Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A rejeição da evangelização. Recordando a Santo Agostinho.


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A rejeição da evangelização. Recordando a Santo Agostinho



Nestor Mora Nunez - 28 agosto 2012 - religionenlibertad.com

CAPÍTULO II
Os que fogem de Deus

Afastem-se e fujam de ti os irrequietos e os pecadores. Tu os vês e distingues suas sombras. E eis que, apesar deles, todas as continuam belas; somente eles são feios. E que damos te poderiam causar? Ou em que poderia desonrar teu império, justo e íntegro desde os céus até as coisas mais ínfimas? E para onde fugiram, ao fugir de tua presença? E em que lugar não os encontrarás? Fugiram, sim, para não ver-te a ti, que os estás vendo, mas deparam contigo, que não abandonas nada do que criaste; tropeçaram contigo, injustos, e justamente são castigados; subtraindo-se á tua brandura, ofenderam tua santidade, e caíram sob teus rigores.

Evidentemente eles ignoram que estás em toda parte, que nenhum lugar te limita, e que só tu estás presente mesmo nos que se afastam de ti.

Que se convertam, pois, e te busquem, porque não abandonas tua criatura, como elas abandonaram a seu Criador. Que se convertam, e logo estarás em seus corações, nos corações dos que te confessam, dos que se lançam em ti, dos que choram em teu regaço depois de percorrerem penosos caminhos. E tu, bondoso, enxugarás suas lágrimas; e chorarão ainda mais, mas serão felizes por chorar, porque és tu, Senhor, e nenhum homem de carne e sangue, tu, Senhor, que os criaste, que os consolas e robusteces.

E onde estava eu quando te buscava? Certamente, estavas diante de mim, mas eu me havia afastado de mim mesmo, e não me encontrava, e muito menos de ti! (Confissões de Santo Agostinho V Livro cap 2)


Hoje se celebra a festa de Santo Agostinho, o doutor da Graça. Peguei este breve parágrafo do começo das Confissões porque ilustra o grande problema que nós encontramos ao tentar evangelizar a sociedade atual: as pessoas não conhecem a si mesmas e inclusive lutam para não se conhecerem. Temem ser conscientes de seus próprios desejos, porque isto poderia ser problema no modelo de mundo ao qual estão inseridos.

No texto, Santo Agostinho pergunta a Cristo onde estava quando ele o buscava. Conclui que o mesmo se havia apartado de seu próprio ser e andava perdido. 

Como podemos aproximar-nos de tantas pessoas que se machucam dolorosamente em si mesmos? Qualquer tentativa que fazemos produz rejeição e mais dor. Nos rejeitam com más palavras e acusações infundadas. Quanta dor meu Deus! E que pouca consciência da causa de tanta desdita. Dizia o franciscano Eloy Leclerc em seu livro “Sabedoria de um Pobre”:

“Evangelizar a um homem é dizer-lhe: “Tu também és amado de Deus no Senhor Jesus”. Não só dizê-lo, mas pensar realmente. E não só pensar, mas portar-se com esse homem de tal maneira que se sinta e descubra que há nele ‘algo de salvo’, algo mais nobre do que ele pensava, e assim se desperte para uma nova consciência de si” 

Mas como tentar sarar as feridas quando só nossa presença já causa dor? Este é um dos maiores logros do inimigo, fazer-nos temer a luz que nos machucam os olhos quando ousamos entreabri-los. Nossa sociedade criou muitos bons anticorpos para manter-nos na raia e vencer esses anticorpos é impossível por nós mesmos. És Tu “Senhor, e não nenhum homem, carne e sangue, és tu, Senhor, que lhes fizestes, que lhes repara e consola.”

É preciso estarmos conscientes de que nós enfrentamos a uma contínua e violenta rejeição. Não podemos esperar conversões em massa, como no primeiro Pentecostes. No final  podemos ter a esperança de um contínuo e lento gotejamento de pessoas que se acerquem de nós para conhecer Cristo através de nós. Delas, alguma poderá encontrar o caminho se abre a porta de seu coração a Cristo. Devemos nos sentir fracassados por tão pouca eficácia? Decididamente não. Sentir o fracasso quando nós mesmos somos evidência do êxito de Deus, é impensável.

Não temos sentido que há algo de salvo em nós e a alegria que isso implica. Sintamo-nos alegres e ditosos para transmitir essa alegria e sorte. Se quem nos vê nos encontra abatidos e tristes, o que pensará da Boa Notícia que teoricamente portamos?

Onde encontrar essa alegria? Temos a comunidade e a proximidade de Deus. Ambas são insubstituíveis e imprescindíveis. Dizia Santo Agostinho: 

“Porém te pergunto: por que queres que vivam ou permaneçam contigo teus amigos, a quem amas? Para buscar em amistosa concórdia o conhecimento de Deus e da alma. Deste modo, os primeiros a chegar à verdade podem comunicá-la sem trabalho aos otros” (Solilóquios 1, 12, 20) 

Sem dúvida, as pessoas que nos rejeitam tem tido sua oportunidade. Mais não podemos fazer do nosso lado. Tudo fica entre elas e Deus. Oremos por sua conversão e sigamos dando testemunho com nossa própria vida. Embora pareça difícil, façamos o que Cristo disse aos seus discípulos: “Se não os receberem, ao sair dessa cidade sacudam até o pó de seus pés, em testemunho contra eles”(Lc 9,5), ou seja, não nos sintamos afetados pela rejeição que temos vivido. Nãofoi uma rejeição a nós, mas a Cristo através de nós: “Felizes vocês, quando forem insultados e perseguidos, e quando os caluniem de toda forma por causa de mim. Alegrem-se e regozijem-se então, porque vocês terão uma grande recompensa no céu; da mesma maneira perseguiram os profetas que os precederam.”(Mt 5,11-12) 

Que consolo, pensarão. Que nos rejeitem quando levamos o melhor presente que temos é difícil. Mas necessita que seja consciente que tanto a Pérola Valiosa como o Tesouro (Parábolas do Reino: Mt 13, 44-46), devem ser comprados por quem os deseja e não presenteados sem esforço. No final, nós podemos dar testemunho de onde estão enterrados. À cada qual corresponde vender tudo o que tem para fazer-se um com eles.

Nestor Mora Nunez: é autor, editor e responsável pelo Blog 'A divina proporção', alojado no espaço da web: www.religionenlibertad.com

Sou católico, casado com três filhos no mundo. Nasci em 1965 em São José (Costa Rica) de pai costa-riquense e mãe espanhola, pelo qual me orgulho de ser espanhol da América. Estudei no colégio Santa Catarina de Sena na Costa Rica e São Felipe Neri em Cádiz (Espanha). Minha formação universitária parte da engenharia eletrônica, mas foi evoluindo para o campo dos computadores, conhecimento e novas tecnologias de informação.

No plano de serviço à Igreja me ocupo do desenho e manutenção de diversas webs de associações católicas e da web de minha paróquia.


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sábado, 25 de agosto de 2012

A idolatria plutônica - O dinheiro se multiplica, repartindo-se entre todos seus adoradores, a troca da entrega completa de seu ser.


ReligionenLibertad.com

A idolatria plutônica

 

O dinheiro se multiplica, repartindo-se entre todos seus adoradores, a troca da entrega completa de seu ser.

Juan Manuel de Prada -  6 agosto 2012 - religionenlibertad.com

Chamamos «idolatria plutônica» (em honra a Plutão, o deus pagão das riquezas, que não em vão era também o deus do mundo inferior ou inferno) a transformação do dinheiro -um mero sinal que representa a riqueza real das nações- em um fantasma que se multiplica pela arte de bilboquê e se transmite por impulsos electrônicos, desligado da riqueza real.

Esta transformação «prodigiosa» do dinheiro, que é na realidade um falso prodígio de vapor de enxofre, exige de quem a aceita uma fé quase religiosa ou idolátrica; pois, faltando essa fé, o mero sentido comum nos ensinaria que tal metamorfose é impossível.

Na Europa e a fé, Belloc vinculava muito perspicazmente o nascimento desta idolatria plutônica com a extensão do ateísmo entre os «ricos imorais»; no que não faz senão corroborar a afirmação do evangelho: «Ninguém pode servir a dois senhores; porque odiará a um e amará ao outro; ou se entregará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro».

Nesta metamorfose há uma espécie de paródia da Eucaristia: o dinheiro se multiplica exponencialmente, repartindo-se entre todos seus adoradores, a troca da entrega completa de seu ser, em corpo e alma; mas, como ocorre sempre nas paródias, se trata de uma imitação desnaturada, desencarnada, pura tramóia de farsantes.

Todos sabemos como funciona tal multiplicação (ainda que finjamos ignorar, pois a idolatria plutônica requer, para não desvanecer-se por completo no ar, que sua mentira seja abrangida entre todos, como na fábula do rei nu): você deposita dez euros numa conta bancária, nove dos quais são empregados pelo banco para conceder um empréstimo a tal ou qual empresa, que com eles paga dividendos aos seus acionistas, que por sua vez os depositam em outra conta bancária cujos fundos o banco torna a empregar para conceder outro empréstimo, e assim ad infinitum.

No final, se terão emprestado cem ou mil euros, a partir dos dez euros primeiros que você depositou no banco. Mas o dinheiro não se multiplica eucarísticamente; e, chegada a hora de satisfazer as dívidas que nesse processo se originaram, não ficará outro remédio senão caçar os dez euros primeiros que você depositou no banco... e, em seguida arrancar quilos de sua própria carne.

Calcula-se que, na atualidade, os ativos financeiros gerados por esta paródia eucarística multiplicam ao menos por quinze o produto interior bruto mundial; mesmo sendo, na realidade, cálculos aproximativos, muito provavelmente um pálido reflexo da pavorosa realidade. E a esses ativos financeiros que multiplicam a riqueza real das nações por quinze recorrem os Estados para pagar sua dívida hipertrofiada... sabendo que contraem obrigações que só poderão satisfazer subtraindo recursos da economia real. Mas, como o dinheiro que se maneja na economia real é muito inferior ao dinheiro de fantasia  que gera a idolatria plutônica, os Estados devedores não podem enfrentar suas dívidas mediante medidas de arrecadação razoáveis: necessitam esculpir a riqueza real, ordená-la até deixá-la exausta, inerte, morta. Este é o processo no qual nos achamos imersos; e só admite duas soluções: ou se reconhece que a idolatria plutônica é uma fantasia, ou sucumbe a economia real.

É grave dizer que a Nova Ordem Mundial optou pela segunda, pois a primeira seria o colapso de todas as estruturas de poder que garantem sua hegemonia; e, na execução desse desígnio perverso -plutônico e infernal-, não vacilarão em arrancar-nos todas os quiloss de carne, até deixar-nos reduzidos em ossos. Vêm tempos de vergonha.

www.juanmanueldeprada.com

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sábado, 18 de agosto de 2012

SOLILÓQUIOS DE SANTO AGOSTINHO - CONHECIMENTO DE DEUS



CAPÍTULO III de SOLILÓQUIOS DE SANTO AGOSTINHO

CONHECIMENTO DE DEUS

8.R.– Está bem; mas, se alguém te dissesse: «te farei conhecer a Deus como conheces a Alípio», não agradecerias, dizendo: «Contento-me com isso»?

A.– Agradeceria, mas não me daria por satisfeito.

R.– Por que?

A.– Porque não conheço a Deus como o Alípio, e tampouco estou satisfeito com meu conhecimento deste.

R.– Veja bem, pois, se não será uma insolência querer conhecer suficientemente  Deus, quando não conheces o Alípio.

A.– Não vale o argumento; pois em comparação com os astros, que coisa há mais vil que minha ceia? E contudo, não sei o que cearei amanhã mas  sei a fase lunar em que estaremos.

R.– Satisfarias-te, pois, em conhecer Deus como conheces o sinal do curso lunar de amanhã?

A.– Não é bastante, porque isso pertence à esfera da percepção sensível, e não sei  se Deus ou alguma causa natural desconhecida mudará a ordem e curso lunar; e se isto acontece, derruba por terra toda minha previsão.

R.– E crês que isso é possível?

A.– Não, mas agora busco o saber, não a fé. E o que sabemos dizemos melhor do que o que cremos; mas não tudo o que cremos, sabemos.

R.– Então rechaças neste assunto o testemunho dos sentidos?

A.– Totalmente,

R.– Pois aquele teu amigo, ainda desconhecido para ti, segundo afirmas, como queres conhecê-lo: com os sentidos ou com o entendimento?

A.– O que pelos sentidos conheço dele –se é que por eles se pode conhecer algo– é de pouco valor e me basta; mas aquela parte pela qual lhe amo, isto é, a alma, quero alcançá-la com o entendimento.

R.– Pode conhecer-se de outra maneira?

A.– Não.

R.– E te atreves a dizer que desconheces um amigo tão íntimo e familiar?

A.– Por que não? Considero lei justíssima da amizade a que prescreve amar o amigo como a si mesmo. E como eu tampouco me conheço a mim mesmo, não é nenhuma injúria dizer que desconheço  um amigo, sobretudo quando nem ele mesmo se conhece, segundo creio.

R.– Se, pois, o que queres indagar agora é de natureza intelectual, quando te censurei como uma presunção o desejo de conhecer Deus sem conhecer Alípio, não vinha a propósito aquilo da ceia e da lua como exemplo, por serem coisas pertencentes ao domínio dos sentidos, segundo dizes.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"Deus, dar a ti as costas é morrer, voltar a ti é reviver, morar em ti é viver". Santo Agostinho de Hipona




SOLILÓQUIOS - Santo Agostinho de Hipona

PRIMEIRO LIVRO

CAPÍTULO I - PRECE A DEUS

1. Durante longo tempo andei considerando em meu interior muitos e diferentes assuntos, e tratando com empenho durante dias em conhecer a mim mesmo, o que devo fazer e o que tenho de evitar; de improviso uma voz me disse, não sei se era minha ou de outro, de fora ou de dentro (pois isso é o que principalmente quero esclarecer); me disse, pois, aquela voz:

Razão.– Vejamos, ponderando que já achei alguma verdade. A quem a encomendarás para seguir adiante?

Agostinho. –À memória.

R.– Porém ela é bastante firme para reter bem teus pensamentos?

A.– Difícil me parece, ou talvez, impossível.

R.– Depois é necessário escrever. Mas o que te ocorre, porque por tua saúde resistes ao trabalho de escrever? Veja: estas coisas não se podem ditar, pois requerem completa solidão.

A. Dizes a verdade. E por isso não sei o que fazer.

R.– Pede força e ajuda para consegui-lo, e coloque essa petição por escrito, para que escrevendo aumentem teus brios. Depois resume o que vais descobrindo em conclusões breves. Não te inquietes pelo que peça uma massa de leitores; isto bastará para teus escassos concidadãos.

A.– Eu o farei assim.

2. Deus, Criador de todas as coisas, dá-me primeiro a graça de rogar-te bem, depois faz-me digno de ser escutado e, por último, livra-me. Oh Deus, por quem todas as coisas que por si mesmas não existiriam, tendem ir ao ser.

Deus, que não permites que pereça nem aquele que se destrói a si mesmo. Deus, que criaste do nada este mundo, o mais belo que contemplam os olhos. Deus, que não és autor de nenhum mal e fazes que o mal não piore. Deus, que aos poucos que no verdadeiro ser buscam refúgio lhes mostras que o mal só é privação de ser. Deus, por quem a universalidade das coisas é perfeita, ainda com os defeitos que têm.

Deus, para quem até os confins do mundo nada é distoante, pois as coisas piores fazem harmonia com as melhores. Deus, a quem ama tudo o que é capaz de amar, seja consciente ou inconscientemente. Deus, em quem estão todas as coisas, mas sem enfeiar-te com sua feiúra nem danar-te com sua malícia ou extraviar-te com seu erro.

Deus, que só os limpos  quisestes que possuíssem a verdade. Deus, Pai da Verdade, Pai da Sabedoria e da vida verdadeira e somada, Pai da bem aventurança, Pai do bom e belo, Pai da luz intelegível, Pai que nos despertas e nos iluminas; Pai da Garantia que nos ensina a voltar a ti.

 3. A ti invoco, Deus Verdade, em quem, de quem e por quem são verdadeiras todas as coisas. Deus, Sabedoria, em ti, de ti e por ti sabem todos os que sabem. Deus, verdadeiro e suprema vida, em quem, de quem e por quem vivem as coisas que somam e verdadeiramente vivem. Deus bem aventurança, em quem, de quem e por quem são bem aventurados quantos são bem-aventurados.

Deus, Bondade e Beleza, princípio, causa e fonte de todo bem e beleza. Deus, Luz inteligível, em ti, de ti e por ti luz inteligivelmente tudo quanto inteligivelmente luz. Deus, cujo reino é todo o mundo, que não alcança os sentidos. Deus, a lei de cujo reino também nestes reinos se descreve. Deus, de quem separar-se é cair; a quem voltar é levantar-se; permanecer em ti é achar-se firme.

Deus, dar a ti as costas é morrer, voltar a ti é reviver, morar em ti é viver. Deus, a quem ninguém perde se não for enganado, a quem ninguém busca se não for avisado: a quem ninguém tem se não for purificado. Deus, deixar-te é perder-se; seguir-te é amar; ver-te é possuir-te. Deus, que nos desperta a fé, levanta a esperança, une a caridade. Invoco a ti, Deus, por quem vencemos o inimigo.

Deus, por cujo favor nós não temos perecido totalmente. Deus que nos exortas para que vigiemos. Deus, por quem discernimos os bens dos males. Deus, por quem evitamos o mal e seguimos o bem. Deus, por quem não sucumbimos às adversidades. Deus, a quem se deve nossa boa obediência e bom governo. Deus, por quem aprendemos que é alheio o que alguma vez acreditamos que é nosso e nosso o que acreditamos que é alheio.

Deus, graças a ti superamos os estímulos e elogios dos maus. Deus, por quem as coisas pequenas não nos diminuem. Deus, por quem o melhor de nós não está sujeito ao pior. Deus, por quem a morte será absorvida com a vitória. Deus, que nos convertes. Deus, que nos desnudas do que não é e vestes do que  é. Deus, que nos fazes dignos de sermos ouvidos. Deus, que nos defendes. Deus, que nos guias a toda verdade. Deus, que nos mostras todo bem, dando-nos sanidade mental e livrando-nos da estultícia alheia.

Deus, que nos devolves ao caminho. Deus, que nos levas até a porta. Deus, que fazes que seja aberta aos que chamam. Deus, que nos dás o Pão da vida. Deus, que nos dás a sede da bebida que nos sacia. Deus, que dás os argumentos contra o mundo do pecado, da justiça e juízo.

Deus, por quem não nos arrastam os que não creem. Deus, por quem reprovamos o erro  dos que pensam que as almas não têm nenhum mérito diante de ti. Deus, por quem não somos escravos dos servis e pobres elementos. Deus, que nos purificas e preparas para o divino prêmio, acode propício em minha ajuda.

4. Tudo quanto eu disse és tu, meu Deus único. Vem Tu em meu socorro, uma, eterna e verdadeira substância, onde não há nenhuma discordância, nem confusão, nem mudança, nem indigência, nem morte, onde há suma concórdia, suma evidência, soberano repouso, soberana plenitude e suma vida; onde nada falta nem sobra: onde o progenitor e o unigênito são uma mesma substancia.

Deus, a quem serve tudo o que serve, a quem obedece toda alma boa. Segundo tuas leis giram os céus e os astros realizam seus movimentos, o sol produz o dia, a lua comtempla a noite, e todo o mundo, segundo o permite sua condição material, conserva uma grande constância com as regularidades e revoluções dos tempos; durante os dias, com a mudança da luz e as trevas; durante os meses, com os crescentes e minguantes luares; durante os anos, com a sucessão da primavera, verão, outono e inverno; durante os lustros, com a perfeição do curso solar; durante grandes ciclos, pelo retorno dos astros a seus pontos de partida.

Deus, por cujas leis eternas não se perturba o movimento variado das coisas mudáveis e com o freio dos sécuos que correm se reduz sempre a certa semelhanza de estabilidade; por cujas leis ou livra ou argúis o humano e se distribuem os prêmios aos bons e os castigos aos maus, seguindo em tudo um ordem fixa. Deus, de ti procedem até nós todos os bens, tu apartas todos os males. Deus, nada existe sobre ti, nada fora de ti, nada sem ti.

Deus, tudo se acha debaixo de teu império, tudo está em ti, tudo está contigo. Tu criaste o homem à tua imagem e semelhança, como reconhece quem se conhece a si mesmo. Ouvi-me, escutai-me, atendei-me, Deus meu, Senhor meu, meu Rei, meu Pai, princípio e criador meu, esperança minha, herança minha, minha honra, minha casa, minha pátria, minha saúde, minha luz, minha vida. Escutai-me, escutai-me, escutai-me segundo teu estilo, por tão poucos conhecido.

5. Agora amo só ti, só a ti sigo e busco, só a ti estou disposto a servir, porque só tu reges com justiça; quero pertencer a tua jurisdição. Manda e ordena, te rogo, o que queiras, mas cura meus ouvidos para ouvir tua voz; cura e abre meus olhos para ver teus sinais; desterra de mim toda ignorância para que te reconheça. Diga-me aonde devo dirigir o olhar para ver-te, e espero fazer tudo o que mandares.

Recebe, te peço, ao teu fugitivo, Senhor, clementíssimo Pai; basta já com o que sofrestes; basta dos meus serviços ao teu inimigo, hoje me coloco debaixo de teus pés; basta de ser joguete da aparência falaz. Recebe-me como teu servo, que venho fugindo de teus contrários, que me retiveram sem pertencer-lhes, quando vivia longe de ti.

Agora compreendo a necesidade de voltar a ti; abre-me a puerta, porque estou chamando; ensina-me o caminho para chegar até ti. Só quero tua vontade; sei que o velho e transitório deve desprezar-se para ir em posse do seguro e eterno. Isto faço, Pai, porque só isto sei e ainda não conheço o caminho que leva até ti. Ensina-me, mostra-me, dá-me tua força para a viajem. Se com a fé chegam a ti os que te buscam, não me negues a fé; se com a virtude, dá-me a virtude; se com a ciência, dá-me a ciência. Aumenta em mim a fé, aumenta a esperança, aumenta a caridade. Oh que admirável e singular é tua bondade!



6. Volto e torno a pedir os meios para chegar até ti. Se tu me abandonas, a morte aparece sobre mim: mas tu não me abandonas, porque és o sumo Bem, e ninguém te buscou devidamente sem achar-te. E devidamente te buscou aquele que recebeu o dom de buscar-te como se deve. Que te busque, meu Pai, sem cair em nenhum erro; que ao buscar-te, ninguém me saia ao encontro em vez de ti.

Pois meu único desejo é possuir-te; ponde a meu alcance, te rogo, meu Pai; e se vês em mim algum apetite supérfluo, limpa-me para que possa ver-te. Enquanto a saúde corporal, não sabendo qual utilidade posso solocitar dela para mim ou para o bem dos amigos, a quem amo, a deixo em tuas mãos, Pai sapientíssimo e ótimo,  rogarei por esta necessidade, segundo oportunamente me indicares. Só agora imploro tua nobilíssima clemência para que me convertas plenamente a ti e desterres todas as repugnâncias que a isso se oponham, e no tempo que leve a carga deste corpo, faz que seja puro, magnânimo, justo e prudente, perfeito amante e conhecedor de tua sabedoria, digno de habitar e habitante de teu beatíssimo reino. Amém, amém.