
"Memórias da Serva de Deus Luisa Piccarreta"
(final da Sétima Hora)
Por consolo demo-lhes a agonia de Jesus, seus beijos, suas lágrimas, suas chagas; rompamos as ataduras que os têm atados, façamos ouvir a todos a palavra de perdão e ponhamo-lhes tal confiança no coração, que façamos que se lancem nos braços de Jesus. E assim, quando Ele os julgue os encontrará cobertos com seu sangue, abandonados em seus braços e a todos lhes dará seu perdão.
Continuemos ainda, oh, Mãe; teu olhar materno veja com amor a terra e se mova a compaixão de tantas pobres criaturas que têm necessidade deste sangue. Minha Mãe, me sinto solicitada pelo olhar indagador de Jesus a correr, porque quer almas; ouço seus gemidos no fundo de meu coração que me repetem:
"Minha filha, ajuda-me, dá-me almas!”
Porém veja, oh, Mãe, como a terra está cheia de almas que estão por cair no pecado e Jesus rompe em pranto vendo seu sangue sofrer novas profanações. Se requer um milagre que lhes impeça a caída, por isso demo-lhes o sangue de Jesus, para que encontrem nele a força e a graça para não cair no pecado.
Um passo mais, Minha Mãe, e eis aqui almas já caídas na culpa, as quais quiseram uma mão que as levante, Jesus as ama mas as vê horrorizado porque estão enlameadas, e sua agonia se faz mais intensa.
Demo-lhes o sangue de Jesus, e assim encontrem essa mão que as levante. Vê, oh, Mãe, são almas que têm necessidade deste sangue, almas mortas à graça; oh, como é deplorável seu estado!
O Céu as vê e chora com dor, a terra as vê com repugnância, todos os elementos estão contra elas e quiseram destruí-las, porque são inimigas do Criador.
Ah, Mãe, o sangue de Jesus contém a vida, demo-lhe pois afim de que ao seu contato estas almas renasçam, mas renasçam mais belas, tanto, que façam sorrir a todo o Céu e a toda a terra.
Giremos ainda, oh, Mãe; vê, há almas que levam a marca da perdição, almas que pecam e fogem de Jesus, que o ofendem e não têm esperança de seu perdão, são os novos Judas espalhados pela terra, e que traspassam esse coração tão amargurado.
Demo-lhes o sangue de Jesus, afim de que este sangue lhes apague a marca da perdição e lhes imprima a da salvação; ponha em seus corações tal confiança e amor depois da culpa, que os faça correr os pés de Jesus e estreitar-se a esses pés divinos para não separar-se deles jamais.
Veja, oh, Mãe, há almas que correm loucamente para a perdição e não há quem as detenha em sua carreira. Ah, coloquemos este sangue diante de seus pés, para que ao tocá-la, diante de sua luz e suas vozes suplicantes, porque as quer salvas, possam retroceder e por-se no caminho da salvação.
Continuemos, Mãe, nosso giro; veja, há almas boas, almas inocentes nas quais Jesus encontra suas complacências e o repouso na Criação, mas as criaturas vão ao seu redor com tantas insídias e escândalos, para arrancar esta inocência e converter as complacências e o repouso de Jesus em pranto e amarguras, como se não tivessem outro olhar que o dar contínuas dores a esse coração divino.
Selemos e circundemos pois sua inocência com o sangue de Jesus, como se fosse um muro de defesa, afim de que não entre nelas a culpa; com esse sangue põe em fuga a quem quiser contaminá-las, e as conserve puras e sem mancha, afim de que Jesus encontre seu repouso na Criação e todas suas complacências, e por amor a elas se mova à piedade de tantas outras pobres criaturas.
Minha Mãe, coloquemos estas almas no sangue de Jesus, atemo-as uma e outra vez com o Santo Querer de Deus, levemo-as aos seus braços, e com as doces cadeias de seu amor, atemo-as ao seu corazón para adoçar as amarguras de sua mortal agonia.
Porém escuta, oh, Mãe, este sangue grita e quer ainda outras almas; corramos juntas e vamos à regiões dos herejes e dos infiéis.
Quanta dor não sente Jesus nestas regiões! Ele, que é vida de todos, não recebe em correspondência nem sequer um pequeno ato de amor e não é conhecido por suas mesmas criaturas.
Ah, Mãe, demo-lhes este sangue afim de que lhes dissipe as trevas da ignorância e da heresia, lhes faça compreender que têm uma alma, e abra a elas o Céu. Depois coloquemo-as todas no sangue de Jesus e conduzamo-as em torno a Ele como tantos filhos órfãos e exilados que encontram seu Pai, e assim Jesus se sentirá confortado em sua amarguíssima agonia.
Porém parece que Jesus não está ainda contente, porque quer outras almas ainda. As almas dos moribundos nestas regiões se as sente arrancar de seus braços para ir cair no inferno.
Estas almas estão já a ponto de expirar e precipitar-se no abismo, não há ninguém ao seu lado para salvá-las; o tempo pressiona, os momentos são extremos e se perderão sem dúvida.
Não, Mãe, este sangue não será derramado inutilmente por elas, por isso voemos imediatamente até elas, derramemos o sangue de Jesus sobre sua cabeça e lhes sirva de batismo e infunda nelas Fé, Esperança e Amor.
Ponde ao seu lado, Mãe, supre tudo o que lhes falta, mais ainda, deixa-te ver, em teu rosto resplandece a beleza de Jesus, teus modos são em tudo iguais aos seus, e assim, vendo a Ti, com certeza poderão conhecer a Jesus; depois estreita-as ao teu coração materno, infunde nelas a vida de Jesus que Tu possuis, diz-lhes que sendo Tu sua Mãe as queres para sempre felizes contigo no Céu, e assim, enquanto expiram, recebe-as em teus braços e faz que dos teus passem aos de Jesus; e se Jesus mostrasse, segundo os direitos da Justiça, que não as quer receber, recorda-lhe o amor com o qual te as confiou embaixo da cruz, reclama teus direitos de Mãe, de maneira que ao teu amor e às tuas preces Ele não saberá resistir, e enquanto contentará teu coração, contentará também seus ardentes desejos.
E agora, oh, Mãe, tomemos este sangue e demo-os a todos: Aos aflitos, para que por ela recebam consolo; aos pobres, para que sofram resignados sua pobreza; aos que são tentados, para que obtenham a vitória; aos incrédulos, para que triunfe neles a virtude da Fé; aos blasfemos, para que troque las blasfêmias por bênçãos; aos sacerdotes, afim de que compreendam sua missão e sejam dignos ministros de Jesus.
Com este sangue toca seus lábios, afim de que não digam palavras que não sejam de glória de Deus; toca seus pés para que corram e voem em busca de almas para conduzi-las a Jesus.
Demos este sangue aos que dirigem os povos, para que estejam unidos entre eles e tenham mansidão e amor para seu povo.
Voemos agora ao purgatório e demo-os também à almas purgantes, pois elas choram e suplicam este sangue para sua libertação. Não escutas, Mãe, seus gemidos, seus delírios de amor que as torturam, e como continuamente se sentem atraídas até o sumo bem?
Olha como Jesus quer purificá-las para tê-las quanto antes consigo, as atrai com seu amor, e elas lhe correspondem com contínuos ímpetos de amor para Ele, mas ao encontrar-se em sua presença, não podendo ainda suster a pureza do divino olhar, são obrigadas a retroceder e a cair de novo nas chamas.
Minha Mãe, desçamos neste profundo cárcere e derramando sobre eles este sangue, levemo-lhes a luz, mitiguemos seus delírios de amor, extingamos o fogo que as queima, purifiquemo-as de suas manchas, e assim, livres de toda pena, voem aos braços do sumo bem.
Demos este sangue às almas mais abandonadas, afim de que encontrem nela todos os sufrágios que as criaturas lhes negam; a todas, oh, Mãe, demos este sangue, não privemos a ninguém, afim de que todas em virtude dela encontrem alívio e libertação.
Faz que reine nestas regiões de pranto e de lamentos, estende tuas mãos maternas e uma a uma tira-as destas chamas ardentes, e faz que todas empreendam o voo para o Céu.
E agora façamos também nós um voo para o Céu. Coloquemo-nos às portas eternas, e permite-me, oh, Mãe, que também a Ti te dê este sangue para tua maior glória. Este sangue te inunde de nova luz e de novos contentos, e faz que esta luz desça em benefício de todas as criaturas para dar a todas graças de salvação.
Minha Mãe, dá também a mim este sangue; Tu sabes quanto o necessito. Com tuas mãos maternas retoca todo meu ser com este sangue, e retocando-me purifica minhas manchas, cura minhas chagas, enriquece minha pobreza; faz que este sangue circule em minhas veias e me dê toda a Vida de Jesus, desça em meu coração e me transforme no coração de Jesus, me embeleze tanto que Jesus possa encontrar toda sua satisfação em mim.
Agora sim, oh, Mãe, entremos nas regiões celestiais e demos este sangue a todos os santos, a todos os anjos, afim de que possam receber maior glória, prorromper em hinos de agradecimento a Jesus e roguem por nós, e assim em virtude deste sangue possamos um dia reunir-nos com eles.
E depois de ter dado a todos este sangue, vamos de novo a Jesus. Anjos, santos, venham conosco; ah, Ele suspira pelas almas, quer fazê-las reentrar todas em sua Humanidade para dar a todas os frutos de seu sangue.
Coloquemo-as em torno d'Ele e se sentirá regressar à Vida e recompensar pela amarguíssima agonia que sofreu. E agora Mãe santa, chamemos a todos os elementos para fazer-le companhia afim de que também eles dêem honra a Jesus. Oh, luz do sol, vem dissipar as trevas desta noite para dar consolo a Jesus; oh, estrelas, com vossos trêmulos raios descei do céu e vinde dar consolo a Jesus; flores da terra, vinde com vosso perfume; passarinhos, vinde com vossos trinos; elementos todos da terra, vinde confortar a Jesus.
Vem, oh, mar, refrescar e lavar a Jesus, Ele é nosso Criador, nossa Vida, nosso tudo; venham todos confortá-lo, render-lhe homenagem como a nosso Soberano Senhor. Mas, ai, Jesus não busca luz, estrelas, flores, pássaros, Ele quer almas, almas.
Ei-las aqui, meu doce bem, todas juntas comigo; o teu lado está a amada Mãe, descansa entre seus braços, também Ela terá consolo ao estreitar-te em seu seio, pois tomou muita parte em tua dolorosa agonia; também está aqui Madalena, está Marta, e todas as almas amadas de todos os séculos.
Oh, Jesus, aceite-as, e diz a todas uma palavra de perdão e de amor; ate-as todas em teu amor, afim de que nenhuma alma te fuja mais.
Mas me parece que dizes: “Ah, filha, quantas almas pela força fogem de Mim e se precipitam na ruína eterna! Como poderá então acalmar minha dor, se Eu amo tanto a uma só alma quanto amo a todas as almas juntas?”
Conclusão da Agonia
Agonizante Jesus, enquanto parece que está por apagar-se tua vida, ouço já o estertor da agonia, vejo teus belos olhos eclipsados pela próxima morte, teus santíssimos membros abandonados, e frequentemente sinto que não respiras mais, e sinto que o coração se rompe pela dor.
Abraço-Te e te sinto gelado; te movo e não dás sinais de vida. Jesus, morrestes?
Aflita Mãe, anjos do Céu, venham chorar por Jesus e não permitam que eu continue vivendo sem Ele, porque não posso. Abraço-O mais forte e ouço que dá outro suspiro e de novo não dá sinais de vida, e eu o chamo: “Jesus, Jesus, minha vida, não morras!
Já ouço o ruído de teus inimigos que vêm para prender-te, quem te defenderá no estado em que te encontras?” E Ele, agitado, parece que ressurge da morte à vida, me olha e me diz:
“Filha, estás aqui? Tens sido então espectadora de minhas penas e das tantas mortes que sofri? Deves saber, oh, filha, que nestas três horas de amarguíssima agonia reuni em Mim todas as vidas das criaturas, e sofri todas suas penas e suas mortes, dando a cada uma minha Vida. Minhas agonias sustentarão as suas; minhas amarguras e minha morte se mudarão para elas em fonte de doçura e de vida.
Ah, quanto me custam as almas! Se fosse ao menos correspondido! Por isso tu viste que enquanto morria, voltava a respirar, eram as mortes das criaturas que sentia em Mim.”
Meu atormentado Jesus, já que quiseste encerrar em Ti também minha vida, e por tanto também minha morte, te rogo por esta tua amarguíssima agonia, que venhas a assistir-me no momento de minha morte.
Eu te dei meu coração como refúgio e repouso, meus braços para sustentar-te e todo meu ser à tua disposição, e eu, oh, de boa vontade me entregaria em mãos de teus inimigos para poder morrer eu em teu lugar.
Vem, oh vida de meu coração naquele momento dar-me o que te dei, tua companhia, teu coração como leito e descanso, teus braços como sustento, tua respiração ofegante para aliviar meus cuidados, de modo que conforme respire, respirarei por meio de tua respiração, que como ar purificador me purificará de toda mancha e me disporá ao ingresso da eterna bem aventurança.
Mas ainda meu doce Jesus, aplicarás à minha alma toda tua Santíssima Humanidade, de modo que olhando-me me verás através de Ti, e olhando a Ti em mim, não encontrarás nada de que julgar-me; depois me banharás em teu sangue, me vestirás com a cândida vestidura de tua Santíssima Vontade, me adornarás com teu amor e dando-me o último beijo me farás empreender o voo da terra ao Céu.
E agora te rogo que faças isto que quero para mim, à todos os agonizantes; estreite a todos em teu abraço de amor e dando-lhes o beijo da união contigo salve-os a todos e não permitas que nenhum se perca.
Meu aflito bem, te ofereço esta hora santa em memória de tua Paixão e morte, para desarmar a justa ira de Deus por tantos pecados, pela conversão de todos os pecadores, pela paz dos povos, por nossa santificação e em sufrágio das almas do Purgatório.
Porém vejo que teus inimigos estão já perto e Tu queres deixar-me para ir ao seu encontro. Jesus, permite-me que te de um beijo em teus lábios, nos quais Judas ousará beijar-te com seu beijo infernal; permite-me que te limpe o rosto banhado em sangue, sobre o qual choverão bofetadas e cusparadas, e estreitando-me forte em teu coração, eu no te deixo, mas te sigo e Tu me abençoas e me assistes.







