Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Putin reuniu os líderes de 15 igrejas ortodoxas e falou como um estadista com visão global tentando despertar a comunidade internacional. Recordou que se violam os direitos das minorias religiosas em todo o mundo, especialmente os dos cristãos, e que a humanidade "deve tomar medidas para freá-lo".

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Putin reuniu os líderes de 15 igrejas ortodoxas e pede ao mundo que proteja os cristãos
Putin reúne a los líderes de 15 iglesias ortodoxas y pide al mundo que proteja a los cristianosVladimir Putin, o Patriarca Kiril e outros Patriarcas ortodoxos

P. J. Gines / ReL - 26 julho 2013 - religionenlibertad.com

Vladimir Putin está há 13 anos dirigindo a Rússia. Sempre   teve como modelo o Império dos Czares, alguns elementos ilustrados de Pedro o Grande e la iconografia de Moscou como uma Terceira Roma, a que protege os cristãos ortodoxos do mundo inteiro.

Pelo motivo dos 1025 anos do "Batismo da Rússia" (o rei São Vladimir, neto de Santa Olga, cristianizou toda a Rússia original -na Ucrânia- no ano 998), o novo Vladimir  convocou os líderes das igrejas ortodoxas para reforçar seu papel como protetor dos cristãos, lamentando que a Europa e a América não façam   nada pelos cristãos perseguidos nas terras do Islã.

 Constantino convocava concílios...
Se o imperador Constantino e seus herdeiros convocaram concílios na Segunda Roma (Constantinopla), Putin representa sua liderança protetora da Terceira Roma, e chamou delegações de 15 igrejas ortodoxas auto-céfalas que somam uns 225 milhões de cristãos (a imensa maioria na Rússia, onde os praticantes são escassos: entre   2 e  5% dos ortodoxos vão à Igreja, inclusive na Páscoa).

As 15 igrejas assistentes:

- Constantinopla
- Alexandria (ortodoxos do Egito e da África, não são coptos)
- Antioquia (ortodoxos sírios)
- Jerusalém
- Geórgia
- Sérvia
- Albânia
- Romênia
- Bulgária
- Chipre
- Polônia
- Tcheca
- Eslováquia
- Grécia
- Rússia
- Igreja Ortodoxa Russa na América

Mesmo participando os Patriarcas da Rússia, Geórgia, Romênia e outros países, o Patriarca ecumênico Bartolomeu I de Constantinopla enviou só  um delegado de posição  menor.

As Igrejas ortodoxas ali reunidas decidiram emitir uma declaração alertando sobre a ameaça de desaparição dos cristãos na Síria por causa da guerra civil, sob a qual se solapa uma perseguição direta e violenta contra a minoria cristã.



Toda  Síria afeta todo Oriente
"Não devemos permitir a desolação do Oriente Médio do  ponto de vista da presença da cristandade. Isso seria uma catástrofe da civilização. Nossas origens estão ali, dali provém nossa fé", avisou o Patriarca Kiril de Moscou.

O patriarca russo recordou que no passado já houve outros casos em  que os cristãos ortodoxos foram expulsos dessa região de maioria muçulmana. E advertiu que o que ocorrer com a comunidade cristã na Síria influirá na sorte dos cristãos em todo Oriente Médio.

Rússia, exemplo de paz inter-religiosa
Putin falou como um estadista com visão global tentando despertar a comunidade internacional. Recordou que se violam os direitos das minorias religiosas em todo o mundo, especialmente os dos cristãos, e que a humanidade "deve tomar medidas para freá-lo". Mencionou "especialmente o Oriente Médio e a África do Norte".

E postulou o exemplo da Rússia como país de grande tamanho, com grande diversidade religiosa, abundância de população muçulmana e "enorme experiência em chegar a um acordo e uma paz inter-confessional", experiência que a Rússia está disposta a compartilhar.

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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A fraternidade dos "poucos": Cardeal Ratzinger

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A fraternidade dos "poucos": Cardeal Ratzinger


Nestor Mora Nunez-21 novembro 2013-religionenlibertad.com

Os limites que existem na fraternidade cristã não têm por objeto a criação de um círculo esotérico com fins próprios, mas favorecer o serviço a todos. A fraternidade cristã não está   contra a maioria, mas a seu favor. A fraternidade cristã cumpre  seu dever com a maioria, sobretudo através da missão, do ágape e do sofrimento.
Os discípulos de Jesus são poucos. Porém como Jesus sendo “um” se entregou a favor de  muitos, assim é também o encargo, dos discípulos, que têm como missão se oferecer  por “muitos”; não estar  contra eles, mas a favor deles.

Só  na relação entendida desta forma entre os ”poucos” e os “muitos” se manifesta em sua autêntica dimensão a catolicidade da Igreja. Seu número total nunca lhe fará completamente “Católica”, ou seja, universal; ao contrário, há de ser sempre um pequeno rebanho, menor do que aparenta  as estatísticas; que não fazem senão confundir, pois chamam irmãos a muitos que realmente são cristãos de nome e aparência. (Cardeal Joseph Ratzinger. A Fraternidade dos cristãos. Cap 6)

É necessário que se conscientize que de  fora da Igreja  nos veem como uma série de grupos humanos sempre em luta por seus interesses particulares. De dentro, tampouco é estranho que demos esta aparência, porque como seres humanos, nossos egoísmos e medos nos impulsionam a buscar nosso benefício. Onde está realmente a fraternidade cristã?

O Cardeal Ratzinger (Papa emérito Bento XVI) assinala vários aspectos interessantes:

A fraternidade sempre parte de uns poucos que se oferecem pelos demais.
Estes “poucos” buscam o bem de “muitos” mesmo parecendo aos muitos  que estão  contra eles.
Os três aspectos que assinalam a fraternidade são: missão, ágape e sofrimento.


Bem dizia o Cardeal Ratzinger: as estatísticas nos enganam com facilidade. Não podemos dizer que todos os batizados sejam realmente cristãos ou católicos. Não podemos dizer que todos os assistentes das missas, se sentem realmente Igreja. Não podemos pensar que as cifras substituem a santidade.

Com esta visão, as palavras de Cristo “Muitos são os chamados e poucos os escolhidos” (Mt 22, 14) cobram um novo sentido,   porque os “poucos” são necessários para que a fraternidade se constitua e os “muitos” possam se aproximar  dela e se “contagiar” de Cristo. Às vezes pensamos que a evangelização busca converter  muitos e nos decepcionamos quando vemos que são alguns poucos os que acodem à chamada.

Neste sentido creio que é interessante perguntar-nos que sentido tem a liderança dentro das comunidades cristãs.  É necessário que existam líderes? Talvez necessitemos só da liderança de Cristo e a capacidade de serviço de todos os demais.

Porém  Cristo é realmente nosso líder? Talvez não passe de ser uma referência próxima. Queremos ser nós os líderes? Queremos ser os primeiros?

“Se alguém deseja ser o primeiro, será o último de todos e o servidor de todos” (Mc 9, 35)

Também é interessante que o futuro Papa Bento, assinale o sofrimento como elemento que dá sentido a uma fraternidade. Hoje em dia rechaçamos o sofrimento em todos seus aspectos. Preferimos tomar calmantes antes de buscar sentido aos nossos sofrimentos. Sofrer é humano e nos faz humanos. Se não sofremos Somos realmente humanos?

Talvez, uma das maiores barreiras à evangelização contemporânea seja este rechaço frontal ao sofrimento. Cristo sofreu por nós até sua morte Pode ser Cristo um modelo para o ser humano que rechaça o sofrimento como parte de sua própria existência?

Nestor Mora Nunez, é autor, editor e responsável pelo Blog 'La divina proporción', alojado no espaço da web de www.religionenlibertad.com

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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Estando uma vez em oração, era tanto o deleite que em mim senti que, como indigna de tal bem, comecei a pensar que muito mais merecia estar naquele lugar que eu tinha visto preparado no inferno para mim, pois, como tenho dito, nunca esqueço o modo como ali me vi.

  LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA

  

 CAPÍTULO 40. Prossegue na mesma matéria dizendo as
grandes graças que o Senhor lhe fez. De algumas delas se
pode tirar muito boa doutrina. Conforme tem dito, a sua
principal tentativa, depois de obedecer, tem sido de escrever as
graças que são para proveito das almas. Com este capítulo
acaba a narração que escreveu da sua vida. Seja para glória
do Senhor.

1. Estando uma vez em oração, era tanto o deleite que em mim senti
que, como indigna de tal bem, comecei a pensar que muito mais
merecia estar naquele lugar que eu tinha visto preparado no inferno
para mim, pois, como tenho dito, nunca esqueço o modo como ali
me vi.

Com esta consideração, começou a inflamar-se mais a minha alma e
veio-me um arrebatamento. de espírito, de modo que o não sei dizer.
Pareceu-me que o meu espírito estava metido e cheio daquela
Majestade que tenho entendido de outras vezes. Nesta Majestade
deu-se-me a entender uma verdade que é complemento de todas as
verdades; mas não sei dizer como, porque nada vi?

Disseram-me, sem ver quem tinha sido, mas bem entendi ser a
mesma Verdade: Não é pouco isto que faço por ti; é uma das coisas
em que muito me deves; porque todo o dano que vem ao mundo é
de não se conhecerem as verdades da Escritura com clara verdade,
da qual não ficará um til por cumprir.

Pareceu-me, a mim, que nisto sempre eu tinha acreditado e que
todos os fiéis o creem. Disse-me porém: Ai, filha, quão poucos me
amam com verdade. Se Me amassem, não lhes encobriria eu meus
segredos. Sabes o que é amar-Me com verdade? É compreender
que. tudo quanto Me não é agradável a Mim é mentira, Com clareza
verás isto que agora não entendes, pelo fruto que sentires em tua
alma.

2. E assim o tenho visto, seja o Senhor louvado, que então para cá,
parece-me tanta vaidade e mentira tudo o que eu vejo que não vai
dirigido ao serviço de Deus, que eu não saberia dizer até que ponto
o entendo, e a lástima que me fazem os que vejo em trevas a
respeito desta verdade.

Com isto vieram-me outros lucros que agora
direi, ainda que muitos não saberei dizer. Disse-me aqui o Senhor
uma particular palavra de grandíssimo favor.' Eu não sei como isto
foi, porque nada vi; mas fiquei de sorte que tão pouco sei dizer, com
uma grandíssima fortaleza, e isto muito deveras, para cumprir com
todas as minhas forças a mais pequena parcela da Escritura divina.
Parece-me que nenhuma coisa se me poria diante que eu não
padecesse por isto.

3. Desta divina Verdade .que se me representou, sem saber como
nem quê, ficou-me impressa uma verdade que me faz ter um novo
acatamento a Deus, porque dá um conhecimento de Sua Majestade e
do Seu poder e isto de uma maneira que não se pode dizer. Sei
somente entender que é grande coisa um tal dom.

Ficou-me uma grandíssima vontade de não falar senão em coisas
muito verdadeiras que estejam acima do trato que se usa aqui no
mundo; e assim comecei a ter pena de viver nele. Deixou-me esta
mercê com grande ternura, deleite e humildade. Parece-me, sem
entender como, que o Senhor me deu aqui muito. Não me ficou
suspeita alguma de que fosse ilusão.

Nada vi, mas compreendi o grande bem que há em não fazer caso de
coisa que não seja para nos achegarmos mais a Deus, e assim
entendi o que é andar uma alma na verdade diante da mesma
Verdade. Isto, que entendi, é dar-me o Senhor a entender que Ele é a
mesma Verdade.

4. Compreendi tudo isto que tenho dito, falando-me Ele algumas
vezes, e outras sem me falar, deram-se-me a entender algumas com
mais claridade do que as que se me diziam por palavras. Aprendi
grandíssimas verdades sobre esta Verdade, até mais do que se
muitos letrados mo tivessem ensinado. Parece-me que de nenhum
modo eles mo poderiam imprimir assim no espírito, nem tão
claramente se me daria a entender a vaidade deste mundo.

Esta Verdade, que digo se me deu a entender, é em si mesma
verdade e não tem princípio nem fim, e todas as demais verdades
dependem desta Verdade, como todos os demais amores deste
Amor e todas as demais grandezas desta Grandeza. Isto vai, no
entanto, obscuro em comparação da claridade com que o Senhor
quis que se me desse a entender. E como resplandece o poder desta
Majestade, pois em tão breve tempo deixa tão grande lucro e tais
coisas impressas na alma!
Oh! Grandeza e Majestade minha! Que fazeis, Senhor meu Todo poderoso?

Vede a quem fazeis tão soberanas graças! Não Vos
recordais que esta alma foi um abismo de mentiras e um mar de
vaidades, e tudo por minha culpa; e apesar de me terdes dado por
natureza de aborrecer o mentir, eu mesma me forcei a tratar em
muitas coisas com mentira? Como se sofre, Deus meu, como se
compadece tão grande favor e graça com quem tão mal vo-Lo tem
merecido?

5. Estando uma vez nas Horas com todas as irmãs, de repente se
recolheu minha alma, e pareceu-me ser toda ela como um claro
espelho. Não havia costas, nem lados, nem alto, nem baixo que não
fosse tudo claridade; e no centro dela se me representou Cristo
Nosso Senhor, como O costumo ver. Parecia-me que em todas as
partes da minha alma O via tão clara- mente como num espelho, e
esse espelho - não sei dizer como - também se esculpia todo no
mesmo Senhor por uma comunicação muito amorosa que eu não
saberei explicar.

Sei que esta visão me serve de grande proveito de cada vez que dela
me recordo, em especial quando acabo de comungar: Deu-se-me a
entender que, estar uma alma em pecado mortal, é cobrir-se este
espelho de densa névoa e ficar muito negro, e assim nele não se
pode refletir, nem ver este Senhor, embora esteja sempre presente
dando-nos o ser.

Com os hereges é como se o espelho, estivesse
quebrado, o que é muito pior que obscurecido. É muito diferente, o
como se vê, do como se diz, porque mal se pode dar a entender. Mas
tem-me feito muito proveito e grande pesar das vezes que, com
minhas culpas, obscureci a minha alma de modo, a não ver este
Senhor.

6. Parece-me proveitosa esta visão às pessoas que, se dão ao
recolhimento, para as ensinar a considerar o Senhor no mais íntimo
da sua alma. Esta consideração prende mais e é muito mais frutuosa
do que considera-'O fora de si, como de outras vezes tenho dito.

Nalguns livros de oração está escrito que é onde se há de buscar a
Deus; em especial o diz o glorioso Santo Agostinho, que nem nas
praças nem nos conventos, nem em parte alguma onde O buscava,
O encontrava, como dentro de si. E isto é claramente o melhor, pois
não é necessário ir ao Céu, nem procurar mais longe nem fora de
nós mesmos; porque é cansar o espírito e distrair a alma, e não com
tanto fruto.

7. Uma coisa quero advertir aqui, para se alguém a tiver, que
acontece nos grandes arroubamentos.. Passado aquele momento
em que a alma está em união (que tem as potências totalmente
absortas, e isto dura pouco como tenho dito), acontece ficar a alma
recolhida e até sem poder voltar a si no exterior, mas as duas
potências, memória e entendimento, ficam quase com frenesi,
muito desatinadas. Isto, digo, acontece algumas vezes,
especialmente nos princípios. Penso que isto procede de não poder
sofrer a nossa fraqueza natural tanta força de espírito e enfraquece a
imaginação.

Sei que isto sucede a algumas pessoas. Parecer-me-ia
bom que se esforçassem a deixar, por então, a oração e a tivessem
em outra altura, recuperando assim aquele tempo de oração que
perdem, mas que não seja por junto, porque daí poderá advir muito
mal. Disto há experiência e de quão acertado é olhar ao que pode a
nossa saúde.

8. Em tudo é preciso experiência e mestre porque, chegada a alma a
estes termos, oferecer-se-ão muitas coisas em que é preciso ter com
quem o tratar. E, se buscando mestre não o achar, o Senhor não lhe
faltará, pois não me faltou a mim sendo eu a que sou. Porque creio
haver poucos que tenham chegado a ter experiência de tantas
coisas; e se não a têm, debalde dão remédio à alma sem a inquietar
e afligir.

Mas isto também tomará o Senhor em conta, e assim o
melhor é tratá-lo (como já tenho dito de outras vezes, e, até mesmo
tudo quanto agora digo, que não me lembro bem se já o disse
porquanto, vejo que importa muito), em especial se são mulheres
que tratem estas coisas com o confessor. E há muitas mais
mulheres de que homens a quem o Senhor faz estas mercês, e isto
ouvi ao santo Frei Pedro de Alcântara (e também o tenho visto eu)
que dizia que, neste caminho, aproveitavam elas muito mais que os
homens, e dava disto excelentes razões, que não há para que dizê-las
aqui, todas em favor das mulheres.

9. Estando uma vez em oração, representou-se-me muito
brevemente (sem ver coisa alguma formada, mas foi representação
feita com toda a clareza) como se vêem em Deus todas as coisas e
como Ele as contém todas em Si. Saber escrever como isto foi, eu
não sei, mas ficou muito impresso na minha alma, e é uma das
grandes graças que o Senhor me tem feito e das que mais me
fizeram confundir e envergonhar, recordando-me os pecados que
cometi.

Creio que, se o Senhor fosse servido de que eu visse isto noutros
tempos, e que o vissem os que O ofendem, não teriam coração nem
atrevimento para o fazer. Pareceu-me [ter, visto o que, segue] sem
eu poder, no entanto, afirmar que vi alguma coisa; digo-o desde já.

Qualquer coisa sé deve ver porém, pois eu poderei dar esta
comparação; mas é por modo tão sutil e delicado, que o
entendimento não o deve alcançar, ou será que eu não me sei
entender nestas visões, que não parecem imaginárias, e em
algumas, alguma coisa de imagem deve haver. Mas, como é estando
a alma em arroubamento, as potências não o sabem depois
reproduzir como ali: o Senhor lho representa e quer que o gozem.

10. Digamos, pois, que a Divindade é como um muito claro diamante,
muito maior que todo o mundo, ou como um espelho - conforme
disse da alma na outra visão, à exceção de ser por um modo tão
sublime; que eu não o saberei encarecer - e que tudo o que fazemos
se vê neste diamante, sendo ele de maneira que encerra tudo em si,
porque não há nada que saia fora desta grandeza. Coisa espantosa
foi para mim ver, em tão breve espaço, tantas coisas juntas neste
claro diamante, e lastimosíssima coisa é, cada vez que me recordo,
ver que coisas tão feias; como eram meus pecados, se refletiam
naquela límpida claridade.

E assim é que, quando me recordo, não
sei como o posso suportar, e fiquei então tão envergonhada que me
parece não sabia onde me meter.

Oh! quem pudesse dar isto a entender aos que muito desonestos è
feios pecados fazem, para que se lembrem que não são ocultos e
que, com razão, os sente Deus, e pois tão em presença de Sua
Majestade eles se fazem, e tão desacatadamente nos  vemos
diante d'Ele!

Vi com quanta razão se merece o inferno por um só pecado mortal;
porque não se pode entender quão gravíssima coisa é cometê-lo
diante de tão grande Majestade, e como são alheias, a quem Ele é,
coisas semelhantes. E assim se vê mais a Sua misericórdia, pois
conhecendo nós tudo isto, Ele nos sofre.

11. Isto tem-me feito considerar que, se uma visão como esta assim
deixa espantada a alma, o que será o dia do juízo, quando esta
Majestade claramente se nos mostrar e virmos as ofensas que Lhe
temos feito? Oh! Valha-me Deus, que cegueira, esta que eu .tenho
trazido! Muitas vezes me tenho espantado disto que tenho escrito, e
não se espante V Mercê, senão de como ainda vivo vendo estas
coisas e vendo-me a mim. Seja bendito para sempre Quem tanto me
tem sofrido.

12. Estando uma vez em oração com muito recolhimento, suavidade
e quietude, parecia-me estar rodeada de anjos e muito perto de
Deus. Comecei a suplicar a Sua Majestade pela Igreja. Deu-me a
entender o grande proveito que, nos últimos tempos, há de fazer
uma Ordem e a fortaleza com que seus filhos hão de sustentar a Fé.

13. Estando uma vez rezando perto do Santíssimo Sacramento,
apareceu-me um Santo cuja Ordem tem estado um tanto decaída:
Tinha nas mãos um grande livro, abriu-o e disse-me que lesse umas
letras, que eram grandes e muito legíveis e diziam assim: Nos
tempos vindouros florescerá esta Ordem; haverá muitos mártires.

14. Outra vez, estando no Coro em Matinas, representaram-me e
se puseram diante dos olhos seis ou sete religiosos que me parece
seriam desta mesma Ordem; com espadas na mão. Penso que nisto
se dá a entender que hão-de defender a Fé; porque, de outra vez,
estando em oração,  me arrebatou o espírito e pareceu-me estar
num grande campo onde muitos combatiam, e estes, os desta
Ordem, pelejavam com grande fervor. Tinham os rostos formosos e
abrasados e deitavam muitos por terra, vencidos, e a outros
matavam. Parecia-me que esta batalha era contra os hereges.

15. A este glorioso Santo tenho visto algumas vezes, e tem-me dito
algumas coisas, e agradecido a oração que faço pela sua Ordem e
prometido de me encomendar ao Senhor. Não declaro as Ordens,
para que não se agravem outras; se o Senhor for servido que se
saiba, Ele o declarará. Mas cada Ordem, ou cada membro de per si,
havia de procurar que, por seu meio fizesse o Senhor tão ditosa a
sua Ordem que, em tão grande necessidade, como agora tem a
Igreja, a servissem. Ditosas vidas que nisto se acabarem!

16. Pediu-me, uma vez, uma pessoa, que suplicasse eu a Deus lhe
desse a entender se seria do Seu serviço aceitar um bispado. Disse-me
o Senhor, acabando eu de comungar: Quando entender com toda
a verdade e clareza que o verdadeiro senhorio é não possuir coisa
alguma, então o poderá aceitar, dando a entender que, quem tiver de
ter prelazias, há-de estar muito longe de as desejar e querer, ou, pelo
menos, não as há de procurar.

17. Estas graças e outras muitas tem feito o Senhor e faz
sempre a esta pecadora que, parece-me, não há necessidade de as
dizer, pois pelo já dito se pode conhecer minha alma e o espírito que
o Senhor me tem dado. Seja bendito para sempre, que tanto cuidado
tem tido de mim!

18. Disse-me Ele uma vez, consolando-me com muito amor, que não
me afligisse, pois nesta vida não podíamos estar sempre num
mesmo estado. Umas vezes teria fervor e outras vezes estaria sem
ele; umas com desassossego e outras com quietude e tentações,
mas que esperasse n'Ele e não temesse.

19. Estava eu um dia pensando se seria apego o gostar de estar com
as pessoas com quem trato da minha alma e ter-lhes amor, e aos
que vejo muito servos de Deus, pois me consolava com eles. Disse-me
o Senhor que, se a um enfermo, que está em perigo de morte,
julga que lhe dá saúde um médico, não é virtude deixar de lhe
agradecer e de não lhe ter amizade. Que teria eu feito se não fosse
pela ajuda destas pessoas? A conversação dos bons não danifica,
mas que as minhas palavras fossem sempre pesadas e santas, e não
deixasse de tratar com eles, pois antes me seria de proveito que
dano.

Consolou-me isto muito, porque algumas vezes parecendo-me
apego, quereria não os tratar de todo. Sempre, em todas as coisas,
me aconselhava este Senhor, até dizer-me como me havia de haver
com os fracos e com algumas pessoas. Jamais se descuida de mim.

20. Algumas vezes estou aflita de me ver de tão pouco préstimo em
Seu serviço e de ver que, por força, hei de ocupar mais tempo do
que queria, com corpo tão fraco e ruim como é o meu. Estava eu
uma vez em oração e chegou a hora de ir dormir. Estava com muitas
dores, esperava pelo vômito do costume. Como me vi tão atada por
mim mesma e o espírito, por outra parte, querendo tempo para si, vi-me
tão atribulada, que comecei a chorar muito e a afligir-me.

Isto não foi só uma vez, mas muitas - como digo - que me dava, me
parece, uma tal zanga contra mim mesma, que então me aborreço
em forma. Mas o normal é entender de mim que não tenho
aborrecimento nem falto ao que vejo me é necessário. E praza ao
Senhor que não tome muito mais do que é preciso, que é o que eu
farei.

Desta vez que digo, estando nesta pena, me apareceu o Senhor e me
consolou muito e me disse que fizesse eu estas coisas por amor
d'Ele e passasse por elas, pois a minha vida era agora necessária. E
assim me parece que nunca me vi em pena, depois que estou
determinada a servir com todas as minhas forças a este Senhor e
Consolador meu, que, embora me deixasse padecer um pouco, não
me consolasse, de maneira que não faço nada em desejar trabalhos.

E assim, agora me parece que não tenho razão para viver senão para
isto. E é o que de melhor vontade peço a Deus, e digo-Lhe, algumas
vezes, com toda ela: Senhor, ou morrer ou padecer; não Vos peço
outra coisa para mim. Dá-me consolo ouvir o relógio, porque me
parece que isso me aproxima um pouquinho mais de ver a Deus, pois
vejo já passada aquela hora da vida.

21. Outras vezes estou de modo que nem me sinto viver, nem me
parece ter vontade de morrer. Mas estou com uma tibieza e
escuridão em tudo, como disse, que tenho muitas vezes, por causa
de grandes trabalhos. E tendo o Senhor querido que se saibam em
público estas graças que Sua Majestade me faz, como me disse há
alguns anos, que haviam de ser, isto me afligiu muito e até agora
não tenho padecido pouco, como V. Mercê sabe, porque cada um o
toma como lhe parece.

Consolação me tem sido, todavia, o não ser
por minha culpa; porque, em não o dizer senão a meus confessores
ou a pessoas que eu sabia por eles que o sabiam, tenho tido grande
e extremo cuidado. Não por humildade; senão porque, como tenho
dito, até aos mesmos confessores me dava pesar dizê-lo.

Agora, graças a Deus, embora muito de mim murmurem com bom
zelo, outros temam tratar comigo, mesmo confessar-me, e outros me
digam muitas coisas, como vejo que por este meio quis o Senhor
dar remédio a muitas almas (porque isto tenho eu visto claramente,
e me recordo do muito que por uma só passaria o Senhor) muito
pouco se me dá de tudo dó que de mim dizem.

Não sei se para isto contribuiu o ter-me Sua Majestade metido neste
rincãozinho tão encerrado e onde já pensei que, como de coisa morta,
não haveria mais memória de mim. Mas não tem sido tanto como eu
quisera; pois forçoso é ter de falar com algumas pessoas; porém,
como estou onde me não vêem, parece que foi o Senhor servido de
me trazer a um porto, que espero em Sua Majestade, será seguro.

22 . Por estar já fora do mundo, e entre pouca e santa companhia
olho como de alto e já bem pouco se me dá do que,digam ou se
saiba. Em mais teria eu, se uma alma aproveitasse um pouquinho, do
que tudo quanto de mim se possa dizer. Depois que estou aqui, tem
o Senhor sido servido que todos os meus desejos parem nisto. E
tem-me dado como que uma espécie de sono na vida, que quase
sempre me parece que estou sonhando o que vejo. Nem
contentamento, nem pena, que seja muita, vejo em mim. Se algumas
coisas me dão alguma pena, passa com tanta brevidade que, eu me
maravilho e o sentimento que deixa é como uma coisa que se
sonhou.

E isto é pura verdade, porque, embora eu depois me queira alegrar
com aquele contento, ou ter pesar daquela pena, não está na minha
mão; assim como não estaria na de uma pessoa discreta o ter pesar
ou glória dum sonho que sonhou. É que o Senhor já despertou a
minha alma daquilo que, por eu não estar mortificada e morta às
coisas do mundo, me tinha feito sentimento, e Sua Majestade não
quer que ela se torne a cegar.

23. Desta maneira vivo agora, Senhor e Pai meu. Suplique V.
Mercê a Deus que me leve para Si ou me dê em que O sirva. Praza à
Sua Majestade que isto que aqui vai escrito faça algum proveito a V.
Mercê, pois, pelo pouco tempo que tenho, foi feito com trabalho.
Mas ditoso trabalho, se acertei a dizer alguma coisa pela qual uma
vez se louve o Senhor; que com isto me daria por paga, embora V.
Mercê logo o queime.

24. Não quereria, no entanto, que o fizesse sem que isto vissem as
três pessoas que V. Mercê sabe, pois são e têm sido confessores
meus. E se isto vai mal, é bem que percam a boa opinião que têm de
mim. Se vai bem, são bons e letrados; sei que verão de onde me vem
è louvarão a Quem por mim o disse.

Sua Majestade tenha sempre a V. Mercê de Sua mão e o faça um tão
grande santo que, com sua luz e espírito, alumie esta miserável,
pouco humilde e muito atrevida, que ousou determinar-se a escrever
coisas tão subidas. Praza ao Senhor não tenha eu nisto errado,
tendo intenção e desejo de acertar e obedecer e que, por meu
intermédio, se louvasse em alguma coisa ao Senhor, que é o que há
muitos anos Lhe suplico. E, como me faltam para isto as obras,
atrevi-me a pôr aqui por ordem esta minha desbaratada vida, embora
não tenha empregado nisto mais cuidado, nem mais tempo do que
tem sido preciso para escrevê-la, pondo apenas o que por mim tem
passado com toda a lisura é verdade que tenho podido.

Praza ao Senhor, pois é poderoso e, se quer, pode, querer que em
tudo eu acerte a fazer a Sua vontade, e não permita Sua Majestade
se perca esta alma que, com tantos artifícios e maneiras, e tantas
vezes, tem tirado do inferno e trazido a Si. Amém.


sábado, 9 de novembro de 2013

Ele apareceu-me como de outras vezes e começou a mostrar-me a chaga da mão esquerda, e com a outra arrancava um grande cravo que nela tinha metido. Parecia-me que, ao arrancá-lo, arrancava a carne.


LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE ÁVILA

   

CAPÍTULO 39. Prossegue na mesma matéria das grandes
graças que lhe tem feito o Senhor e como lhe prometeu
favorecer as pessoas por quem ela lhe pedisse. Diz algumas
coisas assinalados nas quais Sua Majestade lhe tem feito este
favor.

1. Estando uma vez importunando muito ao Senhor para que desse
vista, a uma pessoa que a tinha quase de todo perdida, e a quem eu
devia, obrigações e por ela sentia grande dó, temia que, por meus
pecados, o Senhor não me ouvisse. Ele apareceu-me como de
outras vezes e começou a mostrar-me a chaga da mão esquerda, e
com a outra arrancava um grande cravo que nela tinha metido.
Parecia-me que, ao arranca-lo, arrancava a carne. Via-se bem a
grande dor que muito me condoía, e disse-me, que não duvidasse de
que, quem aquilo havia passado por mim, melhor faria o que eu Lhe
pedisse. Já sabia que nada Lhe pediria, senão o que fosse conforme
à Sua glória, e assim faria isto que agora pedia. Advertisse a que,
mesmo quando não O servia, hão Lhe pedira coisa que Ele não ma
tivesse feito melhor de que eu a soubera pedir. Quanto mais o faria
então agora que sabia que O amava. Não duvidasse disto.
Não creio passassem oito dial que o Senhor não voltasse a dar vista
àquela pessoa. Isto soube-o logo o meu confessor. Bem pode ser
que não fosse por minha oração, mas, como eu tinha tido esta visão,
ficou-me uma, certeza de que era por mercê feita a mim; dei graças a
Sua Majestade.

2. Outra vez estava uma pessoa muito mal de uma enfermidade
muito penosa que, por não saber de que natureza, não a nomeio
aqui. Era coisa incomportável o que padecia, havia já dois meses.
Estava num tormento que se despedaçava. Foi vê-Ia o meu
confessor, que era o Reitor de quem tenho falado, e causou-lhe
grande lástima e disse-me que de todo o modo a fosse ver, pois era
pessoa a quem o podia fazer, por ser meu parente. Fui e comovi-me
a ponto de ter tanta compaixão dele, que comecei a pedir
importunamente a sua saúde ao Senhor. Nisto vi claramente, sem
me ficar qualquer dúvida, a mercê que me fez; porque logo, no outro
dia, estava de todo bom daquela dor.

3. Estava, uma vez, com grandíssimo pesar, porque sabia que uma
pessoa, a quem eu devia muitas obrigações, queria fazer uma coisa
muito contra Deus e a sua própria honra, e estava já muito
determinada a isso. Era tanta a minha aflição que não sabia que
fazer; remédio para que desistisse, parecia já não haver. Supliquei a
Deus, muito do coração, que lho desse, mas, enquanto o não via,
não se podia aliviar a minha pena.

Fui-me, nesta aflição, a uma ermida bem apartada, que as há neste
mosteiro, e estando eu numa onde está Cristo atado à coluna,
suplicando-Lhe que me fizesse esta mercê, ouvi que me falava uma
voz muito suave, como envolta num silvo. Eu arrepiei-crie toda, pois
me causou temor. Quisera eu entender o que me dizia, mas não
pude.

Passou muito rapidamente. Passado o meu temor, que foi
breve, fiquei com um sossego e gozo e deleite interior, que me
espantei, pois, só o ouvir uma voz (que isto ouvi-o e com os ouvidos
corporais, e sem entender palavra) produzisse tanto na alma. Por
isto, vi que se havia de fazer o que pedia, e assim foi que se me tirou
de todo a pena em coisa que ainda não era, tal como se já o visse
feito, como foi depois. Disse-o a meus confessores, que tinha então
dois, bem letrados e servos de Deus.

4. Sabia que uma pessoa que se determinara a servir muito deveras
a Deus e tido alguns dias oração, na qual Sua Majestade lhe fazia
muitas mercês, a tinha deixado por certas ocasiões bem perigosas
que teve, e das quais ainda não se apartara. A mim deu-me isto
grandíssima pena, por ser pessoa a quem eu queria e devia muito.
Creio que foi mais de um mês que eu não fazia senão suplicar a
Deus que tornasse esta alma para Si.

Estando um dia em oração, vi um demónio ao pé de mim que, com
muita raiva, fez em pedaços uns papéis que tinha na mão. A mim
deu-me, isto um grande consolo, pois me pareceu que se havia feito
o que eu pedia; assim foi, pois soube mais tarde que tinha feito uma
confissão com grande contrição e voltou tão deveras para Deus que,
espero em Sua Majestade, há-de ir sempre muito adiante. Seja
bendito por tudo. Amen.

5. Isto, de Nosso Senhor tirar almas de pecados graves por eu Lho
suplicar, e trazer outras a mais perfeição, acontece muitas vezes.
Quanto a tirar almas do Purgatório e outras coisas assinaladas, são
tantas as mercês que o Senhor me tem feito, e muitas mais a favor
da, saúde das almas que dos corpos que seria cansar-me e cansar a
quem as lesse, se as houvesse de dizer todas. Isto tem sido coisa
muito conhecida e há bastantes testemunhas. Logo, dava-me muito
escrúpulo, porque não podia deixar de crer que o Senhor o fazia por
minha oração -deixemos o principal de ser só por Sua bondade -
mas são já tantas as coisas e tão vistas por outras pessoas, que não
me dá pena crê-lo e louvo a Sua Majestade. Fico porém confusa,
porque vejo que sou mais devedora, e faz-me - a meu parecer -,
crescer o desejo de O servir e aviva-se o amor. E o que mais me
espanta é que, quando o Senhor vê que as coisas não convêm, eu
não posso, embora queira, suplicar-Lhas, senão com tão pouca
força, espírito e cuidado que, por mais que eu me queira esforçar, éme
impossível fazê-lo como em outras coisas que Sua Majestade háde
fazer, que então vejo que Lhas posso pedir muitas vezes e com
grande importunação; embora eu não traga este cuidado, parece que
mas fazem ter presentes diante de mim.

6. É grande a diferença entre estas duas maneiras de pedir. Não sei
como o declarar; porque umas coisas, embora peça (pois não deixo
de esforçar-me no suplicá-las ao Senhor, ainda que não sinta em
mim aquele fervor como em outras, e por muito que me digam
respeito), é como quem tem travada a língua que, embora queira
falar, não pode e, mesmo que fale, é de modo que vê que não o
entendem; ou como quem fala claro e desembaraçadamente a quem
vê que de boa vontade o está ouvindo O primeiro, digamos agora,
pede-se como em oração vocal; e o outro em contemplação tão
subida, que o Senhor se representa de maneira que se entende que
Ele nos entende, e que Sua Majestade Se alegra de que Lho
peçamos e de nos fazer mercê.

Seja bendito para sempre, que tanto dá e tão pouco Lhe dou eu.
Porque, que faz, Senhor meu, quem de todo se não desfaz por Vós?
E quanto, quanto, quanto - e outras mil vezes o posso dizer -, me
falta para isto! Por isso não havia de querer viver, ainda que haja
outras causas, porque não vivo conforme ao que Vos devo. Com
quantas imperfeições me vejo! Com que frouxidão em servir-Vos! É
certo que, algumas vezes, me parece quereria estar sem sentir, para
não entender tanto mal de mim. Ele, que pode, que o remedeie!

7. Estando eu em casa daquela Senhora que já disse, tinha
necessidade de andar com cuidado a considerar sempre a vaidade
que trazem consigo todas as coisas da vida, porque era muito
estimada e muito louvada e ofereciam-se-me assim muitas coisas a
que bem me poderia apegar, se olhasse a mim mesma; mas olhava
Aquele que possui a verdadeira visão de tudo, a fim de não me
deixar de Sua mão...

8. Agora que falo de "verdadeira visão", lembro-me dos grandes
trabalhos que passam (as pessoas a quem Deus tem dado a
conhecer o que é a verdade), em tratar nestas coisas da terra, onde
ela tanto se encobre, como o Senhor me disse uma vez. Que muitas
coisas das que escrevo aqui não são de minha cabeça, senão que
mas dizia este meu Mestre celestial. E assim, nas coisas em que
digo assinaladamente: «isto entendi», ou «isto me disse o Senhor»,
faz-me grande escrúpulo pôr ou tirar uma só sílaba que seja.

Quando de tudo não me recordo bem exactamente, vai como coisa
dita por mim, ou porque também algumas o serão. Não chamo meu
ao que é bom, pois já sei não há coisa em mim que o seja, senão o
que, tão sem eu o merecer, metem dado o Senhor; assim chamo
«dito por mim», o que não me foi dado a entender em revelação.

9. Mas, ai, Deus meu! e como até nas coisas espirituais queremos
muitas vezes julgar as coisas pelo nosso parecer e muito torcidas da
verdade, tal como nas do mundo! E julgamos que havemos de medir
o nosso aproveitamento pelos anos que temos de algum exercício
de oração e até parece que queremos pôr limite Aquele que, sem
medida alguma, dá os Seus dons quando quer, e pode dar em meio
ano mais a uma alma do que a outra em muitos! E isto é coisa tão
vista por mim em muitas pessoas, que eu me espanto como nos
podemos deter nisto.

10. Creio bem que não cairá neste engano quem tiver talento de
conhecer espíritos e lhe tenha dado o Senhor humildade verdadeira.
Este julga pelos efeitos e determinação e amor, e dá-lhe o Senhor luz
para que isto conheça.

E nisto olha ao adiantamento e
aproveitamento das almas, e não aos anos, pois, em meio ano, pode:
um ter alcançado mais de que outro em vinte; porque, como digo, dá
o Senhor a quem quer e ainda a quem melhor se dispõe. Porque vejo
agora vir para esta casa umas donzelas que são de pouca idade e,
em tocando-as Deus e dando-lhes um pouco de luz e amor - digo
naquele pouco de tempo em que lhes fez algum regalo - não O
fizeram esperar, nada se lhes pôs diante, pois, sem se lembrarem do
comer, se encerram para sempre em casa sem renda, como quem
não estima a vida senão por Aquele que sabem que lhes tem amor.

Deixando tudo, não querem ter vontade, nem se lembram do que se
podem desgostar em tanto encerramento e austeridade. Todas
juntas se oferecem a Deus em sacrifício.

11. Quão de boa vontade lhes dou eu aqui a vantagem e devia andar
envergonhada diante de Deus! Porque o que Sua Majestade não
acabou de conseguir de mim em tanta multidão de anos como os
que há desde que comecei a ter oração e Ele a fazer-me mercês,
consegue delas em três meses - e até com alguma em três dias -,
com fazer-lhes muitas: menos de que a mim, embora bem lhes
pague Sua Majestade. Bem certo é, porém, que não estão
descontentes pelo que têm feito por Ele.

12. Para isto quereria eu que nos recordássemos dos muitos anos,
os que os temos de profissão e as pessoas que os têm de oração, e
não para afligir aos que, em pouco tempo, vão mais adiante, fazendoos
voltar atrás, para que andem a nosso passo; e, aos que voam
como águias, com as mercês que Deus lhes faz, queremo-los fazer
andar como frangofrango, travado, mas ponhamos os olhos em Sua
Majestade, e se os virmos com humildade, é largar-lhes as rédeas,
que o Senhor, que lhes faz tantas mercês, não deixará que se
despenhem.

Eles entregam-se confiadamente a Deus, pois para isto
lhes aproveitam as verdades que conhecem da fé; e não os havemos
nós de fiar a Ele, senão que os queremos medir pela nossa medida,
conforme aos nossos baixos ânimos? Não assim; mas, se não
alcançamos seus grandes efeitos e determinações, que sem
experiência mal se podem entender, humilhemo-nos e não os
condenemos; porque, parecendo que olhamos ao seu proveito, o
tiramos a nós mesmos e perdemos esta ocasião que o Senhor nos
proporciona para nos humilharmos e vermos o que nos falta. Quanto
mais desapegadas e unidas a Deus devem estar essas almas do que
as nossas, pois Sua Majestade tanto se chega a elas!

13. Não entendo outra coisa nem quereria entender, senão que
oração de pouco tempo que produz efeitos muito grandes que logo
se percebem (pois é impossível deixar tudo só para contentar a
Deus, sem grande força de amor), mais a quisera eu do que a de
muitos anos, em que a alma nunca acabou por se determinar mais
no último dia do que no primeiro, a fazer por Deus coisa que não
seja nada, a menos que umas coisitas miúdas como sal, que não
têm peso nem tomo - que parece um pássaro as levará no bico - as
tenhamos por grande efeito e mortificação; é que fazemos caso de
certas coisas que fazemos pelo Senhor, que é lástima nos
apercebamos delas, ainda que se fizessem muitas.

Eu sou assim e a cada passo esquecerei as mercês. Não digo eu que
Sua Majestade não as terá em muito, porque é bom; mas quisera eu
não fazer caso delas, nem ver que as faço, porquanto não são nada.

Mas perdoai-me, Senhor meu, e não me culpeis, pois com alguma
coisa me hei-de consolar, visto que em nada Vos sirvo. Se em coisas
grandes Vos servira, não faria caso das ninharias. Bem-aventuradas
as pessoas que Vos servem com obras grandes! Se, o ter-lhes eu
inveja e desejar imitá-las se me leva em conta, não ficarei muito
atrás em contentar-Vos; mas não valho nada, Senhor meu. Ponde
Vós em mim o valor, pois tanto me amais.

14. Tendo chegado um destes dias um Breve de Roma, a fim de que
este mosteiro não possa possuir renda, acabou-se de todo a
fundação que, me parece, custou algum trabalho. E aconteceu-me
que, estando eu consolada de o ver assim concluído e pensando
nos trabalhos que tinha tido e louvando o Senhor, que de algum
modo se havia querido servir de mim, comecei a pensar em tudo
quanto tinha passado. Assim, em cada uma das coisas em que
parecia eu ter feito algo, achava muitas faltas e imperfeições e, às
vezes, pouco ânimo e muito pouca fé. É que até agora, eu nunca
acabava de crer determinadamente que se havia de cumprir tudo
quanto o Senhor me disse que se faria desta casa; mas tão pouco o
podia duvidar.

Não sei como era isto. Por um lado, me parecia
muitas vezes impossível e, por outro, não podia duvidar, digo, crer
que não se havia de fazer. Enfim, achei que era o Senhor que, de Sua
parte, tinha feito o bem, e o mal que era da minha. E assim deixei de
pensar nisso, e quisera não se me recordasse, para não tropeçar
com tantas faltas minhas. Bendito seja Ele que de todas tira o bem
quando é servido. Amen.

15. Digo pois que é perigoso ir contando os anos que se têm tido de
oração, porque, embora haja humildade, penso que pode ficar um
não sei quê de parecer que se merece alguma coisa pelos serviços
feitos. Eu não digo que não o merecem, e ser-lhes-á bem pago; mas
qualquer pessoa espiritual a quem parecer que, pelos muitos anos
de oração, merece estes regalos de espírito, eu tenho por certo que
não subirá ao cume dele.

Não é já muito que haja merecido que a
tenha Deus de Sua mão para não O ofender como fazia antes de ter
oração, senão que Lhe ponha pleito pelos seus dinheiros, como
dizem? Não me parece isto profunda humildade. Bem pode ser que
seja; mas eu tenho-o por atrevimento, pois, apesar de ter pouca
humildade, não me parece ter-me jamais atrevido a isto. Bem pode
ser que, como nunca O servi, nunca o tenha pedido; que porventura,
se O tivesse servido, quisera mais de que todos que o Senhor mo
pagasse.

16. Não digo que a alma não vá crescendo e que Deus não lhe dará a
paga se a sua oração tem sido humilde; mas que se olvidem estes
anos, pois tudo quanto podemos fazer é asco, em comparação de
uma gota de sangue que o Senhor por nós derramou. E se servindo-
O mais, ficamos mais devedores, que é isto que pedimos, pois se
pagamos um maravedi da dívida, nos tornam a dar mil ducados? Por
amor de Deus, deixemos estes juizos, que são Seus. Estas
comparações sempre são más, ainda mesmo em coisas de cá de
baixo. Que será pois no que só Deus sabe, e isto mostrou-o bem Sua
Majestade quando pagou tanto aos últimos como aos primeiros?

17. Escrevi estas três folhas por tantas vezes e em tantos dias -
porque tive e tenho, como disse, pouco vagar - que me ia
esquecendo do que comecei a dizer. Era esta visão.

Vi-me, estando em oração, sozinha num grande campo, e em redor
de mim muita gente de modos diversos que me cercava. Todos, me
parece, tinham armas nas mãos para me agredir: uns, lanças;
outros, espadas; outros, adagas e outros, estoques muito
compridos; enfim, eu não podia sair por nenhum lado sem me pôr
em perigo de morte, e só, sem ninguém que se achasse do meu
lado.

Estando meu espírito nesta aflição, que não sabia que fazer de
mim, levantei os olhos ao Céu e vi Cristo, não no Céu, mas bem por
cima de mim, no ar, e me estendia a mão e de ali mesmo me
favorecia, de maneira que eu não temia toda aquela outra gente; nem
eles, embora quisessem, me podiam fazer dano.

18. Parece sem fruto esta visão, e tem-me feito grandíssimo
proveito, porque deu-se-me a entender o que significava. Pouco
depois, vi-me quase metida naquela bateria e conheci ser aquela
visão uma imagem do mundo, onde, tudo quanto nele há, parece que
tem armas para ofender a triste alma. Deixemos os que não servem
muito ao Senhor, e as honras e fazendas e deleites e outras coisas
semelhantes, que, claro está, enredam ou, pelo menos, procuram
enredar a alma quando ela se não precata; mas falo de amigos,
parentes e, o que mais me espanta, de pessoas muito boas. De
todos estes me vi depois tão atormentada, pensando eles que faziam
bem, que eu nem sabia como defender-me, nem que fazer.

19. Oh! Valha-me Deus! Se dissesse as maneiras e diferenças de
trabalhos que neste tempo tive, ainda depois do que atrás fica dito,
como seria bom aviso para de todo a tudo aborrecer!

Foi, julgo eu, a maior perseguição de quantas tenho passado! Digo
que me vi por vezes tão perseguida de todas ás partes, que só
encontrava remédio em erguer os olhos ao Céu e chamar por Deus.
Recordava-me bem do que tinha visto nesta visão. Serviu-me isto
grandemente para não confiar muito em ninguém, porque não há
quem seja estável senão Deus. Sempre, nestes grandes trabalhos,
tal como se me mostrara nesta visão, me enviava o Senhor uma
pessoa da Sua parte, que me desse a mão, sem outro intento senão
o de agradar ao Senhor. E assim tem sido para me ajudar a sustentar
este pouquito de virtude que eu tinha em desejar servir-Vos. Sede
bendito para sempre!

20. Estava uma vez muito inquieta e alvorotada, sem me poder
recolher, numa batalha e contenda e fugindo-me o pensamento para
coisas que não eram perfeitas; até me parece que não estava com o
desapego que costumo ter. Ao ver-me assim tão ruim, tive medo que
as mercês que o Senhor me tinha feito fossem ilusões. Enfim, numa
grande escuridão de alma. Estando eu com esta pena, começou-me
a falar o Senhor, e disse-me que não me afligisse; em ver-me assim,
compreenderia a miséria que eu seria, se Ele se apartasse de mim e
que não há segurança enquanto vivemos nesta carne. Deu-se-me a
entender quão bem empregada é esta guerra e contenda em vista de
tal prémio, e pareceu-me que o Senhor tinha lástima dos que
vivemos no mundo.

Que não pensasse eu que Ele me trazia
esquecida; jamais, me deixaria, mas que era preciso fazer eu o que
estivesse na minha mão. Isto me disse o Senhor com uma
compaixão e ternura, e com outras palavras em que me fez grande
mercê, que não há para que dizê-las.

21. Sua Majestade tem-me dito muitas vezes estas palavras,
mostrais-, do-me grande amor: Já és minha e Eu sou teu.
As que eu sempre Lhe costumo dizer, e segundo me parece as digo
com verdade, são estas: Que se me dá a mim, Senhor, de mim,
senão de Vós?

São para mim estas palavras e regalos de tão
grandíssima confusão quando me lembro a que sou, que, como
creio já ter dito outras vezes e agora o digo algumas a meu
confessor, é preciso mais ânimo, me parece, para receber estas
mercês, do que para passar grandíssimos trabalhos. Quando isto se
dá, estou quase esquecida das minhas obras, mas é um representarse-
me que sou ruiin, sem discurso do entendimento, que também
por vezes me parece sobrenatural.

22. Vêm-me algumas vezes umas ânsias tão grandes de comungar,
que não sei se se poderiam encarecer. Aconteceu-me uma manhã
que chovia tanto, que parecia não estar o tempo de modo a se poder
sair de casa. Estando eu fora dela, já estava tão fora de mim com
aquele desejo, que, ainda que me pusessem lanças ao peito, me
parece romperia por entre elas, quanto mais por água. Quando
cheguei à Igreja, deu-me um grande arroubamento. Pareceu-me que
vi abrirem-se os céus, e não apenas uma entrada como de outras
vezes tenho visto.

Representou-se-me o trono que tenho visto
outras vezes, como já disse a V. Mercê e outro acima dele, no qual,
por um conhecimento que não sei dizer, entendi estar ali a
Divindade, embora nada visse. Parecia-me o sustentavam uns
animais; creio ter já ouvido a significação destes animais. Pensei se
seriam os Evangelistas. Mas, como era o trono e quem estava nele,
isto não vi, senão uma muito grande multidão de anjos. Pareceramme,
sem comparação, de muito maior formosura que os que tenho
visto no Céu.

Tenho pensado se serão serafins ou querubins,
porque são muito diferentes na glória. Pareciam estar inflamados. É
grande a diferença entre eles, como tenho dito. A glória que então
em mim senti não se pode descrever nem ainda dizer, nem a poderá
imaginar quem não houver passado por isto.

Entendi estar ali, por junto, tudo quanto se pode desejar, e não vi
nada. Disseram-me, e não sei quem, que o que eu ali podia fazer era
entender que não podia entender nada, é ver o nada que era tudo em
comparação daquilo. E assim, a minha alma envergonhava-se
depois só de pensar que se poderia deter em alguma coisa criada,
quanto mais de se afeiçoar a clã, porque tudo me parecia um
formigueiro.

23. Comunguei e estive na missa, que não sei como pude estar.
Pareceu-me ter decorrido apenas uns breves instantes. Espantei-me
quando o relógio deu horas e vi que eram duas as que eu tinha
passado naquele arroubamento e glória. Espantava-me depois,
como, em vindo este fogo de verdadeiro amor de Deus, que dir-se-ia
vir do alto - pois por mais que eu queira e procure e me desfaça por
ele, a não ser quando Sua Majestade o quer dar, como de outras
vezes já tenho dito, nada sou nem posso para conseguir sequer uma
centelha -, parece que consome o homem velho nas suas faltas,
tibiezas e miséria.

E, à maneira do que sucede à ave fénix, que -
segundo tenho lido -, depois que se queima renasce das próprias
cinzas, assim a alma fica depois outra, com desejos diferentes e
grande fortaleza. Não parece ser a mesma de antes; mas começa,
com pureza nova, o caminho do Senhor.

Suplicando eu a Sua Majestade que assim fosse e de novo
começasse eu a servi-Lo, disse-me: Boa comparação fizeste; olha a
que te não esqueça para procurares ir sempre melhorando.

24. Estando uma vez com a mesma dúvida de que há pouco falei, se
estas visões eram de. Deus, apareceu-me o Senhor e me disse com
rigor: Oh! filhos dos homens, até quando sereis duros de coração?
Que examinasse bem em mim uma coisa: se eu, de todo me tinha
entregado a Ele ou não; se assim tinha feito e de todo era Sua,
acreditasse que Ele não me deixaria perder.

Eu afligi-me muito com aquela exclamação. Com grande ternura e
carinho tornou-me a dizer que não me afligisse, pois já sabia que eu,
por mim, não deixaria de me entregar a tudo quanto fosse em
serviço Seu; que se havia de fazer tudo o que eu queria (e assim foi
que se fez o que então Lhe suplicava); visse o amor que, de dia para
dia, se ia aumentando em, mim para O amar, que nisto conheceria
não ser obra do demónio. Nem pensasse que Ele consentia que o
demónio tivesse tanta entrada nas almas de Seus servos e pudesse
dar a claridade de entendimento e quietude que tu tens. E deu-me
ainda a entender que, tendo-me dito tantas e tais pessoas, que era
Deus, que faria mal em não o acreditar. .

25. Estando uma vez rezando o salmo «Quicumque vult», deu-se-me
a entender a maneira pela qual Deus é um só em três Pessoas tão
claramente,. que eu me espantei e consolei-me muito. Fez-me
grandíssimo proveito para conhecer mais a grandeza de Deus e as
Suas maravilhas e, quando penso ou oiço tratar da Santíssima
Trindade, parece-me que entendo como pode, ser, e é para mim de
muito contentamento.

26. Em dia da Assunção da Rainha dos Anjos e Senhora nossa, quis
o Senhor fazer-me esta mercê: num arroubamento representou-seme
a Sua subida ao Céu e a alegria e solenidade com que foi
recebida e o lugar onde está. Dizer como foi isto, eu não saberia. Foi
grandíssimo o deleite que o meu espírito teve de ver tanta glória.
Causou isto em mim grandes efeitos e tirei de proveito ficar com
mais e maiores desejos de passar grandes trabalhos e de servir a
esta Senhora, pois tanto mereceu.

27. Estando num colégio da Companhia de Jesus, e estando a
comungar os irmãos daquela casa, vi um pálio muito rico sobre suas
cabeças; isto vi por duas vezes. Quando outras pessoas
comungavam não o via.