Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Trata dalgumas grandes graças que o Senhor lhe fez, tanto em mostrar-lhe alguns segredos do Céu, como outras grandes visões e revelações que Sua Majestade teve por bem que visse.

 LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA


  CAPÍTULO 38. Trata dalgumas grandes graças que o Senhor
lhe fez, tanto em mostrar-lhe alguns segredos do Céu, como
outras grandes visões e revelações que Sua Majestade teve
por bem que visse. Diz os efeitos com que a deixavam e o
grande aproveitamento que ficava em sua alma.

1. Estando uma noite tão doente que me queria escusar de ter
oração, tomei um rosário para me ocupar vocalmente, procurando
não recolher o entendimento, embora no exterior estivesse recolhida
num oratório. Quando o Senhor quer, pouco aproveitam estas
diligências. Estive assim um pouco, e veio-me um arrebatamento de
espírito com tanto ímpeto, que não pude resistir-lhe. Parecia-me
estar metida no Céu, e as primeiras pessoas que ali vi foi a meu pai e
a minha mãe, e vi coisas tão grandes - em tão breve espaço como o
de se poder dizer uma Ave Maria - que fiquei bem fora de mim,
parecendo-me muito demasiada graça.

Isto de durar tão breve tempo, bem pode ser que fosse mais, mas
parece-nos muito pouco. Temi que fosse alguma ilusão, ainda que
não me parecia. Não sabia que fazer, porque tinha grande vergonha
de ir com isto ao confessor; não por humildade, a meu parecer,
senão por julgar que faria troça de mim dizendo: com que então
temos um S. Paulo ou S. Jerônimo para ver coisas do Céu! E por
estes gloriosos santos terem tido coisas destas, isto a mim me fazia
mais temor, e não fazia senão chorar muito, porque me parecia que
não levava nenhum caminho. Enfim, embora muito o sentisse, fui ao
confessor, porque calar alguma coisa jamais o ousava, por mais que
sentisse em dizê-la, pelo grande medo que tinha de ser enganada.
Ele, como me viu tão aflita, consolou-me muito e disse-me muitas
coisas boas para me tirar a pena.

2. Andando mais o tempo, aconteceu-me e acontece ainda algumas
vezes. Ia o Senhor mostrando-me maiores segredos. Querer ver a
alma mais do que se lhe representa, não há forma, nem é possível, e
assim eu não via, de cada vez, senão o que o Senhor me queria
mostrar. Era porém tanto, que o menos bastava para ficar espantada
e a alma muito aproveitada para estimar e ter em pouco todas as
coisas da vida.

Quisera eu poder dar a entender alguma coisa do menos que
entendia e, pensando como o poderei fazer, vejo que é impossível.
Só a diferença que há entre, esta luz que vemos e a que ali se
representa, sendo tudo luz, é tal que não há comparação, porque a
claridade do sol parece coisa muito deslustrada. Enfim; não alcança
a imaginação, por muito subtil que seja, pintar nem traçar como seja
esta luz, nem coisa alguma das que o Senhor me dava a entender
com um deleite tão soberano que não se pode dizer. É que todos os
sentidos gozam em tão alto grau e suavidade, que não se pode
encarecer, e assim é melhor não dizer mais nada.

3. Uma vez havia estado assim mais duma hora, mostrando-me o
Senhor coisas admiráveis, parecendo-me que não se tirava de ao pé
de mim. Disse-me: Olha, filha, ó que perdem os que são contra Mim;
não deixes de lhes dizer isto.

Ai! Senhor meu! e que pouco aproveita o eu falar àqueles a quem
suas obras cegam, se Vossa Majestade não lhes dá luz! A algumas
pessoas a quem Vós a tendes dado, têm-lhes aproveitado saber as
Vossas grandezas; mas vêem-nas, Senhor meu, manifestadas a
coisa tão ruim e miserável, que eu tenho em muito o ter-me
acreditado alguém.

Bendito seja o Vosso nome e misericórdia, pois -
ao menos eu - tenho visto em  minha alma conhecida melhoria.
Quisera ela depois ficar-se sempre ali e não tornar a viver, porque foi
grande o desprezo que me ficou de quanto é cá de baixo; parecia-me
lixo e vejo quão baixamente nos ocupamos os que nos detemos
nisto.

4. Quando estava com aquela senhora que tenho dito,. aconteceu-me,
uma vez, sentir-me mal do coração (porque, como já o disse,
tenho sofrido muito dele, embora já não sofra), como ela era de
muita caridade, me fez tirar, para as ver, jóias de ouro e pedras
preciosas, que as tinha de grande valor, em especial uma de
diamantes avaliada em muito. Ela pensou que me alegraria com isso.

Eu estava-me rindo comigo mesma e tendo compaixão de ver o que
os homens estimam, recordando-me do que o Senhor nos tem
guardado e pensava quão impossível me seria, embora eu a mim
mesma me quisesse convencer, ter em conta aquelas coisas, se o
Senhor não me tirasse a lembrança de outras.

É isto um grande senhorio para a alma, tão grande que não sei se o
entenderá senão quem o possuir; é o verdadeiro e natural desapego,
que nos vem sem esforço nosso, pois tudo é feito por Deus. É que
Sua Majestade mostra estas verdades de tal modo, que ficam tão
impressas, que se vê claramente que, por nós mesmos, não
poderíamos adquirir isto, desta maneira, em tão breve tempo.

5. Ficou-me também pouco medo à morte, a qual eu sempre temia
muito. Parece-me agora coisa facílima para quem serve a Deus,
porque num momento se vê a alma livre deste cárcere e posta em
descanso. Este levar Deus o espírito nestes arroubamentos, e
mostrar-lhe coisas tão sublimes, afigura-se-me a mim muito
semelhante a quando uma alma sai do corpo, que num instante se
vê em todo este bem; deixemos as dores de quando se arranca, que
disso pouco caso se há-de fazer; e, os que deveras amarem a Deus e
tiverem dado de mão às coisas desta vida, mais suavemente devem
morrer.

6. Também me parece que me aproveitou muito para conhecer a
nossa verdadeira pátria e ver que somos cá na terra peregrinos, e
grande coisa é ver o que há por lá e saber onde havemos de viver.

Porque, se alguém tem de ir viver com sossego em uma terra, é-lhe
de grande ajuda para passar os trabalhos do caminho, já ter visto
que é lugar onde há-de viver muito a seu descanso; é-o também para
considerar com facilidade as coisas celestiais e procurar que seja lá
a nossa conversação. Isto é de muito lucro. Só o olhar para o Céu
recolhe a alma, porque, como o Senhor se dignou mostrar algo do
que lá há, está-se pensando no que se viu, e acontece-me, algumas
vezes, que os que me acompanham e com quem me consolo, são os
que eu sei que lá vivem; esses é que verdadeiramente me parecem
os vivos, e os que cá vivem tão mortos, que todo o mundo, dir-se-ia,
não me faz companhia, em especial quando tenho aqueles ímpetos.

7. Tudo me parece um sonho e que é burla o que vejo com os olhos
do corpo. O que já tenho visto com os da alma, é o que ela deseja e,
como se vê longe, este é o morrer. Enfim, é grandíssima a mercê que
o Senhor faz a quem dá semelhantes visões; porque a ajuda muito e
também a levar uma pesada cruz, porque nada a satisfaz, tudo lhe dá
no rosto. E se o Senhor não permitisse, às vezes, que se olvidasse,
embora se torne a lembrar, não sei como se poderia viver. Bendito
seja e louvado para sempre jamais!

Praza a Sua Majestade, pelo Sangue que Seu Filho derramou por
mim, visto ter querido que eu entenda alguma coisa de tão grandes
bens e comece de algum modo a gozar deles, não me aconteça o
mesmo que a Lúcifer que, por sua culpa, perdeu tudo. Não o permita
Ele por quem é! Não tenho pouco temor algumas vezes, embora por
outra parte, e é muito habitual, a misericórdia de Deus dá-me
segurança de que, pois me tirou de tantos pecados, não quererá
deixar-me de Sua mão, para que me perca. Isto suplico eu a V. Mercê
que sempre Lhe peça.

8. Não são porém tão grandes as ditas mercês, segundo julgo, como
esta que agora direi, por muitas causas e grandes bens que dela me
ficaram, particularmente a grande fortaleza de alma; embora vista
cada coisa de per si é, porém, tão grande que não há com que a
comparar.

9. Um dia, na véspera do Espírito Santo, depois da Missa, fui para
um lugar bem apartado, onde eu rezava muitas vezes, e comecei a
ler num Cartusiano o referente a esta festa. Lendo os sinais que
devem ter os que começam e aproveitam e os perfeitos, para se
conhecer se está com eles o Espírito Santo, e depois de ter lido
estes três estados, pareceu-me, tanto quanto podia perceber, que,
por bondade de Deus, não deixava Ele de estar comigo. Estando-O
eu louvando e recordando-me que, duma outra vez que o tinha lido,
estava bem falha de tudo aquilo, que isso via eu muito bens assim
como agora entendia o contrário de mim, conheci que era grande a
mercê que o Senhor me tinha feito. E assim comecei a considerar o
lugar que tinha merecido no inferno pelos meus pecados e dava
muitos louvores a Deus, porque me parecia que nem conhecia a
minha alma tanto a via mudada.

Estando nesta consideração, deu-me
um ímpeto grande sem entender o motivo; parecia que a alma me
queria sair do corpo, porque não cabia nele, nem se achava capaz de
esperar tanto bem. Era ímpeto tão excessivo, que eu não o podia
reprimir e, segundo me parece, diferente de outras vezes, nem
entendia o que tinha a alma, nem o que queria, que tão alterada
estava. Encostei-me, que nem sentada podia estar, porque me
faltava toda a força natural.

10. Estando nisto, vejo sobre minha cabeça uma pomba; bem
diferente das de cá, porque não tinha penas, senão que as asas
eram de umas conchinhas que despediam de si grande resplendor.
Era grande, maior que uma pomba normal. Parece-me que ouvia o
ruído que ela fazia com as asas. Estaria adejando pelo espaço de
uma Ave-Maria. Já a alma estava de tal sorte que, perdendo-se a si
de si, a perdeu de vista.

Acalmou-se o espírito com tão bom Hóspede, que, segundo meu
parecer, mercê tão maravilhosa o devia desassossegar e espantar; e
logo que a começou a gozar, perdeu o medo e começou a quietação
com o gozo, ficando em arroubamento.

11. Foi grandíssima a glória deste arroubamento. Fiquei o resto
desta Páscoa tão desatinada e tonta, que não sabia que fazer de
mim, nem como cabia em mim tão grande favor e mercê. Não ouvia
nem via, por assim dizer, com o grande gozo interior. Desde aquele
dia percebi ficar com grandíssimo aproveitamento no mais subido
amor de Deus e as virtudes muito mais fortalecidas. Seja Ele bendito
e louvado para sempre. Amém.

12. De outra vez vi a mesma pomba sobre a cabeça de um padre da
Ordem de São Domingos, salvo que me pareceu que se estendiam
muito mais os raios e resplendores das mesmas asas. Deu-se-me a
entender que havia de levar almas para Deus.

13. Outra vez vi estar Nossa Senhora pondo uma capa, muito branca
ao Presentado desta mesma Ordem, de quem tenho falado algumas
vezes.

Disse-me Ela que, pelo serviço que ele Lhe tinha feito em ajudar a
que fizesse esta casa, lhe dava aquele manto em sinal de que; daí
em diante, guardaria a sua alma limpa e não cairia em pecado
mortal. Eu tenho por certo que assim foi; porque daí a poucos anos
morreu, e a vida que viveu foi de tanta penitência e a morte com
tanta santidade, que, tanto quanto se pode conhecer, não há que pôr
isto em dúvida. Disse-me um frade, que tinha assistido à sua morte,
que, antes de expirar, disse-lhe que estava com ele S. Tomás.

Morreu com grande gozo e desejo de sair deste desterro. Depois,
tem-me aparecido algumas vezes com muita glória e dito algumas
coisas. Tinha tanta oração, quando morreu, que, embora se quisesse
dispensar dela pela grande fraqueza em que estava, não podia,
porque tinha muitos arroubamentos. Escreveu-me pouco antes de
morrer a perguntar de que meio se teria de servir, porque, quando
acabava de dizer Missa, ficava em arroubamento muito tempo, sem o
poder evitar. Deu-lhe Deus, no fim, o prêmio do muito que O tinha
servido toda a sua vida.

14. Do Reitor da Companhia de Jesus, de quem algumas vezes fiz
menção, tenho visto algumas coisas das grandes mercês que o
Senhor lhe fazia, que, para não me alongar, não as escrevo aqui.

Aconteceu-lhe uma vez um grande trabalho em que foi muito
perseguido e viu-se muito aflito. Estando eu um dia ouvindo Missa,
vi Cristo na cruz, à elevação da Hóstia. Disse-me algumas palavras
para que lhas dissesse, de consolação, e outras, prevenindo-o do
que estava por vir e lembrando-lhe o que Ele tinha padecido por ele .
e que se preparasse para sofrer. Deu-lhe isto muita consolação e
ânimo, e tudo se passou depois, como o Senhor me disse.

15. Dos da Ordem deste Padre, que é da Companhia de Jesus, e de
toda a Ordem junta, tenho visto grandes coisas. Vi-os no Céu com
bandeiras brancas nas mãos algumas vezes e; como digo, outras
coisas tenho visto deles de muita admiração; e assim tenho esta
Ordem em grande veneração, porque os tenho tratado muito e vejo
que se conforma a sua vida com o que o Senhor me tem dado a
entender deles.

16. Estando uma noite em oração, começou-me o Senhor a dizer
algumas palavras, trazendo-me com elas à memória quão má tinha
sido minha vida, que me faziam grande confusão e pena. Porque,
embora não sejam ditas com rigor, causam uma mágoa e pena, que
me desfazem. Sente-se com uma palavra destas, maior
aproveitamento em conhecermo-nos a nós mesmos que em muitos
dias em que consideremos a nossa miséria; porque cada uma traz
em si esculpida uma tal verdade que não a podemos negar.

Representou-me as afeições que eu, com tanta vaidade, havia tido e
disse-me que tivesse em muito o Ele querer, e em admitir que Lhe
fosse dedicada uma amizade que tão mal se havia gasto como a
minha.

Outras vezes disse-me que me lembrasse do tempo em que parecia
que eu tinha por honra ir contra a Sua. E ainda em outras, que me
recordasse do que eu Lhe devia, pois quando Lhe dava maior golpe,
estava-me Ele fazendo mercês. Se tinha cometido algumas faltas, e
não são poucas, de tal maneira Sua Majestade mas dá a entender,
que toda eu parece que me desfaço, e como tenho muitas, é muitas
vezes. Quando me acontecia repreender-me o confessor, e eu quererme
consolar na oração, era ali que encontrava a verdadeira
repreensão.

17. Voltando ao que dizia: como o Senhor me começou a trazer à
memória a minha ruim vida, ao virem-me as lágrimas (como então,
segundo me parecia, nada tinha feito), pensei que me quereria fazer
alguma mercê. É que, muito de ordinário, quando recebo alguma
particular mercê do Senhor, é depois de eu meter primeiro desfeito a
mim mesma. Penso que o Senhor o deve assim fazer para que veja
bem claro quão longe estou de as merecer.

Pouco depois; foi tão arrebatado o meu espírito que quase me
pareceu que estava de todo fora do corpo; pelo menos, não se
percebe que se vive nele. Vi a Humanidade Sacratíssima, com tão
excessiva glória como jamais a tinha visto. Representou-se-me, por
uma notícia admirável e clara, estar Ele metido no seio do Pai. Isto
não o saberei eu dizer como é, porque, sem ver, pareceu-me que me
via na presença daquela Divindade. Fiquei tão espantada e de tal
maneira, que passaram alguns dias, ao que recordo que não podia
voltar a mim e sempre me parecia que trazia presente aquela
majestade do Filho de Deus, embora não fosse como da primeira
vez.

Isto bem o entendia eu, senão que fica tão esculpido na
imaginação - por breve que tenha sido - que não o pode tirar da
lembrança por algum tempo e é de muito consolo e também
aproveitamento.

18. Tive esta mesma visão ainda outras três vezes. É, a meu parecer,
a mais subida visão que o Senhor me fez mercê de ver e traz
consigo grandíssimos proveitos. Parece que purifica a alma de
grande modo e tira quase de todo a força a esta nossa sensualidade.

É uma grande chama que parece que abrasa e aniquila todos os
desejos da vida; porque, como eu, graças a Deus, já não os tinha em
coisas vãs, aqui se me declarou bem como tudo era vaidade e quão
vãos e quão vãos são os senhorios de cá da terra. É grande
ensinamento para levantar os desejos à pura verdade. Deixa
impresso um acatamento que não saberei dizer como é, mas muito
diferente do que aqui podemos adquirir. Causa grande espanto à
alma ver como se atrevem, ou como alguém se pode atrever, a
ofender uma Majestade tão imensamente grande.

19. Algumas vezes terei dito estes efeitos de visões e outras coisas,
mas já disse também que há mais e menos aproveitamento; desta
fica grandíssimo. Quando me aproximava para comungar eme
lembrava daquela Majestade grandíssima que tinha visto e via que
era Ele que estava no Santíssimo Sacramento (e muitas vezes quer o
Senhor que O veja na Hóstia), os cabelos se me arrepiavam e dir-seia
que toda eu me aniquilava. Ó Senhor meu! se não encobrísseis
assim a Vossa grandeza, quem ousaria chegar a unir tantas vezes
uma coisa tão suja e miserável com uma tão grande Majestade?

Bendito sejais; Senhor! Louvem-Vos os anjos e todas as criaturas,
pois assim acomodais as coisas à nossa fraqueza, para que,
gozando de tão soberanas mercês, não nos espante o Vosso grande
poder, a ponto de que nem mesmo nós atrevêssemos a gozá-las,
como gente fraca e miserável.

20. Poderia acontecer-nos o mesmo que sucedeu a um lavrador, e
isto eu sei de certeza que se passou assim. Encontrou um tesouro e,
como era maior do que cabia em seu ânimo, que era baixo, ao ver-se
com ele, deu-lhe uma tal tristeza que, pouco a pouco, veio a morrer
de pura aflição e cuidado de não saber o que lhe havia de fazer. Se
ele não o tivesse achado assim todo junto, mas pouco a pouco lho
fossem dando e sustentando com ele, viveria mais contente do que
sendo pobre, e não lhe custaria a vida.

21. Ó Riqueza dos pobres! como sabeis admiravelmente sustentar
as almas e, sem que vejam tão grandes riquezas, pouco a pouco
lhas ides mostrando!

E assim, quando eu vejo - desde então para cá - uma Majestade tão
grande oculta em uma coisa tão pequena como é uma Hóstia, não
posso deixar de me admirar de tão grande sabedoria. Não sei
mesmo como o Senhor me dá ânimo e esforço para me chegar a Ele;
porque se mo não desse, Ele que me tem feito e ainda faz tão
grandes mercês, nem seria possível eu poder dissimular a minha
admiração nem deixar de dizer em altas vozes tão grandes
maravilhas.

Que sentirá, pois, uma miserável como eu, carregada de
abominações e que com tão pouco temor de Deus tem gasto sua
vida, de se ver aproximar a este Senhor de tão grande majestade,
quando Ele quer que minha alma O veja? Como há-de juntar uma
boca que tantas palavras tem dito contra o mesmo Senhor, àquele
Corpo gloriosíssimo, cheio de pureza e piedade? O amor que mostra
aquele rosto de tanta formosura com uma tal ternura e afabilidade,
magoa e aflige muito mais a alma, por não O ter servido, do que lhe
infunde temor a majestade que nele vê.

Mas, que poderia eu sentir das duas vezes que vi isto que adiante
digo?

22. Certo é, Senhor meu e glória minha, que estou em dizer que,
nestas grandes aflições que sente a minha alma, eu tenho de certo
modo feito alguma coisa em Vosso serviço. Ai! que já não sei o que
digo, pois quase já não sou eu a falar ao escrever isto! porque me
acho perturbada e um tanto fora de mim, por ter trazido de novo à
memória estas coisas. Pudera bem dizer, Senhor meu, ter feito
alguma coisa por Vós, se este sentimento me viesse de mim; mas
como não pode haver bom pensamento se Vós não o dais, não há de
que me agradecer: Eu sou a devedora, Senhor, e Vós o ofendido.

23. Chegando-me eu uma vez para comungar, vi com os olhos da
alma, mais claro que com os do corpo, dois demônios de muito
abominável figura. Parecia-me que, com seus chifres, cingiam a
garganta do pobre sacerdote. E na Hóstia que me ia dar, vi o meu
Senhor, com a Majestade que tenho dito, posto naquelas mãos, que
bem sé Via serem ofensoras Suas. Entendi estar aquela alma em
pecado mortal.

Que seria, Senhor meu, ver Vossa formosura entre figuras tão
abomináveis? Estavam eles como que amedrontados e espantados
diante de Vós, e julgo que de boa vontade fugiriam, se Vós os
deixásseis ir.

Causou-me tão grande perturbação, que não sei como
pude comungar e fiquei com grande temor, parecendo-me que, se
fora visão de Deus, não permitiria Sua Majestade que visse o mal
que estava naquela alma. Disse-me o mesmo Senhor que rogasse
por ele, e que o havia permitido para que eu entendesse a força que
tinham as palavras da consagração, e como não deixa Deus de estar
ali, por mau que seja o sacerdote que as pronuncia, e para que visse
a Sua grande bondade, pondo-se naquelas mãos de Seu inimigo; e
tudo para bem meu e de todos.

Entendi bem quanto mais obrigados estão os sacerdotes a ser bons
do que outros, e que terrível coisa é receber este Santíssimo
Sacramento indignamente, e a que ponto o demônio é senhor da
alma que está em pecado mortal. Aproveitou-me isto muitíssimo e
deu-me um grande conhecimento do que devia a Deus. Seja bendito
para sempre.

24. Outra vez aconteceu-me outra coisa que me espantou
muitíssimo. Estava eu num lugar onde morreu certa pessoa que
tinha vivido muito mal, segundo soube, e muitos anos; mas havia
dois que estava enfermo e em algumas coisas parece que estava
emendado. Morreu sem confissão, mas apesar disto, não me parecia
que se condenaria.

Estando-se amortalhando o corpo, vi muitos
demônios pegarem naquele corpo, e dir-se-ia, que jogavam com ele
e faziam também justiça nele, o que me encheu de um grande pavor,
pois com grandes garfos o passavam duns aos outros. Quando o vi
levar a enterrar com a honra e cerimónias que se dão a, todos,
estava eu pensando em como a bondade de Deus não queria que
fosse difamada aquela alma, mas que ficasse encoberto o ela ser
Sua inimiga.

25. Estava eu meia tonta com o que tinha visto. Durante todo o
Ofício não vi mais nenhum demônio. Depois, quando deitaram o
corpo na sepultura, era tanta a multidão deles que estavam dentro
para pegar nele, que eu estava fora de mim de o ver, e não era
preciso pouco ânimo para o dissimular. Considerava o que fariam
daquela alma quando assim se assenhoreavam do triste corpo.

Prouvera ao Senhor que isto que eu vi - coisa tão espantosa! -
vissem todos os que estão em mau estado, pois me parece seria
grande meio para os fazer viver bem.

Tudo isto me faz conhecer mais o que devo a Deus e do que me
livrou. Andei muito temerosa até que tratei disto com meu
confessor, pensando se seria ilusão do demônio para difamar aquela
alma, ainda que não fosse tida por ser de muita cristandade. A
verdade é que, embora não fosse ilusão, sempre me causa temor
quando me lembro.

26. Já que comecei a dizer visões de defuntos, quero dizer algumas
coisas que, neste caso, o Senhor tem sido servido que eu veja
dalgumas almas. Direi poucas para abreviar e por não ser
necessário, digo, para nenhum aproveitamento.

Disseram-lhe que tinha morrido um Provincial que havia sido nosso
(e quando morreu o era de outra Província), com quem eu tinha
tratado e era devedora de alguns favores. Era pessoa muito virtuosa.

Quando soube que tinha morrido, deu-me muita perturbação, porque
temi pela sua salvação, pois havia sido vinte anos prelado, coisa
que, em verdade, eu temo muito, por me parecer de muito perigo o
ter encargo de almas. E, em muita aflição, fui para um oratório. Deilhe
todo o bem que tinha feito em minha vida, que seria bem pouco,
e assim disse ao Senhor que suprissem Seus méritos o que faltasse
àquela alma para sair do Purgatório.

27. Estando eu a pedir ao Senhor o melhor que podia, pareceu-me
que saía do centro da terra, a meu lado direito, e vi-o subir ao Céu
com grandíssima alegria. Ele era já bem velho, mas vi-o de idade de
trinta anos, e ainda menos me pareceu, e com grande resplendor no
rosto.

Passou mui brevemente esta visão, mas fiquei em tanto
extremo consolada, que nunca mais me pôde dar pena a sua morte,
ainda que visse aflitas muitas pessoas por ele, pois era muito
benquisto. Era tanto o consolo que tinha a minha alma, que nada se
me dava, nem podia duvidar de que era boa a visão, digo, que não
era ilusão.

Não havia mais de quinze dias que tinha morrido. Contudo, não me
descuidei de procurar que o encomendassem a Deus e fazê-lo eu
também, mas não o podia fazer com aquele empenho que teria se
não tivesse visto isto.

Quando assim o Senhor me mostra alguma
alma e depois eu a quero encomendar a Sua Majestade, parece-me,
sem mais estar em meu poder, que é como dar esmola a rico. Soube
depois - porque morreu bem longe daqui - a morte que o Senhor lhe
deu, que foi de tanta edificação que a todos deixou espantados do
conhecimento e lágrimas e humildade corri que morreu.

28. Tinha morrido, na casa, uma freira, grande serva de Deus, havia
pouco mais de dia e meio. Estando uma outra freira dizendo uma
lição do Ofício de Defuntos, que por ela se rezava no coro, eu estava
de pé para com ela dizer o versículo. A meio da lição vi, me pareceu,
que saía sua alma do mesmo lugar que da visão anterior e que ia
para o Céu. Esta não foi imaginária, como a anterior, senão como
outras que tenho dito; e destas não se duvida mais de que daquelas
que se vêem.

29. Morreu também, na minha mesma casa, outra freira. Desde há
dezoito ou vinte anos sempre tinha sido enferma, e muito serva de
Deus, amiga do coro e muito virtuosa. Certo é que pensei que não
entrara no Purgatório, porque eram muitas as enfermidades que
tinha padecido, senão que lhe sobrariam méritos. Estando rezando
as Horas, antes que a enterrassem, haveria umas quatro horas que
morrera, entendi que saía do mesmo lugar e ia para o Céu.

30. Estando num colégio da Companhia de Jesus, com os grandes
trabalhos que tinha e tenho algumas vezes de alma e corpo, como já
disse, estava de sorte que nem sequer um bom pensamento,
segundo me parece, podia admitir. Tinha morrido nessa noite um
irmão daquela casa da Companhia, e estando eu, conforme podia,
encomendando-o a Deus e ouvindo missa de outro padre da
Companhia por ele, deu-me um grande recolhimento e vi-o subir ao
Céu, com muita glória e o Senhor ia com ele. Entendi que era
particular favor de Sua Majestade.

31. Outro frade da nossa Ordem, muito bom religioso, estava muito
mal. Estando eu à missa, veio-me um recolhimento e vi que tinha
morrido e subia ao Céu sem passar pelo Purgatório. Morreu naquela
mesma hora em que o vi, segundo soube depois. Eu me espantei de
não ter entrado no Purgatório. Entendi que, por ter sido frade e ter
guardado bem a sua profissão, lhe tinham aproveitado as Bulas da
Ordem para não entrar no Purgatório. Não sei por que entendi isto;
parece-me que deve ser porque não está o ser frade no hábito, quero
dizer, em trazê-lo, para gozar do estado de mais perfeição, mas em
sê-lo.

32. Não quero dizer mais destas coisas; porque, como tenho dito,
não há porquê, embora sejam muitas as que o Senhor me tem feito
mercê que veja. Mas, de todas as que tenho visto, não tenho
entendido deixar nenhuma alma de entrar no Purgatório se não a de
este Padre e a de santo Frei Pedro de Alcântara e a do Padre
Dominicano de que falei. De alguns foi o Senhor servido que veja os
graus de glória que têm, representando-se-me os lugares em que
estão. E grande a diferença que há de uns a outros.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Não digo que não me contentaria e me teria por muito venturosa de estar no Céu, mesmo que fosse no último lugar.(Santa Teresa de Ávila)

 LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA


CAPÍTULO 37. Trata dos efeitos que lhe ficavam quando o
Senhor lhe dava alguma graça. Junta com isto muito boa
doutrina. Diz como se há-de procurar ter em muito o ganhar
mais algum grau de glória e que, por nenhum trabalho,
deixemos bens que são perpétuos.

1. Custa-me ter de dizer outras graças que o Senhor me tem feito,
além das que já disse, e ainda estas são demasiadas para que se
creia que Ele as tenha feito a pessoa tão ruim; mas, para obedecer
ao Senhor que mo ordenou e a VV. Mercês, direi algumas coisas
para glória Sua. Praza a Sua Majestade aproveite a alguma alma o
ver que, a uma coisa tão miserável, o Senhor assim quis favorecer -
que fará a quem O servir de verdade? - e se animem todos a
contentar Sua Majestade, pois já nesta vida dá tais prendas.

2. Primeiro, há-de entender-se que nestas graças que Deus faz à
alma, há mais e menos glória. Porque nalgumas visões, a glória e o
deleite e a consolação excedem tanto o que o Senhor dá em outras,
que eu me espanto de tanta diferença de gozar, ainda nesta vida.

Pois acontece ser tanta a diferença que há num gosto e regalo que
Deus dá numa visão ou num arroubamento, que parece não é
possível poder haver, aqui na terra, mais a desejar e assim a alma
não o deseja nem pediria maior contentamento.

Embora, depois que
o Senhor me deu a entender quão grande é a diferença que há no
Céu entre o que gozam uns e o que gozam outros, bem vejo que
também cá em baixo não há medida no dar, quando o Senhor é
servido; e assim não quereria que a houvesse no servir eu a Sua
Majestade e quisera empregar nisto toda a minha vida, forças e
saúde, e não perder por minha culpa, um pouco de mais gozar.

E   assim digo que, se me perguntassem se antes quero ficar na terra
até ao fim dó mundo com todos os trabalhos que nele há, e depois
subir um pouquinho mais alto em glória, ou sem trabalho algum ir já
gozar duma glória um pouco mais baixa, de boa vontade sofreria
todos os trabalhos para gozar um pouquito mais no entender a
grandeza de Deus, pois vejo que, quem mais O entende, mais O ama
e O louva.

3. Não digo que não me contentaria e me teria por muito venturosa
de estar no Céu, mesmo que fosse no último lugar, pois, quem
assim o tinha no inferno, grande misericórdia já nisso me faria o
Senhor, e praza a Sua Majestade eu vá para lá e não olhe a meus
grandes pecados! O que digo é que, embora fosse muito à minha
custa, se pudesse e o Senhor me desse graça para trabalhar muito,
não quereria, por minha culpa, perder nada. Miserável de mim que,
com tantas culpas, tudo tinha perdido!

4. Há-de notar-se que, em cada graça que o Senhor me fazia, de
visão ou revelação, ficava a minha alma com algum grande lucro, e,
em algumas visões, com muitíssimos.

De ver a Cristo ficou impressa em mim Sua grandíssima formosura,
e ainda hoje a tenho; porque, para isto, bastava uma só vez, quanto
mais tantas em que o Senhor me faz esta graça! Daqui fiquei com
um mui grande proveito e foi este: tinha eu uma grandíssima falta de
onde me vieram grandes danos e era esta: em começando a
perceber que uma pessoa me tinha amizade, se me caía em graça,
afeiçoava-me tanto a ela que me prendia de grande modo a memória
pensar nela.

Embora eu não o fizesse com intenção de ofender a
Deus, gostava de a ver e de pensar nela e nas boas qualidades que
lhe via. Era isto coisa tão danosa, que me trazia a alma assaz
perdida. Depois que vi a grande formosura do Senhor, a ninguém via
que, em Sua comparação, me parecesse bem ou me ocupasse a
memória.

Só com o volver um pouco os olhos da consideração à
imagem que tenho na minha alma, fiquei, desde então para cá, com
tanta liberdade que, tudo o que vejo, parece que me faz asco em
comparação das excelências e graças que eu via neste Senhor. Nem
há saber nem regalo algum que eu estime em comparação do que é
ouvir uma só palavra que seja, dita por aquela divina boca, quanto
mais ouvindo tantas! E tenho por impossível, se o Senhor por meus
pecados não permite que se me tire esta lembrança, poder-me
alguém ocupar o pensamento de forma a que, por pouco que eu me
recorde deste Senhor, não fique livre.

5. Aconteceu-me com algum confessor mostrar agrado (pois, como
os tenho em lugar de Deus tão de verdade), sentia segurança. E
parece-me que é onde a minha amizade mais se emprega, pois
sempre quero muito aos que governam minha alma. Eles, como
temerosos e servos de Deus, temiam não me apegasse eu de algum
modo e me prendesse em lhes querer, embora santamente, e
mostravam-me desagrado.

Isto foi depois de eu estar tão sujeita a
obedecer-lhes, porque antes não lhes ganhava essa amizade. Eu ria-me
comigo mesma ao ver quão enganados estavam, embora nem de
todas as vezes lhes dizia tão claramente como o sentia em mim, o
pouco que me prendia a alguém. Mas sossegava-os e, tratando mais
comigo, conheciam o que eu devia ao Senhor; aliás estas suspeitas
que tinham de mim eram sempre ao princípio.
Em vendo o Senhor, começou em mim um amor muito maior para
com Ele e uma confiança como de quem tão de contínuo Lhe falava.
Via que, embora fosse Deus, era Homem, que não se admira das
fraquezas dos homens, que compreende a nossa miserável natureza
sujeita a muitas quedas por causa do primeiro pecado que Ele viera
reparar.

Posso tratá-Lo como a um amigo, embora seja Senhor. Vejo
que não é como os que, cá na terra, temos por senhores, os quais
põem todo o seu senhorio em autoridades postiças. Tem de haver
horas para lhes falar e determinadas pessoas que lhes falem. Se é
algum pobrezito que tem com eles algum negócio, mais rodeios,
favores e trabalhos lhe há-de custar o tratá-lo. Oh! então se é com o
Rei!

Aqui não há tocar gente pobre e que não seja cavalheiresca,
não há senão que perguntar quem são os mais privados, que
certamente não serão pessoas que tenham o mundo debaixo dos
pés. Esses falam verdades, não temem nem devem; não são feitos
para palácio. Ali não se deve usar disto, mas sim calar o que mal
lhes parecer, porque ainda a pensá-lo não se atrevem, para não
serem desfavorecidos.

6. Ó Rei da glória e Senhor de todos os reis! O Vosso reino não é
armado de palitos, pois não tem fim! Não são necessários terceiros
para chegar até Vós! Basta divisar ao longe Vossa pessoa para logo
se conhecer que só Vós mereceis que Vos chamem Senhor, pela
majestade que mostrais. Não há necessidade de gente de
acompanhamento, nem de guarda, para que conheçam que sois Rei.
Cá na terra, um Rei mal se conhecerá só por si, porque, embora ele
queira ser reconhecido por tal, não o acreditarão; não tem mais do
que os outros. É mister que se veja por que o hão-de acreditar, e
assim é de razão que tenha estas autoridades postiças, porque, se
não as tivesse, tê-lo-iam em nada. É que não lhe vem dele o parecer
poderoso: de outrem lhe há-de vir a autoridade.

Ó Senhor meu! Ó meu Rei! Quem soubera representar agora a
Majestade que tendes! É impossível deixar de ver que, por Vós
mesmo, sois grande Imperador. Espanta ver esta majestade; mas
mais espanta, Senhor meu, o ver com ela a Vossa humildade e o
amor que mostrais a uma como eu. Em tudo podemos tratar e falar
conVosco como quisermos, uma vez perdido o primeiro espanto e
temor de ver a Vossa majestade, ficando-nos maior, no entanto, para
não Vos ofender; não, porém, por medo do castigo, Senhor meu,
porque deste nenhum caso se faz em comparação de não Vos
perder a Vós!

7. Ei-los aqui os proveitos desta visão, sem falar de outros grandes
que deixam na alma. Se a mercê é de Deus, conhece-se pelos
efeitos, quando a alma tem luz; porque, como já o tenho dito, por
vezes o Senhor quer que esteja em trevas e que não veja esta luz, e
assim não é muito que tema a que se vê tão ruim como eu. Ainda há
pouco me aconteceu estar oito dias que parecia não havia em mim,
nem podia haver, conhecimento do que devo a Deus, nem lembrança
das mercês.

Tinha a alma tão insensível e posta nem sei em quê,
nem como, não com maus pensamentos, mas para os bons estava
tão inábil, que me ria de mim e gostava de ver a baixeza de uma alma
quando não anda Deus sempre operando nela. Bem vê a alma que
não está sem Ele neste estado, pois não é como nos grandes
trabalhos que tenho algumas vezes, como já disse; mas, embora ela
ponha lenha e faça esse pouco que pode de sua parte, não
consegue atear o fogo do amor de Deus. Já grande misericórdia é a
Sua, que se veja o fumo para entender não estar de todo apagado.
Só o Senhor o torna a acender, porque então, ainda que uma alma se
esfalfe a soprar e a dispor a lenha, parece que tudo o abafa mais.
Creio que o melhor é render-se de todo a que não pode nada só por
si e ocupar-se em outras coisas meritórias, como tenho dito. É que
talvez o Senhor lhe tire a oração para que se ocupe nelas e conheça,
por experiência, o pouco que pode por si.

8. Certo é que hoje me consolei com o Senhor e me atrevi a queixar-me
de Sua Majestade e Lhe disse: Como, Deus meu, não basta que
me tenhais nesta miserável vida, e que, por amor de Vós, eu passe
por isto, e queira viver onde tudo são embaraços para Vos gozar; e
ter de comer e dormir e negociar e tratar com todos; e tudo padeço
por amor de Vós; pois bem sabeis, Senhor meu, que isto me é
tormento grandíssimo e que, nos tão pouquitos instantes como me
ficam para gozar de Vós, Vos escondais de mim? Como se
compadece isto com a Vossa misericórdia? Como o pode sofrer o
amor que me tendes?

Creio, Senhor, que, se me fora possível
esconder-me eu de Vós como Vos escondeis de mim, não o
sofreríeis, segundo o amor que eu penso e creio que me tendes. Mas
Vós estais comigo e sempre me vedes. Não se sofre pois isto,
Senhor meu; suplico-Vos que vejais que se faz agravo a quem tanto
Vos ama.

9. Isto e outras coisas acontece-me dizer, conhecendo primeiro, no
entanto, como era suave o lugar que me estava preparado no inferno
para o que merecia. Mas algumas vezes desatina tanto o amor, que
não me sinto, senão que, em todo o meu juízo, faço estas queixas e
tudo me sofre o Senhor.

Louvado seja tão grande Rei! Achegar-mo-nos
aos da terra com estes atrevimentos!... Ainda ao rei, já não me
maravilho de que não se ouse falar, que é de razão que se tema e
aos senhores que representam ser cabeças; mas já está o mundo de
modo que teriam de ser mais longas as vidas para aprender os
pontinhos e novidades e maneiras que hoje há de educação, se é
que se há-de gastar alguma parte dela em servir a Deus. Eu me
benzo de ver o que se passa." O caso é que eu já não sabia como
viver quando aqui me meti; porque não se toma por engano quando
há descuido em não tratar as pessoas por muito mais do que
merecem, senão que tão deveras o tomam por afronta, que é
necessário dar satisfações da intenção, se houve, como digo,
descuido; e praza ainda a Deus o acreditem.

10. Torno a dizer que, certamente, eu não sabia como viver, porque
se vê aflita uma pobre alma. Vê que a mandam que ocupe sempre o
pensamento em Deus e que é necessário trazê-lo n'Ele para se livrar
de muitos perigos. Por outro lado, vê que cumpre não perder ponto
em pontos do mundo, sob pena de dar ocasião a que se tentem os
que têm posta a sua honra nestes pontos. Trazia-me isto fatigada e
nunca acabava de dar satisfações, porque não podia, embora o
tentasse, deixar de cometer muitas faltas nisto, que, como digo, não
se têm no mundo por pequenas. E será verdade que nas Religiões,
que de razão devíamos ser desculpadas, nestes casos, há desculpa?

Não, pois dizem que os mosteiros hão-de ser corte de boa educação
e que têm de a saber. Eu, certo é, não posso entender isto. Tenho
pensado se algum santo disse que haviam de ser corte para ensinar
aos que quisessem ser cortesãos do Céu e o entenderam ao revés.
Pois quem, em boa razão, há-de ter contínuo cuidado de contentar a
Deus e aborrecer o mundo, não sei como o possa ter tão grande em
agradar aos que vivem nele, em coisas que tantas vezes mudam.
Ainda se se pudesse aprender de uma vez, passara; mas até para
títulos de cartas é já preciso que haja cátedra onde se ensine como
se há-de fazer, por assim dizer; porque ora se deixa papel dum lado,
ora do outro, e a quem não se costumava dar por magnífico, se há de
dar por ilustre.

11. Eu não sei onde isto irá parar, porque ainda não tenho cinquenta
anos e, nos que vivi, tenho visto tantas mudanças, que já não sei
viver. Os que agora nascem e viverem muito, que hão-de eles, pois,
fazer? Por certo que tenho lástima de gente espiritual que está
obrigada a viver no mundo por alguns santos fins, pois é terrível
cruz a que nisto levam. Se todos pudessem combinar fazer-se
ignorantes e querer que os tivessem por tais nestas ciências, de
muito trabalho se livrariam.

12. Mas, em que tolices me tenho metido! Para tratar das grandezas
de Deus, meti-me a falar das baixezas do mundo. Pois o Senhor me
fez mercê de o ter deixado, quero já sair dele; lá se avenham os que
com tanto trabalho sustentam estas ninharias. Praza a Deus que, na
outra vida que é sem mudanças, não as paguemos. Amém.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Era-me grande gozo ver que Sua Majestade se servira de mim, como instrumento duma tão grande obra sendo eu tão ruim. Estive assim com tão grande contentamento, que estava como fora de mim, em elevada oração.



LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA

CAPÍTULO 36. Prossegue no tema começado e diz como se
acabou de concluir e se fundou este mosteiro de S. José e as
grandes contradições e perseguições que houve, depois de
tomarem hábito as religiosas. Conta os grandes trabalhos e
tentações que ela passou e como de tudo a tirou o Senhor
com vitória e em glória e louvor Seu.

1. Tendo já partido daquela cidade, vinha eu muito contente pelo
caminho, determinando-me a passar tudo o que o Senhor fosse
servido, com toda a minha boa vontade.

Na mesma noite em que cheguei a esta terra, chega o nosso
despacho para o mosteiro e Breve de Roma. Eu me espantei e se
espantaram todos os que sabiam a pressa que o Senhor me tinha
dado para a vinda, quando souberam a grande necessidade que
havia disso e em que conjuntura o Senhor me trazia. É que encontrei
aqui o Bispo e o santo frei Pedro de Alcântara e o outro cavaleiro
muito servo de Deus, em cuja casa este santo homem fazia pousada,
pois era pessoa em quem os servos de Deus achavam proteção e
acolhimento.

2. Os dois levaram a cabo o conseguir que o Bispo aceitasse o
mosteiro, o que não foi pouco trabalho, por ser pobre. Era, porém,
tão amigo de pessoas que assim via determinadas a servir ao
Senhor, que logo se afeiçoou a favorecê-lo. O aprová-lo este santo
velho e empenhar-se muito com uns e com outros para que nos
ajudassem, foi o que fez tudo ao caso. Se eu não tivesse vindo nesta
conjuntura - como já disse -, não sei com se teria podido fazer. Pois
este santo homem esteve aqui pouco, creio que não foram oito dias,
e muito enfermo e daí a pouco o levou o Senhor consigo. Parece que
Sua Majestade o tinha guardado até acabar este negócio, pois já
havia muito - não sei se mais de dois anos - que andava muito
doente.

3. Tudo se fez debaixo de grande segredo, porque, a não ser assim,
nada se poderia fazer, pois o povo estava contrário, como depois se
viu. Ordenou o Senhor que adoecesse um cunhado meu, sem cá
estar sua mulher e, em tanta necessidade, deram-me licença para o
ir tratar. Assim com este motivo, de nada se desconfiou, embora
nalgumas pessoas não se deixasse de suspeitar qualquer coisa.
Contudo não o acreditavam. Foi coisa de espantar, pois meu
cunhado não esteve doente além do tempo necessário para concluir
o negócio; e quando foi preciso que tivesse saúde para eu me
desocupar e ele deixar desocupada a casa, logo o Senhor lha tornou
a dar, do que ele estava maravilhado.

4. Passei muito trabalho a instar com uns e com outros que se
admitisse a fundação; e com o enfermo, e com os oficiais para que
se acabasse a casa a toda a pressa, e tivesse ar de convento, pois
faltava muito para se acabar. E a minha companheira não estava
aqui, pois pareceu-nos que era melhor ausentar-se para mais
dissimular. E eu via que tudo dependia da brevidade, e isto por
muitos motivos: um, era porque temia que a toda a hora me
mandassem voltar. Foram tantas as coisas a dar trabalhos que
pensei se seria esta a cruz, conquanto me parecesse que era pouco
para a grande cruz que eu tinha entendido do Senhor que havia de
passar.

5. Pois, estando tudo terminado, foi o Senhor servido que, no dia de
S. Bartolomeu, tomassem hábito algumas. Pôs-se o Santíssimo
Sacramento, e com toda a autoridade e força ficou fundado o nosso
mosteiro do nosso gloriosíssimo Pai S. José, no ano de mil
quinhentos e sessenta e dois. Estive eu a dar-lhes o hábito e outras
duas freiras da nossa mesma casa que acertaram a estar fora do
mosteiro da Encarnação. Como nesta, em que se fez o convento, era
onde estava meu cunhado, que a tinha comprado, como tenho dito,
para melhor dissimular o negócio, eu estava ali com licença. Nem eu
fazia coisa sem ser com o parecer de letrados, para não fugir a um
só ponto da obediência. Estes, como viam isto ser por muitos
motivos muito proveitoso para toda a Ordem, embora eu andasse
com segredo e acautelando-me para que não o soubessem meus
prelados, diziam-me que o podia fazer. Por muito pouca imperfeição
que me dissessem que era, mil mosteiros me parece que deixaria,
quanto mais um. Isto é certo porque, embora desejasse a fundação
para mais me apartar de tudo e guardar minha profissão e
chamamento com mais perfeição e clausura, de tal maneira o
desejava, no entanto, que se entendesse que era mais serviço do
Senhor deixá-lo de todo, tê-lo-ia feito - como o fiz da outra vez - com
todo o sossego e paz.

6. Foi pois para mim como estar em glória, ver colocar o Santíssimo
Sacramento e que se remediaram quatro órfãs pobres (porque não
se recebiam com dote), e grandes servas de Deus. Logo de princípio
foi isto que se pretendeu: que entrassem pessoas que, com seu
exemplo, fossem fundamento em que se pudesse efetuar o intento
que levávamos de muita perfeição e oração. Via, assim, realizada
uma obra que eu tinha entendido que era para serviço do Senhor e
honra do hábito de Sua Gloriosa Mãe, que estas eram as minhas
ânsias.

E também me deu muito consolo o ter feito o que o Senhor tanto me
mandara, e mais outra igreja neste lugar, dedicada a meu Pai, o
glorioso S. José, pois que não havia outra. Não que a mim me
parecesse que nisto tinha feito alguma coisa, que nunca tal me
parecia, nem parece. Sempre entendo que tudo é obra do Senhor; e
o que fazia da minha parte, ia com tantas imperfeições, que antes
vejo haver de que me culpar e não de que me agradecer. Contudo,
era-me grande gozo ver que Sua Majestade se servira de mim, como
instrumento duma tão grande obra sendo eu tão ruim.
Estive assim com tão grande contentamento, que estava como fora
de mim, em elevada oração.

7. Acabado tudo, seria depois de umas três ou quatro horas,
suscitou em mim o demônio uma batalha espiritual, como agora
direi. Pôs-se-me diante se teria sido mal feito o que fora feito; se ia
contra a obediência em o ter procurado fazer sem que mo mandasse
o Provincial, (que bem me parecia a mim que lhe havia de dar algum
desgosto por causa de sujeitar a casa ao Ordinário sem lho dizer
primeiro; ainda que, por outra parte, também me parecesse que a ele
nada se lhe daria, visto não ter querido admitir a fundação e eu,
quanto a mim, não mudava a obediência). E pensava ainda se
ficariam contentes as que estavam aqui em tanta austeridade, se
lhes viria a faltar de comer, se havia sido disparate, quem é que me
metia nisto, pois eu tinha mosteiro.

Tudo o que o Senhor me tinha mandado e os muitos pareceres e
orações, que havia mais de dois anos que quase não cessavam,
tudo estava tão apagado da minha memória como se nada disto
tivesse havido. Só me recordava do meu parecer e todas as virtudes
e a fé estavam então em mim suspensas, sem ter eu força para que
nenhuma operasse nem me defendesse de tantos golpes.

8. Também me sugeria o demônio como é que eu me queria
encerrarem casa tão acanhada e com tantas enfermidades; como é
que eu poderia sofrer tanta penitência; que deixava uma casa tão
grande e deleitosa e onde tão contente tinha sempre estado e tinha
tantas amigas; que talvez as de cá não fossem a meu gosto; que me
tinha obrigado a muito; que talvez ficasse desesperada e,
porventura, era isto que tinha pretendido o demônio: tirar-me a paz e
quietude e assim não poderia ter oração estando desassossegada, e
perderia a alma.

Coisas desta feitura ele punha todas juntas diante de mim, que não
estava na minha mão pensarem outra coisa; e com isto uma aflição e
escuridão e trevas na alma, que eu não o sei encarecer. Logo que
assim me vi, fui-me para diante do Santíssimo Sacramento, mas nem
podia encomendar-me a Ele. Parece-me que estava com uma
angústia como quem está em agonia de morte. Tratar disto com
alguém, não havia como, porque nem ainda confessor havia
designado.

9. Oh! valha-me Deus, que vida esta tão miserável! Não há prazer
seguro nem coisa sem mudança. Havia tão pouquinho que não
trocara, me parece, meu contentamento com nenhum da terra e a
mesma causa dele me atormentava agora de, tal sorte, que não sabia
que fazer de mim. Oh! se olhássemos com advertência as coisas da
nossa vida! cada qual veria, por experiência, no pouco em que se
hão-de ter os gostos ou desgostos dela.

Certo é que me parece ter sido um dos bocados difíceis que passei
na minha vida. Parecia adivinhar o espírito o muito que tinha ainda
para passar, embora nada chegasse a ser tanto como este, sé isto
durara. Mas o Senhor não deixou padecer muito a sua pobre serva;
porque nunca nas tribulações deixou de me socorrer e assim foi
nesta. Deu-me um pouco de luz para ver que era demônio e para que
eu pudesse entender a verdade e que tudo era querer-me espantar
com suas mentiras. Comecei a recordar-me das minhas grandes
determinações de servir o Senhor e desejos de padecer por Ele; e
pensei que, se os havia de cumprir, não havia de andar a procurar
descanso. Se tivesse trabalhos, este era o merecer; e se
descontento, como o tomasse para servir a Deus, me serviria de
purgatório. Porque temia, pois? se desejava trabalhos, bons eram
estes. Na maior contradição estava o ganho; por que razão me havia
de faltar o ânimo para servir a Quem tanto devia?

Com estas e outras considerações, fazendo-me grande força a mim
mesma, prometi, diante do Santíssimo Sacramento, fazer tudo o que
pudesse para alcançar licença para vir para esta casa e prometer
clausura podendo-o fazer em boa consciência.

10. Em fazendo isto, num instante fugiu o demônio e deixou-me
sossegada e contente e fiquei-o e o tenho estado sempre. Tudo
quanto se guarda nesta casa de clausura e penitência e o demais,
torna-se para mim em extremo suave e pouco. O gozo é tão
extremamente grande, que eu penso algumas vezes o que poderia
escolher na terra que fosse mais saboroso. Não sei se isto concorre
para eu ter muita mais saúde do que nunca, ou querer o Senhor - por
ser necessário e de razão que faça como todas - dar-me este
consolo de que o possa fazer, embora com trabalho. Mas, de eu o
poder, se espantam todas as pessoas que conhecem minhas
enfermidades. Bendito seja Ele que tudo dá e, por cujo poder, tudo
se pode.

11. Fiquei bem cansada de tal contenda e rindo-me do demônio, pois
bem via ser ele. Creio que o Senhor o permitiu, porque eu nunca
soubera antes que coisa era descontentamento de ser freira, nem
sequer por um momento, em vinte e oito anos e mais que o sou,
para que entendesse a grande graça que nisto me fizera e do grande
tormento de que me tinha livrado, e também para que, se eu visse
que alguma o estava, não me espantasse, mas sim me apiedasse
dela e a soubesse consolar.

Pois, passado isto, queria depois de comer descansar um pouco
(porque em toda a noite não tinha quase sossegado nem deixado em
algumas outras de ter trabalho e cuidado e, todos os dias, bem
cansada); mas, ao saber-se no meu mosteiro e na cidade o que
estava feito, levantou-se um grande alvoroço pelas razões que já
disse e nas quais parecia haver alguma cor de verdade.
Logo a prelada me enviou ordem a mandar que, à hora, eu me fosse
para lá. Eu, em vendo seu mandato, deixo minhas freiras muito
penalizadas e logo me vou.

Bem via que se me iam oferecer grandes trabalhos; mas como já
ficava feita a fundação, muito pouco se me dava. Fiz oração,
suplicando ao Senhor que me favorecesse, e a meu Pai S. José que
me trouxesse à sua casa. Ofereci-lhe o que ia passar e, muito
contente de que se me oferecesse algo em que eu padecesse por Ele
e O pudesse servir, fui-me, tendo por certo que logo me haviam de
meter no cárcere. Mas isto, a meu parecer, dar-me-ia muito prazer
por não falar com ninguém e descansar um pouco em solidão, do
que estava bem necessitada, porque andava moída de tanto tratar
com gente.

12. Como cheguei e dei minhas razões à Prelada, aplacou-se um
tanto. Tudo quanto expus enviaram ao Provincial e ficou a causa
para ser julgada diante dele. E vindo ele, fui chamada a juízo com
bem grande contentamento por ver que padecia alguma coisa pelo
Senhor, pois nem contra Sua Majestade nem contra a Ordem achava
eu ter desobedecido em nada neste caso. Antes procurava
engrandecê-la com todas as minhas forças e morreria de boa
vontade para isso, pois todo o meu desejo era que se cumprisse a
Regra com toda a perfeição. Lembrei-me do julgamento de Cristo e
vi como era nada aquele meu. Disse minha culpa, como se fora
muito culpada e assim o parecia a quem não sabia todas as causas.

Depois de me ter dado uma forte repreensão, embora não fosse com
tanto rigor, como merecia o delito e o que muitos diziam ao
Provincial, eu não me. quis desculpar, pois ia determinada a isso,
mas antes pedi me perdoasse e castigasse e não ficasse zangado
comigo.

13. Em algumas coisas bem via eu me condenavam sem culpa,
porque diziam que o tinha feito para ser tida por alguém e ter
nomeada e outras coisas semelhantes. Mas reconhecia claramente
ser verdade o dizerem que eu era pior do que outras e que, não
tendo guardado a muita religião que se praticava naquela casa,
pensava guardá-la noutra com mais rigor, que escandalizava o povo
e pretendia coisas novas... Tudo isto não me causava perturbação
alguma nem pena, embora eu mostrasse tê-la para que não
parecesse que tinha em pouca conta o que me diziam. Enfim,
mandou-me o Provincial que diante das freiras desse minhas razões
e tive que fazê-lo.

14. Como eu estava tranquila cá dentro de mim e o Senhor me
ajudava, dei minhas razões de maneira que o Provincial não
encontrou motivo para me condenar, nem as que ali estavam.
Depois, a sós, falei-lhe mais claro e ele ficou muito satisfeito e
prometeu-me, se fosse por diante a fundação em sossegando a
cidade, dar licença para voltar para lá. É que o alvoroço de toda a
cidade era, de facto, tão grande, como agora direi.

15. Daí a dois ou três dias, juntaram-se alguns dos regedores, o
corregedor e alguns do cabido, e todos juntos disseram, que de
nenhum modo, se podia consentir, pois que daí vinha evidente dano
ao bem público, e que haviam de tirar o Santíssimo Sacramento, e
de nenhum modo consentiriam que fosse por diante. Convocaram
todas as Ordens para que, de cada uma delas, dessem o seu parecer
dois letrados. Uns calavam, outros condenavam. Por fim, concluíram
que se desfizesse desde logo. Só um Presentado da Ordem de São
Domingos, embora fosse contrário - não do mosteiro, senão de que
fosse pobre -, disse que não era coisa que, sem mais, assim se
desfizesse, que se visse bem, que havia tempo para isso, que este
caso era com o Bispo, ou coisas deste teor, que foram de grande
proveito.

É que, segundo a fúria com que estavam, sorte foi não o
porem logo por obra. Enfim, foi o que tinha de ser; pois o Senhor era
com isso servido e pouco podiam todos contra a Sua vontade. Eles
alegavam suas razões e eram movidos por bom zelo, e assim, sem
ofender a Deus, faziam-me padecer a mim e a todas as pessoas que
favoreciam a fundação. Estas, que eram algumas, passaram muita
perseguição.

16. Era tanto o alvoroço do povo, que não se falava doutra coisa, e
todos a condenar-me e a ir fazer queixa ao Provincial e ao meu
mosteiro. Eu nenhuma pena tinha de quanto diziam de mim, pois
disso não se me dava mais, que se não o dissessem; mas sim temia
que se desfizesse a fundação. Isto é que me dava grande pena e ver
que perdiam crédito e passavam muito trabalho as pessoas que me
ajudavam, pois, do que diziam de mim, antes me parece que me
alegrava. E se eu tivera tido bastante fé, nenhuma alteração sentia,
mas o faltar alguma coisa numa virtude, basta para as fazer
adormecer a todas; e assim passeiem muita angústia os dois dias
em que houve na cidade estas juntas de que falei, no povo. Estando
eu bem aflita, me disse o Senhor: Não sabes que sou poderoso? que
temes? E assegurou-me que não se desfaria. Com isto fiquei muito
consolada.

Eles enviaram ao Conselho Real com a sua informação; de lá veio
provisão para que se desse relação de como se havia feito.

17. Eis aqui começado um grande pleito; porque os da cidade foram
à Corte e houve que ir da parte do mosteiro e não havia dinheiro
nem eu sabia que fazer. Remediou-o o Senhor, pois nunca o meu
Padre Provincial ordenou que eu deixasse de tratar disto, porque é
tão amigo de toda a virtude que, embora não ajudasse, não queria
ser contra. Não me concedeu, no entanto, licença de vir para cá, até
ver em que paravam as coisas. Estas servas de Deus estavam sós e
faziam mais com suas orações do que eu com quanto andava
negociando, ainda que fossem precisas muitas diligências.

Algumas vezes parecia que tudo falhava, em especial um dia, antes
que o Provincial chegasse, em que a Prioresa me mandou que não
tratasse de nada, o que era deixar-se tudo ao desamparo. Voltei-me
para Deus e disse-Lhe: - Senhor, esta casa não é minha, para Vós se
fez; agora que não há ninguém que cuide disto, faça-o Vossa
Majestade. Fiquei assim tão descansada e tão sem pena, como se
tivera o mundo todo a trabalhar por mim, e logo dei o negócio por
assegurado.

18. Um sacerdote muito servo de Deus e amigo de toda a perfeição,
que sempre me tinha ajudado, foi à Corte a cuidar do negócio e
trabalhava muito; o cavalheiro santo - de quem tenho feito menção -,
também, neste caso, fazia muito e por todos os modos o favorecia.
Passou não poucos trabalhos e perseguição e sempre e em tudo, eu
achei nele um pai e como tal ainda agora o tenho. E o Senhor incutia
tanto fervor naqueles que nos ajudavam, que cada um tomava o
caso tão como coisa própria, que parecia lhes ia nisso a vida e a
honra, e não lhes tocava senão o julgarem ser coisa em que se
servia o Senhor.

Um dos que também muito me auxiliava era o
Mestre clérigo, de quem tenho falado. E viu-se claramente que nisto
o ajudava Sua Majestade. Pois, tendo-o o Bispo enviado em seu
nome a uma junta grande que então se realizou, ele, só contra todos,
os aplacou por fim, dando-lhes certas razões. Isto foi muito,
porquanto os entreteve, embora não bastasse para que não
voltassem logo a dar a vida, como se costuma dizer, em desfazer o
convento. Este servo de Deus, foi quem deu hábito às noviças e
colocou o Santíssimo Sacramento e, por isto, viu-se alvo de forte
perseguição. Durou esta bateria quase meio ano, e dizer por miúdo
os grandes trabalhos que se passaram, seria longo.

19. Espantava-me eu do que o demônio se empenhava contra umas
mulherzinhas e de como parecia a todos - digo, aos que contradiziam -
que pudessem .causar grande dano ao lugar só doze mulheres e a
prioresa, que não hão-de ser mais, e de vida tão austera. Pois ainda
mesmo que fora dano e erro, seria para elas próprias; mas dano para
o lugar não parece levava caminho, e eles achavam tantos que, em
boa consciência, o contradiziam. Vieram, por fim a dizer, que, se o
convento tivesse renda, passariam por isso e consentiriam que
fosse por diante.

Eu estava já tão cansada de ver o trabalho de todos
os que me ajudavam, mais de que do meu, que já me parecia não ser
mau o admitir ter renda, enquanto não se sossegassem os ânimos, e
deixá-la depois. E outras vezes, como ruim e imperfeita, parecia-me
que, porventura, assim o quereria o Senhor, pois, sem ela, não
podíamos sair com nosso intento e já eu estava em aceder a este
acordo.

20. Estando eu em oração, na noite anterior ao dia em que se ia
tratar disto e tendo já começado o acordo, disse-me o Senhor - entre
outras coisas - que não fizesse tal, porque, se começássemos a ter
renda, não consentiriam depois que a deixássemos. Na mesma .
noite apareceu-me, o santo Frei Pedro de Alcântara, que já tinha
morrido.

Antes de morrer, ao saber da grande contradição e
perseguição que tínhamos, escreveu-me a dizer que se alegrava de
que a fundação fosse com tão grande contradição. Era sinal de que
se havia de servir muito o Senhor neste mosteiro, pois que o
demônio tanto se empenhava em que não se fizesse, e que de
nenhum modo viéssemos a ter renda. Mais duas ou três vezes me
persuadia ainda disto na carta, dizendo que, se isto se fizesse, tudo
se viria a fazer como eu queria. Já eu o tinha visto outras duas vezes
depois de morto e a grande glória que usufruía, e assim não me fez
temor, antes me alegrei muito. E sempre me aparecia como corpo
glorificado, cheio de muita glória e dava-me também grandíssima ao
vê-lo.

Recordo-me que, da primeira vez que o vi, falando-me do
muito que gozava, me disse, entre outras coisas: ditosa penitência
tinha sido a que fizera, pois tão grande prêmio lhe alcançara.

21. E, porque julgo já ter dito alguma coisa sobre isto, não digo aqui
mais, senão que desta vez me mostrou rigor, e só me disse que, de
nenhum modo, aceitasse renda. Por que não queria eu tomar seu
conselho? E logo desapareceu.

Eu fiquei espantada e logo, no outro dia, disse ao cavalheiro - a
quem eu em tudo acudia como sendo o que mais trabalhava para
isto -, o que se passava, e que não se combinasse de nenhum modo
ter renda, senão que fosse por diante o pleito. Ele, que estava neste
ponto muito mais firme do que eu, folgou muito; depois disse-me de
quão má vontade tratara do acordo.

22. Depois voltou a levantar-se outra pessoa, grande serva de Deus
e com bom zelo; já que o caso estava em bons termos, dizia, que se
pusesse em mãos de letrados. Aqui tive fartos desassossegos,
porque, alguns dos que me ajudavam, eram do mesmo parecer. E de
quantas maranhas o demônio fez, foi esta a de pior digestão. Mas
em tudo me ajudou o Senhor. Dito, assim em suma, não se pode dar
bem a entender o que se passou nesses dois anos, desde que se
começou esta casa, até se terminar. Este último passo e o primeiro
foram, no entanto, os mais trabalhosos.

23. Aplacada, pois; já algum tanto a cidade, usou de grande destreza
o Padre Dominicano que nos ajudava, ainda mesmo não estando
presente. Trouxera-o o Senhor em tempo que nos fez grande bem e
parece só o ter trazido Sua Majestade para este fim, pois, segundo
ele me disse, não tinha tido motivo para vir; só por acaso soubera o
que se passava. Esteve aqui o tempo que foi preciso. Tornando-se a
ir, procurou por várias vias alcançar licença do Nosso Padre
Provincial para eu voltar a esta casa e trouxesse mais algumas
comigo. Parecia quase impossível obter dele isto tão depressa, a fim
de fazer o ofício e ensinar às que estavam. Foi grandíssimo consolo
para mim o dia em que viemos.

24. Estando eu, antes de entrar no Mosteiro, a fazer oração na Igreja
e quase em arroubamento, vi Cristo; pareceu-me que me recebia
com grande amor e me punha uma coroa, agradecendo-me o que
fizera por Sua Mãe.

Outra vez, estando todas no coro em oração depois de Completas, vi
Nossa Senhora, com grandíssima glória, revestida dum manto
branco e, debaixo dele, parecia amparar-nos a todas. Entendi quão
alto grau de glória daria o Senhor às desta casa.

25. Principiando-se a rezar o Ofício, era muita a devoção que o povo
começou a ter para com esta casa. Receberam-se mais freiras e
começou o Senhor a mover os que mais nos tinham perseguido,
para que muito nos favorecessem e dessem esmola. Aprovavam
assim o que tanto tinham reprovado e, pouco a pouco, deixaram-se
do pleito e diziam que já viam ser obra de Deus, pois, apesar de
tanta contradição, tinha Sua Majestade querido que fosse por diante.

E não há presentemente ninguém, a quem lhe pareça ter sido
acertado deixar de se fazer, e assim têm tanto cuidado em nos
prover de esmolas que, sem esmolar, nem pedir nada a ninguém, o
Senhor os desperta para que no-la enviem e passamos sem que nos
falte o necessário. E espero no Senhor que será sempre assim; pois,
como são poucas, se fazem o que devem, como agora Sua
Majestade lhes dá graça para o fazer, segura estou que não lhes
faltará, nem terão necessidade de se tornar pesadas, nem de
importunar ninguém, porquanto o Senhor terá cuidado delas como
até aqui.

26. É para mim grandíssimo consolo ver-me aqui metida com almas
tão desprendidas. O seu cuidado é procurar saber como adiantar no
serviço de Deus. A soledade é sua consolação e pensar em ver
alguém que não seja para ajudá-las a encender-se mais no amor a
seu Esposo, é para elas trabalho, ainda que sejam muito parentes. E
assim ninguém vem a esta casa, senão quem trata disto. É que nem
as contenta, nem se contenta. A sua linguagem não é outra senão
falar de Deus e assim não entendem nem as entende senão quem
fala o mesmo.

Guardamos a Regra de Nossa Senhora do Carmo e vivida esta sem
mitigação, senão como a ordenou Frei Hugo, Cardeal de Santa
Sabina, é que foi dada em 1248, no ano V de Pontificado do Papa
Inocêncio IV.

27. Parece-me que serão bem empregados todos os trabalhos que
se passaram. Agora, ainda que haja algum rigor, porque não se
come jamais carne, a não ser por necessidade, jejum de oito meses
e outras coisas como se vê na mesma Regra Primitiva, em muitas
coisas isto ainda parece pouco às irmãs e guardam outras que nos
pareceram necessárias para cumprir a Regra com maior perfeição.
Espero no Senhor que há-de ir muito adiante com o começado,
como Sua Majestade me tem dito.

28. A outra casa, que a devota de quem falei procurava fazer,
também a favoreceu o Senhor. É em Alcalá, e não lhe faltou
contradição à farta, nem deixou de passar grandes trabalhos. Sei
que se guarda nela perfeita observância, conforme a esta nossa
primitiva Regra. Praza ao Senhor que seja tudo para glória e louvor
Seu e da gloriosa Virgem Maria, cujo Hábito trazemos. Amém.

29. Creio que se enfadará V. Mercê com a larga relação que dei deste
mosteiro e ainda vai muito curta para os muitos trabalhos e as
maravilhas que o Senhor aqui tem realizado. De tudo isto há muitas
testemunhas que o poderiam jurar; assim peço a V. Mercê que, se
lhe parecer bem rasgar o mais que aqui vai escrito, o que toca a este
mosteiro guarde-o por amor de Deus, para depois da minha morte o
entregar às irmãs que aqui estiverem. Animará muito-às que vierem
a servir a Deus e a procurar que, não decaia o começado, mas sim
vá sempre avante, quando virem o muito que Sua Majestade aqui
fez, fazendo-o por, meio de coisa tão ruim e baixa, como eu.

E, pois Sua Majestade tão particularmente Se quis mostrar, dando o
Seu favor para que assim se fizesse, parece-me a mim que fará
muito mal e será muito castigada por Deus quem começar a relaxar
a perfeição que o Senhor aqui estabeleceu desde o começo e tem
favorecido, para que se leve com tanta suavidade, pois se vê muito
bem que é tolerável e que se pode observar com sossego e o grande
auxílio que é para poderem aqui viver sempre aquelas que, a sós,
quiserem gozar do seu Esposo Cristo; porquanto é isto o que
sempre devem pretender: viver a sós com Ele só; e não sejam mais
de treze.

Por muitos pareceres tenho sabido que isto é o que
convém, e tenho visto por experiência que, para se viver com o
espírito com que aqui se vive e só de esmolas e sem andar a pedir,
não se sofre que sejam mais. E nisto creiam sempre mais a quem,
com muitos trabalhos e com orações de muitas pessoas, procurou o
que seria melhor. E no grande contentamento e alegria e pouco
trabalho que nestes anos e desde que estamos nesta casa, vemos
terem todas, e com muita mais saúde do que costumavam ter, se
verá ser isto o que convém. E a quem lhe parecer áspero, deite a
culpa à sua falta de espírito e. não ao que se guarda aqui; pois que,
pessoas delicadas e não saudáveis, porque têm esse espírito, o
podem fazer com tanta suavidade, e vão-se a outro convento, onde
se, salvarão conforme ao seu espírito.