Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Aqui está a minha vida, aqui está minha honra e minha vontade; tudo Vos dei; sou Vossa, disponde de mim conforme Vos agradar.


LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

CAPÍTULO 21. Prossegue e acaba este último grau de oração. Diz o que a alma sente por continuar a viver no mundo; e como o Senhor a esclarece dos enganos deste mesmo mundo. Tem boa doutrina.

1. Pois acabando o que ia dizendo, digo que Deus não tem aqui necessidade do consentimento da alma; já Lho deu e sabe que voluntariamente se entregou em Suas mãos e que não O pode enganar, porque é sabedor de tudo. Não é como aqui, que toda a vida está cheia de enganos e falsidades. Quando pensais que tendes conquistado um coração, segundo se vos mostra, vindes a descobrir que tudo é mentira. Não há quem viva em tanto desassossego, em especial se mete de no meio um pouco de interesse.

Bem-aventurada a alma que o Senhor traz a entender verdades? Oh! que estado este para os reis! Como lhes valeria muito mais procurá-lo, que grande senhorio! Que retidão não haveria no reino! Quantos males não se escusariam e teriam evitado! Aqui não só teme perder vida nem honra por amor de Deus. Que grande bem este para quem está  mais obrigado a olhar à honra do Senhor de que à de todos os inferiores, pois hão de ser os reis a quem se segue! Por um ponto de aumento na fé e por se ter dado em algumas coisas luz aos hereges, perderia mil reinos e com razão. É outro ganho: o de um reino que não se acaba. Com uma só gota que uma alma prove da água que nele há, lhe causa asco tudo o que é de cá. Pois, quando estiver de todo engolfada, que será?

2. Oh, Senhor! Se me desseis ocasião para dizer isto em altas vozes!
Não me acreditariam, como fazem a muitos que o sabem dizer de outro modo do que eu; mas, ao menos, sentir-me-ia satisfeita. Teria em pouco a vida para dar a entender uma só verdade destas, julgo eu. Depois não sei o que faria, que não há que confiar de mim. Sendo eu, porém, a que sou, dão-me tão grandes ímpetos de dizer isto aos que governam, que me desfazem. E, por não poder mais, volto-me para Vós, Senhor meu, a pedir-Vos remédio para tudo. E bem sabeis Vós que muito de boa vontade me despojaria das graças que me tendes feito, contanto que ficasse em estado de Vos não ofender, e as daria aos reis; porque sei que seria impossível consentirem eles coisas que agora se consentem, nem deixar de haver grandes bens.

3. Oh! Deus meu! Dai-lhes a entender aquilo a que estão obrigados, pois Vós os quisestes assinalar na terra de modo que até tenho ouvido dizer que há sinais no céu quando levais algum deles.

Quando penso nisto, certo é, Rei meu, fazer-me devoção o Vós
quererdes que, até nisto, eles entendam que Vos devem imitar em vida, pois que, de algum modo, à sua morte, há sinal no céu como quando Vós morrestes.

4. A muito me atrevo. Rasgue isto V. Mercê, se lhe parecer este mal e creia que lho diria melhor em presença, se pudesse ou pensasse que me haviam de acreditar, porque os encomendo muito a Deus e quereria fosse com proveito. Tudo isto faz aventurar a vida, que desejo muitas vezes perder; era aventurar-me a ganhar muito por pouco preço. Porque não há já quem viva, vendo a olhos vistos o grande engano em que andamos e a cegueira que trazemos.

5. Chegada uma alma aqui, não são só desejos o que ela tem por Deus; Sua Majestade dá-lhe forças para os pôr por obra. Nenhuma coisa se lhe põe diante, em que pense podê-Lo servir, a que não se abalance, e não faz nada, porque - como digo - vê claramente que tudo é nada, a não ser contentar a Deus. 

Trabalho é o não ter coisa que se ofereça às que são de tão pouco préstimo, como eu.
Sede Vós, meu Deus, servido que venha tempo em que eu possa pagar alguma coisa do muito que Vos devo. Ordenai Vós, Senhor, como Vos aprouver, que esta Vossa serva Vos sirva em alguma coisa. Mulheres eram outras e fizeram coisas heroicas por amor de Vós; eu não sirvo senão para tagarelar e assim não quereis, Deus meu, meter-me em obras. Tudo quanto hei-de servir vai-se em palavras e desejos e, ainda para isto, não tenho liberdade, porque, se porventura a tivesse, faltaria em tudo. 

Fortalecei Vós a minha alma e disponde-a primeiro, Bem de todos os bens e Jesus meu, e ordenai logo modo e meios com que faça alguma coisa por Vós, porque não há já quem sofra receber tanto e nada pagar. Custe o que custar, Senhor, não queirais que me apresente diante de Vós com as mãos tão vazias, pois, conforme às obras, se há de dar o prêmio. Aqui está a minha vida, aqui está minha honra e minha vontade; tudo Vos dei; sou Vossa, disponde de mim conforme Vos agradar. 

Bem vejo, meu Senhor, o pouco que posso; mas chegada a Vós, do alto desta guarita de onde se vêem as verdades, não Vos afastando Vós de mim, tudo poderei. Se Vos afastais, por pouco que seja, irei para onde estava, que era o inferno.

6. Oh! o que é uma alma, que se vê aqui, ter de voltar a tratar com todos, olhar e ver a farsa desta vida tão mal concertada, gastar tempo a cuidar do corpo, dormindo e comendo! Tudo a cansa. Não sabe como fugir. Vê-se encadeado e presa. Sente, então, mais verdadeiramente o cativeiro que trazemos com os corpos e a miséria da vida. Conhece a razão que tinha S. Paulo de suplicar a Deus que o livrasse dela, dá vozes como ele, pede a Deus liberdade, como outras vezes tenho dito. Aqui, porém, é com tão grande ímpeto, que muitas vezes parece que a alma quer sair do corpo a buscar esta liberdade, já que não a tiram dele. Anda como que vendida em terra estranha e o que mais a aflige é não encontrar muitos que se queixem com ela e peçam isto mesmo, senão que o mais normal é desejar viver. 

Oh! se não estivéssemos apegados a nada, nem tivéssemos posto a nossa alegria em coisa alguma da terra, como a pena que sentiríamos em viver sempre sem Ele, temperaria o medo da morte com o desejo de gozar da vida verdadeira!

7. Considero algumas vezes, que, se alguém como eu, apesar de ter tão tíbia caridade e tão incerto o descanso verdadeiro por não o terem merecido minhas obras, sinto muitas vezes - só por o Senhor me ter dado esta luz - tão grande pesar de me ver neste desterro, qual não seria o sentimento dos santos? Que devem ter passado São Paulo, a Madalena e outros semelhantes em quem tão crescido estava este fogo de amor de Deus? Devia ser para eles um contínuo martírio.

Parece-me que me dá algum alívio e descanso o trato de pessoas a quem posso falar destes desejos; digo, desejos com obras, porque há algumas pessoas que se julgam estar desprendidas de tudo e assim o apregoam e havia de ser, pois o seu estado e os muitos anos que há, desde que algumas começaram caminho de perfeição, assim o pede. Contudo, esta alma conhece bem, e de longe, os que o são só de palavras ou os que já confirmaram estas palavras com obras. É que já compreendem o pouco proveito que dão uns e o muito os outros. É coisa que, quem tem experiência, vê muito claramente.

8. São, pois, estes os efeitos que realizam os arroubamentos quando são do espírito de Deus. Verdade é que há mais e menos. Digo menos, porque no princípio, embora cause estes efeitos, não estão experimentados com obras e assim não se pode entender que os têm. Também vai crescendo a alma em perfeição, procurando que não haja memória de teia de aranha e isto requer algum tempo. E quanto mais crescem nela o amor e a humildade, maior cheiro exalam de si estas flores de virtudes, para ela e para os outros.

Verdade é que, num rapto destes, o Senhor pode operar de maneira a que fique à alma pouco trabalho em adquirir a perfeição. Ninguém poderá mesmo acreditar, se não o tiver experimentado, o que o Senhor dá aqui; não há - a meu parecer - diligência nossa que a isso tanto possa chegar. Não digo que, com o favor do Senhor, trabalhando a alma durante muitos anos e servindo-se dos meios que descrevem os que têm escrito sobre oração, seus princípios e meios, não cheguem à perfeição e a muito desapego com grande custo. 

Mas não será, porém, em tão breve tempo nem sem nenhum esforço da nossa parte, como obra aqui o Senhor, pois determinadamente tira a alma da terra e lhe dá senhorio sobre quanto nela há, e isto ainda que nesta alma não haja mais merecimentos que havia na minha, o que sem encarecimento posso dizer, não era quase nenhum.

9. O motivo pelo qual o faz Sua Majestade, é porque quer, e fá-lo como quer, e ainda que não haja na alma disposição, dispõe-na para receber o bem que Sua Majestade lhe dá. Assim, nem sempre concede suas graças por as terem merecido, cultivando bem o horto, embora esteja muito certo que, a quem faz isto bem e procura desapegar-se, não deixe Sua Majestade de regalar. 

É, porém, de Sua vontade mostrar algumas vezes Sua grandeza na terra que é   ruim, como tenho dito, e dispõe-na para todo o bem, de maneira que pareça, em certo modo, que já não é livre para voltar a viver com ofensas a Deus, como costumava. Tem o pensamento tão habituado em entender o que é verdadeira verdade, que tudo o mais lhe parece jogo de meninos. 

Ri-se consigo mesma algumas vezes, quando vê pessoas sérias, de oração e religião, fazer muito caso duns pontos de honra que esta alma tem já debaixo dos pés. Dizem que é discrição e autoridade do seu estado para maior proveito. Sabe ela, no entanto, muito bem que mais aproveitaria num só dia em que
pospusesse aquela autoridade por amor de Deus, que, com ela, em dez anos.

10. Assim vive esta alma vida trabalhosa e sempre com cruz, mas vai em grande aumento. Quando se dá a conhecer aos que, com ela tratam, vêem que está lá muito no cume; e dentro em pouco estará muito mais melhorada, porque Deus a vai favorecendo sempre mais.

É alma sua, é Ele que a tem já a Seu cargo e assim a ilumina, dir-se-ia que com a Sua assistência a está sempre guardando para que não O ofenda, e favorecendo e despertando para que O sirva.

Chegando a minha alma a ponto de que Deus lhe fizesse esta tão grande graça, cessaram os meus males e o Senhor deu-me fortaleza para sair deles. Já tanto se me dava estar metida nas ocasiões e com pessoas que me costumavam distrair, como não. Antes, até me ajudava o que me costumava causar dano. Tudo me era depois meio para conhecer melhor a Deus e amá-Lo e ver o que Lhe devia e ter pesar do que eu havido sido.

11. Bem entendia eu que aquilo não vinha de mim nem o tinha ganho com minhas diligências, pois não tinha ainda havido tempo para isso. Sua Majestade havia-me dado fortaleza para isso, só por Sua bondade.
Até agora, desde que o Senhor me começou a fazer esta mercê
destes arroubamentos, sempre tem vindo crescendo esta fortaleza e Ele, por Sua bondade, tem-me tido em Sua mão para eu não voltar atrás. Nem mesmo me parece - e assim é - que faço alguma coisa de minha parte, senão que entendo claramente que o Senhor é O que opera.

E, por isto, me parece que almas a quem o Senhor faz estas graças, indo com humildade e temor, sempre compreendendo que o Senhor mesmo é Quem o faz, e nós quase nada, se podem meter entre qualquer gente. Por mais divertida e viciosa que seja, nada fará ao caso, nem a moverá em nada; antes, como tenho dito, a ajudará e ser-lhe-á motivo para tirar muito maior proveito. 

São já almas fortes que o Senhor escolhe para fazer bem a outras, ainda que esta fortaleza não lhes venha delas. Pouco a pouco, em chegando até aqui uma. alma, o Senhor vai-lhe comunicando segredos muito grandes.

12. Aqui é que são as verdadeiras revelações, êxtases e as grandes mercês e visões; e tudo contribui para humilhar e fortalecer a alma e faz com que tenha em menos conta as coisas desta vida e conheça mais claramente as grandezas do prêmio que o Senhor tem preparado para os que O servem.

Praza a Sua Majestade que a grandíssima liberalidade que tem tido com esta miserável pecadora sirva, de algum modo, para que se esforcem e animem os que isto lerem, a deixar tudo, de tudo em tudo, por Deus. Pois, se tão cabalmente paga Sua Majestade que ainda nesta vida se vê claramente o prêmio e o lucro que têm os que O servem, que será na outra?
 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Aqui se ganha a verdadeira humildade não dizendo nada de bem de si mesma nem que outros o digam. Todo o bem que possui vai endereçado a Deus; e se alguma coisa diz de si, é para Sua glória.


 Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

 

CAPÍTULO 20. Trata da diferença que há entre a união e arroubamento. Declara o que é arroubamento e diz alguma coisa sobre o bem que existe na alma que o Senhor, pela Sua bondade, faz chegar a Ele. Enumera os efeitos que produz. É muito para admirar.

1. Queria eu saber escrever, com o favor de Deus, a diferença que há a entre união e arroubamento. Arroubamento ou rapto ou o que chamam voo de espírito ou arrebatamento, é tudo o mesmo. Digo que estes diferentes nomes são tudo uma e mesma coisa e também se chama êxtase. É grande a vantagem que leva à união; seus efeitos são muito maiores e realiza outras muitas operações. É que a união parece princípio, meio e fim; e assim é quanto ao interior; mas tal como estes outros favores são iras em mais alto grau, assim também produz efeitos interior e exteriormente. Declare isto o Senhor, como tem feito no demais, porque certo é que, se Sua Majestade não me tivesse dado a entender o modo e maneira de poder dizer alguma coisa disto, eu não o saberia.

2. Consideremos agora que esta última água, de que falamos, é tão Copiosa que, se não fosse não o consentir a vida temporal, poderíamos crer que está conosco, aqui nesta terra, esta nuvem da soberana Majestade. Mas, quando agradecemos este grande bem, trazendo  obras, conforme as nossas forças, o Senhor colhe e levanta a alma, digamos agora, à maneira como as nuvens colhem os vapores da terra. Tenho ouvido assim isto: as nuvens ou o sol colhem os vapores, e sobe a nuvem ao céu. Assim, Deus levanta a alma toda e leva-a consigo e começa-lhe a mostrar as coisas do reino que lhe tem preparado. Não sei se é boa  a comparação, mas é, de fato, assim que isto acontece.

3. Nestes arroubamentos, parece que a alma não anima o corpo; e assim, este sente, muito ao vivo, faltar-lhe o calor natural e   vai  esfriando, embora seja com grandíssima suavidade e deleite. Aqui não há meio algum para se poder resistir. Na união, como estamos em terreno nosso, temos meios para isso; embora seja com custo e à força, pode-se quase sempre resistir. Aqui, não só na maioria das vezes nenhum remédio há, senão que muitas, sem prevenção do pensamento, sem nenhuma ajuda nossa, vem um ímpeto tão acelerado e forte, que sentis e vedes levantar-se esta nuvem ou esta águia caudalosa e colher-vos em suas asas.

4. Eu digo que se entende e vós vedes levar e não sabeis para onde. É que, embora seja com deleite, a fraqueza da nossa natureza faz-nos temer ao princípio. É preciso ser alma determinada e animada - muito mais do que  já disse- para arriscar tudo, venha o que vier, e abandonar-se nas mãos de Deus e ir, de bom grado, aonde nos levarem, pois vos levam por mais que vos pese. E é em tanto extremo, que muitas vezes quisera eu resistir e uso todas as minhas forças, em especial algumas quando é em público e outras a sós, temendo ser enganada. Em algumas podia eu algo; porém, com grande sofrimento, como quem luta com um homenzarrão forte, ficava  depois cansada. Outras, era impossível resistir, senão que me levava a alma e quase sempre a cabeça ia atrás dela sem que eu a pudesse deter e algumas vezes todo o corpo a ponto de o levantar.

5. Isto tem sido poucas vezes. Uma delas foi quando estávamos todas juntas no coro, e indo a comungar, estando de joelhos. Deu-me isto grandíssima pena, pois me parecia coisa muito extraordinária e logo haveria de ser muito notada. Assim mandei às irmãs - porque foi agora depois que tenho ofício de prioresa - que não o dissessem. De outras vezes,  começando a ver que o Senhor ia fazer o mesmo, estendia-me no chão e aproximavam-se a deter-me o corpo e, no entanto, não deixava de se ver. Uma delas foi estando presente senhoras principais, pois era a festa do Orago, durante o sermão. Supliquei muito ao Senhor que jamais quisesse dar-me graças que tivessem manifestações exteriores; porque eu já estava cansada de andarem tanta falação e aquela graça podia me fazer o Senhor sem que se percebesse. Parece que, por Sua bondade,       Ele me ouviu, pois nunca até agora a tenho tido; verdade é que foi há pouco. É assim que me parecia, quando queria resistir, que desde a sola dos pés me levantavam forças tão grandes que não sei com o que  as comparar. Eram com muito mais ímpeto que estas outras coisas de espírito de que tenho falado e assim ficava feita em pedaços; porque é uma grande luta. Enfim, de pouco aproveita quando o Senhor quer, pois não há poder contra o Seu poder.
Outras vezes   Ele se contenta  com que vejamos que nos quer fazer a graça e que não falha por parte de Sua Majestade.
Resistindo-se por humildade, deixa os mesmos efeitos como se de tudo se consentisse.

7. Naqueles a quem faz isto, grandes são os efeitos. O primeiro é mostrar-se o grande poder do Senhor e como, da nossa parte, não temos nenhum, quando Sua Majestade quer, para deter o corpo - e tão-pouco a alma - nem somos senhores dele. Mas, por muito que nos pese, vemos que há alguém superior e que estas graças são dadas por Ele e que, por nós mesmos, não podemos nada em nada.
Imprime-se muita humildade. E até confesso que me fez grande
temor ao princípio, e grandíssimo, ver-se assim levantar um corpo da terra, embora o espírito o leve atrás de si e seja com grande suavidade, se não se resiste. Não se perdem os sentidos; eu, pelo menos, estava em mim, de maneira que podia compreender que era levada. Mostra a majestade de quem pode fazer aquilo, que se eriçam os cabelos e fica um grande temor de ofender a tão grande Deus. Este envolto em grandíssimo amor que se cobra de novo a quem vemos que o tem tão grande, para um verme tão podre, que parece não se contentar com levar a Si tão deveras a alma, senão que também quer o corpo, ainda que tão mortal e de terra tão suja, como se tornou por tantas ofensas.

8. Também deixa um desapego estranho que eu não saberei dizer como é. Parece-me poder dizer que é de algum modo diferente; digo que é mais que estas outras coisas de mero espírito. Porque embora se esteja, quanto ao espírito, com todo o desapego das coisas, aqui parece que o Senhor quer que até o corpo o ponha por obra. Cria-se uma estranheza nova para com as coisas da terra, que torna a vida muito mais penosa.

9. Depois dá um pesar que nem a podemos atrair nem, uma vez que veio, se pode afastar. Muito quisera eu dar a entender esta grande pena e creio que não poderei, mas alguma coisa direi se souber. Há de notar-se que estas coisas, que agora digo, são muito lá para o fim, depois de todas as visões e revelações que mais adiante descreverei; e no tempo em que costumava ter oração na qual o Senhor me dava tão grandes gostos e regalos, agora, ainda que isto não cesse algumas vezes, o mais frequente e o mais habitual é esta pena que agora direi.
Ora é maior, ora menor. De quando é maior quero eu agora falar, porque, mais adiante; falarei destes grandes ímpetos que me aconteciam quando o Senhor me quis dar os arroubamentos, os quais não têm - a meu parecer - tanta comparação com isto como uma coisa muito corporal com uma muito espiritual e creio que não o encareço muito. É que parece que aquela pena - embora a sinta a alma - é em companhia do corpo; ambos parecem participar dela, mas não com o extremo do desamparo desta.
Para isto - como tenho dito - não pomos nada da nossa parte. Assim muitas vezes, algumas vezes, vem um desejo que não sei como se move, e deste desejo que penetra toda a alma num momento, ela começa a afligir-se tanto que sobe muito acima de si e de todo o criado. Põe na Deus tão alheia a todas as coisas que, por muito que se esforce, nenhuma lhe parece haver sobre a terra que a acompanhe, nem ela o quisera, senão morrer naquela solidão. Se lhe falam e se ela quiser empregar toda a sua força para responder, de pouco lhe aproveita, porque o seu espírito, por mais que ela faça, não se aparta daquela solidão.
E, apesar de me parecer que Deus está então longe, às vezes Ele comunica as Suas grandezas do modo mais estranho que se pode pensar. Assim, nem se sabe dizer, nem creio que o acreditará nem compreenderá quem não houver passado por isso; porque não é comunicação para consolar, senão para mostrar a razão que a alma tem de se afligir por estar ausente do Bem que em Si possui todos os bens.

10. Com esta comunicação cresce o desejo e o extremo de solidão em que se vê, com uma pena tão aguda e penetrante, que, embora a alma já estivesse posta naquele deserto, parece-me que ao pé da letra, se pode então dizer o que disse o real Profeta estando na mesma solidão: «Vigilavi, et factus sum sicut passer solitarius in tecto». Senão que a ele, como santo, lhe daria o Senhor a sentir isto num modo mais excessivo. E de tal maneira se me representa então este versículo, que me parece que o vejo em mim e consola-me ver que outras pessoas - quanto mais sendo  elas tais - sentiram tão grandes extremos de solidão.
Parece que a alma não está em si, senão no telhado ou teto de si
mesma e de tudo quanto é criado, porque até acima da parte muito
superior da alma, me parece que ela está.

11. Outras vezes parece que a alma anda como necessitadíssima, dizendo e perguntando a si mesma: «Onde está o teu Deus?». É de notar que a tradução destes versos eu não sabia bem qual era e, depois que a compreendi, consolava-me de ver que me tinha trazido Deus à memória sem eu procurar. Outras vezes me recordava do que diz S. Paulo: que estava crucificado para o mundo.
Não digo que isto seja assim, bem vejo que não; mas parece-me estar assim a alma: nem do Céu lhe vem consolo nem está nele, nem da terra o quer nem está nela; está como crucificada entre o céu e a terra, padecendo sem lhe vir socorro de nenhum lado. Porque o que lhe vem do Céu, (que é, como tenho dito, uma notícia de Deus admirável, muito acima de tudo o que podemos desejar), é para mais tormento. Acresce o desejo de maneira que - a meu parecer - a intensidade da dor tira algumas vezes os sentidos, mas está-se pouco tempo sem eles. Parecem transes de morte, mas traz consigo um tão grande contentamento este padecer que não sei com que o comparar. É um duro martírio saboroso, pois tudo quanto se pode representar à alma de coisas da terra - embora seja do que lhe
costuma dar mais prazer - nenhuma admite; logo parece lançá-lo para longe de si.
Bem entende que não quer senão a seu Deus, mas d'Ele não ama
uma coisa particular; e a Ele todo inteiro que quer e não sabe o que quer. Digo que não sabe porque a imaginação não lhe representa nada; nem penso que, durante muito tempo daquele em que está assim, operam as potências, tal como na união e no arroubamento as suspende o gozo, aqui é a dor.

12. Oh, Jesus! Quem pudesse dar isto bem a entender a V Mercê, até para que me dissesse o que é, pois nisto anda agora sempre a minha alma! O mais normal -em se vendo desocupada - é ficar nestas ânsias de morte e teme, quando vê que começam, porque sabe que não há de morrer. Mas, chegada a isto, o que houvesse de viver queria que fosse neste padecer; embora seja tão excessivo que a natureza mal o pode suportar. E assim, algumas vezes, quase me falta  o pulso - segundo dizem algumas das irmãs que então se chegam a mim e isto já melhor entendem- e sinto as canas dos braços abertas e as mãos tão hirtas; que eu, algumas vezes, não as posso juntar e assim me ficam dores até ao outro dia nos pulsos e no corpo, parece que se desconjuntaram.

13. Eu bem penso que, alguma vez, há de ser o Senhor servido, se isto vai por diante como agora, que se acabe com acabar a vida, pois, a meu parecer, bastante é para isso tão grande pena, mas eu não o mereço. Então toda a ânsia é morrer. Não me recordo do purgatório nem dos grandes pecados que tenho feito, pelos quais merecia o inferno. Tudo fica esquecido com aquela ânsia de ver   Deus e aquele deserto e a solidão parece melhor à alma, que toda a companhia do mundo.
Se alguma coisa lhe pudesse dar consolo é tratar com quem tivesse passado por este tormento; mas ver que, embora se queixe dele, ninguém, segundo lhe parece, a há de acreditar!

14. Também a atormenta ser esta pena tão grande que não quisera solidão como em outras, nem companhia, a não ser com quem se pudesse queixar. É como quem tem a corda ao pescoço e se está afogando, e procura tomar fôlego. Assim parece-me que este desejo de companhia provém da nossa fraqueza, porque nos põe em perigo de morte. Isto sim, de certo, que o faz. E tenho-me visto nesse perigo algumas vezes com grandes enfermidades e ocasiões, como tenho dito, e creio poder dizer que este é tão grande como todos os outros. E assim, o desejo que o corpo e a alma têm de não se separarem, é que faz pedir socorro para tomar fôlego e, com dizê-lo e queixar-se e distrair-se, buscar remédio para viver, muito contra a vontade do espírito ou da parte superior da alma que não queria sair desta pena.

15. Não sei se atino no que digo ou se o sei dizer, mas bem me parece isto se passa  assim. Veja, V. Mercê que descanso posso ter nesta vida; pois o que eu tinha -que era a oração e solidão, porque ali me consolava o Senhor-é agora habitual este tormento. É, porém, tão saboroso e a alma vê que é de tanto preço, que já lhe quer mais que a todos os regalos que costumava ter. Parece-lhe mais seguro, porque é caminho de cruz e contém em si um gosto de muito valor, a meu parecer, porque dele não participa o corpo, senão da pena somente e é a alma a que padece e goza sozinha do gozo e contento que dá este padecer.
Eu não sei como isto possa ser, mas sei que é assim. E, segundo penso, eu não trocaria esta graça que o Senhor me faz - e muito de Sua mão e, como tenho dito, nada adquirida por mim, porque é muito sobrenatural -, por todas as que depois direi. Não digo todas juntas, senão tomada cada uma de per si. E não se deixe de ter na lembrança que é depois de tudo o que vai escrito neste livro e em que agora me tem o Senhor.

16. Estando eu a princípio com temor (como me acontece quase sempre a cada nova graça que me faz o Senhor, até que, com a continuação, Sua Majestade me infunde segurança), Ele disse-me que não temesse e a tivesse em mais conta que todas as que me tinha feito. Nesta pena se purifica a alma e se lavra e purifica, tal como o ouro no crisol, a fim de melhor poder receber os esmaltes de seus dons, e que ali se purificava pelo que havia de estar no purgatório.
Bem entendia que era grande graça, mas fiquei com muita mais segurança e o meu confessor me disse que era bom. E embora eu temesse por ser tão ruim, nunca pude crer que fosse mau; era antes o muito sobrado bem que me fazia temer, lembrando-me quão mal o havia merecido. Bendito seja o Senhor que tão bom é. Amém.

17. Vejo que saí do meu propósito, porque comecei a falar de arroubamentos e isto que disse é ainda mais que arroubamento, e assim deixa os efeitos mencionados.

18. Agora voltemos aos arroubamentos, ao que neles acontece mais ordinário.
Digo que muitas vezes me parecia que me deixava o corpo tão leve que dele me tirava todo o peso; e algumas era tanto à força que quase não   percebia quando punha  os pés no chão. Pois, quando a alma está em arroubamento, o corpo fica muitas vezes como morto, sem nada poder fazer por si e, tal como é tomado por este arroubamento, assim se fica sempre: ou em pé, ou sentado, ou mãos abertas, ou fechadas. E ainda que poucas vezes se percam os sentidos, algumas tem-me acontecido de os perder de todo, porém poucas vezes e por pouco tempo. Normalmente, o sentido turva-se e, ainda que nada possa fazer por si quanto ao exterior, não deixa de entender e ouvir, mas como de longe.
Não digo que entenda e ouça quando está no maior auge deste ímpeto (chamo o mais subido, aos momentos em que se perdem as potências, porque estão muito unidas com Deus), porque então não vê, nem ouve, nem sente, segundo me parece. Mas, como disse na oração de união de que falei atrás, esta transformação da alma toda em Deus dura pouco; mas no tempo que dura, nenhuma potência se sente, nem sabe o que ali passa.
Deve ser para que não se compreenda enquanto vivemos na terra; pelo menos Deus não o quer; por não termos capacidade para isso.
Tenho-o visto por mim.

19. Perguntar-me-á V Mercê, como é que, algumas vezes, dura tanto tempo o arroubamento. Muitas vezes, o que se passa comigo é que - como disse na oração passada - se goza com intervalos. E muitas vezes se engolfa a alma ou a engolfa o Senhor em Si, para melhor dizer, e, detendo-a assim um pouco, fica-se só com a vontade.
Parece-me que este bulício destas outras duas potências é como o de uma lingueta destes relógios de sol, que nunca pára; mas quando o Sol da Justiça quer, fá-las deter.
Digo que isto é por pouco tempo. Mas, como foi grande o ímpeto e levantamento de espírito, embora estas potências tornem a mexer-se, permanece engolfada a vontade e, como senhora de tudo, faz aquela operação no corpo. Já que as outras duas potências buliçosas a querem estorvar - e de inimigos os menos - não a estorvem também os sentidos e assim faz com que estejam suspensos, porque assim o quer o Senhor. E, na maior parte das vezes, estão fechados os olhos, ainda que não os queiramos fechar; e, se alguma vez estão abertos - como já disse -, não se atina nem se adverte no que vê.

20. Aqui é muito menos o que o corpo pode fazer por si, para que, quando se tornarem as potências a juntar, não haja tanto que fazer.
Por isso, a quem o Senhor der isto, não se desconsole quando se vir assim atado o corpo durante muitas horas e o entendimento e a memória às vezes distraídos. Verdade é estarem estas potências habitualmente embebidas em louvores a Deus ou em querer compreender o que se passou por elas e ainda para isto não estão bem despertas, senão como uma pessoa que tenha dormido muito e sonhado e ainda não acabou de despertar.

21. Declaro-me tanto nisto porque sei que há agora, mesmo neste lugar, pessoas a quem o Senhor faz estas graças, e se os que as governam não passaram por isto, parecer-lhes-á, talvez, que elas hão de estar como mortas no arroubamento, em especial se não são letrados e é lástima o que se padece com os confessores que não o compreendem, como direi depois. Porventura não saberei o que digo; V Mercê o entenderá, se eu atinar em alguma coisa, pois o Senhor já lhe deu experiência disso, embora, como não é   há muito tempo, talvez não o tenha ainda considerado tanto como eu.
Assim é que, embora muito procure fazê-lo, durante bom espaço de tempo, não há forças no corpo para se poder menear; todas as levou consigo a alma. Muitas vezes fica são - pois estava bem enfermo e cheio de grandes dores - e com mais capacidade, porque é grande coisa o que ali se dá, e quer o Senhor algumas vezes, como repito,que goze o corpo, pois já obedece ao que a alma quer. Depois que volta a si, se foi grande o arroubamento, acontece andarem um dia ou dois, e até três, tão absortas as potências ou a alma como embevecida, que parece não anda em si.

22. Aqui é a pena de ter de voltar a viver; aqui o nascerem-lhe asas para bem voar; já lhe caiu a penugem. Aqui se levanta já de todo a bandeira por Cristo, pois outra coisa não parece senão que o alcaide-mor desta fortaleza subiu, ou que o levaram à torre mais alta a levantar bandeira por Deus. Olha para os de baixo como quem está a salvo; já não teme os perigos, antes os deseja, como pessoa a quem, de certa maneira, ali foi dada segurança da vitória. Aqui se vê mui claramente o pouco em que tudo o que é cá de baixo se há de estimar e a ninharia que tudo é. Quem está no alto alcança muita coisa; já não queria querer, nem quisera ter livre arbítrio, e assim o suplica ao Senhor. Dá-lhe as chaves da sua vontade.
Eis aqui o hortelão feito alcaide-mor: não quer fazer outra coisa senão a vontade do Senhor; nem deseja ser senhor de si, nem de nada, nem duma pera deste horto... Se alguma coisa de bom nele houver, que o reparta Sua Majestade. Doravante não quer coisa própria, senão que Ele disponha de tudo conforme à Sua glória e à Sua vontade.

23. E, de fato e em verdade, é assim que se passa tudo isto, se os arroubamentos são verdadeiros, pois fica a alma com os efeitos e o aproveitamento que digo. Se estes assim não fossem, duvidaria eu muito virem os arroubamentos de Deus; antes temeria não fossem os «enraivecimentos» de que fala S. Vicente. Isto entendo-o eu, e tenho visto por experiência que a alma fica aqui senhora de tudo e com liberdade, até em menos de uma hora, que nem ela se pode conhecer. Bem vê que para isto nada fez, nem sabe como lhe foi dado tanto bem; mas entende claramente o grandíssimo proveito que cada rapto destes traz consigo.
Não há quem o acredite se não passou por isto; e assim não dão crédito à pobre alma por a terem visto tão ruim e tão depressa a verem pretender fazer coisas tão arriscadas; pois, logo dá em não se contentar em servir em pouco ao Senhor, senão no mais que ela puder. Pensam que é tentação e disparate. Se compreendessem que isto não nasce dela, senão do Senhor, a Quem já entregou as chaves da sua vontade, não se espantariam.

24. Tenho para mim que uma alma, que chega a este estado, já não fala nem faz coisa alguma por si mesma, senão que, de tudo quanto ela faz, tem cuidado este Soberano Rei. Oh! valha-me Deus, quão claramente se entende aqui a declaração do versículo do Salmo 54 e se vê, que tinha razão o salmista - e a terão todos - em pedir asas de pomba! Entende-se claramente que é voo o que o espírito dá para se levantar acima de tudo o criado e de si mesmo, em primeiro lugar; mas é voo suave, é voo deleitoso, voo sem ruído.

25. Que senhorio tem uma alma a quem o Senhor chega até aqui, que a tudo atende sem ficar nisso enredada! Que envergonhada está do tempo em que o ficava! Que espantada da sua cegueira! Como lastima os que estão nela, em especial se é gente de oração e a quem Deus já regala! Queria dar vozes para dar a entender quão enganados estão, e mesmo assim o fazem algumas vezes e chovem-lhe sobre a cabeça mil perseguições. É tida por pouco humilde e por querer ensinar aqueles de quem deveria aprender, especialmente se é mulher; então é que é o condenar, e não sem razão, porque não sabem o ímpeto que a move, ao qual, às vezes, não pode resistir nem pode deixar de desenganar aqueles a quem quer bem e deseja ver soltos do cárcere desta vida: pois menos não é, nem menos lhe parece aquilo em que ela tem estado.

26. Dói-se do tempo em que olhou pontos de honra e do engano
que trazia em crer que era honra o que o mundo chama honra. Vê que é grandíssima mentira e que todos andamos nela. Entende que a verdadeira honra não é mentirosa, senão verdadeira, dando valor ao que, de fato, o tem e tendo o que não é nada, por bagatela, pois é nada, e menos que nada, tudo o que se acaba e não contenta a Deus.

27. Ri-se de si, do tempo em que tinha em alguma conta dinheiro e o cobiçava, ainda que nisto creio que nunca - e assim é verdade - confessei culpa; bastante culpa era já tê-lo em algum apreço. Se com ele se pudesse comprar o bem que agora vejo em mim, tê-lo-ia em muito; mas vejo que este bem se ganha com deixá-lo de tudo em tudo. Que é isso que se compra com estes dinheiros que desejamos? É coisa de preço? É coisa durável? Ou, para que o queremos? Negro descanso se procura, que tão caro custa! Muitas vezes se procura com eles o inferno e se compra fogo perdurável e pena sem fim. Oh! se todos dessem em tê-los por terra sem proveito, que consertado andaria o mundo! Sem tráfegos e com que amizade se tratariam todos! Se faltasse ti interesse de honras e dinheiros, tenho para mim que se remediaria tudo.

28. Vê a grande cegueira dos prazeres e como com eles se compra trabalho e desassossego, até para esta vida. Que grande inquietação! Que pouco contento! Quanto trabalho em vão!
Aqui não só vê as teias de aranha da sua alma e as faltas grandes, mas até um pozinho que haja, por pouco que seja, porque o sol está muito claro. E assim, por muito que trabalhe uma alma em se aperfeiçoar, se deveras a colhe este Sol, toda ela se vê muito turva.
É como a água que está num copo que, enquanto lhe não dá o sol,
está muito clara, mas se vem a dar nela, vê-se que está cheia de
impurezas. Esta comparação é ao pé da letra. Antes de estar a alma neste êxtase, parece-lhe que traz cuidado de não ofender a Deus e que, conforme às suas forças, faz quanto pode. Mas uma vez chegada aqui, quando dá nela este Sol de Justiça que lhe faz abrir os olhos, vê tantas arestas que os quereria voltar a fechar. Ainda não é tão filha desta águia real que possa fitar este sol sem pestanejar. Mas, por pouco que os tenha abertos, vê-se toda turva.
Recorda-se do verso que diz: «Quem será justo diante de Ti?»

29. Quando olha para este Divino Sol fica deslumbrada com a claridade. Mas, como se vê a si mesma, o barro lhe tapa os olhos, cegando esta pobre pombinha. Assim acontece-lhe, muitas vezes, ficar cega de tudo, absorta, espantada, desvanecida por tantas grandezas que vê.
Aqui se ganha a verdadeira humildade não dizendo nada de   bem de si mesma nem que outros o digam. É o Senhor do horto que reparte a fruta e não ela, e assim nada se lhe apega às mãos. Todo o bem que possui vai endereçado a Deus; e se alguma coisa diz de si, é para Sua glória. Sabe que ali não tem nada seu; ainda mesmo que queira, não o pode ignorar, porque vê a olhos vistos que, por mais que lhe pese, lhe fazem fechar às coisas do mundo e tê-los abertos para entender verdades.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila 

sábado, 9 de março de 2013

Começa a declarar os efeitos produzidos na alma, neste grau de oração. Aconselha a que não voltem atrás nem deixem a oração, mesmo que depois desta graça, tornem a cair. Fala do mal que acontece quando não se faz isto. E do grande consolo para os fracos e pecadores.


LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila


CAPÍTULO 19. Prossegue na mesma matéria. Começa a declarar os efeitos produzidos na alma, neste grau de oração. Aconselha a que não voltem atrás nem deixem a oração, mesmo que depois desta graça, tornem a cair. Fala do mal que acontece quando não se faz  isto. E do grande consolo para os fracos e pecadores.

1. Fica a alma, por esta oração e união, com uma grandíssima ternura, de maneira que  gostaria de se desfazer, não de pena, senão de lágrimas de gozo. Encontra-se banhada delas sem sentir nem saber quando nem como as chorou; mas dá-lhe grande deleite ver aplacado aquele ímpeto de fogo com água que mais o faz crescer.

Isto parece  confuso, mas é assim mesmo. Acontecia-me algumas vezes, neste grau de oração, estar tão fora de mim, que não sabia se era sonho ou se em verdade se dava aquela glória que tinha sentido; e ao ver-me inundada daquela água que sem custo corria com tanto ímpeto e presteza, que parecia que escorria daquela nuvem do céu, via, que não tinha sido sonho. Isto era nos princípios, quando esta graça passava com rapidez.

2. A alma fica tão animada que, se naquele momento a fizessem em pedaços por Deus, ser-lhe-ia um grande consolo. Ali são as promessas e determinações heróicas, a vivência dos desejos, o começar a se aborrecer com o mundo, e ver muito claramente sua vaidade. 

Fica muito mais aproveitada e elevada do que nas orações passadas e a humildade mais crescida. É que vê nitidamente que, para tão excessiva e grandiosa graça, não houve trabalhos seus nem teve parte em a atrair ou a possuí-la. Com clareza vê-se indigníssima, e vê a sua miséria porque, em aposento onde entra muito sol, não há teia de aranha escondida. Vai tão longe a vanglória, que nem lhe  parece que a poderia ter, porque já tem à vista de olhos o pouco ou nada que pode, pois não houve ali quase consentimento; dir-se-ia até que, embora não quisesse, lhe cerraram a porta a todos os sentidos para que mais pudesse gozar do Senhor. 

Fica-se a sós com Ele; o que há de fazer senão amá-Lo? Não vê nem ouve, a não ser à força de braços; pouco há que lhe agradecer. Representa-se-lhe depois a sua vida passada e a grande misericórdia de Deus, com grande verdade e sem o entendimento de ter necessidade de andar à caça, pois vê ali o guisado o que há de comer e entender. Vê que merece o inferno e que a castigam dando-lhe glória. Desfaz-se em louvores de Deus, e  quisera agora desfazer-me neles. 

Bendito sejais, Senhor meu, que de uma lama tão suja como eu, fazeis água tão clara que sirva para a Vossa mesa! Sede louvado, ó delícia dos Anjos, que assim quereis levantar um verme tão vil!

3. Permanece algum tempo este aproveitamento na alma. Esta já pode,  entender claramente que não é sua a fruta, começa  a repartir sem lhe fazer  falta. Começa a dar mostras de alma que guarda tesouros do Céu, e a ter desejos de os repartir com outros e a suplicar a Deus não seja ela só a ser rica. 

Começa a aproveitar aos próximos quase sem o entender, nem fazer nada para si; eles é que o entendem, já as flores têm tão crescido o perfume que lhes dá, que do desejo de se achegarem a elas. Compreendem que têm virtudes e vêem a fruta que é apetecível. Gostariam de a ajudar a comer.

Se esta terra está muito cavada com trabalhos, perseguições,  murmurações e enfermidades - que poucos devem aqui chegar sem isto - e, se está bem solta por andar muito desapegada do próprio interesse, a água embebe-se tanto nela que quase nunca seca. Mas se é terreno que ainda é terra por lavrar e com tantos espinhos como eu estava ao princípio, e ainda não afastada de  ocasiões, nem tão agradecida como merece tão alta graça, a terra volta a secar.

E se o hortelão se descuida,  se o Senhor, por Sua bondade somente, não torna a querer mandar chuva, pode ficar perdido o horto.

Assim me aconteceu algumas vezes, que fiquei espantada e, se isto se não tivesse passado comigo, não  poderia crer.
Escrevo-o para consolo de almas fracas como a minha, para que nunca desesperem nem deixem de confiar na grandeza de Deus.
Ainda que caiam, depois de ter chegado lá em cima, como se há de    trazê-las o Senhor até aqui, não desfaleçam, se não  querem se perder de tudo. As lágrimas tudo alcançam; uma água traz outra.

4. Esta foi uma das razões porque me animei - sendo a que sou - por obedecer a escrever isto e a dar conta da minha  vida ruim e das graças que me tem feito o Senhor, apesar de não O servir senão com ofensas. Certo é que eu quisera ter aqui grande autoridade para que nisto me acreditassem; e suplico ao Senhor que me a dê Sua Majestade. Digo pois, que não desfaleça ninguém, dos que começaram a ter oração, dizendo: Se hei de tornar a ser mau, é pior continuar a levar por diante o seu exercício. Se se deixar a oração e se não se emendar do mal, assim o creio; mas se não a deixar, creia antes que ela o levará a porto de salvação. 

Deu-me nisto tanta força o demônio e passei tanto, por me parecer pouca humildade ter oração sendo tão ruim, que -como já disse- deixei-a ano e meio, pelo menos um ano, pois do meio não me recordo bem. Isto  não era, nem foi, que meter-me eu mesma no inferno, sem necessidade de demônios que lá me fizessem cair. 

Oh! valha-me Deus, que cegueira tão grande! E, quão bem acerta o demônio - para conseguir seus fins -em carregar aqui a mão! Sabe o traidor que alma que tenha oração e nela perseverar, está para ele perdida e que todas as quedas que lhe fizer dar a ajudarão, por bondade de Deus, a dar depois maior salto no serviço do Senhor. Isto muito lhe importa.

5. Ó Jesus meu! O que é ver uma alma que aqui tem chegado e depois, caída em um pecado, quando Vós, por Vossa misericórdia, lhe tornais a dar a mão e a levantais! Como ela reconhece a multidão das Vossas grandezas e misericórdias e a sua miséria! 

Aqui é o desfazer-se de verdade e conhecer Vossas grandezas; e não ousar erguer os olhos; e levantá-los para reconhecer o que Vos deve; aqui se faz devota da Rainha do Céu para que Vos aplaque; aqui invoca os santos que caíram depois de Vós os terdes chamado, para que a ajudem; aqui o parecer-lhe que lhe chega à larga tudo o que dais, porque vê que não merece a terra que pisa; o  ir aos Sacramentos, a fé viva que lhe fica de ver a virtude que Deus pôs neles, o louvar-Vos por terdes deixado tal remédio e unguento para as nossas chagas, que não só as cura mas as tira de tudo. 

Disto se espantam e quem, Senhor da minha alma, se não há de espantar da misericórdia tão grande e de graça tão aumentada, em paga de traição tão feia e abominável? Não sei como se me não parte o coração quando isto escrevo, porque sou ruim.

6. Com estas lagrimazinhas que aqui choro, dadas por Vós - água de muito mau poço no que é da minha parte -; parece que Vos tenho dado satisfação por tantas traições, pois ando sempre fazendo mal e procurando desfazer as graças que Vós me tendes feito. 

Dai-lhes, Senhor meu, valor; aclarai água tão turva, sequer ao menos para não dar tentação a alguém, como a mim me tem dado de fazer maus juízos, pensando por que deixais, Senhor, a pessoas muito santas que sempre Vos têm servido e trabalhado por Vós, criadas em Religião e dela sendo-o de verdade e não como eu que não tenho mais de que o nome, vendo claramente que não lhes fazeis graças como a mim. Bem vejo, Bem meu, que lhes guardais o prêmio para lhe dar por junto, e que minha fraqueza disto necessita. A eles, que como fortes Vos servem sem isso, os tratais como a gente esforçada
e não interesseira.

7. Contudo, Vós sabeis, Senhor meu, que eu clamava muitas vezes diante de Vós desculpando as pessoas que contra mim murmuravam, por me parecer que lhes sobrava razão. Isto era já, Senhor, depois que me seguráveis, por bondade Vossa, para que não Vos ofendesse tanto e eu já me ia desviando de tudo quanto me parecia poder desgostar-Vos. 

Em fazendo eu isto, começastes, Senhor, a abrir Vossos tesouros à Vossa serva: Dir-se-ia não esperardes outra coisa, senão que houvesse em mim vontade e preparação para os receber, tal a rapidez com que começastes, não só a dá-los, mas a querer que se entendesse que me os dáveis.

8. Entendido isto, começou-se a ter boa opinião daquela de quem todos ainda não tinham compreendido quanto era má, embora muito transluzisse. Mas logo começou também a murmuração e perseguição e - a meu parecer - com muita razão; e assim não tomei inimizade a ninguém, mas suplicava-Vos que olhásseis à razão que tinham. 

Diziam que eu  queria  me passar por santa e que inventava novidades, não tendo ainda chegado então a cumprir, em grande parte, com toda a minha Regra, nem a igualar às muito boas e santas freiras que havia na casa. 

Nem creio chegarei se Deus, por Sua bondade, não fizer tudo de Sua parte! Da minha, antes era capaz de tirar o que havia de bom e meter costumes que não o fossem; ao menos, fazia o que podia para os introduzir e no mal era muito o que podia. Assim, sem culpa sua, me culpavam. Não digo que fossem só as freiras, mas também outras pessoas; descobriam-me verdades, porque Vós assim lho permitíeis.

9. Uma vez, rezando as Horas, como eu tinha algumas vezes esta tentação, cheguei ao versículo que diz: «justus es, Domine e Teus juízos...». Comecei a pensar como era grande esta verdade; porque nisto, o demônio jamais teve força para me tentar de modo a eu duvidar terdes Vós, meu Senhor, todos os bens, nem em verdade alguma de fé. 

Antes me parecia que, quanto mais as verdades iam sem caminho natural, mais firme era a minha fé e dava-me grande devoção. Em serdes Todo-Poderoso ficam incluídas, para mim,
todas as grandezas que Vós fizerdes, e nisto - como digo - jamais tive dúvida. Pensando, pois, como permitíeis com justiça que muitas servas Vossas, que as havia - como tenho dito - não tivessem os regalos e graças que  fazíeis a mim, sendo eu a que era, respondeste-me, Senhor: «Serve-Me tu a Mim, e não te metas nisso».

Foi a primeira palavra que eu entendi que Vós me dizíeis e assim
espantou-me muito.

Porque depois declararei esta maneira de entender, com outras
coisas, não o digo aqui, pois que é sair do assunto e creio já muito tenho saído; quase não sei o que tenho dito. Nem pode deixar de ser assim, meu filho, e V. Mercê há de suportar estas interrupções; porque quando vejo o que Deus   tem sofrido e me vejo neste estado, não é muito que perca o tino do que digo e hei de dizer.

Praza ao Senhor que sejam sempre estes os meus desatinos e não permita Sua Majestade tenha eu ainda poder para ir contra Ele num só ponto que seja. Antes me consuma Ele neste em que estou.

10. Já basta para se ver as Suas grandes misericórdias, não uma senão muitas vezes em que tem perdoado tanta ingratidão. A S. Pedro, uma vez; a mim, muitas. Com razão me tentava o demônio para não pretender amizade tão estreita com Quem usava de inimizade tão pública. Que cegueira tão grande a minha! Onde pensava eu, Senhor meu, encontrar remédio senão em Vós? Que disparate fugir da luz para andar sempre tropeçando!

Que humildade tão soberba inventava em mim o demônio: afastar-me de estar pregada à coluna e ao báculo que me havia de sustentar para não dar tão grande queda! Agora me persigno e julgo não ter passado perigo tão grande como esta invenção que o demônio me ensinava por via de humildade. Punha-me no pensamento como é que coisa tão ruim e tendo recebido tantas graças, me havia de chegar à oração? 

Bastava-me rezar aquilo a que estava obrigada, como todos, e pois que até isto não fazia bem, como queria fazer mais? Era pouco respeito e ter em pouco as graças de Deus. Bem era pensar e entender isto, mas o pô-lo por obra foi grandíssimo mal. Bendito sejais Vós, Senhor, que assim me remediastes.

11. Princípio da tentação com que o demônio perdeu a Judas isto me parece, senão que o traidor não ousava andar tão a descoberto; mas, pouco a pouco, teria vindo a dar comigo aonde deu com ele.

Atendam a isto, por amor de Deus, todos os que tratam de oração. Saibam que no tempo em que vivi sem ela, andava muito mais perdida a minha vida. Veja-se que bom remédio me dava o demônio e que perigosa humildade! Era um grande desassossego. 

Mas, como havia de sossegar a minha alma? Afastava-se a infeliz do seu descanso, tinha em si bem presentes as graças e os favores, via que as alegrias aqui da terra são asco. Como pude passar por isto, me espanta. Era na esperança de voltar à oração. É que não pensava -  agora me recordo, porque isto deve ter sido há mais de vinte e um anos - poder deixar de estar determinada a isso, mas esperava o ficar mais limpa de pecados. Oh! que mal encaminhada ia nesta esperança! Até ao dia do juízo, disso me livraria o demônio para dali me levar ao inferno!

12. Pois se tendo oração e leitura - conhecendo verdades e o ruim caminho que levava -e importunando muitas vezes ao Senhor com lágrimas, era tão ruim que não me podia valer, afastada disto, metida em passatempos com muitas ocasiões e poucas ajudas - e ouso até dizer nenhuma, a não ser para me ajudar a cair - que esperava senão isso?

Creio que merece muito diante de Deus um frade de São Domingos; grande letrado, que me despertou deste sono. Fez-me comungar, como creio ter dito, de quinze em'quinze dias. Foi menos então o mal. Comecei a cair em mim; embora não deixasse de fazer ofensas ao Senhor. 

Como, porém, não tinha perdido o caminho, caindo e levantando-me, ia por ele, embora pouco a pouco; e quem não deixa de andar e vai para a frente, ainda que demore, sempre chega. Perder o caminho não me parece ser outra coisa senão deixar a oração. Deus nos livre disso, por Quem Ele é.

13. Fica daqui entendido - e note-se isto muito, por amor do Senhor que, embora uma alma chegue a receber de Deus tão grandes graças na oração, não confie  em si, pois pode cair, nem se meta de nenhuma maneira em ocasiões de queda. Olhe-se muito a isto, que importa muito. Pois, embora a graça tenha sido certamente de Deus, o demônio pode depois causar aqui enganos: aproveitando-se o traidor da mesma graça naquilo que lhe é possível e enganar a pessoas não crescidas nas virtudes, nem mortificadas, nem desapegadas. É que não ficam aqui fortalecidas tanto quanto baste -como depois direi para se meterem em ocasiões e perigos, por grandes que sejam os desejos e determinações que tenham... É excelente doutrina esta; não é minha, senão ensinada por Deus, e assim quisera que pessoas ignorantes, como eu, a soubessem.

Porque, ainda quando uma alma se acha neste estado, não há de confiar em si mesma para sair a combater; já fará muito em se defender. Aqui tem necessidade de armas para se defender dos demônios e não tem ainda forças para pelejar contra eles e os trazer debaixo dos pés, como fazem os que estão no  estado que depois direi.

14. Este é o engano com que o demônio colhe a alma: como esta se vê tão chegada a Deus e  a diferença que há entre os bens do Céu e os da terra e vê o amor que o Senhor lhe tem mostrado, nasce-lhe desse amor, confiança e segurança de não decair do que goza.

Parece-lhe antever claro o prêmio e que já não lhe é possível deixar o que, até nesta vida, é tão deleitoso e suave, por coisa tão baixa e vil como é o deleite cá de baixo.

Com esta confiança faz-lhe o demônio perder o pouco que há de ter em si, e -como digo - mete-se em perigos e começa, com bom zelo, a dar a fruta sem conta nem medida, julgando que não tem já nada a temer de si mesma. E isto não é soberba - pois bem percebe que de si mesma não pode nada - senão pela muita confiança em Deus, mas sem discrição. Não olha a que ainda tem fracas asas. Pode sair do ninho e Deus tira-a dele para fora, mas ainda não é para voar; porque as virtudes não estão fortes, nem tem experiência para enfrentar os perigos, nem sabe o mal que faz em confiar em si.

15. Isto foi o que a mim me arruinou. E para isto, como para tudo, há grande necessidade de mestre e trato com pessoas espirituais. Bem creio eu que alma que Deus traz a este estado - se ela não deixa de tudo em tudo a Sua Majestade -, Ele não a deixará de favorecer nem a deixará perder. Mas quando cair, como tenho dito, olhe, olhe por amor do Senhor, não a engane o demônio levando-a a deixar a oração -como fez a mim - por uma falsa humildade, como já tenho dito e muitas vezes o quisera dizer.

Confie na bondade de Deus, que é maior de que todos os males que podemos fazer e não se lembra da nossa ingratidão, quando, reconhecendo o que somos, queremos voltar à Sua amizade. Nem se recorda das graças que nos tem feito para por elas nos castigar; antes ajudam a, perdoar-nos mais depressa, como a gente que já era de Sua casa e tem comido - como dizem - o seu pão.

Lembrem-se das Suas palavras e vejam o que fez comigo: mais me cansei eu de O ofender, que Sua Majestade de me perdoar. Nunca Ele se cansa de dar nem se podem esgotar Suas misericórdias; não nos cansemos nós de receber.
Seja bendito para sempre, amém, e louvem-nO todas as criaturas.