Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Trata de como foi perdendo as graças que o Senhor lhe tinha feito e começou a ter perdida a vida . Diz do mal que há em não serem muito enclausurados os mosteiros de monjas.


 

Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

   CAPÍTULO 7. Trata de como foi perdendo as graças que o
Senhor lhe tinha feito e começou a ter perdida a vida . Diz 
do mal que há em não serem muito enclausurados os
mosteiros de monjas.

1. Comecei pois assim, de passatempo em passatempo, de vaidade em vaidade, de ocasião em ocasião, a me meter tanto em muitas grandes ocasiões e  a minha alma ficando tão estragada em vaidades, que já tinha vergonha, pela particular amizade que tratava na oração  tornando a chegar a Deus. Ajudou a isto que, ao crescerem os pecados, começou a faltar vontade e gosto nas coisas de virtude. Via eu muito claramente, meu Senhor, que isto faltava a mim por eu Vos faltar a Vós.

Este foi o maior engano que o demônio podia me fazer sob
aparência de humildade: comecei a temer fazer oração por me ver tão perdida; me parecia melhor andar como os demais - pois sendo ruim era das piores e rezar o que estava obrigada e vocalmente não tendo oração mental e tanta intimidade com Deus, eu merecia estar com os demônios e enganava as pessoas, porque, no exterior, tinha boa aparência.

Assim, não posso culpar a casa onde estava, porque eu, com a minha manha, procurava que tivessem uma boa opinião de mim. Embora não com consciência, fingindo a santidade; porque nisto de hipocrisia e vanglória, glória seja dada a Deus, jamais me recordo de O ter ofendido, no que possa entender. 

Em eu me vendo nessa situação me dava tanta pena, que o demônio ficava com perda e eu ficava com lucro; e assim, nisto muito pouco  tem me tentado.
Porventura se Deus permitisse que nisto me tentasse tão fortemente como em outras coisas, também cairia; mas Sua Majestade até agora me tem guardado, seja para sempre bendito, pois até me pesava muito o me terem em boa opinião: porque bem sabia eu o que havia em mim.

2. Isto de não me terem por tão ruim, era porque me viam tão moça e metida em tantas ocasiões e ficava muitas vezes na solidão rezando e lendo, falava muito de Deus, era amiga de fazer pintar Sua imagem em muitas partes e de ter oratório e fazer com que nele houvesse coisas que fizessem devoção; não falar mal dos outros; e outras coisas deste teor que tinham aparência de virtude. E eu, estimava coisas que no mundo não se costuma ter estima. Com isto, me davam tanta e até mais liberdade que às outras muito mais antigas e tinham em mim grande segurança. 

Porque, tomar liberdade e fazer coisa sem licença - digo falar por buracos ou muros, ou de noite -, julgo que nunca poderia resolver a fazê-lo num mosteiro, nem jamais o fiz, porque o Senhor me teve de Sua mão. 

Parecia-me, com advertência e propósito, que a visão que tinha   as outras que me viam como boa era muito mal, como se fosse bem outras coisas que fazia. Em verdade, o mal não era tão consciente, como isto seria, ainda que fosse muito.

3. Por isto me parece que me fez grande mal o não estar em um
mosteiro enclausurado; porque a liberdade que as boas podiam ter sem culpa (que mais não eram obrigadas, pois não se prometia clausura), a mim, que sou ruim, ter-me-ia decerto levado ao inferno, se com tantos remédios e meios o Senhor, com muito particulares graças,  não tivesse me tirado deste perigo. 

E, assim, julgo ser grandíssimo perigo um mosteiro de mulheres com liberdade, e mais me parece passo para caminhar ao inferno para as que quiserem ser ruins, do que remédio para suas fraquezas. Isto não se entende a respeito de mim, porque há nele tantas que servem muito bem e com muita perfeição ao Senhor, que Sua Majestade não pode deixar, por Sua bondade, de as favorecer e não é dos mosteiros muito abertos e nele se guarda toda a religião, senão de outros que sei e tenho visto.

4. Digo que me causa grande lástima o Senhor ter necessidade de fazer particulares chamamentos - e não uma vez, senão muitas - para que se salvem, segundo estão autorizadas as honras e recreações do mundo e tão mal terem entendido aquilo a que estão obrigadas. Praza a Deus não tenham por virtude o que é pecado, como muitas vezes eu o fazia; e há tão grande dificuldade em fazê-lo entender que é preciso que o Senhor ponha nisto muito bem em Sua mão.

Se os pais ouvissem meu conselho, dir-lhes-ia: porque não olham por onde suas filhas levam o caminho da salvação, mas vendo mais perigo que no mundo, olhem ao menos ao que toca à sua honra. Antes as querem casar muito baixamente, que colocá-las em mosteiros semelhantes, se não são muito bem inclinadas - e praza a Deus isto lhes aproveite -, ou as tenham em sua casa. 

Então, se uma quer ser ruim, não o poderá encobrir senão por pouco tempo; aqui muito, muito tempo, ainda que por fim o descubra o Senhor, e não só faz mal à ela, senão a todas; e às vezes as pobrezinhas não têm culpa, porque vão pelo que encontram. E é lástima que haja muitas que se querem afastar do mundo e, pensando que vão servir ao Senhor e se afastar dos perigos do mundo, se encontram em dez mundos juntos, que nem sabem como se valer, nem remediar. 

A mocidade, sensualidade e demônio as convida e inclina a seguir algumas coisas que são mesmo do mundo; vêem ali que o têm por bom, a modo de dizer.

Parece-me que, em parte, são como os desventurados hereges, que querem se cegar e dar a entender que é bom aquilo que seguem e assim crêem sem o crer... É que dentro de si têm quem lhes diga o que é mal.

5. Oh! grandíssimo mal, grandíssimo mal o dos religiosos - falo
agora tanto de mulheres como de homens - que vivem onde se não guarda religião, onde, num mosteiro, há dois caminhos: de virtude e religião e de falta de espírito de religião (e ambos quase andam por igual...) Mas digo mal: não por igual, pois por nossos pecados caminha-se mais no imperfeito e, como dele há mais seguidores, é mais favorecido. 

Usa-se tão pouco da verdadeira religião, que mais há-de temer o frade e a freira, que deveras querem começar a seguir totalmente a sua vocação, aos de sua mesma casa, do que a todos os demônios; e mais cautela e dissimulação há-de ter para falar da amizade que deseja ter com Deus, que de outras amizades e afeições que o demônio ordena nesses mosteiros. 

Não sei porque nos espantamos de que haja tantos males na Igreja; pois os que deviam ser exemplos de virtude onde todos as fossem haurir, têm tão apagado o labor que, com o seu espírito, os Santos deixaram nas religiões. Praza à Divina Majestade pôr remédio a isto como vê que é necessário. Amém.

6. Comecei eu, pois, a ter estas conversas, não me parecendo -como via que usavam - que delas havia de vir à minha alma o
mal e a distração que depois entendi haver em semelhantes
tratos. Parecia-me que, coisa tão geral como é esta convivência em muitos mosteiros, não me faria a mim mais mal de que a outras que eu via serem boas. Não via que eram muito melhores e, o que para mim era perigo, para outras não o seria tanto. Alguém, duvido que deixe de ter, embora não seja mais que  tempo mal gasto. 

Estando eu, pois, com uma pessoa - bem nos princípios de a conhecer - o Senhor quis me dar a entender que não me convinham aquelas amizades, e avisar-me e iluminar-me em tão grande cegueira. Apresentou-se Cristo diante de mim com muito rigor dando-me a entender o que aquilo Lhe pesava. Vi-O com os olhos da alma mais claramente de que O poderia ver com os olhos do corpo e me ficou tão impresso que isto foi há mais de vinte e seis anos e me parece que o tenho presente. Fiquei muito espantada e perturbada e não queria voltar a ver mais a pessoa com quem estava.

7. Fez-me muito mal não saber que era possível ver sem ser com os olhos do corpo. E o demônio ajudou para que eu assim julgasse, dando-me a entender que isso era impossível; o que  me tinha aparecido que podia ser o demônio, e outras coisas deste gênero, embora sempre ficava um parecer-me que era Deus e não imaginação. Mas, como não era do meu gosto, eu me fazia a mim mesma desmentir. E, como não ousei tratar disto com ninguém e como depois voltaram a fazer-me grande impertinência, assegurando-me não haver mal em ver semelhante pessoa, que nem perdia honra, mas antes a ganhava, voltei à mesma conversação e até, em outras épocas, a outras, porque foram muitos os anos em que tomei esta recreação pestilencial. 

A mim, no entanto, não me parecia - como estava nela - tão má como isso, ainda que, às vezes, visse claramente não ser boa. Mas nenhuma me causou distração como esta que digo, porque lhe tive muita afeição.

8. Estando eu outra vez com a mesma pessoa, vimos vir até nós - e outras pessoas que ali estavam também o viram - uma coisa à maneira dum sapo grande, com muita mais ligeireza do que estes costumam andar. Do lugar donde ele veio, não posso eu entender como pudesse haver semelhante parasita no meio do dia, nem nunca lá tem havido. A impressão que em mim causou não me parece sem mistério; e isto tão pouco me esqueci! Oh! grandeza de Deus, e com quanto cuidado e piedade estáveis me avisando, por todos os modos, e que pouco me aproveitei!

9. Havia ali uma freira, minha parente, antiga e grande serva de Deus e de muita religião. Esta também me avisava algumas vezes; e não só eu não a acreditava, mas desgostava-me com ela e parecia-me que se escandalizava sem ter porquê.
Disse isto para que se entenda a minha maldade e a grande bondade de Deus e quanto tinha merecido eu o inferno com tão grande ingratidão; e também para que, se o Senhor ordenar e for servido que a qualquer tempo leia isto alguma freira, veja a minha experência aprendendo a lição.
E a todas eu lhes peço, por amor de Nosso Senhor, que fujam de semelhantes recreações. Praza a Sua Majestade se desengane de mim alguma de quantas enganei, dizendo-lhes que não era mal e assegurando tão grande perigo com a cegueira que trazia, que de propósito não as queria eu enganar. Pelo mau exemplo que lhes dei- como disse - fui causa de grandes males, não pensando que fazia tanto mal.

10. Estando eu mal, nesses primeiros dias, antes que eu 
soubesse valer por mim mesma, davam-me grandíssimos desejos de fazer bem aos outros; tentação esta muito ordinária dos que começam, embora a mim me sucedesse bem.
Como queria tanto ao meu pai, desejava-lhe o bem que me parecia que teria em ter oração - pois a meu ver nesta vida não podia haver nada melhor de que ter oração - e assim, por rodeios, conforme pude, comecei a fazer com que a tivesse. Dei-lhe livros a propósito.

Como era tão virtuoso, como já ficou dito, assentou tão bem nele este exercício que, em cinco ou seis anos - julgo que seria - estava tão adiantado que eu louvava muito ao Senhor e dava-me
grandíssimo consolo. Foram muito grandes os trabalhos que teve de muitas maneiras; e todos passou com muitíssima conformidade. Ia me ver muitas vezes, pois se consolava tratando coisas de Deus.

11. Já depois de eu andar tão distraída e sem ter oração, como via que ele pensava eu era como costumava ser, sofri por o enganar.
É que estive mais de um ano sem ter oração, parecendo-me mais humildade. Esta foi, como depois direi, a maior tentação que tive porque, por meio dela, eu acabar-me-ia de perder. Com a oração, se um dia ofendia a Deus, outros voltava a recolher-me e a afastar-me mais das  más ocasiões. 

Como o bendito homem me vinha com isto, tornou se-me duro vê-lo tão enganado, pensando que eu tratava com Deus como costumava e disse-lhe que já não tinha oração, embora não dissesse a causa. Dei-lhe as minhas enfermidades por desculpa, porque embora sarasse daquela tão grave, sempre até agora as tenho tido e bem grandes e de muitas maneiras. 

De tempos para cá, não com tanta força, mas não me deixam. Em especial tive durante vinte anos vômitos pela manhã: até depois do meio-dia acontecia-me não poder desjejuar e algumas vezes até mais tarde.

Depois que frequento mais amiúde a comunhão, é à noite, antes de me deitar que, com muito mais custo, o tenho de provocar com uma pena ou outra coisa; porque se o não faço, é muito o mal que eu sinto. Quase nunca estou - a meu parecer - sem muitas dores e algumas vezes bem fortes, em especial no coração; embora o mal que me tomava muito de contínuo seja agora muito de longe a longe.

Da forte paralisia e das outras enfermidades de febres que
costumava ter muitas vezes, encontro-me boa há oito anos. Destes males dá-se-me já tão pouco que muitas vezes folgo, parecendo-me que em algo se serve o Senhor.

12. E meu pai acreditou ser esta a causa, porque como ele não dizia mentira, julgou, conforme ao que eu tratava com ele, que também eu não a havia de dizer. Disse-lhe, para que melhor o acreditasse - pois bem via eu que para isto não havia desculpa -, que muito fazia já em poder rezar o Ofício no coro. Embora tão pouco isto fosse causa bastante para deixar uma coisa para a qual não são precisas forças corporais, mas só amar e o costume. E o Senhor dá sempre oportunidade quando queremos.

Digo "sempre" porque, embora com as circunstâncias e até
enfermidades, impeça algumas vezes muitos momentos de solidão, não deixa de ter outros em que há saúde para isto. E na própria enfermidade e ocasiões está a verdadeira oração -quando é alma que ama - no oferecer aquilo e lembrar-se por Quem o sofre e conformar-se com isso e com mil coisas que se oferecem. Aqui exercita o amor; pois não é forçoso que misericórdia para ele e que sempre O servíssemos, que considerássemos que tudo acaba. Dizia-nos, com lágrimas, a pena grande que tinha de não O ter ele servido,
que quisera ser frade - digo, ter sido- e dos mais rigorosos que
houvesse.

Tenho por certo que, quinze dias antes de morrer, lhe deu o Senhor a entender que não havia de viver. Porque até aí, embora estivesse mal, não o pensava; depois, apesar de ter muitas melhoras e de lhe dizerem os médicos, nenhum caso fez disso. Só atendia em ordenar a sua alma.

13. Foi seu principal mal uma dor muito grande de costas, que
jamais o deixava; algumas vezes era tão intensa, que o afligia muito.
Disse-lhe que, visto ser tão devoto de quando o Senhor levava a
cruz às costas, pensasse que Sua Majestade lhe queria dar a sentir alguma coisas do que Ele tinha passado com aquela dor. Consolou se tanto que, me parece, nunca mais o ouvi queixar-se.
Esteve três dias com muita falha de cabeça; no dia que morreu lhe tornou a dar o Senhor todo inteiro que nos espantávamos, e teve-o até que, no meio do Credo, dizendo-o ele mesmo, expirou. Ficou como um anjo; que assim me parecia a mim que ele era - a modo de dizer - na alma e disposição, pois a tinha muito boa.

Não sei para que disse isto senão para culpar mais minha ruim vida, depois de ter visto tal morte e entender tal vida; para me parecer de algum modo que com tal pai, eu havia  de melhorar. Dizia seu confessor - que era dominicano, muito grande letrado - que não duvidava de que tivesse ido direito ao Céu, porque havia alguns anos que o confessava e louvava sua pureza de consciência.

14. Este Padre dominicano que era muito bom e temeroso de Deus, foi-me de grande proveito. Confessei-me com ele e tomou a peito o fazer bem à minha alma e dar-me a compreender a perdição que trazia. Fazia-me comungar de quinze em quinze dias e, pouco a pouco, começando a tratar com ele, falei da minha oração. Disse-me que não a deixasse; de qualquer modo, não me podia causar senão proveito. Comecei a voltar a ela - embora não a afastar-me das ocasiões - e nunca mais a deixei.

Passava uma vida trabalhosíssima, porque na oração entendia
melhor minhas faltas. Por uma parte, me chamava Deus; por outra, eu seguia o mundo. Davam-me grande alegria todas as coisas de Deus; traziam-me atada as do mundo. Parece que queria juntar estes dois contrários, tão inimigos um do outro, como são vida espiritual e alegrias, gostos e passatempos sensíveis: Na oração passava grande trabalho, porque o espírito não era senhor, mas escravo; e assim não me podia encerrar dentro de mim (que era todo o modo de proceder que eu levava na oração) sem encerrar comigo mil vaidades.

Passei assim muitos anos, que agora me espanto como tive força
bastante para o sofrer sem que deixasse uma ou outra coisa. Bem sei que deixar a oração já não estava em minha mão, porque me segurava nas Suas Aquele que me queria para me dar maiores graças.

15. Oh! Valha-me Deus, se eu houvesse de dizer as ocasiões das
quais - nestes anos - Deus me tirava, e como eu me tornava a meter nelas, e dos perigos de perder totalmente o crédito de que me livrou!
Eu, a fazer obras para descobrir o que era, e o Senhor a encobrir os males e a descobrir alguma pequena virtude, se a tinha, e a fazê-la grande aos olhos de todos, de maneira que sempre me tinham em muito. Porque, embora algumas vezes transluzissem as minhas vaidades, como viam outras coisas que lhes pareciam boas, não o acreditavam.

Já tinha visto o Sabedor de todas as coisas ser assim necessário, para que, depois, nas que tenho tratado de Seu serviço, me dessem algum crédito; Sua soberana largueza, não atendia aos meus grandes pecados, senão os desejos que muitas vezes tinha de O servir e a pena de não ter fortaleza em mim para o pôr por obra.

16. Oh! Senhor da minha alma! Como poderei agradecer as graças que nestes anos me fizestes? E como, no tempo em que eu mais Vos ofendia, em breve me dispúnheis com grandíssimo
arrependimento para que gozasse de Vossos regalos e graças! Na verdade, escolhíeis, meu Rei, o mais delicado e penoso castigo que para mim podia haver, como quem bem sabia o que me havia de ser mais penoso; com grandes regalos castigáveis meus delitos.

E não creio dizer desatinos - embora seria bem que estivesse
desatinada -voltando de novo agora à memória a minha ingratidão e maldade. Era tão mais penoso para meu modo de ser receber graças quando
tinha caído em graves culpas, que receber castigos; uma só dessas
graças - parece-me podê-lo dizer com certeza - me desfazia e
confundia mais e fatigava de que muitas enfermidades com outros grandes trabalhos juntos. Porque isto via eu que o merecia e parecia-me que pagava algo dos meus pecados (embora tudo era pouco, porquanto eles eram muitos), mas ver-me a receber de novo graças pagando tão mal as recebidas, é um gênero de tormento para mim terrível, e creio que para todos os que tiverem algum conhecimento ou amor de Deus, e isto até por uma natural virtude podemos deduzir. 

Estas eram minhas lágrimas e tristeza ao ver o que sentia,
vendo que estava em vésperas de tornar a cair, embora minhas
determinações e desejos então - por aquele momento, digo -
estivessem firmes.

17. Grande mal é uma alma achar-se sozinha entre tantos perigos. Parece-me que, se eu tivesse tido com quem tratar tudo isto, ajudar-me-ia a não tornar a cair, sequer por vergonha, já que não a tinha de Deus. Por isso aconselharia eu aos que têm oração - em especial ao princípio - que procurem amizade e trato com outras pessoas que tratem do mesmo. É coisa importantíssima, ainda que não seja senão ajudarem-se uns aos outros com suas orações, quanto mais que há muitos mais lucros. E pois que nas conversas e amizades humanas, mesmo não sendo muito boas, se procuram amigos com quem descansar e para mais gozar ao contar aqueles prazeres vãos, não sei por que não se há-de permitir a quem começar de verdade  a amar a Deus e a servi-Lo,  tratar com
algumas pessoas seus prazeres e trabalhos: que de tudo têm os que têm oração. Porque, se é verdadeira a amizade que quer ter com Sua Majestade, não haja medo de vanglória; e quando o primeiro movimento acometa, sai dele com mérito. Creio que, andando com esta intenção quem tratar isto aproveitará a si e aos que o ouvirem; sairá mais ensinado; até sem saber como, ensinará a seus amigos.

18. Quem tiver medo ter vanglória ao falar disto, também a terá de ouvir missa com devoção, se o virem, e em fazer outras coisas que, sob pena de não ser cristão, não pode deixar de fazer por medo de vanglória. Isto é tão importante para almas que não estão fortalecidas na virtude - por terem tantos contrários e até amigos para os incitar ao mal -, que nem sei como o louvar. 
Parece-me que o demônio tem usado deste ardil como coisa que muito lhe importa: que os bons se escondam tanto para não dar a perceber a qeum de verdade quer  e procura  amar e contentar a Deus; e tem incitado a que se descubram outras amizades pouco honestas, tão em uso, que já parece que se toma por solenidade e se publicam as ofensas que nestes casos se fazem a Deus.

19. Não sei se digo desatinos. Se o são, V. Mercê os rasgue, e se não o são, suplico-lhe que ajude a minha ignorância, acrescentando aqui o muito que me falta. Andam as coisas do serviço de Deus já tão fracas, que é necessário guardarem-se as costas uns aos outros, os que O servem, para irem adiante, segundo se tem por bom o andarem em vaidades e contentos do mundo. Para estes, há poucos olhos. Mas se um começa a se dar a Deus, há tantos que murmuram, que lhe é necessário buscar companhia para se defender, até que já esteja forte e não lhe pese padecer. E, se não, ver-se-á em grandes apertos.

Penso que seria por isto que usavam alguns santos irem para os
desertos. É um gênero de humildade o não se fiar de si, mas crer que, em atenção àqueles com quem conversa, o ajudará Deus.

Cresce a caridade ao ser comunicado, e há mil bens que eu não
ousaria dizer se não tivesse grande experiência do muito que isto importa. Verdade é que eu sou mais fraca e ruim que todos os nascidos; mas creio não perderá quem, humilhando-se, embora seja forte, não se tenha a si mesmo por tal e creia nisto a quem tenha experiência. De mim sei dizer que, se o Senhor não me descobrisse esta verdade e dado meios para que eu muito de ordinário tratasse com pessoas que têm oração, caindo e levantando-me, eu iria dar direto no
inferno. 

Para cair havia muitos amigos que me ajudassem; para
levantar-me achava-me tão só que agora me espanto como não
estava sempre caída, e louvo a misericórdia de Deus. Era só Ele que me dava a mão.
Seja bendito para sempre. Amém.


LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

É coisa de espantar as grandes graças que Deus me tem feito por meio do bem-aventurado São José e dos perigos de que me tem livrado, tanto no corpo como na alma.



  
CAPÍTULO 6. Trata do muito que ficou a dever ao Senhor por
lhe ter dado entendimento em tão grandes trabalhos e como
tomou por intercessor e advogado o glorioso São José e as
muitas graças que recebeu.

1. Fiquei, nestes quatro dias de extrema intensidade desta doença, num estado que só o Senhor pode saber os insuportáveis tormentos que sentia em mim: a língua feita em pedaços  por mordidas; a garganta, por não ter
passado nada e a grande fraqueza, que sufocava-me, pois nem a água podia engolir; eu parecia estar toda desconjuntada; com
grandíssimo desatino na cabeça. Toda encolhida, feita um novelo -porque assim fiquei no tormento daqueles dias sem  poder me mexer, nem o braço, nem o pé, nem a mão, nem a cabeça, mais do que se estivesse morta, se não me mexessem. Só um dedo parece que eu podia mexer o da mão direita. Chegar-se a mim não havia como, porque tudo
estava em tal lástima, que não podia suportar nada; nem um lençol, e de uma a uma ponta, e outra a outra, me mexiam.

Isto foi até à florida Páscoa. Só tinha a troco de descansar um pouco se não me moviam, as dores que cessavam muitas vezes e,  então me tinha por boa, pois temia  vir a faltar a paciência.
Assim fiquei muito contente quando me vi sem tão agudas e contínuas dores, embora, nos grandes frios com intensa febre - fortíssimas - com que fiquei, fossem insuportáveis. O desânimo era muito grande.

2. Tive tanta pressa em ir para o convento, que mesmo assim
  fiz me levarem. Aquela que esperavam morta, receberam com alma, mas o corpo pior que morto, de causar pena vê-lo. O extremo de fraqueza nem se pode dizer, que só tinha ossos. Digo que fiquei assim mais de oito meses;  estava paralisada, ainda que fosse melhorando por quase três anos. Quando comecei a andar de gatas, louvava a Deus. Tudo sofri com grande conformidade e - a não ser nestes tempos - com grande alegria; porque tudo era nada, comparado com as dores e os tormentos do princípio. Estava muito conformada com a vontade de Deus, ainda  que me deixasse sempre assim.

Parece-me que toda a minha ânsia de sarar era para estar a sós em oração - como me tinham ensinado - porque na enfermaria não havia disposição para isso. Confessava-me sempre; tratava muito com Deus, de maneira que edificava a todas. Espantavam-se da paciência que o Senhor me dava; porque, só podia vir da mão de Sua Majestade, pois parecia impossível poder sofrer tantos males com tanto contentamento.

3. Grande coisa foi Ele ter feito a graça que me deu na
oração. Esta me fazia entender que coisa era amá-Lo. Só desse
pouco tempo vi em mim novas virtudes, embora não fortes, pois não bastaram para me sustentar no caminho da justiça. 

Não dizer mal de ninguém, por pouco que fosse, antes era comum  em mim  desculpar toda a murmuração, porque via muito diante dos olhos como não havia de dizer nem querer que dissessem de outra pessoa o que eu não queria que dissessem de mim. 

Praticava isto com grande extremo nas ocasiões quando aconteciam, embora não tão perfeitamente que algumas vezes, quando eram muito grandes, não
enfraquecesse  um pouco; mas sempre era isto. 

Assim - para as   que estavam comigo e me tratavam - persuadi tanto disto que lhes ficou de costume. E todas vieram a entender, que onde eu estivesse, ficassem tranquilas. E o mesmo pensavam daquelas com quem eu tinha amizade e parentesco e que ensinava, ainda que noutras coisas  tenha que dar contas a Deus do mau exemplo que lhes dava.

Praza a Sua Majestade perdoar-me, que de muitos males fui causa, embora não com tão má intenção como depois saía a obra.

4. Ficou-me o desejo da solidão; amiga de tratar e falar de Deus que, se eu encontrasse com alguém, mais alegre e recreação me dava que toda a delicadeza -ou grosseria, para melhor dizer - da conversa  do mundo. 

Comungar e confessar-me muito mais vezes e desejá-lo; amicíssima de ler bons livros; um grandíssimo arrependimento em ter ofendido a Deus que, muitas vezes me recordo não ousava ter oração porque temia - como a um grande castigo - a grandíssima pena que havia de sentir de O ter ofendido.

Isto foi-me depois crescendo em tal extremo, que não sei a que
compare este tormento. E jamais foi -nem pouco nem muito - por temor; mas, como me lembrava dos presentes que o Senhor me fazia na oração e o muito que Lhe devia e via quanto mal eu Lhe pagava, que não o podia sofrer. Enojava-me em extremo das muitas lágrimas que pela culpa chorava, quando via a minha pouca emenda, pois nem bastavam determinações nem a mágoa em que me via, para não voltar a cair quando me punha naquela mesma situação. 

Pareciam-me ser lágrimas enganosas e parecia-me ser depois maior a culpa, porque via o grande favor que me fazia o Senhor em me dar um tão grande arrependimento. Procurava confessar-me dentro em breve e, a meu parecer, fazia da minha parte o que podia para voltar a estar em graça.

Todo o mal vinha de eu não cortar pela raiz as ocasiões e nos
confessores que pouco me ajudavam; dizendo-me o perigo em que andava e a obrigação que tinha em não ter ficar naquelas situações, creio, sem dúvida, que tudo se remediasse; porque de nenhum modo poderia andar em pecado mortal um só dia, se eu o entendesse.

Todos estes sinais de temor de Deus me vieram com a oração e o maior era o estar envolvida em amor, porque não me punha diante do castigo. Todo o tempo que estive tão mal durou a muita guarda de consciência quanto a pecados mortais. Oh! valha-me Deus; desejava saúde para mais O servir e foi causa de todo o meu mal!

5. Pois, como me vi paralisada em tão pouca idade e o que os médicos da terra tinham feito comigo, me determinei a recorrer aos do Céu para que me sarassem, pois desejava a saúde, embora sofresse com muita alegria a sua falta. 

Pensava algumas vezes que, se estando boa  havia de me condenar, melhor seria então estar assim.
Pensava, no entanto, que serviria muito mais a Deus com saúde.
Este é o nosso engano: não nos entregamos de todo ao que faz o Senhor, que melhor sabe o que nos convém.

6. Comecei a fazer devoções de Missas e coisas muito aprovadas de orações, pois nunca fui amiga de outras devoções que faziam algumas pessoas - em especial mulheres - com cerimônias que eu não podia suportar e a elas lhes fazia devoção. Depois viram que não eram boas; eram superstições. 

Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e
encomendei-me muito a ele. Vi claramente que, tanto desta necessidade como de outras maiores de honra e perda
de alma, este Pai e Senhor meu me ensinou  bem melhor do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo até agora de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa de espantar as grandes graças que Deus me tem feito por meio deste bem-aventurado Santo e dos perigos de que me tem livrado, tanto no corpo como na alma. 

A outros santos parece ter dado o Senhor graça para socorrerem numa necessidade; deste glorioso Santo tenho experiência que socorre em todas. O Senhor nos quer dar a entender que, assim como lhe foi sujeito na terra - pois como tinha nome de pai, embora sendo servo, O podia mandar -, assim no Céu faz quanto Lhe pede.

Isto têm visto, por experiência, algumas outras pessoas, a quem eu dizia para se encomendarem a ele. E assim há muitas que lhe são devotas, experimentando de novo esta verdade.

7. Procurava eu fazer a sua festa com toda a solenidade que podia, mais cheia de vaidade que de espírito, querendo que se fizesse muito curiosamente e bem, embora com boa intenção. Mas isto era mal - se algum bem o Senhor me dava a graça de fazer-: era cheio de imperfeições e com muitas faltas. Para o mal e curiosidade e vaidade tinha eu grande manha e diligência. Que o Senhor me perdoe.

Quisera eu persuadir a todos a serem devotos deste glorioso Santo, pela grande experiência que tenho dos bens que alcança de Deus.

Não tenho conhecido pessoa que deveras lhe seja devota e lhe
presta particulares obséquios, que a não veja mais aproveitada na virtude; porque aproveita de grande modo às almas que a ele se encomendam. Parece-me que há alguns anos que, cada ano no seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo realizada; se a petição vai algo torcida ele a endireita para maior bem meu.

8. Se eu fosse pessoa que tivesse autoridade para escrever, de boa vontade me alongaria a dizer muitos detalhes das graças que este glorioso Santo tem feito a mim e a outras pessoas. Mas, para não fazer mais do que me mandaram, em muitas coisas serei mais breve do que quisera. Em outras, mais extensa do que era preciso; enfim, como quem em todo o bem tem pouca discrição. 

Só peço, por amor de Deus, que faça a prova quem não me acreditar e verá, por experiência, o grande bem que é o encomendar-se a este glorioso Patriarca e ter-lhe devoção. Em especial, as pessoas de oração sempre lhe haviam de ser afeiçoadas. É que não sei como se pode pensar na Rainha dos Anjos - no tempo em que tanto passou com o Menino Jesus - sem que se dê graças a São José pelo muito que então Os ajudou. Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração, tome a este glorioso Santo por mestre e não errará no caminho.

Praza ao Senhor não haja eu errado em atrever-me a falar dele; porque embora publique ser-lhe devota, no seu serviço e imitação sempre tenho falhado. Ele procedeu como quem é, fazendo com que eu me pudesse levantar e andar e não ficasse paralisada, e eu, como quem sou, uso mal desta graça.

9. Quem diria que eu havia de cair tão depressa, depois de tantas
graças de Deus, depois de ter Sua Divina Majestade começado a dar-me virtudes - que as mesmas me despertavam a servi-Lo - depois de eu meter visto quase morta e em tão grande perigo de ser condenada, depois de me ter ressuscitado alma e corpo, que todos os que me viam se espantavam de me ver viva! 

Que é isto, Senhor meu? Em tão perigosa vida havemos de viver? Ao escrever isto parece-me que, com o Vosso favor e por misericórdia Vossa, poderia dizer como São Paulo - embora não com essa perfeição - já não vivo eu, senão que Vós, Criador meu, viveis em mim. Há alguns anos que, segundo posso entender, me tendes da Vossa mão e me vejo com
desejos e determinações, e de algum modo tinha provado por
experiência em muitas coisas de não fazer coisa contra a Vossa
vontade, por pequena que seja, ainda que deva fazer muitas ofensas a Vossa Divina Majestade, sem o entender. Também me parece que não me oferecerá coisa por Vosso amor que, com grande determinação eu deixe de cometer; em algumas me tendes ajudado para as levar a cabo. Não quero mundo nem coisa dele, nem me parece algo me contente afora de Vós; tudo o mais é para mim pesada cruz.

Bem posso me enganar e nada ter, disto que digo, mas bem vedes, meu Senhor, que, segundo posso entender, não minto. E estou tremendo - e com muita razão -que me torneis a deixar. Já sei até que ponto chega a minha fortaleza e pouca virtude quando não  estais sempre a me dar e a ajudar para que Vos não deixe. Praza à Vossa Divina Majestade que mesmo agora não esteja apartada de Vós, parecendo-me, no entanto, tudo isto de mim.
Não sei como queremos viver, pois é tudo tão incerto! Parecia-me, Senhor meu, já impossível deixar-Vos de tudo; mas, como tantas vezes Vos deixei, não posso deixar de temer, porque, em apartando-Vos um pouco de mim, dava com tudo em terra.
Bendito sejais para sempre, pois, embora eu Vos deixasse, Vós não deixastes a mim de tudo que não me tornasse a levantar com o me dar  sempre a mão. E muitas vezes, Senhor, eu não a queria, nem queria entender como tantas vezes me chamáveis de novo, como agora direi.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Era somente uma luz que me parecia de pouca estima tudo o que se acaba, e de muito valor pelos bens que se podem ganhar com ele, pois são eternos.


 

 CAPÍTULO 5. Narra as grandes enfermidades que teve e a
paciência que o Senhor lhe deu e como tirou bens dos males,
conforme se verá por uma coisa que lhe aconteceu neste
lugar aonde  foi se curar.

1. Esqueci-me de dizer como, no ano do noviciado, passei grandes
desassossegos em coisas que em si tinham pouca importância. Culpavam-me sem ter culpa muitas vezes. Eu levava isto com muita dor e imperfeição, embora com o grande contentamento que tinha de ser freira, por tudo que passava. Como me viam procurar solidão e chorar algumas vezes meus pecados, pensavam que era descontentamento e assim o diziam.

Era afeiçoada a todas as coisas de religião, mas não de sofrer
alguma coisa que parecesse menosprezo. Gostava de ser estimada. Era primorosa em tudo quanto fazia. Tudo me parecia virtude, embora isto não me seja desculpa, porque em tudo sabia procurar o que me contentasse e assim a ignorância não tira a culpa. Alguma desculpa tinha, no entanto, pelo mosteiro não estar fundado com muita perfeição; eu, como ruim que era, fazia aquilo em que achava falta e deixava o bom.

2. Havia uma freira que estava enferma, com uma grandíssima e muito penosa enfermidade. Tinha umas bocas no ventre - que lhe tinham feito obstrução - por onde jogava o que comia. Morreu disto em breve. Eu via todas temerem aquele mal; a mim, me fazia grande inveja a sua paciência. Pedia a Deus que, dando a mim, me desse as enfermidades que fosse servido. Ao que me parece, a nenhuma temia. Estava tão disposta a ganhar bens eternos, que por qualquer meio me determinava a ganhá-los. E espanto-me porque - segundo julgo - ainda não tinha amor a Deus, como depois que comecei a ter oração.

Era somente uma luz que me parecia de pouca estima tudo o que se acaba, e de muito valor pelos bens que se podem ganhar com ele, pois são eternos.

Tão bem me ouviu nisto Sua Majestade que, antes de dois anos,
estava de tal modo que, embora o mal não fosse daquele gênero,
creio não ter sido menos penoso e trabalhoso o que tive durante três anos, como agora direi.

3. Chegado o tempo de  ir me tratar - que estava aguardando naquele lugar onde disse que estava com minha irmã - levaram-me, com muito cuidado para não me cansar, meu pai, minha irmã e aquela freira minha amiga.

Aqui começou o demônio a desencaminhar a minha alma, embora
Deus tirasse disso grande bem. Havia uma pessoa da Igreja, que
residia naquele lugar onde me fui curar, de muito boa qualidade e
entendimento; tinha estudo, não muitos, no entanto. Comecei-me a confessar com ele, porque sempre fui amiga do estudo, embora grande mal me fizessem à alma confessores meio estudados, porque não os tinha em muita conta quando não tinham muito estudo. 

Tenho visto por experiência que é melhor - eles serem virtuosos e de santos costumes - não tendo muito estudo; porque assim nem eles se fiam de si sem perguntar a quem tenha muito estudo, nem eu me fiaria; e bem estudado nunca me enganou. Estes outros tão pouco deviam querer me enganar, mas não sabiam mais. Eu pensava que sim e que não era obrigada a mais, senão a acreditá-los. E era coisa mais fácil o que me diziam e de mais liberdade.

Se fosse de mais rigor, eu sou tão ruim,  buscaria outros. O que
era pecado venial, diziam não ser nenhum; o que era gravíssimo
mortal, que era venial. Isto me fez tanto mal que não é muito o diga aqui para avisar outras pessoas de tão grande mal. Perante Deus bem vejo que não me é desculpa, pois bastava não serem as coisas boas no seu natural para que delas me guardasse. Creio permitiu Deus, por meus pecados, que eles se enganassem e  enganassem a mim. Eu enganei a outras muitas só dizendo-lhes o mesmo que a mim me tinham dito.

Permaneci nesta cegueira creio que mais de dezessete anos, até que um Padre dominicano, grande letrado, e os da Companhia de Jesus me desenganaram em parte - agravando-me tão maus princípios - de tudo me fizeram temer, como depois direi.

4. Começando pois a confessar-me com este padre dominicano, ele se afeiçoou a mim em extremo. Então tinha pouco que confessar para o que depois aconteceu, nem tinha acontecido depois de freira. Não foi má a afeição deste, mas, por ser imoderada, veio a não ser boa. Tinha me compreendido que, por coisa alguma, eu me determinaria a fazer coisa contra Deus que fosse grave e ele também me assegurava o mesmo, e assim era muita a conversa. 

Mas nos meus tratos - com o embevecimento de Deus que eu trazia - o que então mais gosto me dava era tratar coisas d'Ele. Como era tão novo, fazia-lhe confusão ver isto; e com a grande amizade que me tinha, começou a declarar-me a sua perdição. E não era pouca, porque havia quase sete anos que estava em estado muito perigoso  com a afeição e relação com uma mulher daquele mesmo lugar. 
Com isto dizia Missa. Era coisa tão pública, que trazia perdida a honra e a fama e ninguém ousava falar-lhe contra isto.

A mim fez-me muito dó porque lhe queria muito. Isto tinha eu de
grande leviandade e cegueira; parecia-me virtude o ser agradecida e ter amizade a quem me queria. Maldita seja tal amizade que se estende até ir contra a de Deus! É um desatino que se usa no mundo, que me desatina. Todo o bem que nos fazem devemo-lo a Deus e temos por virtude embora seja ir contra Ele - não quebrantar uma tal amizade. Oh! cegueira do mundo! Tivésseis Vós sido servido, Senhor, que eu fosse ingratíssima para com todo o mundo e para conVosco não o fosse num só ponto! Mas tem sido tudo ao contrário, por meus pecados.

5. Procurei saber mais e informar-me com pessoas de sua casa. E
soube ser maior a perdição e vi que o pobre não tinha tanta culpa. A desventurada da mulher tinha-lhe posto feitiços num idolozito de cobre que lhe rogara trouxesse ao pescoço por amor dela e ninguém tinha sido poderoso para lhe tirar.

Eu não creio verdadeiramente que isto de feitiços seja realidade;
mas direi isto que vi para aviso dos homens, a fim de que se
guardem de mulheres que querem ter esta relação. E creiam, pois que a Deus perdem a vergonha (elas mais que os homens são obrigadas a ter honestidade), que em nenhuma coisa podem nelas ter confiança.

A troco de levarem por diante a sua vontade e aquela afeição que o demônio lhes põe, não olham a nada. Embora eu tenha sido tão
ruim, em nenhuma coisa deste gênero caí, nem jamais pretendi fazer mal nem quisera - ainda que pudesse - forçar vontades para que me tivessem afeição, porque disto me guardou o Senhor. Se Ele me tivesse deixado, teria feito o mal que fazia no demais, pois de mim nenhuma coisa há que fiar.

6. Pois, logo que soube isto, comecei a mostrar-lhe mais afeição.
Minha intenção era boa, a obra má; pois para fazer bem, por grande que fosse, não havia de fazer um pequeno mal. Tratava com ele muito do comum  de Deus. Isto devia-lhe ter aproveitado, embora mais creio fez ao caso o querer-me muito. Para me dar prazer veio-me trazer aquele idolozito, que logo fiz deitar a um rio. Tirado este,começou - como quem desperta de um grande sono - a ir-se lembrando de tudo o que havia feito naqueles anos. Espantando-se de si, doendo-se da sua perdição, começou a aborrecê-la. Nossa Senhora deve-o ter ajudado muito, pois era muito devoto da Sua Conceição e nesse dia fazia uma grande festa. Enfim, deixou de a ver e não se fartava de dar graças a Deus por ter-lhe dado luz.

Ao cabo de um ano - desde o primeiro dia em que o vi - morreu. E
tinha estado muito ao serviço de Deus, porque aquela afeição
grande que me tinha nunca entendi ser má, embora pudesse ter sido com mais pureza. Mas também houve ocasiões em que, se não se tivesse estado com Deus muito presente, teria havido ofensas contra Ele muito graves. Como já disse, coisa que eu entendesse ser pecado mortal, não a fizera então. Parece que, ver isto em mim, o ajudava a ter-me amizade, pois creio que todos os homens devem ser mais amigos de mulheres que vêem inclinadas à virtude; e mesmo elas para o que aqui pretendem, devem ganhar mais com eles por este meio, segundo depois direi.

Tenho por certo que está em caminho de salvação. Morreu muito bem e muito livre daquela ocasião. Parece que o Senhor quis que, por estes meios, se salvasse.

7. Estive naquele lugar três meses com grandíssimos trabalhos,
porque a cura foi mais forte do que o pedia a minha compleição. Aos dois meses, a poder de remédios, tinha quase acabado a vida.  O rigor do mal de coração de que me fui a curar era muito mais forte.

Parecia-me algumas vezes que me o arrancavam com dentes agudos, tanto que se temeu fosse raiva. Com grande falta de forças - porque nenhuma coisa podia tomar senão fosse bebida, pelo grande fastio -febre muito contínua, muito gasta, porque quase um mês me deram uma purgante todos os dias. Estava tão abrasada que se me começaram a encolher os nervos com dores tão insuportáveis que nem de dia nem de noite podia ter sossego algum. Uma tristeza muito profunda.

8. Com este ganho me voltou a trazer o meu pai aonde os médicos
me voltaram a ver. Todos me desenganaram, pois, sobre todo este
mal, diziam que estava tuberculosa. Disto pouco me importava; as dores é que me afligiam, porque eram desde os pés à cabeça; e as de nervos são intoleráveis, segundo dizem os médicos. Como
todos os nervos me encolhiam, era de verdade forte tormento; não tivesse eu, por minha culpa, perdido o mérito.

Nesta violência de dores não estaria mais de três meses; parecia
impossível poder-se padecer tantos males juntos. Agora me espanto e tenho por grande graça do Senhor a paciência que Sua Majestade me deu, que se via claramente vir d'Ele. Muito me aproveitou para isso o ter lido a história de Jó nos «Morais» de S. Gregório - parece que preveniu o Senhor com isto, e com o ter começado a fazer oração - para o poder levar com tanta conformidade. Todas as minhas práticas eram com Ele; trazia habitualmente estas palavras de Jó no pensamento e as dizia: «Pois recebemos os bens da mão do Senhor, porque não sofreremos os males?» Isto parece que me dava forças.

9. Chegou a festa de Nossa Senhora de Agosto. Desde Abril até
então tinha sido o tormento, embora mais nos três últimos meses.
Tive pressa em confessar-me, porque sempre fui muito amiga de me confessar sempre. Pensaram que era por medo de morrer e, para não me dar dor, meu pai não me deixou. Oh! amor da carne
demasiado, que, embora de pai tão católico e avisado - que o era
muito e não foi ignorância - me pudera fazer grande mal! Deu-me,
naquela noite, um paroxismo que durou quatro dias, pouco menos,
ficando eu sem nenhum dos sentidos. Nele me deram o Sacramento da Unção; a cada hora ou momento pensavam ver-me expirar e não faziam senão dizer-me o Credo, como se alguma coisa entendesse.
Por vezes tinham-me por tão morta que até cera encontrei depois
nos olhos.

10. A dor de meu pai era grande por não me ter deixado confessar: clamores e muitas orações a Deus. Bendito seja Ele que as quis ouvir, pois, sendo dia e já meio aberta a sepultura no meu mosteiro, esperando ali o meu corpo, e feitas as exéquias em um convento dos nossos frades fora daqui, quis o Senhor que eu voltasse a mim.

Logo quis confessar-me. Comunguei com muitas lágrimas. A meu
parecer, não eram só de sentimento e pena de ter ofendido a Deus.
Isto bastaria para me salvar, mesmo se o engano, que  em mim
trazia, dos que  tinham dito não serem algumas coisas pecado
mortal - depois tenho visto com certeza que o eram - não me
aproveitasse. As dores com que fiquei eram insuportáveis; o
sentido pouco; no entanto - a meu parecer - a confissão foi inteira de tudo quanto compreendi ter ofendido a Deus. Esta graça me tem feito Sua Majestade entre outras; nunca - depois que comecei a comungar - deixei coisa por confessar que eu pensasse ser pecado, embora fosse venial. Contudo, parece-me que muito duvidosa ia a minha salvação, se eu então tivesse morrido... Isto, em parte, por serem os confessores tão pouco estudados e, por outro lado, por eu ser tão ruim e por outras muitas coisas.

11. Certo é o estar eu agora com tão grande espanto ao chegar aqui e vendo como parece me ressuscitou o Senhor, que estou quase a tremer dentro de mim. Parece-me que fora bem, ó alma minha, visses o perigo de que o Senhor te livrara e, já que por amor não deixavas de O ofender, deixasses de o fazer por temor. Poderia matar-te em estado outras mil vezes mais perigoso. Julgo que não acrescento muitas no dizer: outras mil, embora me ralhe quem me mandou moderar no contar meus pecados. E bem adornados vão.

Por amor de Deus lhe peço que, de minhas culpas não tire nada,
pois se vê mais aqui a magnificência de Deus e o que sofre a uma
alma. Seja bendito para sempre. Praza a Sua Majestade que me
consuma antes que deixar jamais de O amar.
LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Até mesmo nesta vida Sua Majestade paga por vias que só quem goza disso o entende. Isto sei-o por experiência, como tenho dito, em muitas coisas difíceis.



CAPÍTULO 4. Diz como o Senhor a ajudou a convencer-se a si
mesma para tomar o Hábito e as muitas enfermidades que Sua
Majestade lhe começou a dar.

1. Nestes dias em que andava com estas determinações havia
persuadido a um meu irmão que se fizesse frade, falando-lhe da
vaidade do mundo. E combinamos entre nós ir um dia, muito cedo, ao mosteiro onde estava aquela minha amiga que eu tinha muita afeição. 

Nesta minha última determinação eu já estava decidida que iria para qualquer convento onde pensasse servir mais a Deus ou que meu pai quisesse. Eu  olhava ao remédio da minha alma, porque não fazia  caso do descanso.

Recordo-me,  com toda a verdade, que quando saí
de casa de meu pai foi tal a aflição, que não creio que seja  maior quando eu morrer. Parece que cada osso se separava um do outro, pois, como não tinha o amor de Deus a contrabalançar o amor de pai e parentes, fazia  tudo com uma força tão grande que, se o Senhor não me ajudasse, não teriam bastado as minhas considerações para ir adiante. Aqui deu-me o Senhor ânimo contra mim, de maneira que o pus em obra.

2. Ao vestir o Hábito, logo o Senhor me deu a entender como
favorece os que se esforçam para O servir. Isto ninguém percebeu
em mim, mas sim uma grandíssima vontade. Nessa altura deu-me um tão grande contentamento de estar naquele estado, que jamais me faltou até hoje. Deus mudou a aridez da minha alma numa
grandíssima ternura. Davam-me deleite todas as coisas da Religião.

E verdade que andava varrendo algumas vezes nas horas que
costumava me ocupar em me enfeitar e divertir, e, lembrando-me que estava livre daquilo, me dava uma nova alegria que me espantava e não podia entender de onde me vinha.

Quando  me lembro disto, não há coisa que se ponha diante de mim,
por difícil que seja, que duvide de a cometer. Já tenho experiência
em muitas coisas, se  a princípio me esforço para me determinar a fazê-lo (sendo só por Deus), Ele quer -para mais merecermos - que a alma sinta aquele pavor até começar e quanto maior for, se se vai por diante, maior e mais saboroso o prêmio se torna depois. 

Até mesmo nesta vida Sua Majestade paga por vias que só quem goza disso o entende. Isto sei-o por experiência, como tenho dito, em muitas coisas difíceis; e assim, jamais aconselharia, se fosse
pessoa que tivesse aconselhar que, quando uma boa inspiração
nos bate à porta muitas vezes, se deixe com medo de a pôr em obra.
Se é desnudamente só por Deus, não há que temer que suceda o mal, que poderoso Ele é para tudo. Seja bendito para sempre. Amém.

3. Bastavam, ó sumo Bem e descanso meu!, as graças que me
tendes feito até aqui, trazendo-me - por tantos meios da Vossa
piedade e grandeza - a este estado tão seguro e nesta casa onde havia muitas servas de Deus, das quais eu pudesse ter o exemplo para ir crescendo em Vosso serviço. Não sei como hei-de passar daqui, quando me recordo o modo da minha profissão e a grande
determinação e contentação com que a fiz e do desposório que fiz
conVosco. Isto não o posso dizer sem lágrimas, e haviam de ser de
sangue e me quebrar  o coração, e não seria muito pesar para o
que depois Vos ofendi.

Parece-me agora que tinha razão em não querer tão grande
dignidade, pois tão mal havia de usar dela. Mas Vós, Senhor meu,
quisestes ser - quase vinte anos em que usei mal desta graça - o
agravado, para que eu fosse melhorada. 
Não parece, meu Deus, senão que prometi não guardar coisa do que Vos havia prometido, embora não fosse essa então a minha intenção. Mas vejo depois as minhas obras, que não sei que intenção tinha, a não ser para que mais  veja quem Vós sois,   meu Esposo, e quem eu sou. 

Pois é verdade que muitas vezes tempero o pesar das minhas grandes culpas com a alegria que me dá compreender  a multidão das Vossas misericórdias.

4. Em quem, Senhor, podem elas assim resplandecer como em mim,
que tanto obscureci, com minhas más obras, as grandes graças que
  começastes a me fazer? Ai de mim, meu Criador, que, se quero dar
desculpas, não tenho nenhuma, nem tem ninguém a culpa senão eu!

Porque se eu Vos pagasse algo do amor que começastes a me
mostrar, não o poderia eu empregar em ninguém senão em Vós e
com isto remediava tudo. Pois não o mereci, nem tive tanta
ventura, valha-me agora, Senhor, a Vossa misericórdia.

5. A mudança de vida e de manjares fez-me dano à saúde e embora o contentamento fosse muito, não bastou. Começaram-se-me a
aumentar os desmaios e deu-me um mal do coração tão
imensamente grande que causava espanto a quem o via, e outros
muitos males juntos, e, assim, passei o primeiro ano com muito má
saúde, todavia parece que não ofendi nele muito a Deus. 

E como o mal era tão grave que me privava quase sempre dos sentidos - e algumas vezes de tudo ficava sem eles - era grande a diligência que meu pai fazia para buscar remédio. Como não lhe dessem os médicos daqui, procurou levar-me a um lugar que tinha muita fama de se curarem ali outras enfermidades e assim disseram que fariam à minha enfermidade. Foi comigo essa amiga de quem já falei e era antiga na casa.
No convento onde eu era freira não se prometia clausura.

6. Estive, quase um ano, ali padecendo durante três meses tão
grandíssimos tormentos em curas tão violentas que me fizeram,
que não sei como as pude sofrer. Enfim, embora as sofresse, não as
pôde suportar o meu natural, como direi.

Havia de começar a cura no princípio do Verão e eu fui no princípio
do Inverno. Todo este tempo estive em casa da minha irmã que
disse que vivia na aldeia, esperando o mês de Abril, porque estava
ali perto e para não andar de lá pra cá.

7. Na ida, aquele meu tio que já disse estar no caminho, deu-me um
livro: chama-se «Terceiro Abecedário». Trata de ensinar oração de
recolhimento. E, embora neste primeiro ano tivesse lido bons livros
(pois não quis mais usar os outros, porque já entendia o mal que
me haviam feito), não sabia como proceder na oração nem como
recolher-me. 

Assim aproveitei muito dele e determinei-me a seguir
aquele caminho com todas as minhas forças. Como já o Senhor me
tinha dado o dom de lágrimas e gostava de ler, comecei a ter esses
momentos de solidão e a confessar-me sempre e a começar aquele
caminho tendo aquele livro por mestre; porque eu não encontrei
mestre - digo confessor que me entendesse -, embora procurasse
durante vinte anos, depois do que contei. Isto fez-me muito
mal e voltei muitas vezes atrás e até de modo de me perder, porque, se o fosse, ajudar-me-ia a sair das ocasiões que tive de ofender a
Deus.

Começou Sua Majestade a dar-me muitas graças nestes
princípios. Foram quase nove meses os que passei nesta solidão,
embora não tão livre de ofender a Deus como o livro me dizia; mas
sobre isso eu passava parecendo-me quase impossível tanta
guarda. 

Tinha de não cometer  pecado mortal e prouvera a Deus que
tivesse tido sempre. Dos veniais, fazia pouco caso e isto foi o que
me arruinou. Começou-me, pois, Sua Majestade a fazer tantas
graças nestes princípios e a regalar-me tanto por este caminho que,
 ao fim do tempo de  estar aqui, me a graça  de me conceder 
oração de quietude e algumas vezes chegava à de união, embora eu
não entendesse o que era uma e outra e  apreciava muito,
pois creio me foi grande bem entendê-lo. 

Verdade é que durava tão pouco esta união que não sei se seria uma Ave-Maria; mas ficava com uns efeitos tão grandes que, não tendo neste tempo vinte anos, me parecia trazer o mundo debaixo dos pés, e assim recordo-me que me faziam pena os que seguiam o mundo, embora fosse em coisas lícitas.

Procurava mais que podia trazer Jesus Cristo, nosso Bem e
Senhor, presente dentro de mim e este era o meu modo de oração:
se pensava em algum passo, representava-O no interior, embora
gastasse mais tempo em ler bons livros, que era toda a minha
recreação. 

É que Deus não me deu talento para discorrer com o entendimento nem de me aproveitar da imaginação. Tenho-a tão entorpecida que, até para pensar e representar trazer em mim - como
procurava fazer - a Humanidade do Senhor, não conseguia. 

E ainda por esta via - por não poderem ajudar-se do entendimento - as almas chegam mais depressa à contemplação se perseveram, é
muito trabalhoso e penoso. Se falta a ocupação da vontade e o amor
ter coisa presente em que se ocupe, fica a alma como sem arrimo
nem exercício; causa grande pena a solidão e a aridez e dão
grandíssimo combate os pensamentos.

8. A pessoas que tenham esta disposição convém-lhes ter mais
pureza de consciência que as que podem operar com o entendimento.

Porque, quem medita no que o mundo é, e no que deve a Deus, 
no muito que Ele sofreu, no pouco que O serve, e o que o Senhor
dá a quem O ama, aprende a doutrina para se defender dos maus pensamentos e das ocasiões e perigos. 

Mas, quem não se pode aproveitar disto, tem maior perigo ou dificuldade e convém-lhe ocupar-se muito na leitura, pois  de sua parte não pode tirar nenhuma ideia ou consideração.

Àqueles que procedem desta maneira, em lugar de oração mental
que não podem ter, é-lhes necessário ler, embora seja pouco o que
lêem. E tão penosíssima é esta maneira de proceder que, se o
mestre que ensina insiste em que a oração seja sem leitura - o que
ajuda muito a recolher a alma em oração - e, sem esta ajuda, os
fazem estar muito tempo na oração, digo que será impossível
permanecerem muito nela, e fará mal à saúde se se confia , porque é coisa muito penosa.

9. Agora parece-me que o Senhor providenciou que não encontrasse quem me ensinasse, porque foi impossível - segundo julgo - perseverar os dezoito anos que passei este trabalho e em todos eles grandes aridezes, por não poder, como digo, meditar. 

Em todos eles, a não ser acabando de comungar, jamais ousei começar  ter oração sem um livro. Temia tanto minha alma estar sem ele na oração, como se contra muita gente saísse a pelejar. 

Com esta ajuda - que era como que uma companhia ou escudo em que aparava os golpes dos muitos pensamentos - andava consolada porque a aridez não era o normal, mas, sempre que me faltava livro, logo se desbaratava a minha alma. E os pensamentos, que andavam perdidos, com isto começava eu a recolher e a levar a alma como de um fôlego.

Muitas vezes, abrindo o livro, nada mais era preciso. Outras lia
pouco, outras muito, conforme a graça que o Senhor me fazia.
Parecia-me a mim, nestes princípios que digo, que, tendo eu livros e
tendo solidão, não havia perigo que me arrancasse de tanto bem; e
creio que - com a ajuda de Deus - fosse assim, se tivesse tido mestre
ou pessoa que me avisasse de fugir das ocasiões nos princípios e
me fizesse sair, com brevidade, se nelas entrasse. 

E, se então o demônio me tivesse acometido a descoberto, julgo que, de modo algum, eu voltaria a pecar gravemente. Mas foi tão sutil e eu tão ruim, que todas as minhas determinações de pouco me
aproveitaram, ainda que de muitíssima ajuda os dias que servi a
Deus, para poder sofrer as terríveis enfermidades que tive, com tão
grande paciência como a que Sua Majestade me deu.

10. Muitas vezes tenho pensado, espantada, na grande bondade de
Deus e a minha alma tem-se regalado de ver a Sua grande
magnificência e misericórdia. Seja bendito por tudo! Tenho visto
claramente Ele não deixar sem paga, até mesmo nesta vida, nenhum
desejo bom. 

Por ruins e imperfeitas que fossem minhas obras, este
meu Senhor as ia melhorando e aperfeiçoando e dando valor. Os
males e pecados logo os escondia. Até os olhos de quem as viu
permite Sua Majestade que fiquem como cegos e lhes tira da
memória; doura as culpas; faz resplandecer uma virtude que o
mesmo Senhor põe em mim, fazendo-me quase força para que a
tenha.

11. Quero voltar ao que me mandaram. Digo que, se houvesse de
dizer sempre o modo como o Senhor fez comigo nestes
princípios, seria necessário outro entendimento - e não o meu - para saber encarecer o que neste caso Lhe devo e a minha grande ingratidão e maldade, pois tudo isto esqueci. Seja para sempre bendito, que tanto me tem suportado. Amém.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila