Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Trata como uma boa companhia lhe serviu para despertar seus desejos e de que modo o Senhor lhe começou a dar alguma luz sobre o engano que estava.


Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus


CAPÍTULO 3. Trata como uma boa companhia lhe serviu para
despertar seus desejos e de que modo o Senhor lhe
começou a dar alguma luz sobre o engano que estava.

1. Começando pois a gostar da boa e santa conversa desta freira,
me deliciava  de ouvir quão bem ela falava de Deus, porque era muito discreta e santa. Isto, a meu parecer, em nenhum tempo deixei de gostar. Começou a me contar como veio a ser freira só por ter lido o que diz o Evangelho: «muitos são os chamados e poucos os escolhidos». Dizia-me que era o prêmio que o Senhor dava aos que tudo deixam por Ele.

Começou esta boa companhia ame tirar os costumes que a má companhia tinha feito, a tornar a pôr no meu pensamento desejos das coisas eternas e a tirar algo da grande repugnância que eu tinha em ser freira, que se me tinha tornado grandíssima. E, se via alguma ter lágrimas quando rezava, ou outras virtudes, tinha-lhe muita inveja.
Era tão duro meu coração que, se lesse toda a Paixão, não chorava
uma lágrima; isto causava-me pena.

2. Estive neste Mosteiro um ano e meio e muito melhorei. Comecei a rezar muitas orações vocais e a procurar que todas me
encomendassem a Deus, para que me desse o estado em que O
havia de servir. Mas, no entanto, desejava que não fosse o de ser freira. Este, não fosse Deus servido para me dar, embora também temesse o casar-me.

Ao cabo deste tempo - que estive aqui - já tinha mais afeição a ser
freira, embora não naquela casa, porque as coisas mais virtuosas,
que depois entendi que tinham, me pareciam excessos demasiados.
E havia algumas, das mais moças, que a isto me ajudavam. Se todas
fossem de um parecer, muito me teria aproveitado. Tinha eu também uma grande amiga em um outro mosteiro. Isto era motivo para eu não ser freira - caso o houvesse de ser - senão onde ela estava.

Olhava mais para o gosto da minha sensualidade e vaidade do que o
bem que me ia à alma. Estes bons pensamentos, de ser freira,
vinham-me algumas vezes e logo se afastavam e não podia
persuadir-me a sê-lo.

3. Neste tempo - embora eu não andasse descuidada de meu
remédio andava o Senhor mais empenhado em me dispor para o
estado que melhor me seria. Deu-me uma grande enfermidade e tive de voltar para casa de meu pai. Estando boa, levaram-me para casa de minha irmã - que residia numa aldeia para a ver, pois era extremo o amor que me tinha e, por sua vontade, não sairia eu do pé dela.

Seu marido também gostava muito de mim; pelo menos, mostrava-me todo o seu agrado. Até isto devo ao Senhor porque em toda
a parte sempre o tenho sentido. E em tudo eu O servia como quem
sou.

4. Estava no caminho da casa de um irmão de meu pai, homem muito instruído e de grandes virtudes, viúvo, por quem o Senhor também andava dispondo para Si. Na sua velhice deixou tudo o que tinha e fez-se frade, e acabou do jeito que creio goza de Deus. Quis que eu estivesse com ele uns dias. Seu exercício era ler bons livros, habitualmente, o seu falar era de Deus e das vaidades do mundo. 

Fazia-me ler-lhe esses livros e, embora não fosse amiga deles, mostrava que sim; porque  em dar contentamento a outros tenho tido cuidado, mesmo que me causasse pesar. E assim, o que noutros fosse virtude, em mim foi grande falta, porque era muitas
vezes muito sem discrição.

Oh! valha-me Deus, por que meios me estava Sua Majestade
dispondo para o estado em que Se quis servir de mim! Sem eu o
querer, forçou-me a me fazer à força! Bendito seja para sempre.
Amém.

5. Embora os dias que lá estive fossem poucos, com a força que
faziam no meu coração as palavras de Deus, tanto lidas como
ouvidas, e a boa companhia, fui entendendo a verdade tal como quando era pequena: que tudo era nada, a vaidade do mundo, como acaba breve, e a temer, se tivesse morrido, de ter ido para o inferno. E, embora a minha vontade não acabasse de se inclinar para ser freira, vi, no entanto, que era o melhor e mais seguro estado e assim, pouco a pouco, determinei-me a forçar-me para o fazer.

6. Nesta batalha estive três meses, forçando-me a mim mesma com
esta razão: os trabalhos e a pena de ser freira não podiam ser maiores que os do purgatório e eu bem havia merecido o inferno. Não era, pois, muito o que passava ainda que vivesse como num purgatório: depois iria direto para o Céu, que era este o meu desejo.
Neste movimento de me fazer freira , mais me movia - me parece - um temor servil que o amor. Punha-me o demônio que não poderia
sofrer os trabalhos da Religião por ser tão mimada. Disto me
defendia eu com os trabalhos que passou Cristo: não era muito que
eu passasse alguns por Ele. Ele me ajudaria a levá-los, devia eu
pensar, pois, deste último ponto não me recordo. Passei grandes
tentações nestes dias.

7. Tinham-me dado - calores - uns grandes desmaios.
Sempre tive bem pouca saúde. Valeu-me a vida por já ser amiga de bons livros. Lia as cartas de São Jerônimo, e estas animavam-me tanto que determinei dizê-lo a meu pai. O que para mim era quase como vestir o hábito. Era tão cheia de brios que não voltaria atrás, me parece, por coisa nenhuma tendo-o dito uma vez. Era tanto o que ele me queria, que de nenhuma maneira o pude convencer, nem
bastaram rogos de pessoas que procurei que lhe falassem. O mais que se pôde conseguir foi que, depois de acabados os seus dias, fizesse o que quisesse. Eu já temia a mim mesma e à minha fraqueza no voltar atrás, e assim não me pareceu que isto me convinha e procurei por outra via, como agora direi.



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Se eu houvesse de aconselhar, diria aos pais que, nesta idade, tivessem grande cuidado com pessoas com quem seus filhos tratam. Daqui vem muito mal, porque o nosso natural mais tende para o pior de que para o melhor.


CAPÍTULO 2. Diz como foi perdendo estas virtudes e quanto
importa, na meninice, tratar com pessoas virtuosas.


1. Parece-me que começou a fazer-me muito dano o que agora direi.
Considero algumas vezes o mal que fazem os pais em não procurar
que seus filhos vejam sempre - e de todas as maneiras - coisas de
virtude. Porque, como ter tanto a minha mãe, como disse, de bom não tomei muito, nem quase nada - chegando ao uso da razão - e o mal causou-me muito dano. Era ela afeiçoada a livros de cavalaria. 

Não tomou, no entanto, esse passatempo tão mal com eu, pois com isso não deixava o trabalho; somente nos facilitava a sua leitura. E talvez o fizesse para não pensar nos grandes trabalhos que tinha e ocupar seus filhos para que não andassem perdidos em outras coisas. 
Isto pesava tanto a meu pai, que era preciso andar com cuidado para que não o visse. Comecei a ficar com o costume de os ler; e aquela pequena falta que nela via fez resfriar os desejos em mim e faltar no demais. Não me parecia mal o gastar muitas horas do dia e da noite em tão vão exercício, embora às escondidas de meu pai. Era tão em excesso o que nisto me embebia que, se não tivesse livro novo, não tinha - a meu parecer - contentamento.

2. Comecei a trazer enfeites e a desejar agradar, parecendo bem, a ter muito cuidado com as mãos e cabelo, perfumes e todas as vaidades que nisto podia ter. E eram muitas, por ser muito requintada? Não tinha má intenção, pois não quisera eu que alguém ofendesse a Deus por minha causa. Durou-me muitos anos este muito requinte no demasiado apuro e em coisas que me pareciam não ser nenhum pecado. Agora vejo o mal que devia ser.

Tinha eu uns primos irmãos que tinham entrada em casa de meu pai, que outros não tinham essa sorte, pois era muito recatado e
prouvera a Deus que destes o fora também! Agora vejo o perigo que há - na idade em que se hão-de começar a criar virtudes - em tratar com pessoas que não conhecem a vaidade do mundo, mas antes despertam para ele. Eram quase da minha idade, um pouco mais velhos do que eu. Andávamos sempre juntos. Tinham-me grande amor e, em todas as coisas que lhes dava gosto, eu entretinha conversa com eles. Ouvia os sucessos de suas aspirações e ninharias nadinha boas; e o pior foi a alma abrir-se ao que foi causa de todo o seu mal.


3. Se eu houvesse de aconselhar, diria aos pais que, nesta idade,
tivessem grande cuidado com pessoas com quem seus filhos
tratam. Daqui vem muito mal, porque o nosso natural mais tende
para o pior de que para o melhor.
Assim me aconteceu a mim; tinha uma irmã de muita mais idade do
que eu, de cuja honestidade e bondade - que tinha muita - eu nada
apanhei, e tomei todo o mal de uma parente que frequentava muito a nossa casa. 
Era de modos tão levianos que minha mãe procurou
muito evitar que tratasse com os de casa. Parece que adivinhava o
mal que por ela me havia de vir. Mas era tanta a ocasião que havia
para ter entrada que nada pôde. Ao trato desta, que digo, me
afeiçoei. Com ela era a minha conversação e práticas, porque me
ajudava em todas as coisas de passatempo que eu queria e até me
metia nelas e dava parte das suas conversas e vaidades.

Até que tratei com ela (para ter amizade comigo e dar-me parte das
suas coisas), que foi na idade de catorze anos - creio, mesmo mais -
não me parece ter deixado a Deus por culpa grave, nem ter perdido o temor de Deus, embora o tivesse maior da honra. Este temor teve
força para eu não a perder de todo. Nem me parece que por coisa
alguma do mundo eu nisto pudesse mudar... nem que houvesse
amor de pessoa que a isto me fizesse render. Assim tivesse eu tido
fortaleza para não ir contra a honra de Deus, tal como me a dava o
meu natural, para não perder no que a mim me parecia estar a honra do mundo! E não olhava a que a perdia por outras muitas vias. 

4. Em querer esta vãmente, tinha extremos. Dos meios que era mister para a guardar, não usava de nenhum; somente tinha grande cuidado em não me perder de todo.
Meu pai e minha irmã sentiam muito esta amizade e dela me
repreendiam muitas vezes. Como não podiam tirar as razões que
havia de ela entrar em casa, não lhes aproveitavam suas diligências.
E muita era a minha sagacidade para qualquer coisa má. 
Espanta-me, algumas vezes, o dano que faz uma má companhia e, se eu não tivesse passado por isto, não o poderia crer; no tempo da mocidade, em especial, deve ser maior o mal que causa. Quisera eu que os pais se arrependessem, a fim de olharem muito a isto. De tal
maneira me mudou esta convivência que, do meu natural virtuoso,
não me ficou na alma quase nenhuma virtude. E parece-me que ela e outra que tinha os mesmos passatempos, imprimiam em mim suas
maneiras de ser.


5. Por aqui compreendo o grande proveito que causa a boa
companhia e tenho por certo que, se naquela idade tratasse com
pessoas virtuosas, estaria inteira na virtude. Se então tivera tido
quem me ensinasse a temer a Deus, a alma iria tomando forças para
não cair. Perdido este temor, ficou-me depois só o da perda da
honra. Este, em tudo quanto eu fazia; me trazia atormentada. Com o pensamento que não se havia de saber, atrevia-me a muitas coisas
bem contra ela e contra Deus.

6. A princípio causaram-me dano as ditas coisas segundo me
parece. Mas a culpa não devia ser sua senão minha. Porque depois
bastou a minha malícia para o mal juntamente com o ter criadas,
pois, para todo o mal, encontrava nelas boa ajuda. Se alguma
tivesse sido de bom conselho, porventura me tivesse aproveitado;
mas cegava-as o interesse e a mim a afeição. No entanto, nunca fui
inclinada a muito mal, porque coisas desonestas naturalmente as
aborrecia, senão a passatempos de boa conversação. Mas, posta na
ocasião, estava à mão o perigo e punha nele o meu pai e irmãos. 

Do qual me livrou Deus de modo que bem se vê que procurava - contra minha vontade - que eu não me perdesse de todo, não foi isto, no entanto, tão em segredo que não tivesse havido de algum modo quebra da minha honra e suspeitas de meu pai. Porque não andava, segundo me parece, há três meses nessas vaidades, quando me levaram a um convento que havia naquele lugar onde se educavam pessoas da minha condição, embora não tão ruins em costumes como eu. E isto foi feito com tão grande dissimulação, que só eu e um parente o soubemos. Aguardaram para isso uma ocasião a não parecer estranho: foi o ter-se casado minha irmã e ficar eu só, sem mãe, não parecia bem.

7. Era tão demasiado o amor que meu pai me tinha e a minha muita
dissimulação, que não acreditou tanto mal de mim e assim não ficou
desagradado comigo. Mas, como esse tempo foi de curta duração,
embora algo se tivesse percebido, com certeza, nada se devia ter
dito. É que eu, como temia tanto a perda da honra, punha todas as
minhas diligências em que fosse secreto e não olhava a que não o
podia ser para Quem tudo vê.

Ó Deus meu, que dano causa ao mundo ter isto em pouca conta e
pensar que pode haver coisa secreta feita contra Vós! Tenho por
certo que se evitariam grandes males se se pensasse não estar o
negócio em nos guardarmos dos homens, mas sim em não nos
guardarmos de Vos descontentar.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Trata como o Senhor lhe começou a despertar a alma para a virtude na sua infância, e quanto a isto ajuda os pais serem virtuosos.




LIVRO DA VIDA  - Santa Teresa de Jesus   


1. Quisera eu que, tal como me mandaram e deram ampla licença 
para escrever o modo de oração e as mercês que o Senhor me tem 
feito, ma dessem para, mui por miúdo e com clareza, dizer meus 
grandes pecados e ruim vida. Dar-me-ia isso grande consolação. 

Mas não quiseram, antes me ataram muito neste caso. E por isso 
peço, por amor de Deus, a quem ler este discurso da minha vida, 
que tenha diante dos olhos que fui tão ruim, que não tenho 
encontrado santo  dos que se voltaram para Deus com quem me 
consolar. Porque considero que, depois do Senhor os ter chamado, 
não O tornavam a ofender. 

Eu não só tornava a ser pior, mas parecia estudar o modo de resistir às mercês que Sua Majestade me fazia, como quem se visse obrigado a servir mais e entendesse que não podia pagar o mínimo que devia. 

2. Seja bendito para sempre, que tanto me esperou! E, com todo o 
meu coração, suplico me dê graça para, com toda a clareza e 
verdade, fazer esta relação que meus confessores me mandam. 
Que o Senhor a quer, eu  sei há muitos dias, mas não me tenho 
atrevido; e que seja para glória e louvor Seu e para que, de aqui em 
diante, conhecendo-me eles melhor, ajudem a minha fraqueza, para 
poder servir algo do que devo ao Senhor, a Quem sempre louvem 
todas as coisas, Amém. 

CAPÍTULO 1. Trata como o Senhor lhe começou a despertar a 
alma para a virtude na sua infância, e quanto a isto ajuda os 
pais serem virtuosos

1. Ter pais virtuosos e tementes a Deus - se eu não fosse tão ruim - 
me bastaria, com o que o Senhor me favorecia, para ser boa. Era 
meu pai afeiçoado a ler bons livros e assim os tinha em vernáculo 
para que, seus filhos os lessem.

 Isto, com o cuidado que minha mãe tinha em fazer-nos rezar e sermos devotos de Nossa Senhora e de alguns Santos, fez-me despertar - segundo me parece - na idade de seis ou sete anos. Ajudava-me o não ver em meus pais favor senão para a virtude. Tinham muitas. 

Era meu pai homem de muita caridade para com os pobres e de 
compaixão para com os enfermos. Com os criados tinha tanta, que 
jamais se pôde conseguir que tivesse escravos, porque deles tinha 
grande dó. Estando uma vez em sua casa uma de um seu irmão, a 
tratava como a seus filhos. Dizia que, o não ser ela livre, não o sofria a sua compaixão. Era de grande verdade. Ninguém jamais o viu jurar ou murmurar; era extraordinariamente honesto. 

2. Minha mãe também tinha grandes virtudes é passou a vida com 
grandes enfermidades. Grandíssima honestidade. Com ser de muita 
formosura, jamais deu ocasião a que se entendesse que dela fazia 
caso porque, apesar de morrer aos trinta e três anos, já seu traje era 
como o de pessoa de muita idade. Muito pacífica e de grande 
entendimento. Foram grandes os trabalhos por que passou 
enquanto viveu. Morreu muito cristãmente. 

3. Éramos três irmãs e nove irmãos. Por bondade de Deus, todos se 
pareceram com os pais, em ser virtuosos, menos eu, embora fosse a 
mais querida de meu pai. E, antes que eu começasse a ofender a 
Deus, parece que tinha alguma razão para isso; mas, quando me 
recordo das boas inclinações que o Senhor me tinha dado, lastimo o 
mal que eu delas me soube aproveitar. 

4. Meus irmãos em coisa alguma me desajudavam a servir a Deus. 
Tinha um, quase da minha idade, que era aquele a quem eu mais 
queria, embora a todos tivesse grande amor e eles a mim. 
Juntava-mo-nos ambos a ler a vida dos santos. Como via os 
martírios que, por Deus, as santas passavam, parecia-me 
comprarem muito barato o ir gozar de Deus e desejava muito morrer assim. Não pelo amor, que eu entendesse ter-Lhe, senão para gozar, tão em breve, dos grandes bens que lia haver no Céu. E tratava com este meu irmão do meio que haveria para isso. Combinamos ir a terra de mouros, esmolando por amor de Deus, para que lá nos decapitassem; e parece-me que nos dava o Senhor ânimo em tão tenra idade, se víssemos algum meio; mas o termos pais parecia-nos o maior embaraço. 

Espantava-nos muito, o dizer-se no que líamos, que a pena e a glória eram para sempre. Acontecia-nos estar muito tempo tratando disto e gostávamos de dizer muitas vezes: para sempre, sempre, sempre. Com o pronunciar isto muito devagar era o Senhor servido que nesta meninice me ficasse impresso o caminho da verdade.. 

5. Quando vi ser impossível ir aonde me matassem por Deus, 
resolvemos fazer-nos eremitas; e, numa horta que havia em casa, 
tentávamos, conforme podíamos, fazer ermidas, pondo umas 
pedrinhas que logo nos caíam. E assim não achávamos remédio em 
nada para os nossos desejos; faz-me agora devoção ver como Deus 
tão cedo me dava aquilo que eu depois perdi por minha culpa. 

6. Dava esmola conforme podia; e podia pouco. Procurava solidão 
para rezar as minhas devoções que eram muitas, em especial o 
Rosário, do qual a minha mãe era muito devota e assim nos fazia sê-lo. Gostava muito, quando jogava com outras pequenas, de fazer 
mosteiros como se fôssemos freiras; e parece-me que desejava sê-
lo; embora não tanto como as outras coisas que já disse. 

7. Recordo-me que, quando morreu minha mãe, fiquei da idade de 
doze anos, pouco menos. Quando comecei a perceber o que tinha 
perdido, fui-me, aflita, a uma imagem de Nossa Senhora e supliquei-lhe, com muitas lágrimas, que fosse minha Mãe. Embora o fizesse com simplicidade, parece-me que me tem valido; porque 
conhecidamente tenho encontrado esta Virgem soberana, sempre 
que, me tenho encomendado a, Ela, e, enfim, tornou-me a Si. 
Aflige-me agora ver e pensar o motivo de eu não ter ficado 
empenhada nos bons desejos com que comecei. 

8. Oh, Senhor meu! Pois parece determinastes que me salve, praza a Vossa Majestade que assim seja. E, fazendo-me tantas mercês como me tendes feito, não teríeis tido por bem - não para meu proveito mas por respeito Vosso - que se não sujasse tanto a pousada onde tão de contínuo havíeis de morar?! Aflige-me, Senhor, até o dizer isto, pois sei que foi minha toda a culpa; porque não me parece Vos tivesse ficado nada por fazer para que, desde esta idade, não fosse toda Vossa. Quando vou queixar-me de meus pais, também não posso, porque em tudo não vi neles senão bem e cuidado do meu bem. 

Pois, passando desta idade em que comecei a entender as graças de 
natureza que o Senhor me dera - que, segundo diziam, eram muitas quando por elas Lhe havia de dar graças, de todas me comecei a 
servir para O ofender, como agora direi.

sábado, 6 de outubro de 2012

Vivemos debaixo de um déficit perigoso de reflexão, tanto pessoal como coletiva.


ForumLibertas.com 


A ação humana

Josep Miró i Ardèvol - Siga-me no Twitter: @jmiroardevol - 28/09/2012  

Vivemos debaixo de um déficit perigoso de reflexão, tanto pessoal como coletiva. O contraste entre nossas capacidades de fazer e a ausência de reflexão sobre o que fazemos é o maior da história humana, porque afeta não só a grande população mas o conjunto das elites de nossa sociedade.

A natureza se rege por algumas leis: se lançamos uma moeda para cima esta cai infalivelmente no chão pela força da gravidade. Trata-se de leis deterministas. A ação humana pode modificá-las, podemos deter a caída da moeda ou construir um pequeno globo de hélio que faça que a moeda flutue. Tudo isto significa uma grande responsabilidade porque interferimos em processos que se desenvolvem em cascata com efeitos múltiplos, o chamado ‘efeito mariposa’; ou em um prazo tão longo que é difícil perceber em nossa existência; ou de uns poucos períodos eleitorais as consequências; ou também porque seus efeitos no caso de serem negativos não vão cair sobre nós.   No final, o problema ecológico de nosso tempo guarda relação precisamente com o último dos aspectos mencionados.

A sociedade atual tende a buscar nestes problemas respostas no âmbito da ciência. Isto é lógico porque permite medir as consequências. Mas, a ciência em si mesma não sabe os fins, isto pertence a outro âmbito, o da moral, o do fato religioso. Porque só a moral e a consciência religiosa permitem ter um conhecimento do que se entende por sêr humano realizado no bem. Este cientista, os cientistas, não podem defini-lo porque a ciência em si  como método é cega diante do bem, e quem o duvide que reflita sobre as diferentes aplicações da energia nuclear, para citar um exemplo.

A concepção que tenhamos deste ser humano realizado no bem sempre necessitará da razão e consequentemente do papel colaborador da ciência. Isto já o explicava faz um montão de séculos São Tomás de Aquino, mas como fator coadjuvante, não como elemento definidor e menos único. O ser humano também se rege em seus atos por uma lei natural e assumir isto vale tanto para os que afirmam que o universo foi criado como para aqueles que consideram que surgiu de si mesmo. Em ambos os casos, devemos convir que o ser humano forma parte da natureza, que uma dimensão da mesmo se move por suas leis rígidas, a da morte por exemplo. Mas há outra parte, se aceitamos o livre arbítro,no qual sua lei natural será distinta, porque não será determinista.

A lei natural humana que podemos alcançar pela razão é uma lei de probabilidade, que nos diz que se atuamos de uma determinada maneira obteremos bons resultados para nós e para os demais, mas que não há nenhum mecanismo que nos obrigue inexoravelmente a cumpri-lo. Isso sim, possuímos a razão numa medida suficiente para valorizar as consequências negativas daqueles atos que se opõem à lei natural. Desenvolver e aplicar esta forma de pensar contribuiria a dar sentido e construir uma sociedade melhor, sobretudo quando esta, como sucede hoje, funciona sem direção.

Josep Miró i Ardèvol, presidente de E-Cristians e membro do Conselho Pontifício para os Laicos
http://www.forumlibertas.com/frontend/forumlibertas/noticia.php?id_noticia=24043&id_seccion=27