido; se pode combinar o poder absoluto do Partido Comunista com o livre consentimento das pessoas definindo o governo comunista como um ‘centralismo democrático’.

Que fácil foi assassinar a milhões de inocentes visto que não estava sucedendo nada grave, pois se tratava somente da ‘liquidação dos gulags’. Que fácil é encerrar as pessoas durante anos em campos de trabalho forçado até que adoeça ou morra, se a única definição linguística concedida é ‘reeducação’!. Agora existe uma nova beataria leiga que quer criminalizar a liberdade de expressão sobre o grande tema da homossexualidade”.



Dizem "nós"... e são só os progressistas
Por último, disse Scruton, temos o choque entre o “pragmático” e o “racionalista”.

“As velhas ideias de objetividade e verdade universal já não têm nenhuma utilidade, a única coisa importante é que ‘nós’ estejamos de acordo. Mas,  quem é este ‘nós’ ? E sobre o que estamos de acordo? ‘Nós’ estamos todos a favor do feminismo, somos todos liberais, defensores do movimento de libertação dos homossexuais e do curriculum aberto; ‘nós’ não cremos em Deus ou em qualquer outra religião revelada, e as velhas ideias de autoridade, ordem e auto-disciplina para nós não contam".

E continua: "Nós decidimos o significado dos textos, criando com nossas palavras o consentimento que  gostamos. Não temos nenhum vínculo, só  o que nos une à comunidade da qual   decidimos formar parte, e porque não existe uma verdade objetiva, senão só  um consentimento auto-gerado, nossa posição é inatacável de  qualquer ponto de vista fora dela. O pragmático não só  pode decidir o que pensar, senão que também  pode se proteger contra qualquer um que não pense como ele”.

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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Putin reuniu os líderes de 15 igrejas ortodoxas e falou como um estadista com visão global tentando despertar a comunidade internacional. Recordou que se violam os direitos das minorias religiosas em todo o mundo, especialmente os dos cristãos, e que a humanidade "deve tomar medidas para freá-lo".

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Putin reuniu os líderes de 15 igrejas ortodoxas e pede ao mundo que proteja os cristãos
Putin reúne a los líderes de 15 iglesias ortodoxas y pide al mundo que proteja a los cristianosVladimir Putin, o Patriarca Kiril e outros Patriarcas ortodoxos

P. J. Gines / ReL - 26 julho 2013 - religionenlibertad.com

Vladimir Putin está há 13 anos dirigindo a Rússia. Sempre   teve como modelo o Império dos Czares, alguns elementos ilustrados de Pedro o Grande e la iconografia de Moscou como uma Terceira Roma, a que protege os cristãos ortodoxos do mundo inteiro.

Pelo motivo dos 1025 anos do "Batismo da Rússia" (o rei São Vladimir, neto de Santa Olga, cristianizou toda a Rússia original -na Ucrânia- no ano 998), o novo Vladimir  convocou os líderes das igrejas ortodoxas para reforçar seu papel como protetor dos cristãos, lamentando que a Europa e a América não façam   nada pelos cristãos perseguidos nas terras do Islã.

 Constantino convocava concílios...
Se o imperador Constantino e seus herdeiros convocaram concílios na Segunda Roma (Constantinopla), Putin representa sua liderança protetora da Terceira Roma, e chamou delegações de 15 igrejas ortodoxas auto-céfalas que somam uns 225 milhões de cristãos (a imensa maioria na Rússia, onde os praticantes são escassos: entre   2 e  5% dos ortodoxos vão à Igreja, inclusive na Páscoa).

As 15 igrejas assistentes:

- Constantinopla
- Alexandria (ortodoxos do Egito e da África, não são coptos)
- Antioquia (ortodoxos sírios)
- Jerusalém
- Geórgia
- Sérvia
- Albânia
- Romênia
- Bulgária
- Chipre
- Polônia
- Tcheca
- Eslováquia
- Grécia
- Rússia
- Igreja Ortodoxa Russa na América

Mesmo participando os Patriarcas da Rússia, Geórgia, Romênia e outros países, o Patriarca ecumênico Bartolomeu I de Constantinopla enviou só  um delegado de posição  menor.

As Igrejas ortodoxas ali reunidas decidiram emitir uma declaração alertando sobre a ameaça de desaparição dos cristãos na Síria por causa da guerra civil, sob a qual se solapa uma perseguição direta e violenta contra a minoria cristã.



Toda  Síria afeta todo Oriente
"Não devemos permitir a desolação do Oriente Médio do  ponto de vista da presença da cristandade. Isso seria uma catástrofe da civilização. Nossas origens estão ali, dali provém nossa fé", avisou o Patriarca Kiril de Moscou.

O patriarca russo recordou que no passado já houve outros casos em  que os cristãos ortodoxos foram expulsos dessa região de maioria muçulmana. E advertiu que o que ocorrer com a comunidade cristã na Síria influirá na sorte dos cristãos em todo Oriente Médio.

Rússia, exemplo de paz inter-religiosa
Putin falou como um estadista com visão global tentando despertar a comunidade internacional. Recordou que se violam os direitos das minorias religiosas em todo o mundo, especialmente os dos cristãos, e que a humanidade "deve tomar medidas para freá-lo". Mencionou "especialmente o Oriente Médio e a África do Norte".

E postulou o exemplo da Rússia como país de grande tamanho, com grande diversidade religiosa, abundância de população muçulmana e "enorme experiência em chegar a um acordo e uma paz inter-confessional", experiência que a Rússia está disposta a compartilhar.

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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A fraternidade dos "poucos": Cardeal Ratzinger

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A fraternidade dos "poucos": Cardeal Ratzinger


Nestor Mora Nunez-21 novembro 2013-religionenlibertad.com

Os limites que existem na fraternidade cristã não têm por objeto a criação de um círculo esotérico com fins próprios, mas favorecer o serviço a todos. A fraternidade cristã não está   contra a maioria, mas a seu favor. A fraternidade cristã cumpre  seu dever com a maioria, sobretudo através da missão, do ágape e do sofrimento.
Os discípulos de Jesus são poucos. Porém como Jesus sendo “um” se entregou a favor de  muitos, assim é também o encargo, dos discípulos, que têm como missão se oferecer  por “muitos”; não estar  contra eles, mas a favor deles.

Só  na relação entendida desta forma entre os ”poucos” e os “muitos” se manifesta em sua autêntica dimensão a catolicidade da Igreja. Seu número total nunca lhe fará completamente “Católica”, ou seja, universal; ao contrário, há de ser sempre um pequeno rebanho, menor do que aparenta  as estatísticas; que não fazem senão confundir, pois chamam irmãos a muitos que realmente são cristãos de nome e aparência. (Cardeal Joseph Ratzinger. A Fraternidade dos cristãos. Cap 6)

É necessário que se conscientize que de  fora da Igreja  nos veem como uma série de grupos humanos sempre em luta por seus interesses particulares. De dentro, tampouco é estranho que demos esta aparência, porque como seres humanos, nossos egoísmos e medos nos impulsionam a buscar nosso benefício. Onde está realmente a fraternidade cristã?

O Cardeal Ratzinger (Papa emérito Bento XVI) assinala vários aspectos interessantes:

A fraternidade sempre parte de uns poucos que se oferecem pelos demais.
Estes “poucos” buscam o bem de “muitos” mesmo parecendo aos muitos  que estão  contra eles.
Os três aspectos que assinalam a fraternidade são: missão, ágape e sofrimento.


Bem dizia o Cardeal Ratzinger: as estatísticas nos enganam com facilidade. Não podemos dizer que todos os batizados sejam realmente cristãos ou católicos. Não podemos dizer que todos os assistentes das missas, se sentem realmente Igreja. Não podemos pensar que as cifras substituem a santidade.

Com esta visão, as palavras de Cristo “Muitos são os chamados e poucos os escolhidos” (Mt 22, 14) cobram um novo sentido,   porque os “poucos” são necessários para que a fraternidade se constitua e os “muitos” possam se aproximar  dela e se “contagiar” de Cristo. Às vezes pensamos que a evangelização busca converter  muitos e nos decepcionamos quando vemos que são alguns poucos os que acodem à chamada.

Neste sentido creio que é interessante perguntar-nos que sentido tem a liderança dentro das comunidades cristãs.  É necessário que existam líderes? Talvez necessitemos só da liderança de Cristo e a capacidade de serviço de todos os demais.

Porém  Cristo é realmente nosso líder? Talvez não passe de ser uma referência próxima. Queremos ser nós os líderes? Queremos ser os primeiros?

“Se alguém deseja ser o primeiro, será o último de todos e o servidor de todos” (Mc 9, 35)

Também é interessante que o futuro Papa Bento, assinale o sofrimento como elemento que dá sentido a uma fraternidade. Hoje em dia rechaçamos o sofrimento em todos seus aspectos. Preferimos tomar calmantes antes de buscar sentido aos nossos sofrimentos. Sofrer é humano e nos faz humanos. Se não sofremos Somos realmente humanos?

Talvez, uma das maiores barreiras à evangelização contemporânea seja este rechaço frontal ao sofrimento. Cristo sofreu por nós até sua morte Pode ser Cristo um modelo para o ser humano que rechaça o sofrimento como parte de sua própria existência?

Nestor Mora Nunez, é autor, editor e responsável pelo Blog 'La divina proporción', alojado no espaço da web de www.religionenlibertad.com

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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Estando uma vez em oração, era tanto o deleite que em mim senti que, como indigna de tal bem, comecei a pensar que muito mais merecia estar naquele lugar que eu tinha visto preparado no inferno para mim, pois, como tenho dito, nunca esqueço o modo como ali me vi.

  LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA

  

 CAPÍTULO 40. Prossegue na mesma matéria dizendo as
grandes graças que o Senhor lhe fez. De algumas delas se
pode tirar muito boa doutrina. Conforme tem dito, a sua
principal tentativa, depois de obedecer, tem sido de escrever as
graças que são para proveito das almas. Com este capítulo
acaba a narração que escreveu da sua vida. Seja para glória
do Senhor.

1. Estando uma vez em oração, era tanto o deleite que em mim senti
que, como indigna de tal bem, comecei a pensar que muito mais
merecia estar naquele lugar que eu tinha visto preparado no inferno
para mim, pois, como tenho dito, nunca esqueço o modo como ali
me vi.

Com esta consideração, começou a inflamar-se mais a minha alma e
veio-me um arrebatamento. de espírito, de modo que o não sei dizer.
Pareceu-me que o meu espírito estava metido e cheio daquela
Majestade que tenho entendido de outras vezes. Nesta Majestade
deu-se-me a entender uma verdade que é complemento de todas as
verdades; mas não sei dizer como, porque nada vi?

Disseram-me, sem ver quem tinha sido, mas bem entendi ser a
mesma Verdade: Não é pouco isto que faço por ti; é uma das coisas
em que muito me deves; porque todo o dano que vem ao mundo é
de não se conhecerem as verdades da Escritura com clara verdade,
da qual não ficará um til por cumprir.

Pareceu-me, a mim, que nisto sempre eu tinha acreditado e que
todos os fiéis o creem. Disse-me porém: Ai, filha, quão poucos me
amam com verdade. Se Me amassem, não lhes encobriria eu meus
segredos. Sabes o que é amar-Me com verdade? É compreender
que. tudo quanto Me não é agradável a Mim é mentira, Com clareza
verás isto que agora não entendes, pelo fruto que sentires em tua
alma.

2. E assim o tenho visto, seja o Senhor louvado, que então para cá,
parece-me tanta vaidade e mentira tudo o que eu vejo que não vai
dirigido ao serviço de Deus, que eu não saberia dizer até que ponto
o entendo, e a lástima que me fazem os que vejo em trevas a
respeito desta verdade.

Com isto vieram-me outros lucros que agora
direi, ainda que muitos não saberei dizer. Disse-me aqui o Senhor
uma particular palavra de grandíssimo favor.' Eu não sei como isto
foi, porque nada vi; mas fiquei de sorte que tão pouco sei dizer, com
uma grandíssima fortaleza, e isto muito deveras, para cumprir com
todas as minhas forças a mais pequena parcela da Escritura divina.
Parece-me que nenhuma coisa se me poria diante que eu não
padecesse por isto.

3. Desta divina Verdade .que se me representou, sem saber como
nem quê, ficou-me impressa uma verdade que me faz ter um novo
acatamento a Deus, porque dá um conhecimento de Sua Majestade e
do Seu poder e isto de uma maneira que não se pode dizer. Sei
somente entender que é grande coisa um tal dom.

Ficou-me uma grandíssima vontade de não falar senão em coisas
muito verdadeiras que estejam acima do trato que se usa aqui no
mundo; e assim comecei a ter pena de viver nele. Deixou-me esta
mercê com grande ternura, deleite e humildade. Parece-me, sem
entender como, que o Senhor me deu aqui muito. Não me ficou
suspeita alguma de que fosse ilusão.

Nada vi, mas compreendi o grande bem que há em não fazer caso de
coisa que não seja para nos achegarmos mais a Deus, e assim
entendi o que é andar uma alma na verdade diante da mesma
Verdade. Isto, que entendi, é dar-me o Senhor a entender que Ele é a
mesma Verdade.

4. Compreendi tudo isto que tenho dito, falando-me Ele algumas
vezes, e outras sem me falar, deram-se-me a entender algumas com
mais claridade do que as que se me diziam por palavras. Aprendi
grandíssimas verdades sobre esta Verdade, até mais do que se
muitos letrados mo tivessem ensinado. Parece-me que de nenhum
modo eles mo poderiam imprimir assim no espírito, nem tão
claramente se me daria a entender a vaidade deste mundo.

Esta Verdade, que digo se me deu a entender, é em si mesma
verdade e não tem princípio nem fim, e todas as demais verdades
dependem desta Verdade, como todos os demais amores deste
Amor e todas as demais grandezas desta Grandeza. Isto vai, no
entanto, obscuro em comparação da claridade com que o Senhor
quis que se me desse a entender. E como resplandece o poder desta
Majestade, pois em tão breve tempo deixa tão grande lucro e tais
coisas impressas na alma!
Oh! Grandeza e Majestade minha! Que fazeis, Senhor meu Todo poderoso?

Vede a quem fazeis tão soberanas graças! Não Vos
recordais que esta alma foi um abismo de mentiras e um mar de
vaidades, e tudo por minha culpa; e apesar de me terdes dado por
natureza de aborrecer o mentir, eu mesma me forcei a tratar em
muitas coisas com mentira? Como se sofre, Deus meu, como se
compadece tão grande favor e graça com quem tão mal vo-Lo tem
merecido?

5. Estando uma vez nas Horas com todas as irmãs, de repente se
recolheu minha alma, e pareceu-me ser toda ela como um claro
espelho. Não havia costas, nem lados, nem alto, nem baixo que não
fosse tudo claridade; e no centro dela se me representou Cristo
Nosso Senhor, como O costumo ver. Parecia-me que em todas as
partes da minha alma O via tão clara- mente como num espelho, e
esse espelho - não sei dizer como - também se esculpia todo no
mesmo Senhor por uma comunicação muito amorosa que eu não
saberei explicar.

Sei que esta visão me serve de grande proveito de cada vez que dela
me recordo, em especial quando acabo de comungar: Deu-se-me a
entender que, estar uma alma em pecado mortal, é cobrir-se este
espelho de densa névoa e ficar muito negro, e assim nele não se
pode refletir, nem ver este Senhor, embora esteja sempre presente
dando-nos o ser.

Com os hereges é como se o espelho, estivesse
quebrado, o que é muito pior que obscurecido. É muito diferente, o
como se vê, do como se diz, porque mal se pode dar a entender. Mas
tem-me feito muito proveito e grande pesar das vezes que, com
minhas culpas, obscureci a minha alma de modo, a não ver este
Senhor.

6. Parece-me proveitosa esta visão às pessoas que, se dão ao
recolhimento, para as ensinar a considerar o Senhor no mais íntimo
da sua alma. Esta consideração prende mais e é muito mais frutuosa
do que considera-'O fora de si, como de outras vezes tenho dito.

Nalguns livros de oração está escrito que é onde se há de buscar a
Deus; em especial o diz o glorioso Santo Agostinho, que nem nas
praças nem nos conventos, nem em parte alguma onde O buscava,
O encontrava, como dentro de si. E isto é claramente o melhor, pois
não é necessário ir ao Céu, nem procurar mais longe nem fora de
nós mesmos; porque é cansar o espírito e distrair a alma, e não com
tanto fruto.

7. Uma coisa quero advertir aqui, para se alguém a tiver, que
acontece nos grandes arroubamentos.. Passado aquele momento
em que a alma está em união (que tem as potências totalmente
absortas, e isto dura pouco como tenho dito), acontece ficar a alma
recolhida e até sem poder voltar a si no exterior, mas as duas
potências, memória e entendimento, ficam quase com frenesi,
muito desatinadas. Isto, digo, acontece algumas vezes,
especialmente nos princípios. Penso que isto procede de não poder
sofrer a nossa fraqueza natural tanta força de espírito e enfraquece a
imaginação.

Sei que isto sucede a algumas pessoas. Parecer-me-ia
bom que se esforçassem a deixar, por então, a oração e a tivessem
em outra altura, recuperando assim aquele tempo de oração que
perdem, mas que não seja por junto, porque daí poderá advir muito
mal. Disto há experiência e de quão acertado é olhar ao que pode a
nossa saúde.

8. Em tudo é preciso experiência e mestre porque, chegada a alma a
estes termos, oferecer-se-ão muitas coisas em que é preciso ter com
quem o tratar. E, se buscando mestre não o achar, o Senhor não lhe
faltará, pois não me faltou a mim sendo eu a que sou. Porque creio
haver poucos que tenham chegado a ter experiência de tantas
coisas; e se não a têm, debalde dão remédio à alma sem a inquietar
e afligir.

Mas isto também tomará o Senhor em conta, e assim o
melhor é tratá-lo (como já tenho dito de outras vezes, e, até mesmo
tudo quanto agora digo, que não me lembro bem se já o disse
porquanto, vejo que importa muito), em especial se são mulheres
que tratem estas coisas com o confessor. E há muitas mais
mulheres de que homens a quem o Senhor faz estas mercês, e isto
ouvi ao santo Frei Pedro de Alcântara (e também o tenho visto eu)
que dizia que, neste caminho, aproveitavam elas muito mais que os
homens, e dava disto excelentes razões, que não há para que dizê-las
aqui, todas em favor das mulheres.

9. Estando uma vez em oração, representou-se-me muito
brevemente (sem ver coisa alguma formada, mas foi representação
feita com toda a clareza) como se vêem em Deus todas as coisas e
como Ele as contém todas em Si. Saber escrever como isto foi, eu
não sei, mas ficou muito impresso na minha alma, e é uma das
grandes graças que o Senhor me tem feito e das que mais me
fizeram confundir e envergonhar, recordando-me os pecados que
cometi.

Creio que, se o Senhor fosse servido de que eu visse isto noutros
tempos, e que o vissem os que O ofendem, não teriam coração nem
atrevimento para o fazer. Pareceu-me [ter, visto o que, segue] sem
eu poder, no entanto, afirmar que vi alguma coisa; digo-o desde já.

Qualquer coisa sé deve ver porém, pois eu poderei dar esta
comparação; mas é por modo tão sutil e delicado, que o
entendimento não o deve alcançar, ou será que eu não me sei
entender nestas visões, que não parecem imaginárias, e em
algumas, alguma coisa de imagem deve haver. Mas, como é estando
a alma em arroubamento, as potências não o sabem depois
reproduzir como ali: o Senhor lho representa e quer que o gozem.

10. Digamos, pois, que a Divindade é como um muito claro diamante,
muito maior que todo o mundo, ou como um espelho - conforme
disse da alma na outra visão, à exceção de ser por um modo tão
sublime; que eu não o saberei encarecer - e que tudo o que fazemos
se vê neste diamante, sendo ele de maneira que encerra tudo em si,
porque não há nada que saia fora desta grandeza. Coisa espantosa
foi para mim ver, em tão breve espaço, tantas coisas juntas neste
claro diamante, e lastimosíssima coisa é, cada vez que me recordo,
ver que coisas tão feias; como eram meus pecados, se refletiam
naquela límpida claridade.

E assim é que, quando me recordo, não
sei como o posso suportar, e fiquei então tão envergonhada que me
parece não sabia onde me meter.

Oh! quem pudesse dar isto a entender aos que muito desonestos è
feios pecados fazem, para que se lembrem que não são ocultos e
que, com razão, os sente Deus, e pois tão em presença de Sua
Majestade eles se fazem, e tão desacatadamente nos  vemos
diante d'Ele!

Vi com quanta razão se merece o inferno por um só pecado mortal;
porque não se pode entender quão gravíssima coisa é cometê-lo
diante de tão grande Majestade, e como são alheias, a quem Ele é,
coisas semelhantes. E assim se vê mais a Sua misericórdia, pois
conhecendo nós tudo isto, Ele nos sofre.

11. Isto tem-me feito considerar que, se uma visão como esta assim
deixa espantada a alma, o que será o dia do juízo, quando esta
Majestade claramente se nos mostrar e virmos as ofensas que Lhe
temos feito? Oh! Valha-me Deus, que cegueira, esta que eu .tenho
trazido! Muitas vezes me tenho espantado disto que tenho escrito, e
não se espante V Mercê, senão de como ainda vivo vendo estas
coisas e vendo-me a mim. Seja bendito para sempre Quem tanto me
tem sofrido.

12. Estando uma vez em oração com muito recolhimento, suavidade
e quietude, parecia-me estar rodeada de anjos e muito perto de
Deus. Comecei a suplicar a Sua Majestade pela Igreja. Deu-me a
entender o grande proveito que, nos últimos tempos, há de fazer
uma Ordem e a fortaleza com que seus filhos hão de sustentar a Fé.

13. Estando uma vez rezando perto do Santíssimo Sacramento,
apareceu-me um Santo cuja Ordem tem estado um tanto decaída:
Tinha nas mãos um grande livro, abriu-o e disse-me que lesse umas
letras, que eram grandes e muito legíveis e diziam assim: Nos
tempos vindouros florescerá esta Ordem; haverá muitos mártires.

14. Outra vez, estando no Coro em Matinas, representaram-me e
se puseram diante dos olhos seis ou sete religiosos que me parece
seriam desta mesma Ordem; com espadas na mão. Penso que nisto
se dá a entender que hão-de defender a Fé; porque, de outra vez,
estando em oração,  me arrebatou o espírito e pareceu-me estar
num grande campo onde muitos combatiam, e estes, os desta
Ordem, pelejavam com grande fervor. Tinham os rostos formosos e
abrasados e deitavam muitos por terra, vencidos, e a outros
matavam. Parecia-me que esta batalha era contra os hereges.

15. A este glorioso Santo tenho visto algumas vezes, e tem-me dito
algumas coisas, e agradecido a oração que faço pela sua Ordem e
prometido de me encomendar ao Senhor. Não declaro as Ordens,
para que não se agravem outras; se o Senhor for servido que se
saiba, Ele o declarará. Mas cada Ordem, ou cada membro de per si,
havia de procurar que, por seu meio fizesse o Senhor tão ditosa a
sua Ordem que, em tão grande necessidade, como agora tem a
Igreja, a servissem. Ditosas vidas que nisto se acabarem!

16. Pediu-me, uma vez, uma pessoa, que suplicasse eu a Deus lhe
desse a entender se seria do Seu serviço aceitar um bispado. Disse-me
o Senhor, acabando eu de comungar: Quando entender com toda
a verdade e clareza que o verdadeiro senhorio é não possuir coisa
alguma, então o poderá aceitar, dando a entender que, quem tiver de
ter prelazias, há-de estar muito longe de as desejar e querer, ou, pelo
menos, não as há de procurar.

17. Estas graças e outras muitas tem feito o Senhor e faz
sempre a esta pecadora que, parece-me, não há necessidade de as
dizer, pois pelo já dito se pode conhecer minha alma e o espírito que
o Senhor me tem dado. Seja bendito para sempre, que tanto cuidado
tem tido de mim!

18. Disse-me Ele uma vez, consolando-me com muito amor, que não
me afligisse, pois nesta vida não podíamos estar sempre num
mesmo estado. Umas vezes teria fervor e outras vezes estaria sem
ele; umas com desassossego e outras com quietude e tentações,
mas que esperasse n'Ele e não temesse.

19. Estava eu um dia pensando se seria apego o gostar de estar com
as pessoas com quem trato da minha alma e ter-lhes amor, e aos
que vejo muito servos de Deus, pois me consolava com eles. Disse-me
o Senhor que, se a um enfermo, que está em perigo de morte,
julga que lhe dá saúde um médico, não é virtude deixar de lhe
agradecer e de não lhe ter amizade. Que teria eu feito se não fosse
pela ajuda destas pessoas? A conversação dos bons não danifica,
mas que as minhas palavras fossem sempre pesadas e santas, e não
deixasse de tratar com eles, pois antes me seria de proveito que
dano.

Consolou-me isto muito, porque algumas vezes parecendo-me
apego, quereria não os tratar de todo. Sempre, em todas as coisas,
me aconselhava este Senhor, até dizer-me como me havia de haver
com os fracos e com algumas pessoas. Jamais se descuida de mim.

20. Algumas vezes estou aflita de me ver de tão pouco préstimo em
Seu serviço e de ver que, por força, hei de ocupar mais tempo do
que queria, com corpo tão fraco e ruim como é o meu. Estava eu
uma vez em oração e chegou a hora de ir dormir. Estava com muitas
dores, esperava pelo vômito do costume. Como me vi tão atada por
mim mesma e o espírito, por outra parte, querendo tempo para si, vi-me
tão atribulada, que comecei a chorar muito e a afligir-me.

Isto não foi só uma vez, mas muitas - como digo - que me dava, me
parece, uma tal zanga contra mim mesma, que então me aborreço
em forma. Mas o normal é entender de mim que não tenho
aborrecimento nem falto ao que vejo me é necessário. E praza ao
Senhor que não tome muito mais do que é preciso, que é o que eu
farei.

Desta vez que digo, estando nesta pena, me apareceu o Senhor e me
consolou muito e me disse que fizesse eu estas coisas por amor
d'Ele e passasse por elas, pois a minha vida era agora necessária. E
assim me parece que nunca me vi em pena, depois que estou
determinada a servir com todas as minhas forças a este Senhor e
Consolador meu, que, embora me deixasse padecer um pouco, não
me consolasse, de maneira que não faço nada em desejar trabalhos.

E assim, agora me parece que não tenho razão para viver senão para
isto. E é o que de melhor vontade peço a Deus, e digo-Lhe, algumas
vezes, com toda ela: Senhor, ou morrer ou padecer; não Vos peço
outra coisa para mim. Dá-me consolo ouvir o relógio, porque me
parece que isso me aproxima um pouquinho mais de ver a Deus, pois
vejo já passada aquela hora da vida.

21. Outras vezes estou de modo que nem me sinto viver, nem me
parece ter vontade de morrer. Mas estou com uma tibieza e
escuridão em tudo, como disse, que tenho muitas vezes, por causa
de grandes trabalhos. E tendo o Senhor querido que se saibam em
público estas graças que Sua Majestade me faz, como me disse há
alguns anos, que haviam de ser, isto me afligiu muito e até agora
não tenho padecido pouco, como V. Mercê sabe, porque cada um o
toma como lhe parece.

Consolação me tem sido, todavia, o não ser
por minha culpa; porque, em não o dizer senão a meus confessores
ou a pessoas que eu sabia por eles que o sabiam, tenho tido grande
e extremo cuidado. Não por humildade; senão porque, como tenho
dito, até aos mesmos confessores me dava pesar dizê-lo.

Agora, graças a Deus, embora muito de mim murmurem com bom
zelo, outros temam tratar comigo, mesmo confessar-me, e outros me
digam muitas coisas, como vejo que por este meio quis o Senhor
dar remédio a muitas almas (porque isto tenho eu visto claramente,
e me recordo do muito que por uma só passaria o Senhor) muito
pouco se me dá de tudo dó que de mim dizem.

Não sei se para isto contribuiu o ter-me Sua Majestade metido neste
rincãozinho tão encerrado e onde já pensei que, como de coisa morta,
não haveria mais memória de mim. Mas não tem sido tanto como eu
quisera; pois forçoso é ter de falar com algumas pessoas; porém,
como estou onde me não vêem, parece que foi o Senhor servido de
me trazer a um porto, que espero em Sua Majestade, será seguro.

22 . Por estar já fora do mundo, e entre pouca e santa companhia
olho como de alto e já bem pouco se me dá do que,digam ou se
saiba. Em mais teria eu, se uma alma aproveitasse um pouquinho, do
que tudo quanto de mim se possa dizer. Depois que estou aqui, tem
o Senhor sido servido que todos os meus desejos parem nisto. E
tem-me dado como que uma espécie de sono na vida, que quase
sempre me parece que estou sonhando o que vejo. Nem
contentamento, nem pena, que seja muita, vejo em mim. Se algumas
coisas me dão alguma pena, passa com tanta brevidade que, eu me
maravilho e o sentimento que deixa é como uma coisa que se
sonhou.

E isto é pura verdade, porque, embora eu depois me queira alegrar
com aquele contento, ou ter pesar daquela pena, não está na minha
mão; assim como não estaria na de uma pessoa discreta o ter pesar
ou glória dum sonho que sonhou. É que o Senhor já despertou a
minha alma daquilo que, por eu não estar mortificada e morta às
coisas do mundo, me tinha feito sentimento, e Sua Majestade não
quer que ela se torne a cegar.

23. Desta maneira vivo agora, Senhor e Pai meu. Suplique V.
Mercê a Deus que me leve para Si ou me dê em que O sirva. Praza à
Sua Majestade que isto que aqui vai escrito faça algum proveito a V.
Mercê, pois, pelo pouco tempo que tenho, foi feito com trabalho.
Mas ditoso trabalho, se acertei a dizer alguma coisa pela qual uma
vez se louve o Senhor; que com isto me daria por paga, embora V.
Mercê logo o queime.

24. Não quereria, no entanto, que o fizesse sem que isto vissem as
três pessoas que V. Mercê sabe, pois são e têm sido confessores
meus. E se isto vai mal, é bem que percam a boa opinião que têm de
mim. Se vai bem, são bons e letrados; sei que verão de onde me vem
è louvarão a Quem por mim o disse.

Sua Majestade tenha sempre a V. Mercê de Sua mão e o faça um tão
grande santo que, com sua luz e espírito, alumie esta miserável,
pouco humilde e muito atrevida, que ousou determinar-se a escrever
coisas tão subidas. Praza ao Senhor não tenha eu nisto errado,
tendo intenção e desejo de acertar e obedecer e que, por meu
intermédio, se louvasse em alguma coisa ao Senhor, que é o que há
muitos anos Lhe suplico. E, como me faltam para isto as obras,
atrevi-me a pôr aqui por ordem esta minha desbaratada vida, embora
não tenha empregado nisto mais cuidado, nem mais tempo do que
tem sido preciso para escrevê-la, pondo apenas o que por mim tem
passado com toda a lisura é verdade que tenho podido.

Praza ao Senhor, pois é poderoso e, se quer, pode, querer que em
tudo eu acerte a fazer a Sua vontade, e não permita Sua Majestade
se perca esta alma que, com tantos artifícios e maneiras, e tantas
vezes, tem tirado do inferno e trazido a Si. Amém.


sábado, 9 de novembro de 2013

Ele apareceu-me como de outras vezes e começou a mostrar-me a chaga da mão esquerda, e com a outra arrancava um grande cravo que nela tinha metido. Parecia-me que, ao arrancá-lo, arrancava a carne.


LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA

   

CAPÍTULO 39. Prossegue na mesma matéria das grandes
graças que lhe tem feito o Senhor e como lhe prometeu
favorecer as pessoas por quem ela lhe pedisse. Diz algumas
coisas assinalados nas quais Sua Majestade lhe tem feito este
favor.

1. Estando uma vez importunando muito ao Senhor para que desse
vista, a uma pessoa que a tinha quase de todo perdida, e a quem eu
devia, obrigações e por ela sentia grande dó, temia que, por meus
pecados, o Senhor não me ouvisse. Ele apareceu-me como de
outras vezes e começou a mostrar-me a chaga da mão esquerda, e
com a outra arrancava um grande cravo que nela tinha metido.
Parecia-me que, ao arranca-lo, arrancava a carne. Via-se bem a
grande dor que muito me condoía, e disse-me, que não duvidasse de
que, quem aquilo havia passado por mim, melhor faria o que eu Lhe
pedisse. Já sabia que nada Lhe pediria, senão o que fosse conforme
à Sua glória, e assim faria isto que agora pedia. Advertisse a que,
mesmo quando não O servia, hão Lhe pedira coisa que Ele não ma
tivesse feito melhor de que eu a soubera pedir. Quanto mais o faria
então agora que sabia que O amava. Não duvidasse disto.
Não creio passassem oito dial que o Senhor não voltasse a dar vista
àquela pessoa. Isto soube-o logo o meu confessor. Bem pode ser
que não fosse por minha oração, mas, como eu tinha tido esta visão,
ficou-me uma, certeza de que era por mercê feita a mim; dei graças a
Sua Majestade.

2. Outra vez estava uma pessoa muito mal de uma enfermidade
muito penosa que, por não saber de que natureza, não a nomeio
aqui. Era coisa incomportável o que padecia, havia já dois meses.
Estava num tormento que se despedaçava. Foi vê-Ia o meu
confessor, que era o Reitor de quem tenho falado, e causou-lhe
grande lástima e disse-me que de todo o modo a fosse ver, pois era
pessoa a quem o podia fazer, por ser meu parente. Fui e comovi-me
a ponto de ter tanta compaixão dele, que comecei a pedir
importunamente a sua saúde ao Senhor. Nisto vi claramente, sem
me ficar qualquer dúvida, a mercê que me fez; porque logo, no outro
dia, estava de todo bom daquela dor.

3. Estava, uma vez, com grandíssimo pesar, porque sabia que uma
pessoa, a quem eu devia muitas obrigações, queria fazer uma coisa
muito contra Deus e a sua própria honra, e estava já muito
determinada a isso. Era tanta a minha aflição que não sabia que
fazer; remédio para que desistisse, parecia já não haver. Supliquei a
Deus, muito do coração, que lho desse, mas, enquanto o não via,
não se podia aliviar a minha pena.

Fui-me, nesta aflição, a uma ermida bem apartada, que as há neste
mosteiro, e estando eu numa onde está Cristo atado à coluna,
suplicando-Lhe que me fizesse esta mercê, ouvi que me falava uma
voz muito suave, como envolta num silvo. Eu arrepiei-crie toda, pois
me causou temor. Quisera eu entender o que me dizia, mas não
pude.

Passou muito rapidamente. Passado o meu temor, que foi
breve, fiquei com um sossego e gozo e deleite interior, que me
espantei, pois, só o ouvir uma voz (que isto ouvi-o e com os ouvidos
corporais, e sem entender palavra) produzisse tanto na alma. Por
isto, vi que se havia de fazer o que pedia, e assim foi que se me tirou
de todo a pena em coisa que ainda não era, tal como se já o visse
feito, como foi depois. Disse-o a meus confessores, que tinha então
dois, bem letrados e servos de Deus.

4. Sabia que uma pessoa que se determinara a servir muito deveras
a Deus e tido alguns dias oração, na qual Sua Majestade lhe fazia
muitas mercês, a tinha deixado por certas ocasiões bem perigosas
que teve, e das quais ainda não se apartara. A mim deu-me isto
grandíssima pena, por ser pessoa a quem eu queria e devia muito.
Creio que foi mais de um mês que eu não fazia senão suplicar a
Deus que tornasse esta alma para Si.

Estando um dia em oração, vi um demónio ao pé de mim que, com
muita raiva, fez em pedaços uns papéis que tinha na mão. A mim
deu-me, isto um grande consolo, pois me pareceu que se havia feito
o que eu pedia; assim foi, pois soube mais tarde que tinha feito uma
confissão com grande contrição e voltou tão deveras para Deus que,
espero em Sua Majestade, há-de ir sempre muito adiante. Seja
bendito por tudo. Amen.

5. Isto, de Nosso Senhor tirar almas de pecados graves por eu Lho
suplicar, e trazer outras a mais perfeição, acontece muitas vezes.
Quanto a tirar almas do Purgatório e outras coisas assinaladas, são
tantas as mercês que o Senhor me tem feito, e muitas mais a favor
da, saúde das almas que dos corpos que seria cansar-me e cansar a
quem as lesse, se as houvesse de dizer todas. Isto tem sido coisa
muito conhecida e há bastantes testemunhas. Logo, dava-me muito
escrúpulo, porque não podia deixar de crer que o Senhor o fazia por
minha oração -deixemos o principal de ser só por Sua bondade -
mas são já tantas as coisas e tão vistas por outras pessoas, que não
me dá pena crê-lo e louvo a Sua Majestade. Fico porém confusa,
porque vejo que sou mais devedora, e faz-me - a meu parecer -,
crescer o desejo de O servir e aviva-se o amor. E o que mais me
espanta é que, quando o Senhor vê que as coisas não convêm, eu
não posso, embora queira, suplicar-Lhas, senão com tão pouca
força, espírito e cuidado que, por mais que eu me queira esforçar, éme
impossível fazê-lo como em outras coisas que Sua Majestade háde
fazer, que então vejo que Lhas posso pedir muitas vezes e com
grande importunação; embora eu não traga este cuidado, parece que
mas fazem ter presentes diante de mim.

6. É grande a diferença entre estas duas maneiras de pedir. Não sei
como o declarar; porque umas coisas, embora peça (pois não deixo
de esforçar-me no suplicá-las ao Senhor, ainda que não sinta em
mim aquele fervor como em outras, e por muito que me digam
respeito), é como quem tem travada a língua que, embora queira
falar, não pode e, mesmo que fale, é de modo que vê que não o
entendem; ou como quem fala claro e desembaraçadamente a quem
vê que de boa vontade o está ouvindo O primeiro, digamos agora,
pede-se como em oração vocal; e o outro em contemplação tão
subida, que o Senhor se representa de maneira que se entende que
Ele nos entende, e que Sua Majestade Se alegra de que Lho
peçamos e de nos fazer mercê.

Seja bendito para sempre, que tanto dá e tão pouco Lhe dou eu.
Porque, que faz, Senhor meu, quem de todo se não desfaz por Vós?
E quanto, quanto, quanto - e outras mil vezes o posso dizer -, me
falta para isto! Por isso não havia de querer viver, ainda que haja
outras causas, porque não vivo conforme ao que Vos devo. Com
quantas imperfeições me vejo! Com que frouxidão em servir-Vos! É
certo que, algumas vezes, me parece quereria estar sem sentir, para
não entender tanto mal de mim. Ele, que pode, que o remedeie!

7. Estando eu em casa daquela Senhora que já disse, tinha
necessidade de andar com cuidado a considerar sempre a vaidade
que trazem consigo todas as coisas da vida, porque era muito
estimada e muito louvada e ofereciam-se-me assim muitas coisas a
que bem me poderia apegar, se olhasse a mim mesma; mas olhava
Aquele que possui a verdadeira visão de tudo, a fim de não me
deixar de Sua mão...

8. Agora que falo de "verdadeira visão", lembro-me dos grandes
trabalhos que passam (as pessoas a quem Deus tem dado a
conhecer o que é a verdade), em tratar nestas coisas da terra, onde
ela tanto se encobre, como o Senhor me disse uma vez. Que muitas
coisas das que escrevo aqui não são de minha cabeça, senão que
mas dizia este meu Mestre celestial. E assim, nas coisas em que
digo assinaladamente: «isto entendi», ou «isto me disse o Senhor»,
faz-me grande escrúpulo pôr ou tirar uma só sílaba que seja.

Quando de tudo não me recordo bem exactamente, vai como coisa
dita por mim, ou porque também algumas o serão. Não chamo meu
ao que é bom, pois já sei não há coisa em mim que o seja, senão o
que, tão sem eu o merecer, metem dado o Senhor; assim chamo
«dito por mim», o que não me foi dado a entender em revelação.

9. Mas, ai, Deus meu! e como até nas coisas espirituais queremos
muitas vezes julgar as coisas pelo nosso parecer e muito torcidas da
verdade, tal como nas do mundo! E julgamos que havemos de medir
o nosso aproveitamento pelos anos que temos de algum exercício
de oração e até parece que queremos pôr limite Aquele que, sem
medida alguma, dá os Seus dons quando quer, e pode dar em meio
ano mais a uma alma do que a outra em muitos! E isto é coisa tão
vista por mim em muitas pessoas, que eu me espanto como nos
podemos deter nisto.

10. Creio bem que não cairá neste engano quem tiver talento de
conhecer espíritos e lhe tenha dado o Senhor humildade verdadeira.
Este julga pelos efeitos e determinação e amor, e dá-lhe o Senhor luz
para que isto conheça.

E nisto olha ao adiantamento e
aproveitamento das almas, e não aos anos, pois, em meio ano, pode:
um ter alcançado mais de que outro em vinte; porque, como digo, dá
o Senhor a quem quer e ainda a quem melhor se dispõe. Porque vejo
agora vir para esta casa umas donzelas que são de pouca idade e,
em tocando-as Deus e dando-lhes um pouco de luz e amor - digo
naquele pouco de tempo em que lhes fez algum regalo - não O
fizeram esperar, nada se lhes pôs diante, pois, sem se lembrarem do
comer, se encerram para sempre em casa sem renda, como quem
não estima a vida senão por Aquele que sabem que lhes tem amor.

Deixando tudo, não querem ter vontade, nem se lembram do que se
podem desgostar em tanto encerramento e austeridade. Todas
juntas se oferecem a Deus em sacrifício.

11. Quão de boa vontade lhes dou eu aqui a vantagem e devia andar
envergonhada diante de Deus! Porque o que Sua Majestade não
acabou de conseguir de mim em tanta multidão de anos como os
que há desde que comecei a ter oração e Ele a fazer-me mercês,
consegue delas em três meses - e até com alguma em três dias -,
com fazer-lhes muitas: menos de que a mim, embora bem lhes
pague Sua Majestade. Bem certo é, porém, que não estão
descontentes pelo que têm feito por Ele.

12. Para isto quereria eu que nos recordássemos dos muitos anos,
os que os temos de profissão e as pessoas que os têm de oração, e
não para afligir aos que, em pouco tempo, vão mais adiante, fazendoos
voltar atrás, para que andem a nosso passo; e, aos que voam
como águias, com as mercês que Deus lhes faz, queremo-los fazer
andar como frangofrango, travado, mas ponhamos os olhos em Sua
Majestade, e se os virmos com humildade, é largar-lhes as rédeas,
que o Senhor, que lhes faz tantas mercês, não deixará que se
despenhem.

Eles entregam-se confiadamente a Deus, pois para isto
lhes aproveitam as verdades que conhecem da fé; e não os havemos
nós de fiar a Ele, senão que os queremos medir pela nossa medida,
conforme aos nossos baixos ânimos? Não assim; mas, se não
alcançamos seus grandes efeitos e determinações, que sem
experiência mal se podem entender, humilhemo-nos e não os
condenemos; porque, parecendo que olhamos ao seu proveito, o
tiramos a nós mesmos e perdemos esta ocasião que o Senhor nos
proporciona para nos humilharmos e vermos o que nos falta. Quanto
mais desapegadas e unidas a Deus devem estar essas almas do que
as nossas, pois Sua Majestade tanto se chega a elas!

13. Não entendo outra coisa nem quereria entender, senão que
oração de pouco tempo que produz efeitos muito grandes que logo
se percebem (pois é impossível deixar tudo só para contentar a
Deus, sem grande força de amor), mais a quisera eu do que a de
muitos anos, em que a alma nunca acabou por se determinar mais
no último dia do que no primeiro, a fazer por Deus coisa que não
seja nada, a menos que umas coisitas miúdas como sal, que não
têm peso nem tomo - que parece um pássaro as levará no bico - as
tenhamos por grande efeito e mortificação; é que fazemos caso de
certas coisas que fazemos pelo Senhor, que é lástima nos
apercebamos delas, ainda que se fizessem muitas.

Eu sou assim e a cada passo esquecerei as mercês. Não digo eu que
Sua Majestade não as terá em muito, porque é bom; mas quisera eu
não fazer caso delas, nem ver que as faço, porquanto não são nada.

Mas perdoai-me, Senhor meu, e não me culpeis, pois com alguma
coisa me hei-de consolar, visto que em nada Vos sirvo. Se em coisas
grandes Vos servira, não faria caso das ninharias. Bem-aventuradas
as pessoas que Vos servem com obras grandes! Se, o ter-lhes eu
inveja e desejar imitá-las se me leva em conta, não ficarei muito
atrás em contentar-Vos; mas não valho nada, Senhor meu. Ponde
Vós em mim o valor, pois tanto me amais.

14. Tendo chegado um destes dias um Breve de Roma, a fim de que
este mosteiro não possa possuir renda, acabou-se de todo a
fundação que, me parece, custou algum trabalho. E aconteceu-me
que, estando eu consolada de o ver assim concluído e pensando
nos trabalhos que tinha tido e louvando o Senhor, que de algum
modo se havia querido servir de mim, comecei a pensar em tudo
quanto tinha passado. Assim, em cada uma das coisas em que
parecia eu ter feito algo, achava muitas faltas e imperfeições e, às
vezes, pouco ânimo e muito pouca fé. É que até agora, eu nunca
acabava de crer determinadamente que se havia de cumprir tudo
quanto o Senhor me disse que se faria desta casa; mas tão pouco o
podia duvidar.

Não sei como era isto. Por um lado, me parecia
muitas vezes impossível e, por outro, não podia duvidar, digo, crer
que não se havia de fazer. Enfim, achei que era o Senhor que, de Sua
parte, tinha feito o bem, e o mal que era da minha. E assim deixei de
pensar nisso, e quisera não se me recordasse, para não tropeçar
com tantas faltas minhas. Bendito seja Ele que de todas tira o bem
quando é servido. Amen.

15. Digo pois que é perigoso ir contando os anos que se têm tido de
oração, porque, embora haja humildade, penso que pode ficar um
não sei quê de parecer que se merece alguma coisa pelos serviços
feitos. Eu não digo que não o merecem, e ser-lhes-á bem pago; mas
qualquer pessoa espiritual a quem parecer que, pelos muitos anos
de oração, merece estes regalos de espírito, eu tenho por certo que
não subirá ao cume dele.

Não é já muito que haja merecido que a
tenha Deus de Sua mão para não O ofender como fazia antes de ter
oração, senão que Lhe ponha pleito pelos seus dinheiros, como
dizem? Não me parece isto profunda humildade. Bem pode ser que
seja; mas eu tenho-o por atrevimento, pois, apesar de ter pouca
humildade, não me parece ter-me jamais atrevido a isto. Bem pode
ser que, como nunca O servi, nunca o tenha pedido; que porventura,
se O tivesse servido, quisera mais de que todos que o Senhor mo
pagasse.

16. Não digo que a alma não vá crescendo e que Deus não lhe dará a
paga se a sua oração tem sido humilde; mas que se olvidem estes
anos, pois tudo quanto podemos fazer é asco, em comparação de
uma gota de sangue que o Senhor por nós derramou. E se servindo-
O mais, ficamos mais devedores, que é isto que pedimos, pois se
pagamos um maravedi da dívida, nos tornam a dar mil ducados? Por
amor de Deus, deixemos estes juizos, que são Seus. Estas
comparações sempre são más, ainda mesmo em coisas de cá de
baixo. Que será pois no que só Deus sabe, e isto mostrou-o bem Sua
Majestade quando pagou tanto aos últimos como aos primeiros?

17. Escrevi estas três folhas por tantas vezes e em tantos dias -
porque tive e tenho, como disse, pouco vagar - que me ia
esquecendo do que comecei a dizer. Era esta visão.

Vi-me, estando em oração, sozinha num grande campo, e em redor
de mim muita gente de modos diversos que me cercava. Todos, me
parece, tinham armas nas mãos para me agredir: uns, lanças;
outros, espadas; outros, adagas e outros, estoques muito
compridos; enfim, eu não podia sair por nenhum lado sem me pôr
em perigo de morte, e só, sem ninguém que se achasse do meu
lado.

Estando meu espírito nesta aflição, que não sabia que fazer de
mim, levantei os olhos ao Céu e vi Cristo, não no Céu, mas bem por
cima de mim, no ar, e me estendia a mão e de ali mesmo me
favorecia, de maneira que eu não temia toda aquela outra gente; nem
eles, embora quisessem, me podiam fazer dano.

18. Parece sem fruto esta visão, e tem-me feito grandíssimo
proveito, porque deu-se-me a entender o que significava. Pouco
depois, vi-me quase metida naquela bateria e conheci ser aquela
visão uma imagem do mundo, onde, tudo quanto nele há, parece que
tem armas para ofender a triste alma. Deixemos os que não servem
muito ao Senhor, e as honras e fazendas e deleites e outras coisas
semelhantes, que, claro está, enredam ou, pelo menos, procuram
enredar a alma quando ela se não precata; mas falo de amigos,
parentes e, o que mais me espanta, de pessoas muito boas. De
todos estes me vi depois tão atormentada, pensando eles que faziam
bem, que eu nem sabia como defender-me, nem que fazer.

19. Oh! Valha-me Deus! Se dissesse as maneiras e diferenças de
trabalhos que neste tempo tive, ainda depois do que atrás fica dito,
como seria bom aviso para de todo a tudo aborrecer!

Foi, julgo eu, a maior perseguição de quantas tenho passado! Digo
que me vi por vezes tão perseguida de todas ás partes, que só
encontrava remédio em erguer os olhos ao Céu e chamar por Deus.
Recordava-me bem do que tinha visto nesta visão. Serviu-me isto
grandemente para não confiar muito em ninguém, porque não há
quem seja estável senão Deus. Sempre, nestes grandes trabalhos,
tal como se me mostrara nesta visão, me enviava o Senhor uma
pessoa da Sua parte, que me desse a mão, sem outro intento senão
o de agradar ao Senhor. E assim tem sido para me ajudar a sustentar
este pouquito de virtude que eu tinha em desejar servir-Vos. Sede
bendito para sempre!

20. Estava uma vez muito inquieta e alvorotada, sem me poder
recolher, numa batalha e contenda e fugindo-me o pensamento para
coisas que não eram perfeitas; até me parece que não estava com o
desapego que costumo ter. Ao ver-me assim tão ruim, tive medo que
as mercês que o Senhor me tinha feito fossem ilusões. Enfim, numa
grande escuridão de alma. Estando eu com esta pena, começou-me
a falar o Senhor, e disse-me que não me afligisse; em ver-me assim,
compreenderia a miséria que eu seria, se Ele se apartasse de mim e
que não há segurança enquanto vivemos nesta carne. Deu-se-me a
entender quão bem empregada é esta guerra e contenda em vista de
tal prémio, e pareceu-me que o Senhor tinha lástima dos que
vivemos no mundo.

Que não pensasse eu que Ele me trazia
esquecida; jamais, me deixaria, mas que era preciso fazer eu o que
estivesse na minha mão. Isto me disse o Senhor com uma
compaixão e ternura, e com outras palavras em que me fez grande
mercê, que não há para que dizê-las.

21. Sua Majestade tem-me dito muitas vezes estas palavras,
mostrais-, do-me grande amor: Já és minha e Eu sou teu.
As que eu sempre Lhe costumo dizer, e segundo me parece as digo
com verdade, são estas: Que se me dá a mim, Senhor, de mim,
senão de Vós?

São para mim estas palavras e regalos de tão
grandíssima confusão quando me lembro a que sou, que, como
creio já ter dito outras vezes e agora o digo algumas a meu
confessor, é preciso mais ânimo, me parece, para receber estas
mercês, do que para passar grandíssimos trabalhos. Quando isto se
dá, estou quase esquecida das minhas obras, mas é um representarse-
me que sou ruiin, sem discurso do entendimento, que também
por vezes me parece sobrenatural.

22. Vêm-me algumas vezes umas ânsias tão grandes de comungar,
que não sei se se poderiam encarecer. Aconteceu-me uma manhã
que chovia tanto, que parecia não estar o tempo de modo a se poder
sair de casa. Estando eu fora dela, já estava tão fora de mim com
aquele desejo, que, ainda que me pusessem lanças ao peito, me
parece romperia por entre elas, quanto mais por água. Quando
cheguei à Igreja, deu-me um grande arroubamento. Pareceu-me que
vi abrirem-se os céus, e não apenas uma entrada como de outras
vezes tenho visto.

Representou-se-me o trono que tenho visto
outras vezes, como já disse a V. Mercê e outro acima dele, no qual,
por um conhecimento que não sei dizer, entendi estar ali a
Divindade, embora nada visse. Parecia-me o sustentavam uns
animais; creio ter já ouvido a significação destes animais. Pensei se
seriam os Evangelistas. Mas, como era o trono e quem estava nele,
isto não vi, senão uma muito grande multidão de anjos. Pareceramme,
sem comparação, de muito maior formosura que os que tenho
visto no Céu.

Tenho pensado se serão serafins ou querubins,
porque são muito diferentes na glória. Pareciam estar inflamados. É
grande a diferença entre eles, como tenho dito. A glória que então
em mim senti não se pode descrever nem ainda dizer, nem a poderá
imaginar quem não houver passado por isto.

Entendi estar ali, por junto, tudo quanto se pode desejar, e não vi
nada. Disseram-me, e não sei quem, que o que eu ali podia fazer era
entender que não podia entender nada, é ver o nada que era tudo em
comparação daquilo. E assim, a minha alma envergonhava-se
depois só de pensar que se poderia deter em alguma coisa criada,
quanto mais de se afeiçoar a clã, porque tudo me parecia um
formigueiro.

23. Comunguei e estive na missa, que não sei como pude estar.
Pareceu-me ter decorrido apenas uns breves instantes. Espantei-me
quando o relógio deu horas e vi que eram duas as que eu tinha
passado naquele arroubamento e glória. Espantava-me depois,
como, em vindo este fogo de verdadeiro amor de Deus, que dir-se-ia
vir do alto - pois por mais que eu queira e procure e me desfaça por
ele, a não ser quando Sua Majestade o quer dar, como de outras
vezes já tenho dito, nada sou nem posso para conseguir sequer uma
centelha -, parece que consome o homem velho nas suas faltas,
tibiezas e miséria.

E, à maneira do que sucede à ave fénix, que -
segundo tenho lido -, depois que se queima renasce das próprias
cinzas, assim a alma fica depois outra, com desejos diferentes e
grande fortaleza. Não parece ser a mesma de antes; mas começa,
com pureza nova, o caminho do Senhor.

Suplicando eu a Sua Majestade que assim fosse e de novo
começasse eu a servi-Lo, disse-me: Boa comparação fizeste; olha a
que te não esqueça para procurares ir sempre melhorando.

24. Estando uma vez com a mesma dúvida de que há pouco falei, se
estas visões eram de. Deus, apareceu-me o Senhor e me disse com
rigor: Oh! filhos dos homens, até quando sereis duros de coração?
Que examinasse bem em mim uma coisa: se eu, de todo me tinha
entregado a Ele ou não; se assim tinha feito e de todo era Sua,
acreditasse que Ele não me deixaria perder.

Eu afligi-me muito com aquela exclamação. Com grande ternura e
carinho tornou-me a dizer que não me afligisse, pois já sabia que eu,
por mim, não deixaria de me entregar a tudo quanto fosse em
serviço Seu; que se havia de fazer tudo o que eu queria (e assim foi
que se fez o que então Lhe suplicava); visse o amor que, de dia para
dia, se ia aumentando em, mim para O amar, que nisto conheceria
não ser obra do demónio. Nem pensasse que Ele consentia que o
demónio tivesse tanta entrada nas almas de Seus servos e pudesse
dar a claridade de entendimento e quietude que tu tens. E deu-me
ainda a entender que, tendo-me dito tantas e tais pessoas, que era
Deus, que faria mal em não o acreditar. .

25. Estando uma vez rezando o salmo «Quicumque vult», deu-se-me
a entender a maneira pela qual Deus é um só em três Pessoas tão
claramente,. que eu me espantei e consolei-me muito. Fez-me
grandíssimo proveito para conhecer mais a grandeza de Deus e as
Suas maravilhas e, quando penso ou oiço tratar da Santíssima
Trindade, parece-me que entendo como pode, ser, e é para mim de
muito contentamento.

26. Em dia da Assunção da Rainha dos Anjos e Senhora nossa, quis
o Senhor fazer-me esta mercê: num arroubamento representou-seme
a Sua subida ao Céu e a alegria e solenidade com que foi
recebida e o lugar onde está. Dizer como foi isto, eu não saberia. Foi
grandíssimo o deleite que o meu espírito teve de ver tanta glória.
Causou isto em mim grandes efeitos e tirei de proveito ficar com
mais e maiores desejos de passar grandes trabalhos e de servir a
esta Senhora, pois tanto mereceu.

27. Estando num colégio da Companhia de Jesus, e estando a
comungar os irmãos daquela casa, vi um pálio muito rico sobre suas
cabeças; isto vi por duas vezes. Quando outras pessoas
comungavam não o via.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Trata dalgumas grandes graças que o Senhor lhe fez, tanto em mostrar-lhe alguns segredos do Céu, como outras grandes visões e revelações que Sua Majestade teve por bem que visse.

 LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA


  CAPÍTULO 38. Trata dalgumas grandes graças que o Senhor
lhe fez, tanto em mostrar-lhe alguns segredos do Céu, como
outras grandes visões e revelações que Sua Majestade teve
por bem que visse. Diz os efeitos com que a deixavam e o
grande aproveitamento que ficava em sua alma.

1. Estando uma noite tão doente que me queria escusar de ter
oração, tomei um rosário para me ocupar vocalmente, procurando
não recolher o entendimento, embora no exterior estivesse recolhida
num oratório. Quando o Senhor quer, pouco aproveitam estas
diligências. Estive assim um pouco, e veio-me um arrebatamento de
espírito com tanto ímpeto, que não pude resistir-lhe. Parecia-me
estar metida no Céu, e as primeiras pessoas que ali vi foi a meu pai e
a minha mãe, e vi coisas tão grandes - em tão breve espaço como o
de se poder dizer uma Ave Maria - que fiquei bem fora de mim,
parecendo-me muito demasiada graça.

Isto de durar tão breve tempo, bem pode ser que fosse mais, mas
parece-nos muito pouco. Temi que fosse alguma ilusão, ainda que
não me parecia. Não sabia que fazer, porque tinha grande vergonha
de ir com isto ao confessor; não por humildade, a meu parecer,
senão por julgar que faria troça de mim dizendo: com que então
temos um S. Paulo ou S. Jerônimo para ver coisas do Céu! E por
estes gloriosos santos terem tido coisas destas, isto a mim me fazia
mais temor, e não fazia senão chorar muito, porque me parecia que
não levava nenhum caminho. Enfim, embora muito o sentisse, fui ao
confessor, porque calar alguma coisa jamais o ousava, por mais que
sentisse em dizê-la, pelo grande medo que tinha de ser enganada.
Ele, como me viu tão aflita, consolou-me muito e disse-me muitas
coisas boas para me tirar a pena.

2. Andando mais o tempo, aconteceu-me e acontece ainda algumas
vezes. Ia o Senhor mostrando-me maiores segredos. Querer ver a
alma mais do que se lhe representa, não há forma, nem é possível, e
assim eu não via, de cada vez, senão o que o Senhor me queria
mostrar. Era porém tanto, que o menos bastava para ficar espantada
e a alma muito aproveitada para estimar e ter em pouco todas as
coisas da vida.

Quisera eu poder dar a entender alguma coisa do menos que
entendia e, pensando como o poderei fazer, vejo que é impossível.
Só a diferença que há entre, esta luz que vemos e a que ali se
representa, sendo tudo luz, é tal que não há comparação, porque a
claridade do sol parece coisa muito deslustrada. Enfim; não alcança
a imaginação, por muito subtil que seja, pintar nem traçar como seja
esta luz, nem coisa alguma das que o Senhor me dava a entender
com um deleite tão soberano que não se pode dizer. É que todos os
sentidos gozam em tão alto grau e suavidade, que não se pode
encarecer, e assim é melhor não dizer mais nada.

3. Uma vez havia estado assim mais duma hora, mostrando-me o
Senhor coisas admiráveis, parecendo-me que não se tirava de ao pé
de mim. Disse-me: Olha, filha, ó que perdem os que são contra Mim;
não deixes de lhes dizer isto.

Ai! Senhor meu! e que pouco aproveita o eu falar àqueles a quem
suas obras cegam, se Vossa Majestade não lhes dá luz! A algumas
pessoas a quem Vós a tendes dado, têm-lhes aproveitado saber as
Vossas grandezas; mas vêem-nas, Senhor meu, manifestadas a
coisa tão ruim e miserável, que eu tenho em muito o ter-me
acreditado alguém.

Bendito seja o Vosso nome e misericórdia, pois -
ao menos eu - tenho visto em  minha alma conhecida melhoria.
Quisera ela depois ficar-se sempre ali e não tornar a viver, porque foi
grande o desprezo que me ficou de quanto é cá de baixo; parecia-me
lixo e vejo quão baixamente nos ocupamos os que nos detemos
nisto.

4. Quando estava com aquela senhora que tenho dito,. aconteceu-me,
uma vez, sentir-me mal do coração (porque, como já o disse,
tenho sofrido muito dele, embora já não sofra), como ela era de
muita caridade, me fez tirar, para as ver, jóias de ouro e pedras
preciosas, que as tinha de grande valor, em especial uma de
diamantes avaliada em muito. Ela pensou que me alegraria com isso.

Eu estava-me rindo comigo mesma e tendo compaixão de ver o que
os homens estimam, recordando-me do que o Senhor nos tem
guardado e pensava quão impossível me seria, embora eu a mim
mesma me quisesse convencer, ter em conta aquelas coisas, se o
Senhor não me tirasse a lembrança de outras.

É isto um grande senhorio para a alma, tão grande que não sei se o
entenderá senão quem o possuir; é o verdadeiro e natural desapego,
que nos vem sem esforço nosso, pois tudo é feito por Deus. É que
Sua Majestade mostra estas verdades de tal modo, que ficam tão
impressas, que se vê claramente que, por nós mesmos, não
poderíamos adquirir isto, desta maneira, em tão breve tempo.

5. Ficou-me também pouco medo à morte, a qual eu sempre temia
muito. Parece-me agora coisa facílima para quem serve a Deus,
porque num momento se vê a alma livre deste cárcere e posta em
descanso. Este levar Deus o espírito nestes arroubamentos, e
mostrar-lhe coisas tão sublimes, afigura-se-me a mim muito
semelhante a quando uma alma sai do corpo, que num instante se
vê em todo este bem; deixemos as dores de quando se arranca, que
disso pouco caso se há-de fazer; e, os que deveras amarem a Deus e
tiverem dado de mão às coisas desta vida, mais suavemente devem
morrer.

6. Também me parece que me aproveitou muito para conhecer a
nossa verdadeira pátria e ver que somos cá na terra peregrinos, e
grande coisa é ver o que há por lá e saber onde havemos de viver.

Porque, se alguém tem de ir viver com sossego em uma terra, é-lhe
de grande ajuda para passar os trabalhos do caminho, já ter visto
que é lugar onde há-de viver muito a seu descanso; é-o também para
considerar com facilidade as coisas celestiais e procurar que seja lá
a nossa conversação. Isto é de muito lucro. Só o olhar para o Céu
recolhe a alma, porque, como o Senhor se dignou mostrar algo do
que lá há, está-se pensando no que se viu, e acontece-me, algumas
vezes, que os que me acompanham e com quem me consolo, são os
que eu sei que lá vivem; esses é que verdadeiramente me parecem
os vivos, e os que cá vivem tão mortos, que todo o mundo, dir-se-ia,
não me faz companhia, em especial quando tenho aqueles ímpetos.

7. Tudo me parece um sonho e que é burla o que vejo com os olhos
do corpo. O que já tenho visto com os da alma, é o que ela deseja e,
como se vê longe, este é o morrer. Enfim, é grandíssima a mercê que
o Senhor faz a quem dá semelhantes visões; porque a ajuda muito e
também a levar uma pesada cruz, porque nada a satisfaz, tudo lhe dá
no rosto. E se o Senhor não permitisse, às vezes, que se olvidasse,
embora se torne a lembrar, não sei como se poderia viver. Bendito
seja e louvado para sempre jamais!

Praza a Sua Majestade, pelo Sangue que Seu Filho derramou por
mim, visto ter querido que eu entenda alguma coisa de tão grandes
bens e comece de algum modo a gozar deles, não me aconteça o
mesmo que a Lúcifer que, por sua culpa, perdeu tudo. Não o permita
Ele por quem é! Não tenho pouco temor algumas vezes, embora por
outra parte, e é muito habitual, a misericórdia de Deus dá-me
segurança de que, pois me tirou de tantos pecados, não quererá
deixar-me de Sua mão, para que me perca. Isto suplico eu a V. Mercê
que sempre Lhe peça.

8. Não são porém tão grandes as ditas mercês, segundo julgo, como
esta que agora direi, por muitas causas e grandes bens que dela me
ficaram, particularmente a grande fortaleza de alma; embora vista
cada coisa de per si é, porém, tão grande que não há com que a
comparar.

9. Um dia, na véspera do Espírito Santo, depois da Missa, fui para
um lugar bem apartado, onde eu rezava muitas vezes, e comecei a
ler num Cartusiano o referente a esta festa. Lendo os sinais que
devem ter os que começam e aproveitam e os perfeitos, para se
conhecer se está com eles o Espírito Santo, e depois de ter lido
estes três estados, pareceu-me, tanto quanto podia perceber, que,
por bondade de Deus, não deixava Ele de estar comigo. Estando-O
eu louvando e recordando-me que, duma outra vez que o tinha lido,
estava bem falha de tudo aquilo, que isso via eu muito bens assim
como agora entendia o contrário de mim, conheci que era grande a
mercê que o Senhor me tinha feito. E assim comecei a considerar o
lugar que tinha merecido no inferno pelos meus pecados e dava
muitos louvores a Deus, porque me parecia que nem conhecia a
minha alma tanto a via mudada.

Estando nesta consideração, deu-me
um ímpeto grande sem entender o motivo; parecia que a alma me
queria sair do corpo, porque não cabia nele, nem se achava capaz de
esperar tanto bem. Era ímpeto tão excessivo, que eu não o podia
reprimir e, segundo me parece, diferente de outras vezes, nem
entendia o que tinha a alma, nem o que queria, que tão alterada
estava. Encostei-me, que nem sentada podia estar, porque me
faltava toda a força natural.

10. Estando nisto, vejo sobre minha cabeça uma pomba; bem
diferente das de cá, porque não tinha penas, senão que as asas
eram de umas conchinhas que despediam de si grande resplendor.
Era grande, maior que uma pomba normal. Parece-me que ouvia o
ruído que ela fazia com as asas. Estaria adejando pelo espaço de
uma Ave-Maria. Já a alma estava de tal sorte que, perdendo-se a si
de si, a perdeu de vista.

Acalmou-se o espírito com tão bom Hóspede, que, segundo meu
parecer, mercê tão maravilhosa o devia desassossegar e espantar; e
logo que a começou a gozar, perdeu o medo e começou a quietação
com o gozo, ficando em arroubamento.

11. Foi grandíssima a glória deste arroubamento. Fiquei o resto
desta Páscoa tão desatinada e tonta, que não sabia que fazer de
mim, nem como cabia em mim tão grande favor e mercê. Não ouvia
nem via, por assim dizer, com o grande gozo interior. Desde aquele
dia percebi ficar com grandíssimo aproveitamento no mais subido
amor de Deus e as virtudes muito mais fortalecidas. Seja Ele bendito
e louvado para sempre. Amém.

12. De outra vez vi a mesma pomba sobre a cabeça de um padre da
Ordem de São Domingos, salvo que me pareceu que se estendiam
muito mais os raios e resplendores das mesmas asas. Deu-se-me a
entender que havia de levar almas para Deus.

13. Outra vez vi estar Nossa Senhora pondo uma capa, muito branca
ao Presentado desta mesma Ordem, de quem tenho falado algumas
vezes.

Disse-me Ela que, pelo serviço que ele Lhe tinha feito em ajudar a
que fizesse esta casa, lhe dava aquele manto em sinal de que; daí
em diante, guardaria a sua alma limpa e não cairia em pecado
mortal. Eu tenho por certo que assim foi; porque daí a poucos anos
morreu, e a vida que viveu foi de tanta penitência e a morte com
tanta santidade, que, tanto quanto se pode conhecer, não há que pôr
isto em dúvida. Disse-me um frade, que tinha assistido à sua morte,
que, antes de expirar, disse-lhe que estava com ele S. Tomás.

Morreu com grande gozo e desejo de sair deste desterro. Depois,
tem-me aparecido algumas vezes com muita glória e dito algumas
coisas. Tinha tanta oração, quando morreu, que, embora se quisesse
dispensar dela pela grande fraqueza em que estava, não podia,
porque tinha muitos arroubamentos. Escreveu-me pouco antes de
morrer a perguntar de que meio se teria de servir, porque, quando
acabava de dizer Missa, ficava em arroubamento muito tempo, sem o
poder evitar. Deu-lhe Deus, no fim, o prêmio do muito que O tinha
servido toda a sua vida.

14. Do Reitor da Companhia de Jesus, de quem algumas vezes fiz
menção, tenho visto algumas coisas das grandes mercês que o
Senhor lhe fazia, que, para não me alongar, não as escrevo aqui.

Aconteceu-lhe uma vez um grande trabalho em que foi muito
perseguido e viu-se muito aflito. Estando eu um dia ouvindo Missa,
vi Cristo na cruz, à elevação da Hóstia. Disse-me algumas palavras
para que lhas dissesse, de consolação, e outras, prevenindo-o do
que estava por vir e lembrando-lhe o que Ele tinha padecido por ele .
e que se preparasse para sofrer. Deu-lhe isto muita consolação e
ânimo, e tudo se passou depois, como o Senhor me disse.

15. Dos da Ordem deste Padre, que é da Companhia de Jesus, e de
toda a Ordem junta, tenho visto grandes coisas. Vi-os no Céu com
bandeiras brancas nas mãos algumas vezes e; como digo, outras
coisas tenho visto deles de muita admiração; e assim tenho esta
Ordem em grande veneração, porque os tenho tratado muito e vejo
que se conforma a sua vida com o que o Senhor me tem dado a
entender deles.

16. Estando uma noite em oração, começou-me o Senhor a dizer
algumas palavras, trazendo-me com elas à memória quão má tinha
sido minha vida, que me faziam grande confusão e pena. Porque,
embora não sejam ditas com rigor, causam uma mágoa e pena, que
me desfazem. Sente-se com uma palavra destas, maior
aproveitamento em conhecermo-nos a nós mesmos que em muitos
dias em que consideremos a nossa miséria; porque cada uma traz
em si esculpida uma tal verdade que não a podemos negar.

Representou-me as afeições que eu, com tanta vaidade, havia tido e
disse-me que tivesse em muito o Ele querer, e em admitir que Lhe
fosse dedicada uma amizade que tão mal se havia gasto como a
minha.

Outras vezes disse-me que me lembrasse do tempo em que parecia
que eu tinha por honra ir contra a Sua. E ainda em outras, que me
recordasse do que eu Lhe devia, pois quando Lhe dava maior golpe,
estava-me Ele fazendo mercês. Se tinha cometido algumas faltas, e
não são poucas, de tal maneira Sua Majestade mas dá a entender,
que toda eu parece que me desfaço, e como tenho muitas, é muitas
vezes. Quando me acontecia repreender-me o confessor, e eu quererme
consolar na oração, era ali que encontrava a verdadeira
repreensão.

17. Voltando ao que dizia: como o Senhor me começou a trazer à
memória a minha ruim vida, ao virem-me as lágrimas (como então,
segundo me parecia, nada tinha feito), pensei que me quereria fazer
alguma mercê. É que, muito de ordinário, quando recebo alguma
particular mercê do Senhor, é depois de eu meter primeiro desfeito a
mim mesma. Penso que o Senhor o deve assim fazer para que veja
bem claro quão longe estou de as merecer.

Pouco depois; foi tão arrebatado o meu espírito que quase me
pareceu que estava de todo fora do corpo; pelo menos, não se
percebe que se vive nele. Vi a Humanidade Sacratíssima, com tão
excessiva glória como jamais a tinha visto. Representou-se-me, por
uma notícia admirável e clara, estar Ele metido no seio do Pai. Isto
não o saberei eu dizer como é, porque, sem ver, pareceu-me que me
via na presença daquela Divindade. Fiquei tão espantada e de tal
maneira, que passaram alguns dias, ao que recordo que não podia
voltar a mim e sempre me parecia que trazia presente aquela
majestade do Filho de Deus, embora não fosse como da primeira
vez.

Isto bem o entendia eu, senão que fica tão esculpido na
imaginação - por breve que tenha sido - que não o pode tirar da
lembrança por algum tempo e é de muito consolo e também
aproveitamento.

18. Tive esta mesma visão ainda outras três vezes. É, a meu parecer,
a mais subida visão que o Senhor me fez mercê de ver e traz
consigo grandíssimos proveitos. Parece que purifica a alma de
grande modo e tira quase de todo a força a esta nossa sensualidade.

É uma grande chama que parece que abrasa e aniquila todos os
desejos da vida; porque, como eu, graças a Deus, já não os tinha em
coisas vãs, aqui se me declarou bem como tudo era vaidade e quão
vãos e quão vãos são os senhorios de cá da terra. É grande
ensinamento para levantar os desejos à pura verdade. Deixa
impresso um acatamento que não saberei dizer como é, mas muito
diferente do que aqui podemos adquirir. Causa grande espanto à
alma ver como se atrevem, ou como alguém se pode atrever, a
ofender uma Majestade tão imensamente grande.

19. Algumas vezes terei dito estes efeitos de visões e outras coisas,
mas já disse também que há mais e menos aproveitamento; desta
fica grandíssimo. Quando me aproximava para comungar eme
lembrava daquela Majestade grandíssima que tinha visto e via que
era Ele que estava no Santíssimo Sacramento (e muitas vezes quer o
Senhor que O veja na Hóstia), os cabelos se me arrepiavam e dir-seia
que toda eu me aniquilava. Ó Senhor meu! se não encobrísseis
assim a Vossa grandeza, quem ousaria chegar a unir tantas vezes
uma coisa tão suja e miserável com uma tão grande Majestade?

Bendito sejais; Senhor! Louvem-Vos os anjos e todas as criaturas,
pois assim acomodais as coisas à nossa fraqueza, para que,
gozando de tão soberanas mercês, não nos espante o Vosso grande
poder, a ponto de que nem mesmo nós atrevêssemos a gozá-las,
como gente fraca e miserável.

20. Poderia acontecer-nos o mesmo que sucedeu a um lavrador, e
isto eu sei de certeza que se passou assim. Encontrou um tesouro e,
como era maior do que cabia em seu ânimo, que era baixo, ao ver-se
com ele, deu-lhe uma tal tristeza que, pouco a pouco, veio a morrer
de pura aflição e cuidado de não saber o que lhe havia de fazer. Se
ele não o tivesse achado assim todo junto, mas pouco a pouco lho
fossem dando e sustentando com ele, viveria mais contente do que
sendo pobre, e não lhe custaria a vida.

21. Ó Riqueza dos pobres! como sabeis admiravelmente sustentar
as almas e, sem que vejam tão grandes riquezas, pouco a pouco
lhas ides mostrando!

E assim, quando eu vejo - desde então para cá - uma Majestade tão
grande oculta em uma coisa tão pequena como é uma Hóstia, não
posso deixar de me admirar de tão grande sabedoria. Não sei
mesmo como o Senhor me dá ânimo e esforço para me chegar a Ele;
porque se mo não desse, Ele que me tem feito e ainda faz tão
grandes mercês, nem seria possível eu poder dissimular a minha
admiração nem deixar de dizer em altas vozes tão grandes
maravilhas.

Que sentirá, pois, uma miserável como eu, carregada de
abominações e que com tão pouco temor de Deus tem gasto sua
vida, de se ver aproximar a este Senhor de tão grande majestade,
quando Ele quer que minha alma O veja? Como há-de juntar uma
boca que tantas palavras tem dito contra o mesmo Senhor, àquele
Corpo gloriosíssimo, cheio de pureza e piedade? O amor que mostra
aquele rosto de tanta formosura com uma tal ternura e afabilidade,
magoa e aflige muito mais a alma, por não O ter servido, do que lhe
infunde temor a majestade que nele vê.

Mas, que poderia eu sentir das duas vezes que vi isto que adiante
digo?

22. Certo é, Senhor meu e glória minha, que estou em dizer que,
nestas grandes aflições que sente a minha alma, eu tenho de certo
modo feito alguma coisa em Vosso serviço. Ai! que já não sei o que
digo, pois quase já não sou eu a falar ao escrever isto! porque me
acho perturbada e um tanto fora de mim, por ter trazido de novo à
memória estas coisas. Pudera bem dizer, Senhor meu, ter feito
alguma coisa por Vós, se este sentimento me viesse de mim; mas
como não pode haver bom pensamento se Vós não o dais, não há de
que me agradecer: Eu sou a devedora, Senhor, e Vós o ofendido.

23. Chegando-me eu uma vez para comungar, vi com os olhos da
alma, mais claro que com os do corpo, dois demônios de muito
abominável figura. Parecia-me que, com seus chifres, cingiam a
garganta do pobre sacerdote. E na Hóstia que me ia dar, vi o meu
Senhor, com a Majestade que tenho dito, posto naquelas mãos, que
bem sé Via serem ofensoras Suas. Entendi estar aquela alma em
pecado mortal.

Que seria, Senhor meu, ver Vossa formosura entre figuras tão
abomináveis? Estavam eles como que amedrontados e espantados
diante de Vós, e julgo que de boa vontade fugiriam, se Vós os
deixásseis ir.

Causou-me tão grande perturbação, que não sei como
pude comungar e fiquei com grande temor, parecendo-me que, se
fora visão de Deus, não permitiria Sua Majestade que visse o mal
que estava naquela alma. Disse-me o mesmo Senhor que rogasse
por ele, e que o havia permitido para que eu entendesse a força que
tinham as palavras da consagração, e como não deixa Deus de estar
ali, por mau que seja o sacerdote que as pronuncia, e para que visse
a Sua grande bondade, pondo-se naquelas mãos de Seu inimigo; e
tudo para bem meu e de todos.

Entendi bem quanto mais obrigados estão os sacerdotes a ser bons
do que outros, e que terrível coisa é receber este Santíssimo
Sacramento indignamente, e a que ponto o demônio é senhor da
alma que está em pecado mortal. Aproveitou-me isto muitíssimo e
deu-me um grande conhecimento do que devia a Deus. Seja bendito
para sempre.

24. Outra vez aconteceu-me outra coisa que me espantou
muitíssimo. Estava eu num lugar onde morreu certa pessoa que
tinha vivido muito mal, segundo soube, e muitos anos; mas havia
dois que estava enfermo e em algumas coisas parece que estava
emendado. Morreu sem confissão, mas apesar disto, não me parecia
que se condenaria.

Estando-se amortalhando o corpo, vi muitos
demônios pegarem naquele corpo, e dir-se-ia, que jogavam com ele
e faziam também justiça nele, o que me encheu de um grande pavor,
pois com grandes garfos o passavam duns aos outros. Quando o vi
levar a enterrar com a honra e cerimónias que se dão a, todos,
estava eu pensando em como a bondade de Deus não queria que
fosse difamada aquela alma, mas que ficasse encoberto o ela ser
Sua inimiga.

25. Estava eu meia tonta com o que tinha visto. Durante todo o
Ofício não vi mais nenhum demônio. Depois, quando deitaram o
corpo na sepultura, era tanta a multidão deles que estavam dentro
para pegar nele, que eu estava fora de mim de o ver, e não era
preciso pouco ânimo para o dissimular. Considerava o que fariam
daquela alma quando assim se assenhoreavam do triste corpo.

Prouvera ao Senhor que isto que eu vi - coisa tão espantosa! -
vissem todos os que estão em mau estado, pois me parece seria
grande meio para os fazer viver bem.

Tudo isto me faz conhecer mais o que devo a Deus e do que me
livrou. Andei muito temerosa até que tratei disto com meu
confessor, pensando se seria ilusão do demônio para difamar aquela
alma, ainda que não fosse tida por ser de muita cristandade. A
verdade é que, embora não fosse ilusão, sempre me causa temor
quando me lembro.

26. Já que comecei a dizer visões de defuntos, quero dizer algumas
coisas que, neste caso, o Senhor tem sido servido que eu veja
dalgumas almas. Direi poucas para abreviar e por não ser
necessário, digo, para nenhum aproveitamento.

Disseram-lhe que tinha morrido um Provincial que havia sido nosso
(e quando morreu o era de outra Província), com quem eu tinha
tratado e era devedora de alguns favores. Era pessoa muito virtuosa.

Quando soube que tinha morrido, deu-me muita perturbação, porque
temi pela sua salvação, pois havia sido vinte anos prelado, coisa
que, em verdade, eu temo muito, por me parecer de muito perigo o
ter encargo de almas. E, em muita aflição, fui para um oratório. Deilhe
todo o bem que tinha feito em minha vida, que seria bem pouco,
e assim disse ao Senhor que suprissem Seus méritos o que faltasse
àquela alma para sair do Purgatório.

27. Estando eu a pedir ao Senhor o melhor que podia, pareceu-me
que saía do centro da terra, a meu lado direito, e vi-o subir ao Céu
com grandíssima alegria. Ele era já bem velho, mas vi-o de idade de
trinta anos, e ainda menos me pareceu, e com grande resplendor no
rosto.

Passou mui brevemente esta visão, mas fiquei em tanto
extremo consolada, que nunca mais me pôde dar pena a sua morte,
ainda que visse aflitas muitas pessoas por ele, pois era muito
benquisto. Era tanto o consolo que tinha a minha alma, que nada se
me dava, nem podia duvidar de que era boa a visão, digo, que não
era ilusão.

Não havia mais de quinze dias que tinha morrido. Contudo, não me
descuidei de procurar que o encomendassem a Deus e fazê-lo eu
também, mas não o podia fazer com aquele empenho que teria se
não tivesse visto isto.

Quando assim o Senhor me mostra alguma
alma e depois eu a quero encomendar a Sua Majestade, parece-me,
sem mais estar em meu poder, que é como dar esmola a rico. Soube
depois - porque morreu bem longe daqui - a morte que o Senhor lhe
deu, que foi de tanta edificação que a todos deixou espantados do
conhecimento e lágrimas e humildade corri que morreu.

28. Tinha morrido, na casa, uma freira, grande serva de Deus, havia
pouco mais de dia e meio. Estando uma outra freira dizendo uma
lição do Ofício de Defuntos, que por ela se rezava no coro, eu estava
de pé para com ela dizer o versículo. A meio da lição vi, me pareceu,
que saía sua alma do mesmo lugar que da visão anterior e que ia
para o Céu. Esta não foi imaginária, como a anterior, senão como
outras que tenho dito; e destas não se duvida mais de que daquelas
que se vêem.

29. Morreu também, na minha mesma casa, outra freira. Desde há
dezoito ou vinte anos sempre tinha sido enferma, e muito serva de
Deus, amiga do coro e muito virtuosa. Certo é que pensei que não
entrara no Purgatório, porque eram muitas as enfermidades que
tinha padecido, senão que lhe sobrariam méritos. Estando rezando
as Horas, antes que a enterrassem, haveria umas quatro horas que
morrera, entendi que saía do mesmo lugar e ia para o Céu.

30. Estando num colégio da Companhia de Jesus, com os grandes
trabalhos que tinha e tenho algumas vezes de alma e corpo, como já
disse, estava de sorte que nem sequer um bom pensamento,
segundo me parece, podia admitir. Tinha morrido nessa noite um
irmão daquela casa da Companhia, e estando eu, conforme podia,
encomendando-o a Deus e ouvindo missa de outro padre da
Companhia por ele, deu-me um grande recolhimento e vi-o subir ao
Céu, com muita glória e o Senhor ia com ele. Entendi que era
particular favor de Sua Majestade.

31. Outro frade da nossa Ordem, muito bom religioso, estava muito
mal. Estando eu à missa, veio-me um recolhimento e vi que tinha
morrido e subia ao Céu sem passar pelo Purgatório. Morreu naquela
mesma hora em que o vi, segundo soube depois. Eu me espantei de
não ter entrado no Purgatório. Entendi que, por ter sido frade e ter
guardado bem a sua profissão, lhe tinham aproveitado as Bulas da
Ordem para não entrar no Purgatório. Não sei por que entendi isto;
parece-me que deve ser porque não está o ser frade no hábito, quero
dizer, em trazê-lo, para gozar do estado de mais perfeição, mas em
sê-lo.

32. Não quero dizer mais destas coisas; porque, como tenho dito,
não há porquê, embora sejam muitas as que o Senhor me tem feito
mercê que veja. Mas, de todas as que tenho visto, não tenho
entendido deixar nenhuma alma de entrar no Purgatório se não a de
este Padre e a de santo Frei Pedro de Alcântara e a do Padre
Dominicano de que falei. De alguns foi o Senhor servido que veja os
graus de glória que têm, representando-se-me os lugares em que
estão. E grande a diferença que há de uns a outros.