
"Memórias da Serva de Deus Luisa Piccarreta"
DÉCIMA PRIMEIRA HORA
Das 3 às 4 da manhã
Jesus em casa de Caifás
Graças te dou, oh Jesus, por chamar-me à união contigo por meio da oração, e tomando teus pensamentos, tua língua, teu coração e fundindo-me toda em tua Vontade e em teu amor, estendo meus braços para abraçar-te e apoiando minha cabeça sobre teu coração começo:
Meu bem aflito e abandonado, enquanto minha débil natureza dorme em teu dolorido coração, meu sono frequentemente é interrompido pelas opressões de amor e de dor de teu coração divino, e entre a vigília e o sono ouço os golpes que te dão, e me desperto e digo:
“Pobre de meu Jesus, abandonado por todos, não há quem te defenda.”
Mas de dentro de teu coração eu te ofereço minha vida para servir-te de apoio no momento em que te fazem tropeçar e me adormeço de novo, mas outra opressão de amor de teu coração divino me desperta, e sinto ensurdecer pelos insultos que te dizem, pelas vozes, pelos gritos, pelo correr das pessoas.
Meu amor, como é que todos estão contra Ti? O que fizeste? Por que tantos lobos ferozes querem te despedaçar? Sinto que o meu sangue gela ao ouvir os preparativos de teus inimigos; eu tremo e estou triste pensando como farei para defender-te.
Mas meu aflito Jesus tendo-me em seu coração me estreita mais forte e me disse: “Minha filha, não fiz nada de mal e fiz tudo, oh, meu delito é o amor, que contém todos os sacrifícios, o amor de custo sem medida. Estamos ainda no princípio; tu estás em meu coração, observa tudo, ama-me, cala e aprende; faz que teu sangue gelado corra em minhas veias para dar alívio ao meu sangue que é toda chama; faz que teu tremor corra em meus membros afim de que fundida em Mim possas afirmar-te e acalentar-te para sentir parte de minhas penas, e ao mesmo tempo adquirir força ao ver-me sofrir tanto; esta será a mais bela defesa que me farás; seja fiel e atenta.”
Meu doce amor, é tal e tanto o barulho de teus inimigos que não me deixam dormir mais; os golpes se fazem mais violentos, ouço o rumor das correntes com que te ataram tão fortemente, que fazem sair sangue pelos pulsos, com o qual Tu marcas aqueles caminhos.
Recorda que meu sangue está no teu, e conforme Tu o derramas, o meu te beija, o adora e repara. Teu sangue seja luz para todos aqueles que de noite te ofendem e imã para atrair a todos os corações em torno de Ti.
Meu amor e meu tudo, enquanto te arrastam e o ar parece que ensurdece pelos gritos e assobios, já chegas diante de Caifás, Tu te mostras todo manso, modesto, humilde, tua doçura e paciência é tanta que faz aterrorizar os inimigos, e Caifás todo furor, quer devorar-te. Ah, como se distingue bem a inocência e o pecado!
Meu Amor, Tu estás diante de Caifás como o mais culpado, no ato de ser condenado. Caifás pergunta às testemunhas quais são teus delitos. Ah, melhor teria sido perguntar qual é teu amor!
E quem te acusa de uma coisa ou de outra, dizendo disparates e contradizendo-se entre eles; e enquanto te acusam, os soldados que estão ao teu lado te puxam dos cabelos, descarregam sobre teu rosto santíssimo horríveis bofetadas que ressoam em toda a sala, te torcem os lábios, te golpeam, e Tu calas, sofres, e se os olhas, a luz de teus olhos desce em seus corações, e não podendo suportá-la se afastam de ti, mas outros chegam para dar-te mais tormentos.
Mas entre tantas acusações e ultrajes vejo que pões atentos teus ouvidos, teu coração bate forte como se fosse estourar pela dor. Diga-me, meu aflito bem, o que sucede agora?
Porque vejo que tudo isso que te estão fazendo teus inimigos, é tão grande teu amor que com ânsia o esperas e o ofereces por nossa salvação; e teu coração com toda calma repara as calúnias, os ódios, os falsos testemunhos, e o mal que se faz aos inocentes com premeditação, e reparas por aqueles que te ofendem por instigação de seus chefes, e pelas ofensas dos eclesiásticos; e enquanto unida contigo sigo tuas mesmas reparações, sinto em Ti uma mudança, uma nova dor não sentida até agora. Diga-me, diga-me o que passa? Faz-me partícipe de tudo, oh Jesus.
“Ah! Filha, queres saber? Ouço a voz de Pedro que diz não conhecer-me e jurou, jurou em falso, e pela terceira vez, jurou que não me conhece. Ah! Pedro, como? Não me conheces? Não recordas com quantos bens te enchi? Oh, se os demais me fazem morrer de penas, tu me fazes morrer de dor! Ah, quanto mal fizeste ao seguir-me de longe, expondote à ocasião!”
Meu negado bem, como se conhecem imediatamente as ofensas de teus mais amados. Oh Jesus, quero fazer correr meu sangue no teu para adoçar a dor atroz que sofres, e minha pulsação na tua te jura fidelidade e amor e repito mil e mil veces que te conheço; mas teu coração não se acalma ainda e tratas de ver Pedro.
Ao teu olhar amoroso, cheios de lágrimas por sua negação, Pedro se enternece, chora e se retira dali; e Tu, tendo-o posto a salvo te acalmas e reparas as ofensas dos Papas e dos chefes da Igreja, e especialmente por aqueles que se expõem às ocasiões.
Mas teus inimigos continuam acusando-te, e vendo Caifás que nada respondes aos seus acusadores te diz: “Conjuro-te pelo Deus vivo, diga-me, és Tu verdadeiramente o Filho de Deus?”
E Tu meu amor, tendo sempre em teus lábios palavras de verdade, com uma atitude de majestade suprema e com voz sonora e suave, tanto que todos ficam assombrados, e os demônios se fundem no abismo, respondes:
“Tu o dizes, sim, Eu sou o verdadeiro Filho de Deus, e um dia virei sobre as nuvens do céu para julgar todas as nações!”
Diante de tuas palavras verdadeiras todos fazem silêncio, se sentem estremecer e ficam espantados, mas Caifás depois de poucos instantes de espanto, reagindo e todo furibundo, mais que besta feroz, disse a todos: “Que necessidade temos mais de provas? Já disse uma grande blasfêmia! Que mais esperamos para condená-lo? Já é réu de morte!”
E para dar mais força a suas palavras rasga suas vestes com tanta raiva e furor, que todos, como se fossem um só, se lançam contra Ti, meu bem, e te dão socos na cabeça, arrancam os cabellos, te dão bofetadas, te cospem na face, te pisam nos pés. São tais e tantos os tormentos que te dão, que a terra treme e os Céus ficam sacudidos.
Meu amor e minha vida, conforme te atormentam, meu pobre coração fica lacerado pela dor. Ah, permite-me que saia de teu dolorido coração, e que eu em teu lugar afronte todos esses ultrajes. Ah, se me fosse possível quisera arrebatar-te das mãos de teus inimigos, mas Tu não queres, porque exige a salvação de todos, e eu me vejo obrigada a resignar-me.
Mas, meu doce amor, deixa-me que te limpe, que te arrume os cabelos, que te limpe das cusparadas, que te limpe e seque o sangue, para encerrar-me em teu coração, porque vejo que Caifás, cansado, quer retirar-se, entregando-te nas mãos dos soldados.
Por isso te bendigo, e Tu abençoa-me, e dando-nos o beijo de amor me encerro no forno de teu coração divino para conciliar o sono, pondo minha boca sobre teu coração, afim de que conforme respire te beije, e segundo a diversidade de tuas pulsações mais ou menos sofredoras, possa advertir se Tu sofres ou repousas. E assim, protegendo-te com meus braços para ter-te defendido, te abraço, me estreito forte em teu coração e durmo.




