LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA

CAPÍTULO 40. Prossegue na mesma matéria dizendo as
grandes graças que o Senhor lhe fez. De algumas delas se
pode tirar muito boa doutrina. Conforme tem dito, a sua
principal tentativa, depois de obedecer, tem sido de escrever as
graças que são para proveito das almas. Com este capítulo
acaba a narração que escreveu da sua vida. Seja para glória
do Senhor.
1. Estando uma vez em oração, era tanto o deleite que em mim senti
que, como indigna de tal bem, comecei a pensar que muito mais
merecia estar naquele lugar que eu tinha visto preparado no inferno
para mim, pois, como tenho dito, nunca esqueço o modo como ali
me vi.
Com esta consideração, começou a inflamar-se mais a minha alma e
veio-me um arrebatamento. de espírito, de modo que o não sei dizer.
Pareceu-me que o meu espírito estava metido e cheio daquela
Majestade que tenho entendido de outras vezes. Nesta Majestade
deu-se-me a entender uma verdade que é complemento de todas as
verdades; mas não sei dizer como, porque nada vi?
Disseram-me, sem ver quem tinha sido, mas bem entendi ser a
mesma Verdade: Não é pouco isto que faço por ti; é uma das coisas
em que muito me deves; porque todo o dano que vem ao mundo é
de não se conhecerem as verdades da Escritura com clara verdade,
da qual não ficará um til por cumprir.
Pareceu-me, a mim, que nisto sempre eu tinha acreditado e que
todos os fiéis o creem. Disse-me porém: Ai, filha, quão poucos me
amam com verdade. Se Me amassem, não lhes encobriria eu meus
segredos. Sabes o que é amar-Me com verdade? É compreender
que. tudo quanto Me não é agradável a Mim é mentira, Com clareza
verás isto que agora não entendes, pelo fruto que sentires em tua
alma.
2. E assim o tenho visto, seja o Senhor louvado, que então para cá,
parece-me tanta vaidade e mentira tudo o que eu vejo que não vai
dirigido ao serviço de Deus, que eu não saberia dizer até que ponto
o entendo, e a lástima que me fazem os que vejo em trevas a
respeito desta verdade.
Com isto vieram-me outros lucros que agora
direi, ainda que muitos não saberei dizer. Disse-me aqui o Senhor
uma particular palavra de grandíssimo favor.' Eu não sei como isto
foi, porque nada vi; mas fiquei de sorte que tão pouco sei dizer, com
uma grandíssima fortaleza, e isto muito deveras, para cumprir com
todas as minhas forças a mais pequena parcela da Escritura divina.
Parece-me que nenhuma coisa se me poria diante que eu não
padecesse por isto.
3. Desta divina Verdade .que se me representou, sem saber como
nem quê, ficou-me impressa uma verdade que me faz ter um novo
acatamento a Deus, porque dá um conhecimento de Sua Majestade e
do Seu poder e isto de uma maneira que não se pode dizer. Sei
somente entender que é grande coisa um tal dom.
Ficou-me uma grandíssima vontade de não falar senão em coisas
muito verdadeiras que estejam acima do trato que se usa aqui no
mundo; e assim comecei a ter pena de viver nele. Deixou-me esta
mercê com grande ternura, deleite e humildade. Parece-me, sem
entender como, que o Senhor me deu aqui muito. Não me ficou
suspeita alguma de que fosse ilusão.
Nada vi, mas compreendi o grande bem que há em não fazer caso de
coisa que não seja para nos achegarmos mais a Deus, e assim
entendi o que é andar uma alma na verdade diante da mesma
Verdade. Isto, que entendi, é dar-me o Senhor a entender que Ele é a
mesma Verdade.
4. Compreendi tudo isto que tenho dito, falando-me Ele algumas
vezes, e outras sem me falar, deram-se-me a entender algumas com
mais claridade do que as que se me diziam por palavras. Aprendi
grandíssimas verdades sobre esta Verdade, até mais do que se
muitos letrados mo tivessem ensinado. Parece-me que de nenhum
modo eles mo poderiam imprimir assim no espírito, nem tão
claramente se me daria a entender a vaidade deste mundo.
Esta Verdade, que digo se me deu a entender, é em si mesma
verdade e não tem princípio nem fim, e todas as demais verdades
dependem desta Verdade, como todos os demais amores deste
Amor e todas as demais grandezas desta Grandeza. Isto vai, no
entanto, obscuro em comparação da claridade com que o Senhor
quis que se me desse a entender. E como resplandece o poder desta
Majestade, pois em tão breve tempo deixa tão grande lucro e tais
coisas impressas na alma!
Oh! Grandeza e Majestade minha! Que fazeis, Senhor meu Todo poderoso?
Vede a quem fazeis tão soberanas graças! Não Vos
recordais que esta alma foi um abismo de mentiras e um mar de
vaidades, e tudo por minha culpa; e apesar de me terdes dado por
natureza de aborrecer o mentir, eu mesma me forcei a tratar em
muitas coisas com mentira? Como se sofre, Deus meu, como se
compadece tão grande favor e graça com quem tão mal vo-Lo tem
merecido?
5. Estando uma vez nas Horas com todas as irmãs, de repente se
recolheu minha alma, e pareceu-me ser toda ela como um claro
espelho. Não havia costas, nem lados, nem alto, nem baixo que não
fosse tudo claridade; e no centro dela se me representou Cristo
Nosso Senhor, como O costumo ver. Parecia-me que em todas as
partes da minha alma O via tão clara- mente como num espelho, e
esse espelho - não sei dizer como - também se esculpia todo no
mesmo Senhor por uma comunicação muito amorosa que eu não
saberei explicar.
Sei que esta visão me serve de grande proveito de cada vez que dela
me recordo, em especial quando acabo de comungar: Deu-se-me a
entender que, estar uma alma em pecado mortal, é cobrir-se este
espelho de densa névoa e ficar muito negro, e assim nele não se
pode refletir, nem ver este Senhor, embora esteja sempre presente
dando-nos o ser.
Com os hereges é como se o espelho, estivesse
quebrado, o que é muito pior que obscurecido. É muito diferente, o
como se vê, do como se diz, porque mal se pode dar a entender. Mas
tem-me feito muito proveito e grande pesar das vezes que, com
minhas culpas, obscureci a minha alma de modo, a não ver este
Senhor.
6. Parece-me proveitosa esta visão às pessoas que, se dão ao
recolhimento, para as ensinar a considerar o Senhor no mais íntimo
da sua alma. Esta consideração prende mais e é muito mais frutuosa
do que considera-'O fora de si, como de outras vezes tenho dito.
Nalguns livros de oração está escrito que é onde se há de buscar a
Deus; em especial o diz o glorioso Santo Agostinho, que nem nas
praças nem nos conventos, nem em parte alguma onde O buscava,
O encontrava, como dentro de si. E isto é claramente o melhor, pois
não é necessário ir ao Céu, nem procurar mais longe nem fora de
nós mesmos; porque é cansar o espírito e distrair a alma, e não com
tanto fruto.
7. Uma coisa quero advertir aqui, para se alguém a tiver, que
acontece nos grandes arroubamentos.. Passado aquele momento
em que a alma está em união (que tem as potências totalmente
absortas, e isto dura pouco como tenho dito), acontece ficar a alma
recolhida e até sem poder voltar a si no exterior, mas as duas
potências, memória e entendimento, ficam quase com frenesi,
muito desatinadas. Isto, digo, acontece algumas vezes,
especialmente nos princípios. Penso que isto procede de não poder
sofrer a nossa fraqueza natural tanta força de espírito e enfraquece a
imaginação.
Sei que isto sucede a algumas pessoas. Parecer-me-ia
bom que se esforçassem a deixar, por então, a oração e a tivessem
em outra altura, recuperando assim aquele tempo de oração que
perdem, mas que não seja por junto, porque daí poderá advir muito
mal. Disto há experiência e de quão acertado é olhar ao que pode a
nossa saúde.
8. Em tudo é preciso experiência e mestre porque, chegada a alma a
estes termos, oferecer-se-ão muitas coisas em que é preciso ter com
quem o tratar. E, se buscando mestre não o achar, o Senhor não lhe
faltará, pois não me faltou a mim sendo eu a que sou. Porque creio
haver poucos que tenham chegado a ter experiência de tantas
coisas; e se não a têm, debalde dão remédio à alma sem a inquietar
e afligir.
Mas isto também tomará o Senhor em conta, e assim o
melhor é tratá-lo (como já tenho dito de outras vezes, e, até mesmo
tudo quanto agora digo, que não me lembro bem se já o disse
porquanto, vejo que importa muito), em especial se são mulheres
que tratem estas coisas com o confessor. E há muitas mais
mulheres de que homens a quem o Senhor faz estas mercês, e isto
ouvi ao santo Frei Pedro de Alcântara (e também o tenho visto eu)
que dizia que, neste caminho, aproveitavam elas muito mais que os
homens, e dava disto excelentes razões, que não há para que dizê-las
aqui, todas em favor das mulheres.
9. Estando uma vez em oração, representou-se-me muito
brevemente (sem ver coisa alguma formada, mas foi representação
feita com toda a clareza) como se vêem em Deus todas as coisas e
como Ele as contém todas em Si. Saber escrever como isto foi, eu
não sei, mas ficou muito impresso na minha alma, e é uma das
grandes graças que o Senhor me tem feito e das que mais me
fizeram confundir e envergonhar, recordando-me os pecados que
cometi.
Creio que, se o Senhor fosse servido de que eu visse isto noutros
tempos, e que o vissem os que O ofendem, não teriam coração nem
atrevimento para o fazer. Pareceu-me [ter, visto o que, segue] sem
eu poder, no entanto, afirmar que vi alguma coisa; digo-o desde já.
Qualquer coisa sé deve ver porém, pois eu poderei dar esta
comparação; mas é por modo tão sutil e delicado, que o
entendimento não o deve alcançar, ou será que eu não me sei
entender nestas visões, que não parecem imaginárias, e em
algumas, alguma coisa de imagem deve haver. Mas, como é estando
a alma em arroubamento, as potências não o sabem depois
reproduzir como ali: o Senhor lho representa e quer que o gozem.
10. Digamos, pois, que a Divindade é como um muito claro diamante,
muito maior que todo o mundo, ou como um espelho - conforme
disse da alma na outra visão, à exceção de ser por um modo tão
sublime; que eu não o saberei encarecer - e que tudo o que fazemos
se vê neste diamante, sendo ele de maneira que encerra tudo em si,
porque não há nada que saia fora desta grandeza. Coisa espantosa
foi para mim ver, em tão breve espaço, tantas coisas juntas neste
claro diamante, e lastimosíssima coisa é, cada vez que me recordo,
ver que coisas tão feias; como eram meus pecados, se refletiam
naquela límpida claridade.
E assim é que, quando me recordo, não
sei como o posso suportar, e fiquei então tão envergonhada que me
parece não sabia onde me meter.
Oh! quem pudesse dar isto a entender aos que muito desonestos è
feios pecados fazem, para que se lembrem que não são ocultos e
que, com razão, os sente Deus, e pois tão em presença de Sua
Majestade eles se fazem, e tão desacatadamente nos vemos
diante d'Ele!
Vi com quanta razão se merece o inferno por um só pecado mortal;
porque não se pode entender quão gravíssima coisa é cometê-lo
diante de tão grande Majestade, e como são alheias, a quem Ele é,
coisas semelhantes. E assim se vê mais a Sua misericórdia, pois
conhecendo nós tudo isto, Ele nos sofre.
11. Isto tem-me feito considerar que, se uma visão como esta assim
deixa espantada a alma, o que será o dia do juízo, quando esta
Majestade claramente se nos mostrar e virmos as ofensas que Lhe
temos feito? Oh! Valha-me Deus, que cegueira, esta que eu .tenho
trazido! Muitas vezes me tenho espantado disto que tenho escrito, e
não se espante V Mercê, senão de como ainda vivo vendo estas
coisas e vendo-me a mim. Seja bendito para sempre Quem tanto me
tem sofrido.
12. Estando uma vez em oração com muito recolhimento, suavidade
e quietude, parecia-me estar rodeada de anjos e muito perto de
Deus. Comecei a suplicar a Sua Majestade pela Igreja. Deu-me a
entender o grande proveito que, nos últimos tempos, há de fazer
uma Ordem e a fortaleza com que seus filhos hão de sustentar a Fé.
13. Estando uma vez rezando perto do Santíssimo Sacramento,
apareceu-me um Santo cuja Ordem tem estado um tanto decaída:
Tinha nas mãos um grande livro, abriu-o e disse-me que lesse umas
letras, que eram grandes e muito legíveis e diziam assim: Nos
tempos vindouros florescerá esta Ordem; haverá muitos mártires.
14. Outra vez, estando no Coro em Matinas, representaram-me e
se puseram diante dos olhos seis ou sete religiosos que me parece
seriam desta mesma Ordem; com espadas na mão. Penso que nisto
se dá a entender que hão-de defender a Fé; porque, de outra vez,
estando em oração, me arrebatou o espírito e pareceu-me estar
num grande campo onde muitos combatiam, e estes, os desta
Ordem, pelejavam com grande fervor. Tinham os rostos formosos e
abrasados e deitavam muitos por terra, vencidos, e a outros
matavam. Parecia-me que esta batalha era contra os hereges.
15. A este glorioso Santo tenho visto algumas vezes, e tem-me dito
algumas coisas, e agradecido a oração que faço pela sua Ordem e
prometido de me encomendar ao Senhor. Não declaro as Ordens,
para que não se agravem outras; se o Senhor for servido que se
saiba, Ele o declarará. Mas cada Ordem, ou cada membro de per si,
havia de procurar que, por seu meio fizesse o Senhor tão ditosa a
sua Ordem que, em tão grande necessidade, como agora tem a
Igreja, a servissem. Ditosas vidas que nisto se acabarem!
16. Pediu-me, uma vez, uma pessoa, que suplicasse eu a Deus lhe
desse a entender se seria do Seu serviço aceitar um bispado. Disse-me
o Senhor, acabando eu de comungar: Quando entender com toda
a verdade e clareza que o verdadeiro senhorio é não possuir coisa
alguma, então o poderá aceitar, dando a entender que, quem tiver de
ter prelazias, há-de estar muito longe de as desejar e querer, ou, pelo
menos, não as há de procurar.
17. Estas graças e outras muitas tem feito o Senhor e faz
sempre a esta pecadora que, parece-me, não há necessidade de as
dizer, pois pelo já dito se pode conhecer minha alma e o espírito que
o Senhor me tem dado. Seja bendito para sempre, que tanto cuidado
tem tido de mim!
18. Disse-me Ele uma vez, consolando-me com muito amor, que não
me afligisse, pois nesta vida não podíamos estar sempre num
mesmo estado. Umas vezes teria fervor e outras vezes estaria sem
ele; umas com desassossego e outras com quietude e tentações,
mas que esperasse n'Ele e não temesse.
19. Estava eu um dia pensando se seria apego o gostar de estar com
as pessoas com quem trato da minha alma e ter-lhes amor, e aos
que vejo muito servos de Deus, pois me consolava com eles. Disse-me
o Senhor que, se a um enfermo, que está em perigo de morte,
julga que lhe dá saúde um médico, não é virtude deixar de lhe
agradecer e de não lhe ter amizade. Que teria eu feito se não fosse
pela ajuda destas pessoas? A conversação dos bons não danifica,
mas que as minhas palavras fossem sempre pesadas e santas, e não
deixasse de tratar com eles, pois antes me seria de proveito que
dano.
Consolou-me isto muito, porque algumas vezes parecendo-me
apego, quereria não os tratar de todo. Sempre, em todas as coisas,
me aconselhava este Senhor, até dizer-me como me havia de haver
com os fracos e com algumas pessoas. Jamais se descuida de mim.
20. Algumas vezes estou aflita de me ver de tão pouco préstimo em
Seu serviço e de ver que, por força, hei de ocupar mais tempo do
que queria, com corpo tão fraco e ruim como é o meu. Estava eu
uma vez em oração e chegou a hora de ir dormir. Estava com muitas
dores, esperava pelo vômito do costume. Como me vi tão atada por
mim mesma e o espírito, por outra parte, querendo tempo para si, vi-me
tão atribulada, que comecei a chorar muito e a afligir-me.
Isto não foi só uma vez, mas muitas - como digo - que me dava, me
parece, uma tal zanga contra mim mesma, que então me aborreço
em forma. Mas o normal é entender de mim que não tenho
aborrecimento nem falto ao que vejo me é necessário. E praza ao
Senhor que não tome muito mais do que é preciso, que é o que eu
farei.
Desta vez que digo, estando nesta pena, me apareceu o Senhor e me
consolou muito e me disse que fizesse eu estas coisas por amor
d'Ele e passasse por elas, pois a minha vida era agora necessária. E
assim me parece que nunca me vi em pena, depois que estou
determinada a servir com todas as minhas forças a este Senhor e
Consolador meu, que, embora me deixasse padecer um pouco, não
me consolasse, de maneira que não faço nada em desejar trabalhos.
E assim, agora me parece que não tenho razão para viver senão para
isto. E é o que de melhor vontade peço a Deus, e digo-Lhe, algumas
vezes, com toda ela: Senhor, ou morrer ou padecer; não Vos peço
outra coisa para mim. Dá-me consolo ouvir o relógio, porque me
parece que isso me aproxima um pouquinho mais de ver a Deus, pois
vejo já passada aquela hora da vida.
21. Outras vezes estou de modo que nem me sinto viver, nem me
parece ter vontade de morrer. Mas estou com uma tibieza e
escuridão em tudo, como disse, que tenho muitas vezes, por causa
de grandes trabalhos. E tendo o Senhor querido que se saibam em
público estas graças que Sua Majestade me faz, como me disse há
alguns anos, que haviam de ser, isto me afligiu muito e até agora
não tenho padecido pouco, como V. Mercê sabe, porque cada um o
toma como lhe parece.
Consolação me tem sido, todavia, o não ser
por minha culpa; porque, em não o dizer senão a meus confessores
ou a pessoas que eu sabia por eles que o sabiam, tenho tido grande
e extremo cuidado. Não por humildade; senão porque, como tenho
dito, até aos mesmos confessores me dava pesar dizê-lo.
Agora, graças a Deus, embora muito de mim murmurem com bom
zelo, outros temam tratar comigo, mesmo confessar-me, e outros me
digam muitas coisas, como vejo que por este meio quis o Senhor
dar remédio a muitas almas (porque isto tenho eu visto claramente,
e me recordo do muito que por uma só passaria o Senhor) muito
pouco se me dá de tudo dó que de mim dizem.
Não sei se para isto contribuiu o ter-me Sua Majestade metido neste
rincãozinho tão encerrado e onde já pensei que, como de coisa morta,
não haveria mais memória de mim. Mas não tem sido tanto como eu
quisera; pois forçoso é ter de falar com algumas pessoas; porém,
como estou onde me não vêem, parece que foi o Senhor servido de
me trazer a um porto, que espero em Sua Majestade, será seguro.
22 . Por estar já fora do mundo, e entre pouca e santa companhia
olho como de alto e já bem pouco se me dá do que,digam ou se
saiba. Em mais teria eu, se uma alma aproveitasse um pouquinho, do
que tudo quanto de mim se possa dizer. Depois que estou aqui, tem
o Senhor sido servido que todos os meus desejos parem nisto. E
tem-me dado como que uma espécie de sono na vida, que quase
sempre me parece que estou sonhando o que vejo. Nem
contentamento, nem pena, que seja muita, vejo em mim. Se algumas
coisas me dão alguma pena, passa com tanta brevidade que, eu me
maravilho e o sentimento que deixa é como uma coisa que se
sonhou.
E isto é pura verdade, porque, embora eu depois me queira alegrar
com aquele contento, ou ter pesar daquela pena, não está na minha
mão; assim como não estaria na de uma pessoa discreta o ter pesar
ou glória dum sonho que sonhou. É que o Senhor já despertou a
minha alma daquilo que, por eu não estar mortificada e morta às
coisas do mundo, me tinha feito sentimento, e Sua Majestade não
quer que ela se torne a cegar.
23. Desta maneira vivo agora, Senhor e Pai meu. Suplique V.
Mercê a Deus que me leve para Si ou me dê em que O sirva. Praza à
Sua Majestade que isto que aqui vai escrito faça algum proveito a V.
Mercê, pois, pelo pouco tempo que tenho, foi feito com trabalho.
Mas ditoso trabalho, se acertei a dizer alguma coisa pela qual uma
vez se louve o Senhor; que com isto me daria por paga, embora V.
Mercê logo o queime.
24. Não quereria, no entanto, que o fizesse sem que isto vissem as
três pessoas que V. Mercê sabe, pois são e têm sido confessores
meus. E se isto vai mal, é bem que percam a boa opinião que têm de
mim. Se vai bem, são bons e letrados; sei que verão de onde me vem
è louvarão a Quem por mim o disse.
Sua Majestade tenha sempre a V. Mercê de Sua mão e o faça um tão
grande santo que, com sua luz e espírito, alumie esta miserável,
pouco humilde e muito atrevida, que ousou determinar-se a escrever
coisas tão subidas. Praza ao Senhor não tenha eu nisto errado,
tendo intenção e desejo de acertar e obedecer e que, por meu
intermédio, se louvasse em alguma coisa ao Senhor, que é o que há
muitos anos Lhe suplico. E, como me faltam para isto as obras,
atrevi-me a pôr aqui por ordem esta minha desbaratada vida, embora
não tenha empregado nisto mais cuidado, nem mais tempo do que
tem sido preciso para escrevê-la, pondo apenas o que por mim tem
passado com toda a lisura é verdade que tenho podido.
Praza ao Senhor, pois é poderoso e, se quer, pode, querer que em
tudo eu acerte a fazer a Sua vontade, e não permita Sua Majestade
se perca esta alma que, com tantos artifícios e maneiras, e tantas
vezes, tem tirado do inferno e trazido a Si. Amém.

CAPÍTULO 40. Prossegue na mesma matéria dizendo as
grandes graças que o Senhor lhe fez. De algumas delas se
pode tirar muito boa doutrina. Conforme tem dito, a sua
principal tentativa, depois de obedecer, tem sido de escrever as
graças que são para proveito das almas. Com este capítulo
acaba a narração que escreveu da sua vida. Seja para glória
do Senhor.
1. Estando uma vez em oração, era tanto o deleite que em mim senti
que, como indigna de tal bem, comecei a pensar que muito mais
merecia estar naquele lugar que eu tinha visto preparado no inferno
para mim, pois, como tenho dito, nunca esqueço o modo como ali
me vi.
Com esta consideração, começou a inflamar-se mais a minha alma e
veio-me um arrebatamento. de espírito, de modo que o não sei dizer.
Pareceu-me que o meu espírito estava metido e cheio daquela
Majestade que tenho entendido de outras vezes. Nesta Majestade
deu-se-me a entender uma verdade que é complemento de todas as
verdades; mas não sei dizer como, porque nada vi?
Disseram-me, sem ver quem tinha sido, mas bem entendi ser a
mesma Verdade: Não é pouco isto que faço por ti; é uma das coisas
em que muito me deves; porque todo o dano que vem ao mundo é
de não se conhecerem as verdades da Escritura com clara verdade,
da qual não ficará um til por cumprir.
Pareceu-me, a mim, que nisto sempre eu tinha acreditado e que
todos os fiéis o creem. Disse-me porém: Ai, filha, quão poucos me
amam com verdade. Se Me amassem, não lhes encobriria eu meus
segredos. Sabes o que é amar-Me com verdade? É compreender
que. tudo quanto Me não é agradável a Mim é mentira, Com clareza
verás isto que agora não entendes, pelo fruto que sentires em tua
alma.
2. E assim o tenho visto, seja o Senhor louvado, que então para cá,
parece-me tanta vaidade e mentira tudo o que eu vejo que não vai
dirigido ao serviço de Deus, que eu não saberia dizer até que ponto
o entendo, e a lástima que me fazem os que vejo em trevas a
respeito desta verdade.
Com isto vieram-me outros lucros que agora
direi, ainda que muitos não saberei dizer. Disse-me aqui o Senhor
uma particular palavra de grandíssimo favor.' Eu não sei como isto
foi, porque nada vi; mas fiquei de sorte que tão pouco sei dizer, com
uma grandíssima fortaleza, e isto muito deveras, para cumprir com
todas as minhas forças a mais pequena parcela da Escritura divina.
Parece-me que nenhuma coisa se me poria diante que eu não
padecesse por isto.
3. Desta divina Verdade .que se me representou, sem saber como
nem quê, ficou-me impressa uma verdade que me faz ter um novo
acatamento a Deus, porque dá um conhecimento de Sua Majestade e
do Seu poder e isto de uma maneira que não se pode dizer. Sei
somente entender que é grande coisa um tal dom.
Ficou-me uma grandíssima vontade de não falar senão em coisas
muito verdadeiras que estejam acima do trato que se usa aqui no
mundo; e assim comecei a ter pena de viver nele. Deixou-me esta
mercê com grande ternura, deleite e humildade. Parece-me, sem
entender como, que o Senhor me deu aqui muito. Não me ficou
suspeita alguma de que fosse ilusão.
Nada vi, mas compreendi o grande bem que há em não fazer caso de
coisa que não seja para nos achegarmos mais a Deus, e assim
entendi o que é andar uma alma na verdade diante da mesma
Verdade. Isto, que entendi, é dar-me o Senhor a entender que Ele é a
mesma Verdade.
4. Compreendi tudo isto que tenho dito, falando-me Ele algumas
vezes, e outras sem me falar, deram-se-me a entender algumas com
mais claridade do que as que se me diziam por palavras. Aprendi
grandíssimas verdades sobre esta Verdade, até mais do que se
muitos letrados mo tivessem ensinado. Parece-me que de nenhum
modo eles mo poderiam imprimir assim no espírito, nem tão
claramente se me daria a entender a vaidade deste mundo.
Esta Verdade, que digo se me deu a entender, é em si mesma
verdade e não tem princípio nem fim, e todas as demais verdades
dependem desta Verdade, como todos os demais amores deste
Amor e todas as demais grandezas desta Grandeza. Isto vai, no
entanto, obscuro em comparação da claridade com que o Senhor
quis que se me desse a entender. E como resplandece o poder desta
Majestade, pois em tão breve tempo deixa tão grande lucro e tais
coisas impressas na alma!
Oh! Grandeza e Majestade minha! Que fazeis, Senhor meu Todo poderoso?
Vede a quem fazeis tão soberanas graças! Não Vos
recordais que esta alma foi um abismo de mentiras e um mar de
vaidades, e tudo por minha culpa; e apesar de me terdes dado por
natureza de aborrecer o mentir, eu mesma me forcei a tratar em
muitas coisas com mentira? Como se sofre, Deus meu, como se
compadece tão grande favor e graça com quem tão mal vo-Lo tem
merecido?
5. Estando uma vez nas Horas com todas as irmãs, de repente se
recolheu minha alma, e pareceu-me ser toda ela como um claro
espelho. Não havia costas, nem lados, nem alto, nem baixo que não
fosse tudo claridade; e no centro dela se me representou Cristo
Nosso Senhor, como O costumo ver. Parecia-me que em todas as
partes da minha alma O via tão clara- mente como num espelho, e
esse espelho - não sei dizer como - também se esculpia todo no
mesmo Senhor por uma comunicação muito amorosa que eu não
saberei explicar.
Sei que esta visão me serve de grande proveito de cada vez que dela
me recordo, em especial quando acabo de comungar: Deu-se-me a
entender que, estar uma alma em pecado mortal, é cobrir-se este
espelho de densa névoa e ficar muito negro, e assim nele não se
pode refletir, nem ver este Senhor, embora esteja sempre presente
dando-nos o ser.
Com os hereges é como se o espelho, estivesse
quebrado, o que é muito pior que obscurecido. É muito diferente, o
como se vê, do como se diz, porque mal se pode dar a entender. Mas
tem-me feito muito proveito e grande pesar das vezes que, com
minhas culpas, obscureci a minha alma de modo, a não ver este
Senhor.
6. Parece-me proveitosa esta visão às pessoas que, se dão ao
recolhimento, para as ensinar a considerar o Senhor no mais íntimo
da sua alma. Esta consideração prende mais e é muito mais frutuosa
do que considera-'O fora de si, como de outras vezes tenho dito.
Nalguns livros de oração está escrito que é onde se há de buscar a
Deus; em especial o diz o glorioso Santo Agostinho, que nem nas
praças nem nos conventos, nem em parte alguma onde O buscava,
O encontrava, como dentro de si. E isto é claramente o melhor, pois
não é necessário ir ao Céu, nem procurar mais longe nem fora de
nós mesmos; porque é cansar o espírito e distrair a alma, e não com
tanto fruto.
7. Uma coisa quero advertir aqui, para se alguém a tiver, que
acontece nos grandes arroubamentos.. Passado aquele momento
em que a alma está em união (que tem as potências totalmente
absortas, e isto dura pouco como tenho dito), acontece ficar a alma
recolhida e até sem poder voltar a si no exterior, mas as duas
potências, memória e entendimento, ficam quase com frenesi,
muito desatinadas. Isto, digo, acontece algumas vezes,
especialmente nos princípios. Penso que isto procede de não poder
sofrer a nossa fraqueza natural tanta força de espírito e enfraquece a
imaginação.
Sei que isto sucede a algumas pessoas. Parecer-me-ia
bom que se esforçassem a deixar, por então, a oração e a tivessem
em outra altura, recuperando assim aquele tempo de oração que
perdem, mas que não seja por junto, porque daí poderá advir muito
mal. Disto há experiência e de quão acertado é olhar ao que pode a
nossa saúde.
8. Em tudo é preciso experiência e mestre porque, chegada a alma a
estes termos, oferecer-se-ão muitas coisas em que é preciso ter com
quem o tratar. E, se buscando mestre não o achar, o Senhor não lhe
faltará, pois não me faltou a mim sendo eu a que sou. Porque creio
haver poucos que tenham chegado a ter experiência de tantas
coisas; e se não a têm, debalde dão remédio à alma sem a inquietar
e afligir.
Mas isto também tomará o Senhor em conta, e assim o
melhor é tratá-lo (como já tenho dito de outras vezes, e, até mesmo
tudo quanto agora digo, que não me lembro bem se já o disse
porquanto, vejo que importa muito), em especial se são mulheres
que tratem estas coisas com o confessor. E há muitas mais
mulheres de que homens a quem o Senhor faz estas mercês, e isto
ouvi ao santo Frei Pedro de Alcântara (e também o tenho visto eu)
que dizia que, neste caminho, aproveitavam elas muito mais que os
homens, e dava disto excelentes razões, que não há para que dizê-las
aqui, todas em favor das mulheres.
9. Estando uma vez em oração, representou-se-me muito
brevemente (sem ver coisa alguma formada, mas foi representação
feita com toda a clareza) como se vêem em Deus todas as coisas e
como Ele as contém todas em Si. Saber escrever como isto foi, eu
não sei, mas ficou muito impresso na minha alma, e é uma das
grandes graças que o Senhor me tem feito e das que mais me
fizeram confundir e envergonhar, recordando-me os pecados que
cometi.
Creio que, se o Senhor fosse servido de que eu visse isto noutros
tempos, e que o vissem os que O ofendem, não teriam coração nem
atrevimento para o fazer. Pareceu-me [ter, visto o que, segue] sem
eu poder, no entanto, afirmar que vi alguma coisa; digo-o desde já.
Qualquer coisa sé deve ver porém, pois eu poderei dar esta
comparação; mas é por modo tão sutil e delicado, que o
entendimento não o deve alcançar, ou será que eu não me sei
entender nestas visões, que não parecem imaginárias, e em
algumas, alguma coisa de imagem deve haver. Mas, como é estando
a alma em arroubamento, as potências não o sabem depois
reproduzir como ali: o Senhor lho representa e quer que o gozem.
10. Digamos, pois, que a Divindade é como um muito claro diamante,
muito maior que todo o mundo, ou como um espelho - conforme
disse da alma na outra visão, à exceção de ser por um modo tão
sublime; que eu não o saberei encarecer - e que tudo o que fazemos
se vê neste diamante, sendo ele de maneira que encerra tudo em si,
porque não há nada que saia fora desta grandeza. Coisa espantosa
foi para mim ver, em tão breve espaço, tantas coisas juntas neste
claro diamante, e lastimosíssima coisa é, cada vez que me recordo,
ver que coisas tão feias; como eram meus pecados, se refletiam
naquela límpida claridade.
E assim é que, quando me recordo, não
sei como o posso suportar, e fiquei então tão envergonhada que me
parece não sabia onde me meter.
Oh! quem pudesse dar isto a entender aos que muito desonestos è
feios pecados fazem, para que se lembrem que não são ocultos e
que, com razão, os sente Deus, e pois tão em presença de Sua
Majestade eles se fazem, e tão desacatadamente nos vemos
diante d'Ele!
Vi com quanta razão se merece o inferno por um só pecado mortal;
porque não se pode entender quão gravíssima coisa é cometê-lo
diante de tão grande Majestade, e como são alheias, a quem Ele é,
coisas semelhantes. E assim se vê mais a Sua misericórdia, pois
conhecendo nós tudo isto, Ele nos sofre.
11. Isto tem-me feito considerar que, se uma visão como esta assim
deixa espantada a alma, o que será o dia do juízo, quando esta
Majestade claramente se nos mostrar e virmos as ofensas que Lhe
temos feito? Oh! Valha-me Deus, que cegueira, esta que eu .tenho
trazido! Muitas vezes me tenho espantado disto que tenho escrito, e
não se espante V Mercê, senão de como ainda vivo vendo estas
coisas e vendo-me a mim. Seja bendito para sempre Quem tanto me
tem sofrido.
12. Estando uma vez em oração com muito recolhimento, suavidade
e quietude, parecia-me estar rodeada de anjos e muito perto de
Deus. Comecei a suplicar a Sua Majestade pela Igreja. Deu-me a
entender o grande proveito que, nos últimos tempos, há de fazer
uma Ordem e a fortaleza com que seus filhos hão de sustentar a Fé.
13. Estando uma vez rezando perto do Santíssimo Sacramento,
apareceu-me um Santo cuja Ordem tem estado um tanto decaída:
Tinha nas mãos um grande livro, abriu-o e disse-me que lesse umas
letras, que eram grandes e muito legíveis e diziam assim: Nos
tempos vindouros florescerá esta Ordem; haverá muitos mártires.
14. Outra vez, estando no Coro em Matinas, representaram-me e
se puseram diante dos olhos seis ou sete religiosos que me parece
seriam desta mesma Ordem; com espadas na mão. Penso que nisto
se dá a entender que hão-de defender a Fé; porque, de outra vez,
estando em oração, me arrebatou o espírito e pareceu-me estar
num grande campo onde muitos combatiam, e estes, os desta
Ordem, pelejavam com grande fervor. Tinham os rostos formosos e
abrasados e deitavam muitos por terra, vencidos, e a outros
matavam. Parecia-me que esta batalha era contra os hereges.
15. A este glorioso Santo tenho visto algumas vezes, e tem-me dito
algumas coisas, e agradecido a oração que faço pela sua Ordem e
prometido de me encomendar ao Senhor. Não declaro as Ordens,
para que não se agravem outras; se o Senhor for servido que se
saiba, Ele o declarará. Mas cada Ordem, ou cada membro de per si,
havia de procurar que, por seu meio fizesse o Senhor tão ditosa a
sua Ordem que, em tão grande necessidade, como agora tem a
Igreja, a servissem. Ditosas vidas que nisto se acabarem!
16. Pediu-me, uma vez, uma pessoa, que suplicasse eu a Deus lhe
desse a entender se seria do Seu serviço aceitar um bispado. Disse-me
o Senhor, acabando eu de comungar: Quando entender com toda
a verdade e clareza que o verdadeiro senhorio é não possuir coisa
alguma, então o poderá aceitar, dando a entender que, quem tiver de
ter prelazias, há-de estar muito longe de as desejar e querer, ou, pelo
menos, não as há de procurar.
17. Estas graças e outras muitas tem feito o Senhor e faz
sempre a esta pecadora que, parece-me, não há necessidade de as
dizer, pois pelo já dito se pode conhecer minha alma e o espírito que
o Senhor me tem dado. Seja bendito para sempre, que tanto cuidado
tem tido de mim!
18. Disse-me Ele uma vez, consolando-me com muito amor, que não
me afligisse, pois nesta vida não podíamos estar sempre num
mesmo estado. Umas vezes teria fervor e outras vezes estaria sem
ele; umas com desassossego e outras com quietude e tentações,
mas que esperasse n'Ele e não temesse.
19. Estava eu um dia pensando se seria apego o gostar de estar com
as pessoas com quem trato da minha alma e ter-lhes amor, e aos
que vejo muito servos de Deus, pois me consolava com eles. Disse-me
o Senhor que, se a um enfermo, que está em perigo de morte,
julga que lhe dá saúde um médico, não é virtude deixar de lhe
agradecer e de não lhe ter amizade. Que teria eu feito se não fosse
pela ajuda destas pessoas? A conversação dos bons não danifica,
mas que as minhas palavras fossem sempre pesadas e santas, e não
deixasse de tratar com eles, pois antes me seria de proveito que
dano.
Consolou-me isto muito, porque algumas vezes parecendo-me
apego, quereria não os tratar de todo. Sempre, em todas as coisas,
me aconselhava este Senhor, até dizer-me como me havia de haver
com os fracos e com algumas pessoas. Jamais se descuida de mim.
20. Algumas vezes estou aflita de me ver de tão pouco préstimo em
Seu serviço e de ver que, por força, hei de ocupar mais tempo do
que queria, com corpo tão fraco e ruim como é o meu. Estava eu
uma vez em oração e chegou a hora de ir dormir. Estava com muitas
dores, esperava pelo vômito do costume. Como me vi tão atada por
mim mesma e o espírito, por outra parte, querendo tempo para si, vi-me
tão atribulada, que comecei a chorar muito e a afligir-me.
Isto não foi só uma vez, mas muitas - como digo - que me dava, me
parece, uma tal zanga contra mim mesma, que então me aborreço
em forma. Mas o normal é entender de mim que não tenho
aborrecimento nem falto ao que vejo me é necessário. E praza ao
Senhor que não tome muito mais do que é preciso, que é o que eu
farei.
Desta vez que digo, estando nesta pena, me apareceu o Senhor e me
consolou muito e me disse que fizesse eu estas coisas por amor
d'Ele e passasse por elas, pois a minha vida era agora necessária. E
assim me parece que nunca me vi em pena, depois que estou
determinada a servir com todas as minhas forças a este Senhor e
Consolador meu, que, embora me deixasse padecer um pouco, não
me consolasse, de maneira que não faço nada em desejar trabalhos.
E assim, agora me parece que não tenho razão para viver senão para
isto. E é o que de melhor vontade peço a Deus, e digo-Lhe, algumas
vezes, com toda ela: Senhor, ou morrer ou padecer; não Vos peço
outra coisa para mim. Dá-me consolo ouvir o relógio, porque me
parece que isso me aproxima um pouquinho mais de ver a Deus, pois
vejo já passada aquela hora da vida.
21. Outras vezes estou de modo que nem me sinto viver, nem me
parece ter vontade de morrer. Mas estou com uma tibieza e
escuridão em tudo, como disse, que tenho muitas vezes, por causa
de grandes trabalhos. E tendo o Senhor querido que se saibam em
público estas graças que Sua Majestade me faz, como me disse há
alguns anos, que haviam de ser, isto me afligiu muito e até agora
não tenho padecido pouco, como V. Mercê sabe, porque cada um o
toma como lhe parece.
Consolação me tem sido, todavia, o não ser
por minha culpa; porque, em não o dizer senão a meus confessores
ou a pessoas que eu sabia por eles que o sabiam, tenho tido grande
e extremo cuidado. Não por humildade; senão porque, como tenho
dito, até aos mesmos confessores me dava pesar dizê-lo.
Agora, graças a Deus, embora muito de mim murmurem com bom
zelo, outros temam tratar comigo, mesmo confessar-me, e outros me
digam muitas coisas, como vejo que por este meio quis o Senhor
dar remédio a muitas almas (porque isto tenho eu visto claramente,
e me recordo do muito que por uma só passaria o Senhor) muito
pouco se me dá de tudo dó que de mim dizem.
Não sei se para isto contribuiu o ter-me Sua Majestade metido neste
rincãozinho tão encerrado e onde já pensei que, como de coisa morta,
não haveria mais memória de mim. Mas não tem sido tanto como eu
quisera; pois forçoso é ter de falar com algumas pessoas; porém,
como estou onde me não vêem, parece que foi o Senhor servido de
me trazer a um porto, que espero em Sua Majestade, será seguro.
22 . Por estar já fora do mundo, e entre pouca e santa companhia
olho como de alto e já bem pouco se me dá do que,digam ou se
saiba. Em mais teria eu, se uma alma aproveitasse um pouquinho, do
que tudo quanto de mim se possa dizer. Depois que estou aqui, tem
o Senhor sido servido que todos os meus desejos parem nisto. E
tem-me dado como que uma espécie de sono na vida, que quase
sempre me parece que estou sonhando o que vejo. Nem
contentamento, nem pena, que seja muita, vejo em mim. Se algumas
coisas me dão alguma pena, passa com tanta brevidade que, eu me
maravilho e o sentimento que deixa é como uma coisa que se
sonhou.
E isto é pura verdade, porque, embora eu depois me queira alegrar
com aquele contento, ou ter pesar daquela pena, não está na minha
mão; assim como não estaria na de uma pessoa discreta o ter pesar
ou glória dum sonho que sonhou. É que o Senhor já despertou a
minha alma daquilo que, por eu não estar mortificada e morta às
coisas do mundo, me tinha feito sentimento, e Sua Majestade não
quer que ela se torne a cegar.
23. Desta maneira vivo agora, Senhor e Pai meu. Suplique V.
Mercê a Deus que me leve para Si ou me dê em que O sirva. Praza à
Sua Majestade que isto que aqui vai escrito faça algum proveito a V.
Mercê, pois, pelo pouco tempo que tenho, foi feito com trabalho.
Mas ditoso trabalho, se acertei a dizer alguma coisa pela qual uma
vez se louve o Senhor; que com isto me daria por paga, embora V.
Mercê logo o queime.
24. Não quereria, no entanto, que o fizesse sem que isto vissem as
três pessoas que V. Mercê sabe, pois são e têm sido confessores
meus. E se isto vai mal, é bem que percam a boa opinião que têm de
mim. Se vai bem, são bons e letrados; sei que verão de onde me vem
è louvarão a Quem por mim o disse.
Sua Majestade tenha sempre a V. Mercê de Sua mão e o faça um tão
grande santo que, com sua luz e espírito, alumie esta miserável,
pouco humilde e muito atrevida, que ousou determinar-se a escrever
coisas tão subidas. Praza ao Senhor não tenha eu nisto errado,
tendo intenção e desejo de acertar e obedecer e que, por meu
intermédio, se louvasse em alguma coisa ao Senhor, que é o que há
muitos anos Lhe suplico. E, como me faltam para isto as obras,
atrevi-me a pôr aqui por ordem esta minha desbaratada vida, embora
não tenha empregado nisto mais cuidado, nem mais tempo do que
tem sido preciso para escrevê-la, pondo apenas o que por mim tem
passado com toda a lisura é verdade que tenho podido.
Praza ao Senhor, pois é poderoso e, se quer, pode, querer que em
tudo eu acerte a fazer a Sua vontade, e não permita Sua Majestade
se perca esta alma que, com tantos artifícios e maneiras, e tantas
vezes, tem tirado do inferno e trazido a Si. Amém.

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