Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Prossegue o assunto começado e diz algumas grandes graças que lhe fez o Senhor e as coisas que Sua Majestade lhe dizia para a assegurar e para que respondesse aos que a contradiziam.

LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

 
CAPÍTULO 29. Prossegue o assunto começado e diz algumas
grandes graças que lhe fez o Senhor e as coisas que Sua
Majestade lhe dizia para a assegurar e para que respondesse
aos que a contradiziam.

1. Muito saí do propósito, pois que tratava de dizer as causas que há
para se ver que não é imaginação; porque, como poderíamos, com
esforço, representar a Humanidade de Cristo e ir ordenando com a
imaginação a Sua grande formosura? E não seria necessário pouco
tempo, se nalguma coisa se houvesse de parecer com ela. Bem pode
alguém representá-la na imaginação e fixá-la durante algum tempo, e
os traços que tem, e a sua brancura, e, pouco a pouco, ir
aperfeiçoando mais e imprimindo na memória aquela imagem. Isto,
quem lho impede, pois com o entendimento o pode fabricar?

No que tratamos, nada podemos fazer para isto, senão que a temos
de ver quando o Senhor a quer representar e como quer e o que
quer. Não há tirar nem pôr, nem modo para isso, por mais que
façamos, nem para vê-Lo quando queremos, nem para O deixar de
ver. Em querendo fixar alguma coisa particular, logo se perde a
visão de Cristo.

2. Dois anos e meio me durou isto, muito frequentemente me fazia
Deus esta mercê. Haverá mais de três anos que Ele deixou de ma
fazer tão de contínuo e substituiu-a por outra mais subida, como
talvez direi depois. Via que me estava falando e eu contemplando
aquela grande formosura e a suavidade, com que dizia aquelas
palavras por aquela formosíssima e divina boca, e outras vezes com
rigor desejar eu perceber a cor de Seus olhos e do tamanho que
eram, para o saber dizer, jamais mereci vê-lo, nem me serve de nada
procurá-lo, antes se me esvai de todo a visão. É verdade que
algumas vezes vejo que olha para mim com piedade, mas tem tanta
força este olhar, que a alma filão o pode sofrer e fica em tão subido
arroubamento que, para melhor O gozar todo, perde esta formosa
vista. Assim, aqui, não há querer e não querer. Vê-se claramente que
o Senhor quer que não haja senão humildade e confusão, e tomar o
que nos derem e louvar a Quem o dá.

3. Isto acontece em todas as visões, sem excepção, pois nenhuma
coisa se pode, nem para ver menos nem mais faz ou desfaz a nossa
diligência. Quer o Senhor que vejamos com muita clareza que isto
não é obra nossa, senão de Sua Majestade. É que, assim, muito
menos podemos ter soberba; antes nos faz permanecer humildes e
temerosos, vendo que, do mesmo modo como o Senhor nos tira o
poder para ver o que queremos, assim nos pode também tirar estas
mercês e a graça, e ficarmos perdidos de todo. Quer que sempre
andemos com medo, enquanto vivemos neste desterro.

4. Quase sempre se me representava o Senhor assim ressuscitado e
na Hóstia do mesmo modo, a não ser algumas vezes em que, para
me esforçar, se estava em tribulação, me mostrava as Chagas;
algumas vezes na Cruz e no Horto; com a coroa de espinhos,
poucas vezes; levando a cruz também algumas, para - como digo -
necessidades minhas e também de outras pessoas, mas sempre a
carne glorificada.

Fartas afrontas e trabalhos passeiem dizê-lo e fartos temores e
fartas perseguições. Tão certo lhes parecia que eu tinha demônio,
que algumas pessoas me queriam exorcizar. Disto, a mim pouco se
me dava; mais sentia quando via que temiam os confessores de
confessar-me ou quando sabia que de mim lhes diziam alguma
coisa. Contudo, jamais podia ter pesar de ter visto estas visões
celestiais, e nem por todos os bens e deleites do mundo eu as
trocaria sequer por uma só vez que delas gozei. Sempre tive isto por
grande mercê do Senhor e me parece um grandíssimo tesouro, e o
mesmo Senhor mo assegurava muitas vezes. Eu mesma me via
crescer em O amar muitíssimo; ia-me queixar a Ele de todos estes
trabalhos; e sempre saía consolada da oração e com novas forças. A
eles não ousava eu contradizer, porque via que era tudo pior, pois
lhes parecia pouca humildade. Com o meu confessor tratava; ele
consolava-me sempre muito quando me via aflita.

5. Como as visões foram crescendo, um deles, que antes me ajudava
(com quem me confessava algumas vezes quando o ministro não
podia), começou a dizer que era claro ser obra do demónio.
Mandaram-me, visto não me ser possível resistir, que me benzesse
quando visse alguma visão, e fizesse figas, porque podia ter por
certo que era demônio, e com isto ele não viria e que não tivesse
medo, pois Deus me guardaria e me tiraria estas visões. Para mim
era isto causa de grande pesar, porque, como não podia crer senão
que era Deus, era coisa terrível para mim. E tão-pouco podia desejar
- como tenho dito - que me fossem tiradas; mas, enfim, fazia quanto
me mandavam. Suplicava muito ao Senhor que me livrasse de ser
enganada. Isto sempre o fazia e com muitas lágrimas e o pedia a S.
Pedro e a S. Paulo porque o Senhor me disse - como foi no seu dia
que Ele me apareceu pela primeira vez - que eles me guardariam
para que não fosse enganada. E assim os via muitas vezes ao meu
lado esquerdo muito claramente, embora não por visão imaginária.
Eram estes gloriosos santos muito meus senhores.

6. Dava-me grandíssima pena ter de fazer figas, quando via esta
visão do Senhor. É que, quando eu O via presente, embora me
fizessem em pedaços, não poderia crer que era o demónio, e assim
isto foi um género de penitência bem grande para mim e, para não
me andar tanto a benzer, tomava uma cruz na mão. Isto fazia-o
quase sempre; as figas não tão de contínuo, porque sentia-o muito.

Lembrava-me das injúrias que Lhe tinham feito os judeus e
suplicava-Lhe me perdoasse, porque o fazia para obedecer a quem
Ele tinha em Seu lugar e que não me culpasse, pois eram os
ministros que ele tinha posto na Sua Igreja. Dizia-me o Senhor que
não me perturbasse com isso, que fazia bem em obedecer, mas Ele
faria com que se entendesse a verdade.

Quando me tiraram a oração, pareceu-me que ficara magoado; disseme
que lhes dissesse que aquilo já era tirania. Dava-me razões para
que entendesse que não era demónio; algumas direi depois.

7. Uma vez, tendo eu a cruz na mão, que a trazia num rosário, pegou
nela o Senhor com a Sua e quando ma tornou a dar tinha quatro
pedras grandes, muito mais preciosas que diamantes e isto sem
comparação. É que nem quase mesmo a pode haver com o que se
vê de sobrenatural, pois o diamante parece coisa contrafeita e
imperfeita à vista das pedras preciosas que lá se vêem. Tinha as
cinco chagas de muito linda feitura. Disse-me o Senhor que assim a
veria de aí em diante, e assim foi que não via a madeira de que era
feita, senão estas pedras; mas isto a ninguém acontecia senão a
mim.

Desde que me mandaram fazer estas tais provas e resistir, foi muito
maior o crescimento das mercês. E em me querendo distrair, nunca
saia de oração; até dormindo me parecia que estava nela. Então
cresciam o amor e as queixas que eu fazia ao Senhor, pois não
podia sofrer, nem estava na minha mão, deixar de pensar n 'Ele, por
mais que eu quisesse e por mais que me esforçasse. Contudo,
obedecia quando podia, mas nisto pouco ou nada podia e o Senhor
nunca me dispensou de obedecer. Mas, ainda que me dizia para o
fazer, assegurava-me, por outro lado, e ensinava-me o que lhes
havia de dizer, e assim ainda o faz agora. Dava-me razões tão fortes
que a mim me incutiam inteira segurança.

8. Dentro de pouco tempo começou Sua Majestade, como mo tinha
prometido, a mostrar mais claramente que era Ele, crescendo em
mim um amor tão grande de Deus que não sabia quem mo infundia,
porque era muito sobrenatural, nem eu o procurava. Via-me morrer
com desejo de ver a Deus e não sabia aonde havia de buscar esta
vida, a não ser com a morte. Davam-me uns ímpetos tão grandes
deste amor que, embora não fossem tão insofríveis como os que já
de outra vez tenho dito, nem de tanto valor, eu não sabia que fazer
de mim. Nada me satisfazia, nem eu cabia em mim, senão que
verdadeiramente me parecia que se me arrancava a alma. Oh!
artifício soberano do Senhor, de que indústria tão delicada usáveis
para com a Vossa escrava miserável! Escondíeis-Vos de mim e
apertáveis-me com Vosso amor com uma morte tão saborosa que
nunca a alma quereria sair dela.

9. Quem não tiver passado por estes ímpetos tão grandes,
impossível é podê-lo entender; não é desassossego do peito, nem
umas devoções que costumam dar muitas vezes, que parece afogam
o espírito, que não cabe em si. Esta oração é mais baixa e devem-se
reprimir estes ímpetos procurando, com suavidade, recolhê-los
dentro de si e acalmar a alma. Pois isto é como meninos que têm um
choro acelerado, e parece que se vão abafar, e com dar-lhes de
beber, cessa aquele demasiado sentimento. Assim aqui: a razão
procure atalhar, retesando a rédea, porque poderia ser que para isto
concorresse o mesmo natural. Volte a consideração com o temor de
que nem tudo aquilo é perfeito, mas que nisto pode ter muita parte a
sensibilidade e acalme esta criança com um regalo de amor que a
faça mover a amar com suavidade e não aos empurrões, como
dizem. Recolha este amor dentro de si e não seja como panela que
ferve demasiado, porque pondo lenha sem discrição, se derrama
toda. Modere a causa que lhe serviu para atear esse fogo e procure
abafar a chama com lágrimas suaves e não penosas, como são as
destes sentimentos, que fazem muito dano. Eu as tive algumas
vezes nos princípios e deixavam-me com a cabeça perdida e o
espírito cansado, de sorte que no outro dia, e até por mais tempo,
não estava em condições de voltar à oração. Assim, pois, é mister
grande discrição nos princípios para que tudo vá com suavidade e
se disponha o espírito a obrar interiormente; procure-se evitar muito
o exterior.

10. Estes outros ímpetos são diferentíssimos. Não pomos nós a
lenha, antes parece que, aceso já o fogo, de súbito nos lançam nele
para que nos queimemos. Não procura a alma que lhe doa esta
chaga da ausência do Senhor, mas cravam-lhe, por vezes, uma seta
no mais vivo das entranhas e do coração, que ela não sabe o que
tem, nem o que quer. Bem entende que quer a Deus, e que a seta
parece vir ervada para se aborrecer a si mesma por amor deste
Senhor e que perderia, de boa vontade, a vida por Ele.
Não se pode encarecer nem dizer o modo como Deus chaga a alma,
e a grandíssima pena que dá, de modo que a faz não saber de si;
mas esta é pena tão saborosa, que não há deleite na vida que mais
contento dê. Sempre a alma quereria, como tenho dito, estar
morrendo deste mal.

11. Esta junção de pena e glória trazia-me desatinada, pois não
podia entender como aquilo podia ser. Oh! o que é ver uma alma
ferida! Pois digo que se entende de maneira que bem se pode dizer
ferida por tão excelente causa e vê claramente que não fez nada por
onde lhe viesse este amor, mas parece-lhe que, do muito grande que
o Senhor lhe tem, caiu nela de repente aquela centelha que a faz
arder toda. Oh! quantas vezes me recordo, quando assim estou,
daquele verso de David: “Quemadmodum desiderat cervus ad fontes
aquarum”. Dir-se-ia que o vejo cumprir-se literalmente em mim!

12. Quando isto não dá com tanta força, parece que se aplaca um
pouco, pelo menos a alma busca remédio - pois não sabe que fazer -
com algumas penitências. Estas, porém, não se sentem, nem mesmo
causa mais dor o derramar sangue do que se o corpo estivesse
morto. Busca modos e maneiras para fazer alguma coisa em que
padeça por amor de Deus, mas é tão grande a primeira dor, que eu
não conheço tormento corporal que lha tirasse. Como não está nisto
o remédio, são demasiado baixas estas medicinas para tão subido
mal; todavia aquieta-se um pouco e algo disto passa, pedindo a
Deus lhe dê remédio para seu mal; e nenhum vê senão a morte, pois
só com esta, pensa poder gozar de todo do seu Bem. Outras vezes é
tão forte este ímpeto que nem isto, nem mesmo nada, se consegue
fazer. Tolhe todo o corpo e nem pés, nem braços pode menear; se
está em pé, cai sentada como coisa inanimada. Não pode nem
mesmo respirar, só dá uns gemidos, não grandes, porque mais não
pode; são-no, porém, no sentimento.

13. Quis o Senhor que viesse então algumas vezes esta visão. Via
um anjo ao pé de mim, para o lado esquerdo, em forma corporal,zz o
que não costumo ver senão por maravilha. Ainda que muitas vezes
se me representam anjos, é sem os ver, senão como na visão
passada, que disse antes. Nesta visão quis o Senhor que o visse
assim: não era grande mas pequeno, formoso em extremo, o rosto
tão incendido, que parecia dos anjos mais sublimes que parecem
todos se abrasam. Devem ser os que chamam Querubins, que os
nomes não mos dizem, mas bem vejo que no Céu há tanta diferença
duns anjos a outros e destes outros a outros, que não o saberia
dizer. Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da
ponta de ferro, me parecia que tinha um pouco de fogo. Parecia-me
meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às
entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava
toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que
me fazia dar aqueles queixumes e tão excessiva a suavidade que me
causava esta grandíssima dor, que não se pode desejar que se tire,
nem a alma se contenta com menos de que com Deus. Não é dor
corporal mas espiritual, embora o corpo não deixa de ter a sua parte,
e até muita. É um requebro tão suave que têm entre si a alma e Deus,
que suplico à Sua bondade o dê a gostar a quem pensar que minto.

14. Os dias que isto durava, andava como alienada; não queria ver
nem falar, senão abraçar-me com a minha pena, que era para mim
maior glória que quantas há em tudo o criado.
Isto me acontecia algumas vezes, quando quis o Senhor que me
viessem estes arroubamentos tão grandes que, até mesmo estando
entre muitas pessoas, não lhes podia resistir, e assim, com muita
pena minha, se começaram a divulgar. Desde que os tenho, não
sinto tanto esta pena, senão o que disse em outra parte - não me
recordo em que capítulo -, o qual é muito diferente em muitas coisas
e de maior preço; pois, em começando esta pena de que agora falo,
parece que o Senhor arrebata a alma e a põe em êxtase, e assim não
há lugar para ter pena nem padecer, porque vem logo o gozar.
Seja bendito para sempre, que tantas mercês faz a quem tão mal
corresponde a tão grandes benefícios.
 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Trata das grandes graças que lhe fez o Senhor e como Ele lhe apareceu a primeira vez. Declara o que é visão imaginária.



LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

 CAPÍTULO 28. Trata das grandes graças que lhe fez o Senhor e como Ele lhe apareceu a primeira vez. Declara o que é visão imaginária. Diz os grandes efeitos e sinais que deixa quando é de Deus. É muito proveitoso este capitulo e digno de se prestar atenção.

1. Voltando ao nosso propósito, passei alguns, poucos dias, com esta visão muito contínua e aproveitava tanto, que não saía da oração; e tudo quanto fazia, procurava fazer tudo para não descontentar Aquele que via tão claramente que tinha por testemunha. E, ainda que algumas vezes temia por causa do que  me diziam, durava pouco o temor, porque o Senhor me assistia.

Estando um dia em oração, quis o Senhor mostrar-me só as mãos com tão grandíssima formosura, que não   poderia eu esquecer.

Causou-me isto grande temor, porque qualquer novidade faz   que   o temor seja grande no princípio de qualquer graça sobrenatural que o Senhor me faça. Poucos dias depois, vi também aquele divino rosto que, me parece, me deixou absorta. Não podia eu entender porque era que o Senhor se mostrava assim pouco a pouco, visto que depois me havia de fazer graça de que O visse   todo, até compreender que o Senhor me ia levando conforme a minha fraqueza natural.

Seja bendito para sempre, porque tanta glória junta, uma criatura tão baixa e ruim não a poderia suportar e, como quem isto sabia, ia o piedoso Senhor dispondo.

2. Parecerá a V. Mercê que não era preciso muito esforço para ver umas mãos e rosto tão formoso. São   tantos os corpos glorificados, que a glória que trazem consigo, e o ver coisa tão sobrenaturalmente formosa, desatina e, assim, me causava tanto temor, que  me perturbava toda e alvoroçava, embora depois ficasse com certeza e segurança e com tais efeitos que depressa perdia o temor.

3. No dia de São Paulo, estando na Missa,  me representou toda esta Humanidade sacratíssima, quando é pintado ressuscitado, com tanta formosura e majestade, como particularmente escrevi a V. Mercê, quando instantemente me mandou, o que me foi assaz custoso, porque nada se pode dizer que não seja antes desfazer; mas o melhor que soube já o disse, e assim não há para que voltá-lo a dizer aqui.

Só digo que, quando outra coisa não houvesse para deleitar a vista no Céu, senão a grande formosura dos corpos glorificados, bastaria para causar grandíssima glória, em especial ver a Humanidade de Jesus Cristo, Senhor Nosso, ainda que aqui se mostre Sua Majestade conforme ao que pode sofrer a nossa miséria; que será no Céu onde de todo se goza de tal bem?

4. Esta visão, embora seja imaginária, nunca a vi com os olhos corporais, nem a nenhuma outra, senão com os olhos da alma. Dizem os que  sabem melhor do que eu, ser mais perfeita a visão passada do que esta, e esta muito mais do que as que se vêem com os olhos corporais.

Estas, dizem, são as mais baixas e onde o demônio mais ilusões pode fazer, embora eu então não pudesse entender tal coisa, e desejava, já que se me dava esta graça, que fosse vendo-a com os olhos corporais, para que me não dissesse o confessor que era ilusão. E também me acontecia, depois de passada a visão - isto era logo em seguida -, eu pensar também que seria ilusão minha e afligia-me de tê-lo dito ao confessor, julgando que o teria enganado. Aqui era outro pranto, e ia a ele dizer-lhe.

Perguntava-me se  assim me parecia, ou se eu o tinha querido enganar. Eu lhe dizia a verdade, porque, a meu parecer, não mentia, nem tal havia pretendido, nem por coisa alguma do mundo diria uma coisa por outra. Isto bem o sabia ele e assim procurava sossegar-me, e eu sentia tanto em ir a ele com estas coisas, que não sei como o demônio me incutia o medo de que o poderia fingir para me atormentar a mim mesma.

Mas o Senhor deu-Se tanta pressa em fazer-me esta graça e declarar esta verdade que bem depressa  me tirou a dúvida se era ilusão, e depois vi muito claramente a minha tolice: porque se estivesse muitos anos imaginando como figurar coisa tão formosa, não poderia nem saberia, porque excede a tudo quanto cá na terra se pode imaginar, até só a brancura e resplendor.

5. Não é resplendor que deslumbre, mas uma brancura suave e resplendor infuso, que dá grandíssimo deleite à vista e não a cansa, como não cansa a claridade com que se contempla esta formosura tão divina.

É uma luz tão diferente desta de cá, que a claridade do sol que vemos, parece coisa tão deslustrada, em comparação daquela luz que se representa à vista, que não se quereriam depois abrir os olhos. É como ver uma água muito clara que corre sobre cristal e reverbera nela o sol, e uma muito turva e com grande nevoeiro que corre por cima de terra.

Não que se represente sol, nem que a luz seja como a do sol; parece, enfim, luz natural, e esta outra coisa artificial. É luz que não tem noite mas, como sempre é luz, nada a turva. Enfim, é de tal forma que, por grande entendimento que uma pessoa tivesse, em todos os dias da sua vida não a poderia imaginar como é.

E põe-na Deus diante de tanta maravilha, que até não daria lugar a abrir os olhos, se fosse preciso abri-los; mas não faz mais ao caso estarem abertos ou fechados, quando o Senhor quer porque, embora não queiramos, se vê. Não há diversão que baste, nem há poder de se resistir, nem assaz diligência nem cuidado para isso. Isto tenho-o eu bem experimentado, como direi.

6. O que eu agora queria dizer é o modo como o Senhor se mostra nestas visões. Não digo que declararei de que maneira pode ser impressa esta luz tão forte no sentido interior, e no entendimento imagem tão clara, que parece que verdadeiramente está ali, porque isto é de letrados.

Não quis o Senhor dar-me a entender  como, e sou tão ignorante e de tão rude entendimento que, embora muito me tenham querido declarar, ainda não acabei de entender o como. E isto é certo: embora a V Mercê lhe pareça que tenho vivo entendimento, não o tenho; porque, em muitas coisas, experimentei que ele não compreende mais do que lhe dão a comer, como dizem.

Algumas vezes se espantava, quem me confessava, de minhas ignorâncias; e jamais me dei ao trabalho de entender, nem mesmo o desejava, como Deus faz isto ou como pode ser. Nem o perguntava, ainda que - como tenho dito -, que há muitos anos para cá tratava com bons letrados. Se uma coisa era pecado ou não, isto sim; no mais, não era para mim preciso, senão pensar que Deus fez tudo e via não haver de que me espantar, mas sim motivo de O louvar. Antes me fazem devoção as coisas dificultosas e tanto mais, quanto mais o são.

7. Direi, pois, o que tenho visto por experiência. Como o Senhor o faz, V Mercê, o dirá melhor e declarará tudo o que for obscuro e eu não souber dizer.

Bem me parecia em algumas coisas que era imagem o que eu via, mas em  muitas outras não, senão que era o próprio Cristo, conforme a claridade com que era servido mostrar-Se a mim.

Umas vezes era tão confusamente, que me parecia imagem, mas não como os desenhos cá da terra, por muito perfeitos que sejam, e muitos tenho visto e bons; é disparate pensar que de algum modo tenha semelhança uma coisa com a outra; e, nem mais nem menos, a que tem uma pessoa viva com o seu retrato.

Este, por bem tirado que esteja, não pode ser tão ao natural que, enfim, se vê que é coisa morta. Mas deixemos isto, que vem aqui muito bem e é muito ao pé da letra.

8. Não digo que seja comparação, que nunca são tão perfeitas, senão verdade: a diferença que há é, nem mais nem menos, a do vivo ao pintado. Se é imagem, é imagem viva: não homem morto, senão Cristo vivo. E dá a entender que é homem e Deus, não como estava no sepulcro, senão como saiu dele depois de ressuscitado.

Vem, às vezes, com tão grande majestade, que não há quem possa duvidar: vê-se que é mesmo o Senhor, em especial em acabando de comungar, que bem sabemos que está ali, porque no-lo diz a fé.

Representa-se tão Senhor daquela pousada que a alma toda se desfaz, vê-se consumir em Cristo. Ó Jesus meu, quem pudesse dar a entender a majestade com que Vos mostrais! E quão senhor de todo o mundo e dos céus e de outros mil mundos, e mundos e céus sem conta que Vós criásseis.

E a alma entende, segundo a majestade com que Vos representais, que isso não é nada para Vós serdes Senhor de tudo.

9. Aqui se vê claramente, Jesus meu, o pouco poder de todos os demônios em comparação do Vosso, e como, quem Vos tiver contente, pode calcar aos pés no inferno todo. Aqui se vê a razão que tiveram os demônios de temer quando baixastes ao Limbo e como desejariam outros mil infernos mais baixos para fugir de tão grande majestade.

Vejo que quereis dar a entender à alma quão grande é o poder que tem esta sacratíssima Humanidade junta com a Divindade. Aqui se representa bem o que será ver, no dia do juízo, a majestade deste Rei e vê-Lo com rigor para os maus. Aqui é a verdadeira humildade que deixa esta visão na alma ao ver sua miséria, pois não a pode ignorar.

Aqui a confusão e verdadeiro arrependimento dos pecados, pois, ainda que veja que lhe mostra amor, não sabe aonde se meter, e assim se desfaz toda.

Digo que tem tão grandíssima força esta visão, quando o Senhor quer mostrar à alma grande parte da Sua grandeza e majestade, que tenho por impossível podê-la sofrer qualquer pessoa, se o Senhor, de modo muito sobrenatural, não a quisesse ajudar, pondo-a em arroubamento e êxtase, onde perde de vista, com o gozo, a visão daquela divina presença.

Será verdade que se esquece depois? Fica porém tão impressa aquela majestade e formosura, que não há maneira de se poder esquecer, a não ser quando o Senhor quer que a alma padeça uma grande aridez e soledade, que direi adiante, que então até de Deus parece que se esquece.

A alma fica outra, sempre embebida; parece-lhe que começa de novo um amor vivo de Deus em muito alto grau, a meu ver; porque, embora a visão passada, em que disse que Deus se representa sem imagem, seja mais perfeita, contudo, para durar na memória, conforme a nossa fraqueza, e para trazer bem ocupado o pensamento, é grande coisa o ficar representada e posta na imaginação tão Divina presença. E quase sempre vêm juntas estas duas maneiras de visão.

E até mesmo é assim que vêm. Porque, com os olhos da alma, vê-se a excelência e formosura e glória da santíssima Humanidade e, por esta outra maneira que fica dita, se nos dá a entender como é Deus é poderoso e que tudo pode e tudo manda e tudo governa e a tudo enche o Seu amor.

10. É muito para estimar esta visão, e sem perigo, a meu parecer, porque, pelos efeitos, se conhece que  o demônio não tem força aqui.

Parece-me, que três ou quatro vezes, me quis este dar a ver, desta maneira, ao mesmo Senhor em representação falsa. Toma a forma humana, mas não pode contrafazê-la com a glória que tem quando é de Deus. Faz representações para desfazer a verdadeira visão que a alma teve; mas esta resiste por si e se alvoroça e fica desabrida e inquieta, porque perde a devoção e o gosto que antes tinha e fica sem oração alguma.

No  princípio  foi isto, como tenho dito, três ou quatro vezes. É coisa tão imensamente diferente que, ainda quem só tivesse tido oração de quietude, creio o entenderá pelos efeitos que ficam ditos nas falas. E coisa muito conhecida é, se uma alma não se quiser deixar enganar, não me parece que o demônio a enganará, se ela anda com humildade e simplicidade.

Quem tiver tido verdadeira visão de Deus, desde quase logo o sente; porque, embora comece com regalo e gosto, a alma o lança de si. E, a meu parecer, até deve ser diferente o gosto, e não tem aparência de amor puro e casto; muito em breve dá a entender quem é. Assim, segundo me parece, onde há experiência, não poderá o demônio fazer dano.

11. Pois, ser imaginação isto, é impossível de toda a impossibilidade. Nenhum caminho leva, porque só a formosura e brancura de uma mão está acima de toda a nossa imaginação; pois, sem nos lembrarmos disso nem havê-lo jamais pensado, ver presentes, num instante, coisas que em muito tempo não se poderiam conceber com a imaginação, porque são muito mais sublimes, como tenho dito, do que podemos aqui compreender... isto é impossível.

E mesmo que pudéssemos algo nisto, ainda se vê mais claro, por esta outra razão, que agora direi. Porque, se fosse representado pelo entendimento, não faria as grandes operações que isto faz, nem mesmo nenhuma (porque seria como alguém que quisesse dormir e ficasse desperta por não lhe ter vindo o sono; como tem necessidade de dormir ou fraqueza na cabeça, deseja-o e faz diligência para adormecer e, às vezes, parece que alguma coisa consegue; mas, se não é sono de verdade, não o sustentará nem lhe dará força à cabeça, antes às vezes fica com ela mais esvaída), assim seria em parte aqui: ficar a alma esvaída, mas não sustentada e forte, antes cansada e desgostada. Quando é verdadeira, não se pode aumentar a riqueza que deixa; até ao corpo dá saúde e este fica confortado.

12. Esta razão, com outras, dava eu quando me diziam que era o demônio o que se me afigurava, e era muitas vezes. Fazia comparações conforme podia e o Senhor me dava a entender. Mas tudo aproveitava pouco, porque, como havia pessoas muito santas neste lugar (e eu, em sua comparação, uma perdição) e não as levava Deus por este caminho, logo as enchia o temor.

Meus pecados parece, eram disto a causa. Passavam de um para outro as minhas coisas, de maneira que se vinham a saber sem dizê-las eu, senão ao meu confessor ou a quem ele me mandava.

13. Eu lhes disse uma vez que, se os que me diziam isto, me dissessem que uma pessoa a quem eu tivesse acabado de falar e conhecesse muito bem, não era de fato ela, mas que eu me enganava e que eles o sabiam, sem dúvida eu lhes daria mais crédito do que àquilo que tinha visto.

Mas, se essa pessoa me. deixasse nas mãos algumas jóias que me ficassem por penhor de muito amor, e eu antes não tivesse nenhuma e me visse então rica sendo pobre, eu não poderia crer no que eles me diziam, embora o quisesse. Estas jóias eu lhe as poderia mostrar, porque todos os que me conheciam, viam claramente estar outra a minha alma e assim o dizia o meu confessor.

É que era muito grande a diferença em todas as coisas, e não dissimulada, senão que, com muita claridade, todos o podiam ver: Porque - dizia eu -, sendo antes tão ruim como era, não podia crer que, se o demônio fazia isto para me enganar e levar ao inferno, usasse de meio tão contrário como era tirar-me os vícios e pôr em mim virtudes e fortaleza; porque via claramente com estas coisas ficar, numa só vez, outra?

14. Meu confessor, como digo, que era um Padre bem santo da Companhia de Jesus, respondia isto mesmo, segundo eu soube. Era muito discreto e de grande humildade, e esta humildade tão grande acarretou-me vastos trabalhos; porque, conquanto fosse de muita oração e letrado, como o Senhor não o levava por este caminho, não se fiava de si.

Passou-os muito grandes comigo e de muitas maneiras. Soube que lhe diziam que se acautelasse de mim, não o enganasse o demônio em acreditar alguma coisa do que eu lhe dizia.

Traziam-lhe exemplos de outras pessoas. Tudo isto me afligia. Temia que viesse a não haver quem me quisesse confessar, pois todos haviam de fugir de mim. Não fazia senão chorar.

15. Foi providência de Deus querer ele continuar a ouvir-me; mas era tão grande servo de Deus, que a tudo se exporia por Ele. Dizia-me que não ofendesse eu a Deus, nem me apartasse do que ele me dizia e não tivesse medo de que me faltasse. Sempre me animava e sossegava.

Mandava-me sempre que não lhe ocultasse coisa nenhuma; eu assim fazia. Dizia-me ele que, fazendo eu isto, ainda que fosse demônio, não me faria dano, antes o Senhor tiraria o bem do mal que ele queria fazer à minha alma. Procurava aperfeiçoá-la em tudo que ele podia.

Eu, como trazia tanto medo, obedecia-lhe em tudo, embora imperfeitamente. E muito passou por minha causa nos três anos e mais que me confessou, com estes trabalhos; porque nas grandes perseguições que tive e em muitas coisas que o Senhor permitia que me julgassem mal, e muitas estando sem culpa, iam a ele e o culpavam de tudo, estando ele sem culpa alguma.

16. Fora impossível, se não tivesse tanta santidade - e o Senhor o não animasse - poder sofrer tanto porque tinha de responder aos que lhes parecia que eu ia perdida e não o acreditavam; e, por outra parte, tinha de me sossegar e curar o medo que eu trazia, mas eu ficava com ele ainda maior.

Por outra parte, tinha de me tranquilizar a cada visão, porque, sendo coisa nova, permitia Deus que me ficassem depois grandes temores. Tudo procedia de eu ser tão pecadora e de o ter sido. Ele me consolava com muita piedade e, se ele acreditasse em si mesmo, não padecera eu tanto, pois Deus lhe dava a entender a verdade em tudo, porque o mesmo Sacramento o iluminava,  segundo creio.

17. Os servos de Deus que não se asseguravam, tratavam muito comigo. Eu, como falava descuidadamente, dizia algumas coisas que eles tomavam em diferente sentido. Queria eu muito a um deles, porque lhe devia muito a minha alma e era muito santo e desejava de grande modo o meu aproveitamento e que o Senhor me iluminasse.

Eu sentia sumamente por ver que não me entendia. Assim, o que eu dizia, como digo, sem olhar a isso, parecia-lhes pouca humildade.

E  vendo-me alguma falta - e veriam muitas - logo era tudo condenado. Perguntavam-me algumas coisas; eu respondia com sinceridade e descuido. Logo lhes parecia que os queria ensinar e me tinha a mim mesma por sábia. Tudo ia ter ao meu confessor, porque certamente desejavam meu proveito; e ele a ralhar-me.

18. Durou isto bastante tempo; afligida por muitas partes, mas com as graças que o Senhor me fazia, tudo suportava.

Digo isto para que se entenda o grande trabalho que é não achar quem tenha experiência neste caminho espiritual. Pois, se não me favorecera tanto o Senhor, não sei que seria de mim.

Bastante  coisa  havia para me tirar o juízo, e algumas vezes via-me em termos que não sabia que fazer de mim, senão levantar os olhos ao Senhor; porque, contradições de bons a uma mulherzinha ruim e fraca e temerosa como eu, dito assim não parece nadada e não obstante eu ter passado na vida grandíssimos trabalhos, este é dos maiores.

Praza ao Senhor que eu tenha servido a Sua Majestade algum tanto nisto. Pois, de que O serviam os que me condenavam e arguiam, bem certa estou e que era tudo para grande bem meu.


terça-feira, 4 de junho de 2013

Olhai, que é assim com certeza, que Deus se dá a Si aos que tudo deixam por Ele. Não faz acepção de pessoas, a todas ama, ninguém tem desculpa, por ruim que seja, pois assim fez comigo trazendo-me a tal estado.



LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

CAPÍTULO 27. Trata de outro modo com que o Senhor ensina a alma e, sem lhe falar, lhe dá a entender a Sua vontade de uma maneira admirável. Declara também uma visão não imaginária e a grande graça que lhe fez o Senhor. É muito digno de atenção este Capítulo.

1. Pois, voltando ao discurso da minha vida, estava eu acabrunhada de penas e aflições e faziam-se muitas orações - como tenho dito para que o Senhor me levasse por outro caminho que fosse mais seguro, pois este, me diziam, era tão suspeito.

Verdade é que, embora eu o suplicasse a Deus, por muito que quisesse desejar outro caminho, como via tão melhorada a minha alma, não estava na minha mão desejá-lo, a não ser alguma vez quando estava muito fatigada das coisas que me diziam e dos medos que me metiam, contudo sempre o pedia. Eu via-me outra em tudo; não podia, mas punha-me nas mãos de Deus. Ele sabia o que convinha, que em tudo cumprisse em mim o que era de Sua vontade.

Via que, por este caminho, era levada para o Céu e que antes ia para o inferno; que houvesse de desejar isto e crer que era demônio, não podia forçar-me a isso, embora fizesse quanto podia para o acreditar e desejar; mas não estava isso na minha mão.

Oferecia o que fazia, se era alguma boa obra, por essa intenção.
Apegava-me a santos de quem era devota, para que me livrassem do demônio. Fazia novenas encomendando-me a Santo Hilarião, a São Miguel Arcanjo, a quem, por este motivo, tomei novamente devoção e a outros muitos santos importunava, para que o Senhor mostrasse a verdade, digo, para que o conseguissem de Sua Majestade.

2. Depois de dois anos, em que andava com toda esta oração minha e de outras pessoas para que o Senhor me levasse por outro caminho ou declarasse a verdade, porque eram muito contínuas as falas que, como já falei, me dava o Senhor, aconteceu-me isto:
Estando um dia do glorioso São Pedro em oração, vi ao pé de mim ou senti, para melhor dizer, pois nem com os olhos do corpo nem com os da alma nada vi; mas parecia-me que Cristo estava ali mesmo junto de mim e via ser Ele que me falava, segundo me parece. Como era ignorantíssima que pudesse haver semelhante visão, deu-me um grande temor a princípio e não fazia senão chorar, embora, dizendo-me uma só palavra de segurança, ficasse sossegada com regalo e sem nenhum temor, como costumava.

Parecia-me andar sempre a meu lado Jesus Cristo; e, como não era visão imaginária, não via sob que forma, mas sentia muito claramente estar Ele sempre a meu lado direito e que era testemunha de tudo quanto eu fazia; e de nenhuma vez em que me recolhesse um pouco, ou não estivesse muito distraída, podia ignorar que estava ao pé de mim.

3. Fui logo ao meu confessor, muito aflita, a contar tudo. Perguntou-me sob que forma O via. Eu disse-lhe que O não via. Disse-me como é que eu sabia que era Cristo? Eu disse-lhe que não sabia como, mas não podia deixar de entender que Ele estava ao pé de mim e O via e sentia nitidamente, e que o recolhimento da alma era muito maior que em oração de quietude e muito contínuo, e os efeitos muito diversos dos que costumava ter; e que era coisa muito clara.

Não fazia senão usar de comparações para me dar a entender; e certo é que, para este modo de visão, não há uma, a meu parecer, que lhe enquadre bem. Assim como é das mais subidas (segundo me disse depois um santo homem e de grande espírito, chamado Frei Pedro de Alcântara, de quem depois farei menção; e me tem dito outros grandes letrados, e que de todas é onde menos se pode intrometer o demônio), assim também não há termos para a sabermos dizer aqui, as que pouco sabemos; só os letrados  melhor o darão a entender.

Porque se digo que, nem com os olhos do corpo nem da alma, vejo Jesus Cristo, porque não é visão imaginária, como entendo e me afirmo que está ao pé de mim com mais clareza do que se O visse? Porque, parecer que é como uma pessoa que está às escuras, que não vê outra que está junto dela, ou se é cega, não é bem isso. Alguma semelhança tem, mas não muita, porque essa tal sente com os sentidos: ou a ouve falar ou mexer ou a toca. Aqui não há nada disto, nem se vê escuridão, e só se representa à alma por uma notícia mais clara do que o sol.

Não digo que se vê o sol, nem a claridade, mas uma luz que, sem ver luz, alumia o entendimento para que a alma goze de tão grande bem. Traz consigo grandes bens.

4. Não é como uma presença de Deus que se sente muitas vezes, em especial os que têm oração de quietude e união. Dir-se-ia que, em querendo começar a ter oração, encontramos com quem falar, e parece que entendemos que nos ouve, pelos efeitos e sentimentos espirituais que sentimos do grande amor e fé e de outras resoluções, com ternura. Esta grande graça é de Deus, e tenha-a em muito a alma a quem foi dada, porque é muito subida oração, mas não é visão.

Entende-se que está ali Deus pelos efeitos que, como digo, produz na alma, pois por aquele modo quer Sua Majestade dar-Se a sentir. Nesta, vê-se claramente que está presente Jesus Cristo, Filho da Virgem. Nessa outra oração representam-se umas influências da Divindade; aqui, juntamente com elas, vê-se que nos acompanha e também a Humanidade Sacratíssima nos quer dar graças.

5. Perguntou-me o confessor: quem disse que era Jesus Cristo? Ele me diz muitas vezes, respondi eu; mas antes que me dissesse, se imprimiu no meu entendimento que era Ele; até me tinha dito antes; mas a Ele não O via. Se uma pessoa que eu nunca tivesse visto, senão ouvido novas dela, me viesse falar, estando eu cega ou em grande escuridão, e me dissesse quem era, acreditá-la-ia, mas não poderia afirmar com tanta certeza que era ela como se a tivesse visto. Aqui, sim, que sem se ver, se imprime com uma notícia tão clara que não parece se possa duvidar, pois quer o Senhor que fique tão esculpido no entendimento, que disso não se possa duvidar mais do que daquilo que se vê, e até menos. Porque nisto ainda algumas vezes nos fica a suspeita se foi ilusão ou não; aqui, embora de súbito venha esta suspeita, fica por outra parte uma grande certeza que desvanece a dúvida.

6. Assim é também numa outra maneira em que Deus ensina a alma e lhe fala sem falar, do modo que fica dito. É uma linguagem tão do Céu, que aqui na terra não se pode dar a entender, por mais que o queiramos dizer, se o Senhor, por experiência, não no-lo ensina. Põe o Senhor, no mais interior da alma, o que quer que ela entenda e ali o representa sem imagem nem forma de palavras, a não ser à maneira desta visão que fica dita. E note-se bem esta maneira de fazer Deus com que entenda a alma o que Ele quer, e grandes verdades e mistérios; porque muitas vezes o que entendo, quando o Senhor me declara alguma visão que Sua Majestade quer representar-me, é assim. Parece-me que é onde o demônio menos se pode intrometer, pelas ditas razões. Se elas não são boas, eu me devo enganar.

7. É uma coisa tão espiritual este modo de visão e de linguagem, que nenhum bulício há nas potências nem nos sentidos, a meu parecer, por onde o demônio possa tirar alguma coisa. Isto dá-se alguma vez e com brevidade; em outras,  parece  que não estão suspensas as potências nem perdidos os sentidos, antes muito em si, pois isto nem sempre sucede na contemplação, senão muito poucas vezes. Mas estas, quando o são, digo que não pomos nada da nossa parte nem fazemos nada: tudo parece obra do Senhor.

É como se o manjar já estivesse no estômago sem o termos comido, nem sabermos como aí chegou, mas percebendo-se bem que lá está, ainda que então não se entenda que manjar é, nem quem ali o pôs. Aqui sim: mas como foi posto não sei, que nem se viu nem se entende, nem jamais a alma se havia movido a desejá-lo, nem tinha vindo ao meu conhecimento como isto podia ser.

8. Na fala que temos dito antes, faz Deus que o entendimento advirta, ainda que lhe pese, em compreender o que se diz. Parece que a alma tem ali outros ouvidos com que ouve e que a fazem escutar e que não se distraia; como uma pessoa que, se ouvisse bem e não lhe consentissem tapar os ouvidos e lhe falassem ali ao pé em voz alta, embora não quisesse, ouviria.

E, enfim, alguma coisa faz, pois está atenta para entender o que lhe dizem. Aqui nenhuma coisa faz, pois até este pouco que fazia na fala passada, que era só escutar, lhe é tirado. Tudo encontra cozinhado e comido; não lhe resta mais que fazer, senão gozar, como alguém que, sem aprender nem nada ter trabalhado para saber ler, nem tão-pouco tivesse estudado, achasse em si toda a ciência já sabida, sem saber como nem onde, pois até nunca se dera ao trabalho de aprender o abc.

9. Esta última comparação parece-me dizer alguma coisa deste dom celestial, porque a alma vê-se num momento sábia, e tão declarado o mistério da Santíssima Trindade e outras coisas muito subidas, que não há teólogos com quem se não atrevesse a disputar a verdade destas grandezas.

Fica-se tão espantada, que basta uma graça destas para mudar toda uma alma e fazê-la não amar nada a não ser a Quem vê que, sem nenhum trabalho, a tornou capaz de tão grandes bens e lhe comunica segredos tais e trata com ela com tanta amizade e amor, que se não podem descrever. Porque Deus faz algumas graças que trazem consigo suspeita, por serem de tanta admiração e feitas a quem tão pouco as tem merecido, que se não houver fé mui viva, não se poderão acreditar. E assim penso dizer algumas das que o Senhor me tem feito a mim, se não me mandarem outra coisa, a não ser certas visões que podem aproveitar para alguma coisa, ou para que a alma, a quem o Senhor as der, não se espante parecendo-lhe impossível, como me acontecia a mim, ou para lhe declarar o modo e caminho por onde o Senhor me tem levado, que é o que me mandam escrever.

10. Pois voltando a este modo de entender, o que me parece é que o Senhor quer que, de todas as maneiras, esta alma tenha alguma notícia do que se passa no Céu, e parece-me que assim como lá se entendem sem se falarem (o que eu de verdade nunca soube ser assim, até que o Senhor por Sua bondade quis que eu o visse e Ele me mostrou num arroubamento, assim é aqui, que se entendem Deus e a alma, só por o querer Sua Majestade. Isto sem outro artifício para se dar a perceber o amor que se têm estes dois amigos.

Tal como cá, na terra, quando duas pessoas se querem muito e têm bom entendimento, até sem sinais, parece que se entendem só com o olhar, assim deve ser aqui que, sem nós vermos como, se olham fixamente estes dois amantes, como diz o Esposo à Esposa nos Cantares. Segundo creio, ouvi dizer que era aqui.

11. Oh! benignidade admirável de Deus, que assim Vos deixais ver por uns olhos que tão mal foram empregados como os da minha alma! Fiquem eles já, Senhor, com Vos verem, acostumados a não olhar para coisas baixas, nem os contente nenhuma afora Vós.

Oh! ingratidão dos mortais! Até onde há de chegar? Eu sei por experiência que é verdade isto que digo, e que tudo quanto se disser, é o menos daquilo que Vós fazeis com uma alma que trazeis a tais termos. ó almas que haveis começado a ter oração e que tendes verdadeira fé, que bens podeis buscar ainda nesta vida -deixemos o que se ganha para a que não tem fim - que sejam como o menor destes?

12. Olhai, que é assim com certeza, que Deus se dá a Si aos que tudo deixam por Ele. Não faz acepção de pessoas, a todas ama, ninguém tem desculpa, por ruim que seja, pois assim fez comigo trazendo-me a tal estado. Olhai que o que digo é cifra daquilo que se pode dizer. Só vai dito o que é necessário para se dar a entender este modo de visão e a mercê que faz Deus à alma, mas não posso dizer o que se sente quando o Senhor lhe dá a entender segredos e grandezas Suas, o gozo tão acima de quantos se podem cá entender, que com razão faz aborrecer os bens desta vida, que todos juntos são lixo.

Causa asco trazê-los aqui para qualquer comparação, ainda que fosse para os gozar sem fim; e estes, que dá o Senhor, são apenas uma gota de água do rio grande caudaloso que nos está preparado.

13. É vergonha e eu certamente a tenho de mim e, se pudesse haver afronta no Céu, com razão estaria eu lá mais envergonhada que ninguém! Por que havemos de querer tantos bens e deleites e glória para sempre sem fim e todos à custa do bom Jesus? Não choraremos ao menos com as filhas de Jerusalém, já que O não ajudamos a levar a cruz como o Cireneu? Com prazeres e passatempos havemos de gozar o que Ele nos ganhou à custa de tanto sangue? É impossível! E com honras vãs pensamos remediar um desprezo como o que Ele sofreu, para que nós reinássemos para sempre? Não tem cabimento. Errado, errado vai o caminho. Nunca chegaremos lá.

Dê vozes, V. Mercê, dizendo estas verdades, pois Deus a mim me tirou esta liberdade. A mim mesma eu as quereria dar sempre e tão tarde me ouvi e entendi a Deus, como se verá pelo que tenho escrito.
É para mim de grande confusão falar nisto e assim quero calar. Só direi o que algumas vezes considero. Praza ao Senhor pôr-me em termos de poder gozar deste bem.

14. Que glória acidental será e que contento o dos bem-aventurados que já disto goza, quando virem que, embora tarde, não deixaram de fazer por Deus coisa alguma das que lhes foi possível e, por todas as maneiras que puderam, não deixaram coisa por Lhe dar conforme às suas forças e estado, e o que mais tinha, mais deu! Que rico se achará o que todas as riquezas deixou por Cristo! Que honrado o que por Ele não quis honra, antes gostou de se ver muito abatido!

Que sábio o que se alegrou de que o tivessem por louco, pois assim chamaram à mesma Sabedoria! Que poucos há destes agora, por nossos pecados! Parece que já se acabaram os que as gentes tinham por loucos, vendo-os fazer obras heróicas de verdadeiros amadores de Cristo. Oh! mundo, mundo, como vais ganhando honra em razão de haver poucos que te conheçam!

15. E pensamos que se serve já mais a Deus em que nos tenham por sábios e discretos! Isso deve ser, segundo se usa de discrição. Logo nos parece que é de pouca edificação não andar, cada um em seu estado, com muita compostura e autoridade. Até o frade, o clérigo e a freira nos parecerá que, trazerem coisa velha e remendada, é novidade e dar escândalo aos fracos; e até o estarem muito recolhidos e ter oração, conforme está o mundo e tão olvidadas as coisas de perfeição de grandes ímpetos que tinham os santos, que penso faz mais dano às desventuras que se vêem nestes tempos e que não daria escândalo a ninguém os religiosos darem a entender por obras, como o dizem por palavras, o pouco em que se há de ter o mundo; pois, destes escândalos, o Senhor tira grandes proveitos.

E se uns se escandalizam, outros entram em si e têm remorsos.
Houvesse sequer um esboço do que passou Cristo e Seus Apóstolos, pois agora, mais do que nunca, é preciso.

16. E, que bom aquele que Deus nos levou agora no bendito Frei Pedro de Alcântara! Não está já o mundo para sofrer tanta perfeição.
Dizem que estão as saúdes mais fracas e que não estamos nos tempos passados. Este santo homem era deste tempo; estava tão robusto o seu espírito como em outros tempos e, por isso, tinha o mundo debaixo dos pés. Pois, embora não andem desnudos nem façam tão áspera penitência como ele, muitas coisas há, como outras vezes tenho dito, para se pisar o mundo e o Senhor as ensina quando vê ânimo. E que grande lho deu Sua Majestade a este santo que digo, para fazer quarenta e sete anos tão áspera penitência, como todos sabem! Quero dizer algo dela, porque sei que tudo é verdade.

17. Foi ele que mo disse a mim e a outra pessoa de quem pouco se encobria. A causa de mo dizer era a amizade que me tinha, porque quis o Senhor que a tivesse para acudir por mim e me animarem tempos de tanta necessidade, como tenho dito e direi. Parece-me que me disse que em quarenta anos só tinha dormido hora e meia entre noite e dia, e o maior trabalho de penitência que teve nos princípios foi o de vencer o sono, e para isto estava sempre de joelhos ou de pé. Só dormia sentado e a cabeça encostada a um madeirozinho que tinha pregado à parede. Deitado, embora quisesse, não podia, porque sua cela, como se sabe, não tinha de compri mento mais que quatro pés e meio.

Em todos estes anos jamais pôs o capuz, por grandes sóis e chuvas que houvesse, nem nada nos pés, nem vestido, a não ser um hábito de estamenha, sem nenhuma outra coisa sobre a carne, e este tão apertado que mal se podia sofrer e uma capa do mesmo pano por cima. Dizia-me que, nos grandes frios, a tirava e deixava a porta e o postigo da cela abertos para que, pondo depois a capa e cerrando a porta, contentava o corpo, para que sossegasse com mais abrigo.

Comer de três em três dias era o mais normal, e perguntou-me porque me espantava, pois era muito possível a quem se acostumava a isso. Um seu companheiro disse-me que lhe acontecia estar oito dias sem comer. Devia ser estando em oração, porque tinha grandes arroubamentos e ímpetos de amor de Deus, de que uma vez fui testemunha?

18. Sua pobreza era extrema, e foi tal a sua mortificação na mocidade, que me disse que lhe havia acontecido estar três anos numa casa da sua Ordem e não conhecera frade, a não ser pela fala; porque não levantava nunca os olhos, e assim nem aos lugares aonde de necessidade tinha de ir sabia, a não ser indo atrás dos frades. Isto também lhe acontecia pelos caminhos. A mulheres jamais fitava; e isto durante muitos anos. Dizia-me que já tanto se lhe dava ver como não ver. Já era muito velho quando o vim a conhecer, e tão extrema a sua fraqueza, que não parecia senão feito de raízes de árvores.

Com toda esta santidade era muito afável, embora de poucas palavras, a menos que fosse interrogado. Nestas era muito ameno, porque tinha um muito lindo entendimento. Outras muitas coisas quisera eu dizer, mas tenho medo de que V. Mercê me diga para que me meto nisto, e com este medo tenho escrito. Assim termino dizendo que foi o seu fim como a sua vida: pregando e admoestando os seus frades. Quando viu que já se acabava disse o Salmo: Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi; e, posto de joelhos, morreu.

19. Depois tem sido o Senhor servido que eu tenha mais ajuda dele que em vida, aconselhando-me em muitas coisas. Tenho-o visto muitas vezes com grandíssima glória. Disse-me, a primeira vez em que me apareceu: bem-aventurada penitência que tanto prêmio lhe havia merecido, e outras muitas coisas. Um ano antes de morrer, apareceu-me estando ausente, e eu soube que havia de morrer e o avisei, estando a algumas léguas daqui. Quando expirou, apareceu-me e disse-me que ia descansar. Eu não o acreditei e disse-o a algumas pessoas; e, passados oito dias, veio a notícia de que tinha morrido, ou que tinha começado a viver para sempre, para melhor dizer.

20. Ei-la aqui acabada esta aspereza de vida com tão grande glória. Parece-me que muito mais me consola agora, do que quando cá estava. Disse-me uma vez o Senhor que não se Lhe pediria coisa alguma em seu nome que não a ouvisse. Muitas que lhe tenho encomendado para que as peça ao Senhor, as tenho visto cumpridas. Seja bendito para sempre. Amém.

21. Mas, quantas palavras tenho dito para levar V. Mercê a não estimar em nada coisa alguma desta vida, como se não o soubesse, ou não estivesse já determinado a deixar tudo e o não tivesse posto por obra. Vejo tanta perdição no mundo que, embora não aproveite mais o dizê-lo porque eu cansei-me de o escrever, me serve de descanso, ainda que é contra mim tudo o que digo. O Senhor me perdoe o que neste caso O tenho ofendido, e V. Mercê, que o canso sem propósito. Parece que quero que faça penitência do que eu nisto pequei.