Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Perdido está quem atrás de perdido anda. E que maior perdição e que maior cegueira; que maior desventura, que ter em muito o que não é nada? (Santa Teresa de Jesus de Ávila)

LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA



 CAPÍTULO 34. Trata como neste tempo foi conveniente que se
ausentasse deste lugar. Diz a causa porque o seu prelado a
mandou ir consolar uma senhora, muito importante, que estava
muito aflita. Trata do que ali lhe sucedeu e diz a grande graça
que o Senhor lhe fez de, por seu intermédio, mover a uma
pessoa para O servir muito, deveras, em quem ela encontrou
depois favor e amparo. É muito para notar.


1. Pois, por mais cuidado que eu tivesse para que nada disto se
percebesse, não se podia fazer toda esta obra tão em segredo, que
não se viesse a saber por algumas pessoas. Umas acreditavam e
outras não. Eu temia muito que, em vindo o Provincial, se lhe
dissessem alguma coisa, ele me mandasse não cuidar disso e então
logo tudo estava terminado.

Remediou-o o Senhor desta maneira: aconteceu, que; num lugar
grande, a mais de vinte léguas deste, estava uma senhora muito
aflita por lhe ter morrido o marido; estava tão arrasada que se
temia pela sua saúde. Teve ela notícia desta pobre pecadora, e
assim permitiu o Senhor que lhe dissessem bem de mim, para
outros bens que daqui sucederam. Incutiu-lhe o Senhor um muito
grande desejo de me ver, parecendo-lhe que se consolaria comigo.

Esta senhora conhecia muito o Provincial e, como era pessoa
principal e soube que eu estava num mosteiro em que se saía,
procurou logo por, todas as vias que pode, e não o fazer não devia
estar em sua mão, levar-me para sua casa, mandando um pedido ao
Provincial que estava bem longe. Este mandou-me uma ordem, com
preceito de obediência para que fosse imediatamente com outra
companheira. Soube isto na noite de Natal.


2. Causou-me certo alvoroço e muita pena ver que, por pensarem
que havia em mim algum bem, queriam que eu fosse, pois, como eu
me via tão ruim, não podia sofrer isto. Encomendando-me muito a
Deus, estive as Matinas todas, ou grande parte delas, em grande
arroubamento. Disse-me o Senhor que não deixasse de ir e que não
ouvisse pareceres, porque poucos me aconselhariam sem
temeridade; pois, embora encontrasse trabalhos, servir-se-ia muito a
Deus e que, para este negócio do mosteiro, convinha ausentar-me
até chegar o Breve; porque o demônio tinha armado uma grande
trama, em vindo o Provincial; mas nada temesse, que Ele lá me
ajudaria.

Fiquei muito animada e consolada. Disse tudo isto ao Reitor e ele
aconselhou-me a que, de nenhum modo, deixasse de ir, porque
outros me diziam que isso não se podia admitir, que era invenção do
demônio para que lá me  viesse algum mal: que voltasse a enviar
recado ao Provincial.


3. Obedeci ao Reitor e, pelo que tinha entendido na oração, ia sem
medo, embora não sem grandíssima confusão de ver a que título me
levavam, e como se enganavam tanto. Isto me fazia importunar mais
o Senhor para que não me desamparasse. Consolava-me muito
saber que havia casa da Companhia de Jesus no lugar para onde ia,
e poder estar sujeita ao que me mandassem, como estava aqui; pois
parecia-me que, com isso, estaria com alguma segurança.

Foi o Senhor servido de que aquela senhora se consolasse tanto
com a minha ida, que começou logo a ter conhecida melhoria e cada
dia se achava mais consolada. Teve-se isto em muito porque, como
disse, a dor trazia-a em grande angústia; e deve-o ter feito o Senhor
pelas muitas orações que faziam por mim as pessoas boas que eu
conhecia, para que fosse bem sucedida. Era muito temente a Deus e
tão boa, que a sua muita cristandade supriu o que a mim me faltava.

Tomou-me grande amor; eu lhe tinha muito por ver sua bondade.
Mas quase tudo me era cruz; porque os regalos me davam grande
tormento e o fazer-se tanto caso de mim, trazia-me em grande temor.
Andava a minha alma tão encolhida que não me ousava descuidar,
nem se descuidava o Senhor. Porque, enquanto ali estive, me fez o
Senhor grandes graças, e estas davam-me tanta liberdade e tanto
me faziam menosprezar tudo o que via - e quanto mais eram, mais -
que eu não deixava de tratar com aquelas tão senhoras, que muito à
minha honra poderia eu servi-Ias com a liberdade como se fora sua
igual.


4. Tirei daqui um proveito muito grande e dizia-lhe. Vi que era mulher
e tão sujeita a paixões e fraquezas como eu. Vi o pouco em que se
há de ter o senhorio e como, quanto maior é, mais cuidados e
trabalhos têm e um cuidado de ter a compostura conforme a seu
estado, que nem as deixa viver. O comer é fora de horas e sem
acerto, porque tudo há de andar conforme à dignidade e não à
compleição: muitas vezes hão de comer os manjares mais
conformes à sua posição e não a seu gosto.

É assim que de todo aborreci o desejar ser senhora - Deus me livre
de má compostura! Embora esta, com ser das principais do reino,
creio que haverá poucas mais humildes e é muito afável e simples.

Fazia-me pena e a tenho de ver como anda muitas vezes não
conforme à sua inclinação, para cumprir com o que exige a sua
posição. Pois quanto aos criados é pouco o pouco que deles há que
fiar, embora ela os tivesse bons. Não se há de falar mais com um
que com outro, sob pena de ficar malquisto aquele que assim se
favorece.

É uma sujeição e, chamar senhores a pessoas semelhantes, é uma
das mentiras que o mundo diz, pois não me parece senão que são
escravos de mil coisas.


5. Foi o Senhor servido que, durante o tempo que estive naquela
casa, todas as pessoas melhorassem no servir a Sua Majestade,
ainda que não estive livre de trabalhos e de invejas que algumas
sentiam pelo muito amor que aquela senhora me tinha. Deviam
porventura pensar que pretendia algum interesse. E o Senhor devia
permitir que coisas semelhantes, e outras de outro teor, me dessem
algum trabalho, para que não me embebesse no regalo que havia
por outra parte, e de tudo Ele foi servido tirar-me com melhoria da
minha alma.


6. Estando eu ali, acertou de vir um religioso, pessoa muito principal
e com quem eu, havia já muitos anos, tinha tratado algumas vezes.

Estando à Missa, num mosteiro da sua Ordem, ali perto onde eu
estava, deu-me desejo de saber em que disposição estava aquela
alma que eu desejava fosse muito servo de Deus e levantei-me para
lhe ir falar. Mas, como já me encontrava recolhida em oração,
pareceu-me depois que era perder tempo, pois quem me metia a
mim naquilo e tornei-me a sentar. Parece-me que foram três, três
vezes que isto me aconteceu e, enfim, pôde mais o anjo bom de que
o mau, e fui chamá-lo e veio me falar num confessionário.

Comecei a perguntar-lhe - e ele a mim - pelas nossas vidas, porque
havia muitos anos que não nos tínhamos visto. Comecei-lhe a dizer
que a minha tinha sido de muitos trabalhos de alma. Instou muito
para que eu lhe dissesse que trabalhos eram esses. Disse-lhe que
não eram para se saber, nem para que eu lhes dissesse. Ele disse
que, pois o sabia o padre dominicano - de quem tenho falado - que
era muito seu amigo, ele lhes diria depois, que assim nada se me
desse de lhes dizer.


7. O caso é que não esteve na sua mão deixar de me importunar,
nem na minha, me parece, deixar de lhe dizer; porque, não obstante
o pesar e vergonha que costumava ter quando tratava estas coisas,
com ele e com o Reitor que tenho dito, não tive nenhuma pena,
antes me consolei muito. Disse-lhe debaixo de confissão.

Pareceu-me mais avisado do que nunca, embora sempre o tive por
ser de grande entendimento. Vi os grandes talentos e qualidades
que tinha para dar muito proveito; se de todo se desse a Deus. É que
eu tenho isto de uns anos para cá: não vejo pessoa que muito me
contente, que não queira logo vê-la de todo dar-se a Deus. E isto
com umas ânsias que, algumas vezes, não me posso conter. Pois,
embora deseje que todos O sirvam, com estas pessoas que me
satisfazem, é com muito grande ímpeto, e assim importuno muito ao
Senhor por elas. Com o religioso que digo, aconteceu-me assim.


8. Rogou-me que o encomendasse muito a Deus, e não era preciso
pedir-me que já estava de modo que não poderia fazer outra coisa.
Vou-me para onde a sós costumava ter oração e começo a tratar
com o Senhor, estando muito recolhida, num estilo amável, como
muitas vezes Lhe falo, sem saber o que digo. Então é o amor que
fala e a alma está tão alheada que não olho à diferença que há dela
para Deus.  Porque o amor que ela conhece que Sua Majestade lhe
tem, faz com que se esqueça de si e parece-lhe que está n'Ele, que é
como coisa própria, sem divisão, e diz desatinos. Recordo-me que,
depois de Lhe pedir, com muitas lágrimas, que pusesse aquela alma
a Seu serviço muito deveras que, embora eu o tivesse por bom, não
me contentava; queria-o muito melhor, disse-Lhe: "Senhor, não me
haveis de negar esta graça; vede que é bom este sujeito para nosso
amigo".


9. Oh! bondade e humanidade grande de Deus, que não olha às
palavras senão aos desejos e amor com que se dizem! Como sofre
que uma como eu fale a Sua Majestade tão atrevidamente! Seja
bendito para sempre sem fim.


10. Recordo-me que naquela noite, durante aquelas horas de oração,
deu-me uma grande aflição ao pensar se estava na inimizade de
Deus. E, como eu não podia saber se estava ou não em graça, afligia-me
esta pena. Não que eu o desejasse saber, mas sim desejava
morrer, para não me ver em vida onde não tinha segurança de não
estar morta. É que não podia haver para mim morte mais dura do
que pensar que tinha ofendido a Deus e suplicava-Lhe que não o
permitisse, toda em gozo e derretida em lágrimas. Então entendi que
bem me podia consolar e ficar certa de que estava em graça, porque
semelhante amor de Deus e o fazer-me Sua Majestade aquelas
graças e os sentimentos que dava à alma, não eram compatíveis
com serem feitas a alma que estivesse em pecado mortal.

Fiquei confiada de que o Senhor havia de fazer, desta pessoa, o que
Lhe suplicava. Mandou-me que Lhe dissesse umas palavras. Isto
senti  muito porque não sabia como lhes dizer. Ter de dar recado
a terceira pessoa - como já disse - é sempre o que mais me custa,
em especial sem saber como essa pessoa o aceitaria ou até se
zombaria de mim. Fiquei numa grande angústia. Enfim, senti-me tão
persuadida a fazê-lo que, segundo me parece, prometi a Deus não
deixar de as dizer, e pela grande vergonha que tinha, escrevi-as e
dei-lhas.


11. Bem me pareceu sei coisa de Deus pelo efeito que fizeram.
Determinou-se muito deveras a dar-se à oração, embora não o
fizesse desde logo. O Senhor, como o queria para Si, por meu
intermédio, lhe mandava dizer umas verdades que, sem eu o
entender, vinham tão a propósito que ele se espantava, e o Senhor
devia o dispor a crer que eram de Sua Majestade. Eu, ainda que
miserável, era muito o que suplicava ao Senhor, que de todo em
tudo o atraísse a Si e lhe fizesse aborrecer as satisfações e coisas
da vida. E assim - seja Ele louvado para sempre! - o fez tão deveras
que, de cada vez que me fala, me tem como embevecida. Se eu não o
tivesse visto, tivera por duvidoso fazer-lhe Deus em tão breve tempo
tão crescidas graças e trazê-lo tão ocupado em Si, que parece já
não viver para coisa da terra.

Sua Majestade o tenha de Sua mão, que, se assim for adiante (o que
espero no Senhor, por ir muito bem fundado no conhecer-se a si
mesmo), será um dos Seus mais assinalados servos e de grande
proveito para muitas almas. Porque, em coisas de espírito, em
pouco tempo adquiriu muita experiência, e isto são dons que Deus
dá quando quer e como o quer, e não está atido ao tempo nem aos
serviços. Não digo que isto não faça muito ao caso, mas que muitas
vezes o Senhor não dá em vinte anos a contemplação que a outros
dá num. Sua Majestade sabe a causa.

E o engano está em nos parecer que, pelos anos, havemos de
entender o que de nenhum modo se pode alcançar sem experiência.
Assim erram muitos - como tenho dito -, em querer conhecer
espíritos, sem o terem.

Não digo que quem não tiver espírito, se é letrado, não governe a
quem o tem, mas entende-se quanto ao exterior e interior que vá
conforme a via natural, por obra do entendimento; e no sobrenatural,
olhe a que vá conforme à Sagrada Escritura. No demais não se mate,
nem pense entender o que não entende, nem afogue os espíritos
pois, quanto a isso, já outro maior Senhor os governa, que não estão
sem superior.


12. Não se espante nem lhe pareçam coisas impossíveis - tudo é
possível ao Senhor -, mas procure esforçar a fé e humilhar-se
porque, nesta ciência, o Senhor faz porventura mais sábia a uma
velhinha do que a ele, embora seja muito letrado. E com esta
humildade aproveitará mais às almas e a si, do que em se fazer
contemplativo sem o ser. Porque torno a dizer que, se não tem muita
experiência e se não tem muita humildade para reconhecer que não
o entende, mas que, no entanto, não é coisa impossível, ganhará
pouco e dará ainda menos a ganhar a quem dirige. Não haja porém
medo: se tem humildade, o Senhor permitirá que não se engane nem
um nem outro.


13. Pois este Padre que digo, como o Senhor lhe deu experiência em
muitas coisas, tem procurado estudar tudo o que por estudo tem
podido saber neste caso, pois é bem letrado. E, o que não entende
por experiência, informa-se de quem a tem e, por isso, ajuda-o o
Senhor com dar-lhe muita fé e assim tem ele aproveitado muito e
feito aproveitar algumas almas e a minha é uma delas. Como o
Senhor sabia os trabalhos em que me havia de ver - pois ia levar
consigo a alguns que me governavam - parece que Sua Majestade
proveu a que ficassem outros que me têm ajudado em trabalhos e
feito grande bem. Tem-no mudado o Senhor quase de todo, de
maneira que ele quase não se conhece, por assim dizer, e dado
forças corporais para a penitência (que antes não tinha, por ser
enfermo). Tornou-se animado para tudo o que é bom e outras
coisas, que bem parece ser muito particular chamamento do Senhor.
Seja bendito para sempre.


14. Creio que todo o bem lhe vem das graças que o Senhor lhe tem
feito na oração, pois que não são postiças. Já nalgumas coisas quis
o Senhor que se tenha exercitado, e sai-se delas como quem tem já
conhecida a verdade do mérito que se ganha em sofrer
perseguições. Espero na grandeza do Senhor que por meio dele há de
vir muito bem a alguns da sua Ordem e a ela mesma. Já isto se
começa a entender. Tenho tido grandes visões, nas quais o Senhor
me disse algumas coisas de grande admiração a seu respeito e do
Reitor da Companhia de Jesus, de quem tenho falado, e de outros
dois religiosos da Ordem de S. Domingos, em especial de um. Pelo
seu aproveitamento - provado por obra - também já o Senhor tem
dado  a entender algumas dessas coisas que antes eu tinha sabido
por Ele. De quem agora falo, tem sido muitas vezes.


15. Uma coisa quero dizer agora aqui. Estava eu uma vez no
locutório com ele, e era tanto o amor que a minha alma e espírito
entendia que ardia no dele, que me tinha quase absorta, porque
considerava as grandezas de Deus, em quão pouco tempo subira
uma alma a tão alto estado. Fazia-me grande confusão, porque via-o,
com tanta humildade, escutar o que eu dizia em algumas coisas de
oração, e que pouca eu tinha em tratar assim com pessoa
semelhante. Mas isto o Senhor mo devia sofrer pelo grande desejo
que eu tinha de o ver muito adiantado. Fazia-me tanto proveito estar
com ele que parece que deixava em minha alma ateada um novo
fogo para desejar principiar de novo a servir ao Senhor.
Ó Jesus meu! O que faz uma alma abrasada no Vosso amor! Quanto
a deveríamos estimar e suplicar ao Senhor a deixasse nesta vida!
Quem tem o mesmo amor, atrás destas almas haveria de andar, se
pudesse.


16. Grande coisa é um enfermo achar outro ferido do mesmo mal;
muito se consola de ver que não está só; muito se ajudam a padecer
e até a merecer;  firme apoio se oferecem, já como
gente determinada a arriscar mil vidas por Deus e desejam que se
lhes ofereça ensejo de as perder. São como soldados que, para
ganhar o despojo e fazer-se com ele ricos, desejam que haja guerra;
tendo compreendido que não o podem ser senão por aqui, este é o
seu ofício: trabalhar. Oh! grande coisa é quando o Senhor dá esta
luz de entender o muito que se ganha em padecer por Ele! Não se
compreende este bem, enquanto não se deixa tudo, pois quem se
atém a alguma coisa, sinal é que a tem em conta. E se a tem em
conta, forçosamente lhe há de pesar de a deixar e já vai tudo
imperfeito e perdido. Vem aqui bem a propósito dizer: perdido está
quem atrás de perdido anda. E que maior perdição e que maior
cegueira; que maior desventura, que ter em muito o que não é nada?


17. Pois, voltando ao que dizia, estando eu em grandíssimo gozo
considerando aquela alma, na qual me parece queria o Senhor que
eu visse claramente os tesouros que nela tinha depositado, e vendo
a graça que me fizera de que fosse por meu intermédio - achando-me
indigna disso -, em muito mais estima tinha eu as graças que o
Senhor lhe fizera e mais as tomava à minha conta do que se fossem
feitas a mim, e louvava muito ao Senhor por ver que Sua Majestade
ia cumprindo meus desejos e tinha ouvido a minha oração, que era
que o Senhor despertasse pessoas semelhantes.

Estando já minha alma que não podia sofrer em si tanto gozo, saiu de
si e perdeu-se para mais ganhar. Perdeu as considerações, e deixou
de ouvir aquela língua divina, pela qual parece que falava o Espírito
Santo, e deu-me um grande arroubamento que me fez quase perder
os sentidos, embora durasse pouco tempo. Vi Cristo, com
grandíssima majestade e glória, mostrando grande prazer do que ali
se passava e assim me disse e quis que eu visse claramente que, em
semelhantes práticas, sempre se achava presente e o muito que se
serve em que assim se deleitem em falar d'Ele.

Outra vez, estando longe deste lugar, vi os anjos levantarem esse
padre com muita glória. Entendi, por esta visão, que ia muito adiante
a sua alma. E assim era, pois lhe haviam levantado um falso
testemunho bem contra a sua honra, pessoa a quem ele tinha feito
muito bem e remediado a honra e a alma. Ele o sofreu com muita
alegria e fez outras obras em serviço de Deus e padeceu outras
perseguições.


18. Não me parece que convenha agora declarar mais coisas. Se
depois parecer a V Mercê, pois que as sabe, poder-se-ão escrever
para glória do Senhor. De todas as que tenho dito de profecias que o
Senhor me dizia desta casa, e de outras que ainda direi e de mais
coisas, todas se têm cumprido; algumas, três anos antes que se
dessem e outras em mais e outras em menos tempo. E sempre eu as
dizia ao confessor e a esta minha amiga viúva com quem tinha
licença de falar, como já disse. Tenho sabido que ela as dizia a
outras pessoas e estas sabem que não minto, nem Deus permita
que, em nenhuma coisa, quanto mais sendo tão graves, eu use
senão de toda a verdade.


19. Tendo morrido um cunhado meu subitamente e estando eu com
muita pena por não se ter chegado a confessar, foi-me dito na
oração que assim também havia de morrer a minha irmã, que fosse
lá e fizesse com que se dispusesse para isso. Disse-o ao meu
confessor e, como não me deixava ir, foi-me repetido mais vezes.

Ele, como visse isto, disse-me que fosse, pois nada se perderia.
Ela vivia numa aldeia e, como fui sem lhe dizer nada disto, fiz por lhe
ir dando a luz que pude em todas as coisas e com que se
confessasse muito amiúde e em tudo tivesse conta na sua alma. Era
muito boa e assim fez. Desde há quatro ou cinco anos que tinha este
costume e muito boa conta com a sua consciência.  Morreu sem
ninguém a ver e sem se poder confessar. Bem foi que, como
costumava, havia pouco mais de oito dias que se tinha confessado.

A mim deu-me grande alegria quando soube da sua morte. Esteve
muito pouco no Purgatório. Não me parece que haveria oito dias,
quando, acabando de comungar, me apareceu o Senhor e quis que
visse como a levava ao Céu. Em todos estes anos, desde que isto
me foi dito até que morreu, não se me esquecia o que  me tinha
dado a entender, nem à minha companheira que, logo que a minha
irmã morreu, veio ter comigo muito espantada por ver, como se
tinha cumprido.

Seja Deus louvado para sempre, que tanto cuidado tem das almas
para que se não percam.



sábado, 10 de agosto de 2013

Mas o Senhor, que nunca me faltou, e em todos estes trabalhos que tenho contado, muitas vezes me consolava e dava forças.

LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA



CAPÍTULO 33. Prossegue na mesma matéria da fundação do
mosteiro de S. José. Diz como lhe mandaram que não se
metesse nela e o tempo que a deixou e alguns trabalhos que
teve e como neles a consolava o Senhor.

1. Estando pois os negócios neste estado e tão a ponto de se
acabar, que no outro dia se haviam de fazer as escrituras, foi quando
o Nosso Padre Provincial mudou de parecer. Creio que foi movido
por inspiração divina, segundo se tem visto depois; porque, como
as orações eram tantas, ia o Senhor aperfeiçoando a obra e
ordenando as coisas para que se fizesse doutro modo. Como o
Provincial não quis admitir a fundação, o meu confessor mandou
que não me metesse mais nisso. Porém, o Senhor bem sabe os
grandes trabalhos e aflições que já me tinha custado o levar as
coisas àquele ponto. Como se pôs tudo de lado e ficou assim, mais
se confirmou ser disparate de mulheres e a crescer a murmuração
contra mim, apesar de meu Provincial me o ter mandado até então.


2. Estava muito malquista em todo o meu mosteiro, por querer fazer
mosteiro mais encerrado. Diziam que lhes fazia afronta, que ali podia
também servir a Deus, pois havia lá outras melhores que eu, que não
tinha amor à casa; melhor era procurar renda para ela do que para
outra parte.

Umas diziam que me metessem no cárcere; outras, bem
poucas, tomavam um tanto a minha defesa. Eu bem via que em
muitas coisas tinham razão, e algumas vezes dava-lhes desconto
embora, como não podia dizer o principal, que era mandar-me o
Senhor, não sabia que fazer e assim calava. Outras vezes, fazia-me
Deus muito grande graça de que tudo isto não me desse
inquietação, e com tanta facilidade e contentamento o deixei, como
se não me houvesse custado nada.

E isto ninguém o podia acreditar,
nem ainda as mesmas pessoas de oração que tratavam comigo,
porquanto pensavam que estava muito penalizada e corrida, e até o
meu confessor não acabava de o crer. Eu, como me parecia ter feito
tudo quanto podia, achava não estar obrigada a mais para cumprir o
que o Senhor me tinha mandado, e ia ficando na casa, onde
estava muito contente e a meu prazer. Ainda que jamais pude deixar
de crer que se havia de fazer, não via já meio, nem sabia como, nem
quanto. Mas tinha-o por muito certo.


3. O que muito me afligiu foi uma vez que, o meu confessor, como se
eu tivesse feito coisa contra sua vontade, (também o Senhor devia
querer que, daquilo que mais me havia de doer, não deixariam de
surgir trabalhos), e assim, nesta multidão de perseguições,
parecendo-me que ele me haveria de consolar, escreveu-me a dizer
que já via, por tudo o que tinha sucedido, era tudo um sonho; que
me emendasse dali em diante não querendo levar a minha avante,
nem falando mais no assunto, pois via o escândalo que tinha
acontecido e outras coisas, todas para causar sofrimento. Tudo isto
deu-me mais pena, parecendo-me ter sido eu ocasião, por minha
culpa, de ofensa e que, se estas visões eram ilusórias, toda a oração
que tinha era engano e que eu andava muito enganada e perdida.

Apertou-me isto em tanto extremo, que fiquei toda perturbada e em
grandíssima aflição. Mas o Senhor, que nunca me faltou, e em todos
estes trabalhos que tenho contado, muitas vezes me consolava e
dava forças - que não há necessidade de o dizer aqui - disse-me
então que não me afligisse, pois tinha servido muito a Deus e não
ofendido naquele negócio; mas fizesse o que me mandava o
confessor, que me calasse por então, até que fosse tempo de voltar
a isso. Fiquei tão consolada e contente, que já não me parecia nada
toda a perseguição que havia contra mim.


4. Aqui me ensinou o Senhor, o grandíssimo bem que é passar
trabalhos e perseguições por Ele. Foi tanto o acréscimo de amor de
Deus e outras muitas coisas que vi em minha alma, que eu me
espantava. Isto faz-me não poder deixar de desejar trabalhos. E as
outras pessoas pensavam que estava muito corrida, e, sim que
estaria, se o Senhor me não favorecesse em tanto extremo com
graça tão grande.

Então começaram a ser maiores os ímpetos de amor de Deus de que
falei e os arroubamentos, embora eu calasse e não dissesse a
ninguém estes lucros. O santo homem dominicano não deixava de ter
por tão certo como eu, que se havia de fazer mosteiro, e como eu
não me queria   ter nisso para não ir contra a obediência do meu
confessor, negociava-o ele com a minha companheira e escreviam
para Roma e buscavam meios.


5. Também começou aqui o demônio a procurar que, de boca em
boca, se fosse espalhando e entendendo que eu havia tido alguma
revelação neste negócio e vinham, pois, a mim com muito medo a
dizer que andavam os tempos difíceis e podia ser que me
levantassem alguma suspeita e fossem acusar-me aos inquisidores.

A mim me caiu isto em graça e me fez rir, porque, neste caso, jamais
eu temi, que de mim sabia bem, que em coisa de fé ou contra a
menor cerimônia da Igreja que alguém visse que eu ia, por ela ou por
qualquer verdade da Sagrada Escritura, eu me ofereceria a morrer
mil mortes. Disse, pois, que disto não temessem; muito mau seria
para a minha alma se nela houvesse coisa que fosse de molde a eu
temer a Inquisição. Se pensasse que havia de quê, eu mesma a iria
buscar, mas, se fosse inventado, o Senhor me livraria e ficaria eu
com lucro.

E tratei-o com este meu padre dominicano que, como digo, era tão
letrado, que eu bem me podia assegurar com o que ele me dissesse
e disse-lhe então todas as visões e modo de oração e as grandes
graças que me fazia o Senhor, com a maior clareza que pude e eu
supliquei-lhe que o visse muito bem e me dissesse se havia alguma
coisa contra a Sagrada Escritura e o que achava de tudo aquilo. Ele
me assegurou muito e, a meu parecer, fiz-lhe também proveito.

Embora já fosse muito bom, daí por diante deu-se muito mais à
oração e, para melhor nela se poder exercitar, retirou-se a um
mosteiro da sua Ordem, onde há muita solidão. Aí esteve mais de
dois anos. Tirou-o de lá a obediência, o que sentiu muito, porque
dele tiveram necessidade, por ser a pessoa que era.


6. Eu, em parte, senti também muito quando se foi, pela grande falta
que me fazia, - conquanto não o estorvasse -. Mas compreendi o
proveito que daí lhe advinha; porque, estando com grande pena da
sua ida, o Senhor me disse que me consolasse e não a tivesse, pois
que ia bem guiado. Veio de lá tão aproveitada a sua alma e ia tão
adiante nas vias de espírito, que então me disse que, por nenhuma
coisa, quisera ter deixado de lá ter estado. E eu bem podia dizer o
mesmo; porque, se antes me assegurava e consolava só com suas
letras, agora já o fazia também com experiência de espírito, que
tinha muita, de coisas sobrenaturais. E trouxe-o Deus quando Sua
Majestade viu que havia de ser necessário para ajudar a Sua obra, a
deste mosteiro, que Sua Majestade queria que se fizesse.


7. Estive, pois, neste silêncio, não me metendo nem falando neste
negócio, cinco ou seis meses, e nunca o Senhor me o mandou. Eu não
entendi qual era a causa, mas não se me podia tirar do pensamento
que se havia de fazer.

Ao fim deste tempo, tendo-se ido daqui o Reitor da Companhia de
Jesus, trouxe Sua Majestade outro muito espiritual e de grande
ânimo, entendimento e boas letras, ao tempo em que eu estava com
grande necessidade; porque, como o que me confessava tinha
Superior e eles têm em extremo esta virtude de não se moverem
senão conforme à vontade de seu Maior, embora ele entendesse
bem o meu espírito e tivesse desejo de que eu fosse muito adiante,
não ousava determinar-se em algumas coisas, por várias causas que
para isso tinha. E já o meu espírito ia com ímpetos tão grandes, que
eu sentia muito tê-lo atado e, contudo, não saía do que ele me
mandava.


8. Estando um dia com grande aflição por me parecer que o
confessor não me acreditava, disse-me o Senhor que não me
afligisse, que depressa se acabaria aquela pena. Alegrei-me muito
pensando que havia de morrer em breve e sentia muito
contentamento quando disso me lembrava. Depois vi claramente
que era a vinda deste Reitor que digo; porque nunca mais se me
ofereceu motivo para aquela pena. É que o Reitor que veio não ia à
mão ao Ministro que era meu confessor, antes lhe dizia que me
consolasse e que não havia de que temer. Que não me levasse por
caminho tão apertado e deixasse obrar o Espírito do Senhor. Às
vezes dir-se-ia que, com estes grandes ímpetos de espírito, ficava a
alma como sem poder respirar.


9. Foi-me ver este Reitor e mandou-me o confessor que falasse com
ele com toda a liberdade e clareza. Costumava eu sentir grandíssima
contradição em dizer estas coisas. E é assim que, entrando no
confessionário, senti em meu espírito um não sei quê que nem antes
nem depois me recordo tê-lo sentido com mais ninguém, nem eu
saberei dizer como foi, nem por comparação o poderia. Porque foi
um gozo espiritual e um entender a minha alma que aquela alma a
havia de entender e que se afazia com ela, embora - como digo - não
entendo como foi. Porque, se eu the tivesse falado ou dele me
tivessem dado muitas informações, não era muito dar-me gozo o
perceber que me havia de entender; mas nenhuma palavra, nem ele
a mim nem eu a ele, havíamos dito, nem era pessoa de quem eu
antes tivesse tido alguma notícia.


Depois vi bem que não se enganara meu espírito, pois de todos os
modos e maneiras tem sido de grande proveito para mim e para
minha alma tratar com ele. O seu trato é muito para pessoas que o
Senhor parece ter já muito adiante, porquanto ele as faz correr e não
ir passo a passo; o seu modo de as levar é desapegá-las de tudo e
mortificá-las. Para isto lhe deu o Senhor grandíssimo talento, como
também em outras muitas coisas.


10. Quando comecei a tratar com ele, logo entendi seu estilo e vi ser
uma alma pura, santa e com dom particular do Senhor para
conhecer espíritos. Consolei-me muito. Havia ainda pouco que o
tratava quando o Senhor voltou a apertar comigo para que tornasse
a cuidar do negócio do mosteiro e que dissesse a meu confessor e a
este Reitor muitas razões e coisas para que não mo estorvassem.

Algumas os faziam temer, ainda que este padre Reitor nunca
duvidasse de que fosse espírito de Deus; porque com muito estudo
a cuidado olhava a todos os efeitos. Enfim, por muitos motivos, não
ousaram atrever-se a impedir-me-lo.


11. Tornou meu confessor a dar-me licença para eu me pôr a isso,
tanto quanto pudesse. Eu bem via o trabalho em que me metia, por
estar muito só e ter pouquíssimas possibilidades. Assentámos em
que se tratasse de tudo com todo o segredo, e assim procurei que
uma irmã minha que vivia fora daqui, comprasse e arranjasse a casa
como se fosse para si, com dinhei- ros que o Senhor deu, por
diversas vias, para a comprar. Seria longo contar como o Senhor foi
provendo a tudo. Andava eu com grande cuidado de não fazer coisa
alguma contra a obediência; mas bem sabia que, se o dissesse a
meus prelados, estava tudo perdido, como da vez passada , e ainda
seria pior.


Em conseguir o dinheiro, em procurar as coisas, em consertá-las e
fazê-las aviar, passei grandes trabalhos e alguns bem a sós. A minha
companheira fazia o que podia, mas podia bem pouco e tão pouco
que era quase nada, a não ser o fazer-se tudo em seu nome e com
seu favor. Todo o mais trabalho era meu e de tantas maneiras, que
agora me espanto como o pude aguentar. Algumas vezes, aflita,
dizia: "Senhor meu, como mandais coisas que parecem
impossíveis? Embora fora mulher, se tivesse liberdade!... Mas atada
por tantos lados, sem dinheiro nem ter donde vir, nem para o Breve,
nem para nada, que posso eu fazer, Senhor?".


12. Uma vez, estando numa necessidade, sem mesmo saber que
fazer de mim nem com que pagar aos oficiais, apareceu-me S. José,
meu verdadeiro pai e senhor, e deu-me a entender que os ajustasse,
pois não me faltaria, e assim o fiz sem ter um real e o Senhor me
proveu de tudo, por modos que espantavam os que o souberam.
Fazia-se-me a casa muito pequena, e era-o tanto, que não parecia
levar caminho de ir a ser mosteiro. Queria, pois, comprar outra, a
qual estava junto dela, também muito pequena, para fazer a igreja.
Mas nem tinha com quê, nem havia modo de se poder comprar, nem
sabia que fazer. Acabando um dia de comungar, disse-me o Senhor:
já te disse que entres como puderes. E a modo de exclamação,
acrescentou: Oh! cobiça do género humano, que até terra pensas
que te há-de faltar! Quantas vezes dormi Eu ao relento por não ter
onde me recolher!

Eu fiquei muito espantada e vi que o Senhor tinha razão. Vou à
casita, tracei-a e achei-a embora bem pequeno, um mosteiro
perfeito. Não curei de comprar mais espaço, senão procurei que nela
se dispusesse tudo de maneira que se pudesse viver; tudo tosco e
sem arte, tão semente para que não fosse nocivo à saúde, e assim
se há-de fazer sempre.


13. No dia de Santa Clara, indo eu a comungar, ela apareceu-me com
muita formosura. Disse-me que me esforçasse e fosse avante no
começado, que me ajudaria. Fiquei-lhe com grande devoção e tem
saído tão verdadeira a sua promessa que um mosteiro de freiras da
sua Ordem, que está perto deste, nos ajuda a sustentar. E o que é
mais ainda: pouco a pouco, ela trouxe este meu desejo a tanta
perfeição, que a pobreza que a bem-aventurada Santa tinha em sua
casa, se observa nesta e vivemos de esmola. O que não metem
custado pouco trabalho, a fim de que isto fique assente com toda a
firmeza e autoridade do Santo Padre, para que se não. possa fazer
outra coisa, nem jamais haja renda. E mais faz ainda o Senhor, e
deve porventura ser pelos rogos desta bendita Santa, que, sem
diligências nossas, nos provê Sua Majestade muito perfeitamente do
necessário. Seja bendito por tudo. Amen.


14. Estando eu por estes mesmos dias, o de Nossa Senhora da
Assunção, num mosteiro da Ordem do glorioso São Domingos,
considerando os muitos pecados que noutro tempo eu havia
confessado naquela casa, e em outras coisas da minha ruim vida,
veio-me um arroubamento tão grande, que quase me tirou de mim.
Sentei-me e até me parece que não pude ver a Elevação, nem ouvir
Missa, que depois fiquei com escrúpulo disto. Parecia-me, estando
assim, que me via vestir uma roupa de muita brancura e claridade. A
princípio não via quem ma vestia; depois vi a Nossa Senhora a meu
lado direito e a meu Pai S. José à esquerda, que me vestiam aquela
roupa. Deu-se-me a entender que já estava limpa de meus pecados.

Acabada de vestir e eu com grandíssimo deleite e glória, logo me
pareceu Nossa Senhora pegar-me nas mãos. Disse-me que Lhe dava
muito gosto sendo devota do glorioso S. José; que tivesse por certo
que, o que eu pretendia do mosteiro, se havia de fazer e nele se
serviria muito o Senhor e a eles ambos; que não temesse que nisto
houvesse jamais quebra, embora a obediência que dava não fosse a
meu gosto, porque Eles nos guardariam e já Seu Filho nos tinha
prometido andar connosco. Para sinal de que isto se cumpriria davame
aquela jóia.


Pareceu-me então que me tinha deitado ao pescoço um colar de
ouro muito formoso e preso a ele uma cruz de muito valor. Este ouro
e pedras são tão diferentes das de cá, que não têm comparação. Sua
formosura excede a tudo o que podemos aqui imaginar, pois o
entendimento não alcança compreender de que era a roupa, nem
como imaginar a alvura que o Senhor quer que se nos represente.
Tudo parece aqui como um debuxo a carvão, a modo de dizer.


15. Era grandíssima a formosura que vi em Nossa Senhora, ainda
que não pude divisar nenhuma feição particular, mas vi em conjunto
a feitura do rosto. Vestia de branco, num grandíssimo resplendor,
não que deslumbra, mas suave. Ao glorioso S. José não vi tão
claramente, embora bem visse que estava ali, como nas visões que
tenho dito que se não vêem. Parecia-me Nossa Senhora muito
jovem.

Estando assim um pouco comigo e eu com tão grandíssima glória e
gozo, que segundo me parece, maior jamais havia tido e nunca
quisera apartar-me dele, pareceu-me que os vi subir ao Céu
acompanhados por uma grande multidão de anjos. Fiquei em muita
solidão, embora tão consolada, enlevada, recolhida em oração e
enternecida, que estive algum tempo sem me poder mover, nem
falar, mas como quase fora de mim. Fiquei com veemente anseio de
me desfazer por Deus e com tais efeitos - de tal modo tudo se
passou - que nunca pude duvidar, ainda que muito quisesse, não ser
coisa de Deus. Deixou-me consoladíssima e com muita paz.


16. No que disse á Rainha dos Anjos da obediência, é que se
tornava duro para mim não a prestar aos da Ordem. Havia-me dito o
Senhor que não convinha fazê-lo. Deu-me os motivos pelos quais,
de nenhuma maneira, convinha que o fizesse, mas que recorresse a
Roma por certa via que também me indicou, que Ele faria com que
viesse por ali a licença. E assim foi, que se enviou por onde o
Senhor me disse - pois nunca acabávamos de o conseguir - e veio
muito bem.

Para as coisas que depois sucederam, era muito conveniente
que se prestasse a obediência ao Bispo, mas então não o conhecia
eu, nem ainda sabia que prelado seria. Quis o Senhor que fosse tão
bom e favorecesse tanto esta casa, como era necessário para a
grande contradição que tem havido acerca dela - como depois direi -
e para  a levar ao estado em que está. Bendito seja Ele que assim
tem feito tudo. Amém.