Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Começa a declarar as graças que o Senhor lhe fazia na oração. Como podemos nos ajudar e o quanto importa que entendamos as graças que o Senhor nos faz.



Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

      CAPÍTULO 10. Começa a declarar as graças que o Senhor lhe fazia na oração. Como podemos nos ajudar e o quanto importa que entendamos as graças que o Senhor nos faz. Pede para quem envia esta relação da sua vida que fique no segredo o que escrever daqui em diante, já que lhe mandam declarar em pormenor as graças que lhe faz o Senhor.

1. Tinha eu algumas vezes, como já disse, embora muito breve, o começo do que agora vou falar. Acontecia-me, nesta situação que eu me punha ao pé de Cristo - que já falei e até algumas vezes lendo, vir-me em certo momento um tal sentimento da presença de Deus, que de nenhuma maneira podia duvidar que estivesse dentro de mim e eu toda plena n'Ele.

Isto não era do modo de uma visão. Creio ser o que se chama mística na teologia. Suspende a alma de maneira que toda ela parece estar fora de si. Ama a vontade, a memória - segundo julgo - está quase perdida, o entendimento não acontece, a meu parecer, mas não se perde; no entanto, como digo, não trabalha, mas  fica como que espantado do muito que alcança; porque quer que Deus entenda, que daquilo que Sua Majestade lhe representa, nenhuma coisa entende.

2. Primeiro tinha tido muito continuada uma ternura que, em parte, algo dela - ao que me parece - se pode procurar. É um presente que nem é de todo bem sensível, nem é bem espiritual. Tudo é dado por Deus. Mas penso que para isto podemos contribuir muito, considerando nossa baixeza e a ingratidão que temos para com Deus, o muito que fez por nós, Sua Paixão com tão graves dores, Sua vida tão atormentada; e deleitando-nos de ver Suas obras, Sua grandeza, o quanto nos ama e outras muitas coisas em que muitas vezes tropeça quem com cuidado quer aproveitar, embora não ande com muita advertência. Se, a par disto, há algum amor, regala-se a alma, enternece-se o coração, vêm as lágrimas. Algumas vezes parece que as arrancamos à força; outras que o Senhor no-las dá para não podermos resistir. Parece que nos paga Sua Majestade aquele cuidadinho com um dom tão grande como é o consolo que dá a
uma alma ver que chora por tão grande Senhor; e não me espanto, pois lhe sobra razão de se consolar. Ali se regala, ali folga.

3. Parece-me bem esta comparação que agora me oferece: estes gozos de oração são como os que devem ter aqueles que estão no Céu, pois, como não vêem mais do que o Senhor - conforme o que merecem - quer que vejam e vêem seus poucos méritos, cada um está contente no lugar onde está. E isto, apesar de haver tão grande diferença entre gozar e gozar no Céu, muito mais do que aqui há de uns gozos espirituais a outros, que é grandíssima.

E, verdadeiramente, uma alma, ainda no princípio, quando Deus lhe faz esta graça, quase lhe parece que já nada mais há a desejar e se dá por bem paga de tudo quanto tem servido. E tem razão de sobra: pois uma lágrima destas que, quase nos esforçamos por ter - embora sem Deus não se faça coisa alguma -, parece-me que nem com todos os trabalhos do mundo se pode comprar, porque com elas se ganha muito. E que maior ganho que o de ter algum testemunho de contentarmos a Deus?

Assim, quem aqui chegar, louve-O muito, reconheça-se por muito devedor, porque já parece que o Senhor o quer para Sua casa e escolhido de Seu reino, se não volta atrás.

4. Não se preocupe por umas humildades que há - das quais penso tratar - que lhes parece humildade não entender que o Senhor lhes vai dando dons. Compreendamos bem bem como isto é, que no-los dá Deus sem nenhum merecimento nosso e agradeçamo-lo a Sua Majestade; porque, se não conhecermos que recebemos, não nos estimulamos a amar. E é coisa muito certa que, quanto mais nos virmos ricos, reconhecendo que somos pobres, mais proveito nos virá, e até mesmo mais verdadeira humildade. O resto é acovardar o ânimo e dar-lhe a entender que não é capaz de grandes bens e, começando o Senhor a dar-lhes, começa-se a atemorizar com medo de vanglória.

Creiamos que, Quem nos dá os bens, nos dará graça para que, começando o demônio a tentar neste ponto, o entendamos e nos fortaleça para resistir; digo, se andamos com sinceridade diante de Deus, pretendendo contentá-Lo só a Ele e não aos homens.

5. É coisa muito sábia amarmos mais uma pessoa quando nos lembramos muito das boas obras que nos faz. Pois, se é lícito e tão meritório, termos sempre na memória que de Deus temos o ser e que nos criou do nada e nos sustenta e de todos os mais benefícios da Sua morte e trabalhos, que muito antes de nos, criar já os tinha feito por cada um dos que agora vivem, por que não será lícito reconhecer e ver e considerar muitas vezes que costumava falar em vaidades e agora me concedeu o Senhor que não queira falar senão d'Ele? Eis aqui uma jóia que, lembrando-nos que é dada e que já a possuímos, forçosamente convida a amar: este é o fruto da oração fundada na humildade.

Pois, que será quando virem em seu poder outras jóias mais preciosas, como têm já recebido alguns servos de Deus de menosprezo do mundo e até de si mesmos? É claro que se hão-de ter por mais devedores e mais obrigados a servir e entender que não tinham nada disto e a reconhecer a liberalidade do Senhor. A uma alma tão pobre e ruim e de nenhum merecimento como a minha, que bastava a primeira destas jóias e sobrava para mim, quis dar-me mais riquezas do que eu pudesse desejar.

6. É preciso tirar daqui forças de novo para servir e procurar não ser ingrato porque, com essa condição, as dá o Senhor. Se não usamos bem do tesouro e do alto estado em que nos põe, Ele no-lo tornará a tirar e ficaremos muito mais pobres; e Sua Majestade dará as jóias a quem com elas brilhe e aproveite a si e aos outros.

Pois, como aproveitará e gastará com largueza quem não entende que está rico? É impossível -, a meu parecer -, dada a nossa natureza, ter ânimo para grandes coisas quem não compreende que é favorecido por Deus. É que somos tão miseráveis e tão inclinados às coisas da terra, que mal poderá aborrecer, de facto, tudo o que é cá de baixo e com grande desapego, quem não entender que tem algum penhor lá de cima. 

É com estes dons que o Senhor nos dá a fortaleza que perdemos com os nossos pecados. E, como poderá desejar que todos se descontentem com ele e o aborreçam, e como praticará todas as demais grandes virtudes que possuem os perfeitos quem não tiver alguma prova do amor que Deus lhe tem, juntamente com uma fé viva? É tão falho de vida este nosso natural que nos deixamos levar pelo que vemos presente; assim estes mesmos favores são os que despertam a fé e a fortalecem. Bem pode ser que eu, como sou tão ruim, julgue por mim. Outros haverá que não precisem mais que da verdade da fé para fazer obras muito perfeitas; mas eu, como miserável, de tudo isto tenho precisado.

7. Estes, eles o dirão. Eu digo o que passou por mim, conforme me mandaram. Se não estiver bem, rasgá-lo-á aquele a quem isto envio; melhor de que eu, saberá entender o que vai mal. A este suplico, por amor do Senhor, que o que até aqui tenho dito da minha ruim vida e pecados, o publique; desde já lhe dou licença, e a todos os meus confessores, que também o é aquele para quem isto vai. E se quiserem, já em minha vida, para que não se engane mais o mundo, pois pensa que há algum bem em mim. 

E certo certo, com verdade digo, pelo que agora entendo de mim: dar-me-á grande consolo. Para o que de aqui em diante disser, não a dou; nem quero, se a alguém o mostrarem, digam quem é, por quem isto passou, nem quem o escreveu. Por isso não me nomeio, nem a ninguém; mas escreverei tudo o melhor que puder para não ser conhecida. E isto, peço-o por amor de Deus. Bastam pessoas tão letradas e graves para autorizar alguma coisa boa, se o Senhor me der graça para a dizer, porque, se o for, será Sua e não minha; pois eu, nem tenho
letras, nem boa vida, e não sou ajudada por letrado nem por pessoa alguma. Só os que me mandaram escrever sabem que o escrevo, e ao presente não estão aqui. É quase furtando o tempo e com pena, porque me estorva de tecer, e estou em casa pobre e com muitas ocupações. Ainda assim, se o Senhor me tivesse dado mais habilidade e memória, eu poder-me-ia aproveitar do que tenho ouvido ou lido, mas é pouquíssima a que tenho. Se, pois, algo de bom eu disser, é que o Senhor o quererá para algum bem; o que for mal será meu e V. Mercê o tirará.

Para uma e outra coisa nenhum proveito tem o dizer o meu nome. Em vida, está claro que se não há-de dizer o bem; depois de morta, não há para quê, a não ser para perder autoridade o bem e não se lhe dar nenhum crédito, por ser dito de pessoa tão baixa e tão ruim.

8. E por pensar que V. Mercê fará isto por amor do Senhor lhe peço e os demais que o hão de ver, escrevo com liberdade; de outro modo teria grande escrúpulo, menos de dizer meus pecados que, para isto não tenho nenhum. No mais, basta ser mulher para me caírem as asas, quanto mais mulher e ruim. E, assim, tudo o que for mais do que dizer simplesmente a história da minha vida, tome-o V. Mercê só para si - pois tanto me tem importunado para que escreva alguma declaração das graças que Deus me faz na oração - se for conforme às verdades da nossa santa fé católica. E se não, V. Mercê queime-o logo, que a isto me sujeito. 

Direi, pois, o que se passa em mim para que, sendo conforme a isto, lhe possa ser de algum proveito e, se não for, desenganará a minha alma para que não ganhe o demônio onde me parece que ganho eu. Bem sabe o Senhor, como depois direi, que sempre tenho procurado buscar quem me ilumine.

9. Por mais claramente que eu queira dizer estas coisas de oração, será bem escuro para quem não tiver experiência. Alguns impedimentos direi que, a meu entender, não deixam ir adiante neste caminho, e outras coisas em que há perigo, e do que o Senhor me tem ensinado por experiência, e que depois tratei com grandes letrados e pessoas espirituais de há muitos anos. E vêem que em só vinte e sete anos - que há que tenho oração - e apesar de andarem tantos tropeços e tão mal este caminho -, me tem dado Sua Majestade a experiência como a outros em quarenta e sete e em trinta e sete, que têm caminhado por ele com penitência e grande virtude.

Seja bendito por tudo e sirva-se de mim, por Quem é Sua Majestade, que bem sabe o meu Senhor que não pretendo outra coisa nisto, senão que seja louvado e engrandecido um pouquinho por se ver que, em um monturo tão sujo e de mau odor, se fizesse horto de tão suaves flores. Praza a Sua Majestade, que por minha culpa, não as torne eu a arrancar e volte a ser o que era. Isto peço, por amor do Senhor, que o peça V. Mercê, pois sabe quem eu sou com mais clareza do que me deixou aqui dizer.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Trata por que meios começou o Senhor a despertar a sua alma e a iluminá-la em tão grandes trevas e a fortalecer a sua virtude para não O ofender.



Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

     CAPÍTULO 9. Trata por que meios começou o Senhor a
despertar a sua alma e a iluminá-la em tão grandes trevas e a
fortalecer a sua virtude para não O ofender.

1. Andava pois a minha alma cansada e, embora eu quisesse, não a
deixavam descansar os maus costumes que tinha. Aconteceu-me
que, entrando um dia no oratório, vi uma imagem, que
trouxeram para guardar ali; tinham ido buscar para certa festa que se fazia na casa. Era de Cristo muito chagado e tão devota que, ao pôr nela os olhos, eu me perturbei toda por O ver assim, porque representava bem o que Ele passou por nós. Foi tanto o que senti por Lhe ter agradecido tão mal  aquelas chagas, que o coração, me parece, que se partia e lancei-me junto d' Ele com grandíssimo derramamento de lágrimas, suplicando-Lhe que me fortalecesse de uma vez para sempre para não mais O ofender.

2. Eu era muito devota da gloriosa Madalena e muitas, muitas vezes, pensava na sua conversão, em especial quando comungava. Como sabia com certeza que o Senhor estava ali dentro de mim, punha-me a Seus pés, me parecendo que não era  para rejeitar as minhas lágrimas; nem mesmo sabia o que dizia, que muito fazia Ele consentindo que eu as derramasse por Sua causa, pois tão depressa esquecia aquele sentimento. Encomendava-me àquela gloriosa Santa para que me alcançasse perdão.

3. Mas, nesta última vez, por causa desta imagem, parece-me que  aproveitei mais, porque já estava muito desconfiada de mim e
punha toda a minha confiança em Deus? Penso que Lhe disse então que não me levantaria dali até que fizesse o que Lhe suplicava. Creio certamente que aproveitei, porque fui melhorando muito desde então.

4. Tinha eu este modo de oração: como não podia raciocinar com o
entendimento, procurava representar Cristo dentro de mim e sentia-me melhor -a meu parecer - nos passos onde O encontrava mais só.

Parecia-me que, estando só e aflito, como pessoa necessitada,
havia de admitir a mim. Eu tinha muitas destas simplicidades.
Em especial me achava muito bem na oração do Horto; ali era o Lhe fazer eu companhia. Pensava naquele suor e aflição que ali
tinha tido. Se pudesse, desejaria limpar-Lhe aquele tão penoso suor, mas me recordo de que jamais ousava me determinar a fazê-lo, pois eu via os meus tão graves pecados. Ficava ali
com Ele o mais que permitiam meus pensamentos, porque eram
muitos os que me atormentavam. Muitos anos, a maior parte das
noites, antes que adormecesse, quando para dormir me
encomendava a Deus, pensava sempre um pouco neste passo da
oração do Horto, ainda mesmo antes de ser freira, porque me
disseram que se ganhavam muitos perdões. Tenho para mim que
assim ganhou muito a minha alma, porque comecei a ter oração sem saber que como era e já com o costume tão assentado em mim, me fazia não a deixar, bem como defazer o sinal da cruz para dormir.

5. Voltando ao que dizia do tormento que me davam os
pensamentos, este modo de proceder sem discurso do
entendimento tem isto: a alma há-de estar ou com muito ganho ou
perdida: digo perdida por não poder considerar. Quando  aproveita, aproveita muito, porque é em amar. Mas, para chegar aqui, é muito à sua custa, tirando as pessoas a quem o Senhor quer muito em breve fazer chegar à oração de quietude, e conheço algumas.

Para as que vão por este caminho é bom ter um livro para depressa se recolherem. Aproveitava também a mim, ver o campo, água ou flores. Nestas coisas encontrava eu memória do Criador; digo que me despertavam e recolhiam e serviam de livro, tal como pensar na minha ingratidão e pecados. Em coisas do Céu e em coisas sublimes, era meu entendimento tão grosseiro, que nunca jamais as pude imaginar até que - por outro modo - o Senhor me as representou.

6. Tinha tão pouca habilidade para representar coisas com o
entendimento que, se não era o que via, não aproveitava nada da
minha imaginação, como fazem outras pessoas que se podem servir dela a fim de se recolherem. Eu só podia pensar em Cristo como homem; assim, jamais O pude representar em mim por mais que lesse da Sua formosura e visse imagens. Era eu como alguém está cego ou às escuras que, embora falando com uma pessoa e
sentindo que está com ela -porque sabe de certeza que está ali,  percebe e crê que está ali - mas não a vê. Desta maneira me
acontecia quando pensava em Nosso Senhor.

Por esta razão, era eu tão amiga de imagens. Desventurados os que, por sua culpa, perdem este bem! Até parece que não amam o Senhor, porque, se O amassem, ficariam felizes de ver Seu retrato, tal como nos dá muita alegria ver o de uma pessoa a quem se quer bem.

7. Por este tempo, deram-me as «Confissões» de Santo Agostinho.
Parece que o Senhor assim o ordenou, porque eu não as procurei
nem nunca as tinha visto. Sou muito afeiçoada a Santo Agostinho,
porque o mosteiro onde estive de secular era da sua Ordem; e
também por ter sido pecador. Nos Santos que, depois de o terem
sido, o Senhor voltou para Si, achava eu muito consolo, parecendo
que neles havia de encontrar ajuda; e assim como o Senhor lhes
havia perdoado, podia fazer a mim.

Uma coisa me desconsolava, como disse; a eles, o Senhor só uma
vez havia chamado e não voltavam a cair; a mim eram já tantas, que isto me afligia. Mas pensando no amor que me tinha, tornava a
animar-me, pois da Sua misericórdia jamais desconfiei; de mim,
muitas vezes.

8. Oh! valha-me Deus, como me espanta a dureza da minha alma,
apesar de ter tido tantas ajudas de Deus! Faz-me andar temerosa ao ver o pouco que eu podia e quão atada me via para não me determinar a dar-me de todo a Deus.
Quando comecei a ler as «Confissões» , parecia-me ver-me eu ali.
Comecei a encomendar-me muito a este glorioso Santo. Quando
cheguei à sua conversão e li como ouviu aquela voz no jardim, não
me parecia senão que o Senhor falava a mim; de tal modo o
sentiu o meu coração. Fiquei tão emocionada que me
desfazia toda em lágrimas, e dentro de mim mesma com grande aflição e fadiga.

Oh! o que sofre uma alma, valha-me Deus, por perder a liberdade
que havia de ter de ser mulher, e que tormentos padece! Eu me
admiro agora como podia viverem tanto tormento. Seja Deus
louvado, que me deu vida para sair de morte tão mortal!

9. Parece-me que a minha alma ganhou tantas forças da Divina
Majestade, que deve ter ouvido meus clamores e ter tido dó de
tantas lágrimas. Começou a crescer em mim a disposição de estar
mais tempo com Ele e a tirarem-se-me dos olhos as ocasiões;
porque, uma vez afastadas estas, logo voltava a amar Sua
Majestade. Bem entendia eu, a meu ver, que O amava, mas não
compreendia em que consiste o amar deveras a Deus, como o devia entender.

Parece-me que não acabava eu de me dispor a querê-Lo servir,
quando Sua Majestade começava a tornar-me a mimar. Não me
parece senão que, o que os outros procuram com grande trabalho
adquirir, instava o Senhor comigo para que eu o quisesse receber,
dando-me já, nestes últimos anos, gostos e regalos.

Suplicar eu que me desse, ou ternura ou devoção, jamais a isso me atrevi; só Lhe pedia que me desse graça para não O ofender e perdoasse meus grandes pecados. Como os via tão grandes, nem sequer ousava advertidamente desejar regalos ou gostos. Muito, eu achava, que Ele fazia Sua piedade; e na verdade fazia-me muita misericórdia consentindo-me ficar diante de Si e trazendo-me à Sua presença, pois bem via que, se Ele tanto o não procurasse, eu por mim não iria.

Só uma vez na minha vida me recordo de Lhe pedir gostos, estando com muita aridez e, como adverti no que fazia, fiquei tão confusa, que a mesma pena de me ver tão pouco humilde, me deu o que me atrevera a pedir. Bem sabia que me era lícito pedi-los, mas me parecia sê-lo para os que estão dispostos, tendo procurado com todas as suas forças o que é verdadeira devoção, ou seja, não ofender, a Deus e estar prontos e determinados para todo o bem.

Achava que aquelas minhas lágrimas eram muito femininas e sem força, pois não alcançava com elas o que desejava. Contudo, creio que me valeram; porque, como digo, em especial depois destas duas vezes de tão grande compunção, lágrimas e dor de meu coração, comecei a dar-me mais à oração e a tratar menos de coisas que me fizessem mal; ainda que não as deixasse de todo - mas, como digo -, foi-me ajudando Deus a desviar-me delas.

Como Sua Majestade não estava à espera senão de alguma
disposição em mim, foram crescendo as graças espirituais da
maneira que direi. Coisa não habitual é dá-las o Senhor, senão aos
que estão em mais pureza de consciência.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O bem que possui quem se exercita na oração, há muitos santos e almas boas que o têm escrito - digo - da oração mental. Glória seja dada a Deus por isso!


Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila


    CAPÍTULO 8. Trata do grande bem que lhe fez não ter deixado de todo a oração para não perder a alma, e quão excelente remédio é para ganhar o perdido. Persuade para que todos a tenham. Diz como é grande o ganho, embora a tornem a deixar por algum tempo.

1. Não sem motivo ponderei tanto este tempo da minha vida, pois
bem vejo que não dará gosto a ninguém ver coisa tão ruim. É certo
que eu queria que se aborrecessem todos que isto lessem, vendo uma alma tão pertinaz e ingrata para com Aquele que tantas graças lhe tem feito; e queria ter licença para dizer as muitas vezes que neste tempo faltei a Deus.

2. Por não estar apoiada nesta forte coluna da oração, passei neste mar tempestuoso quase vinte anos. Ora com estas quedas, mal me levantava  e tornava a cair - e em vida de perfeição baixa, que nenhum caso fazia de pecados veniais; e dos mortais, embora os temesse, não era como devia ser, pois não me separava dos perigos. 

Sei dizer que é uma das vidas mais penosas que se pode imaginar; nem gozava de Deus, nem achava contentamento no mundo. Quando estava nos contentamentos do mundo, lembrando-me do que devia a Deus, era com pesar; quando estava com Deus, as afeições do mundo me desassossegavam. Isto é guerra tão penosa que não sei como a pude sofrer um mês, quanto mais tantos anos.

No entanto, vejo claramente, a grande misericórdia que o Senhor me fez: já que havia de tratar com o mundo, que tivesse ânimo para ter oração. Digo ânimo, porque não sei para que coisa, de todas que há na terra, é preciso maior que para trair o rei, e saber que ele o sabe, e não lhe tirar da frente. Porque, embora sempre estejamos diante de Deus, parece-me que levará a porto de salvação como, ao que agora parece, levou a mim. Praza à Sua Majestade que eu não volte a me perder.

5. O bem que possui quem se exercita na oração, há muitos santos e almas boas que o têm escrito - digo - da oração mental. Glória seja dada a Deus por isso! E mesmo que assim não fosse, embora eu seja pouco humilde, não sou tão soberba que disto ousasse falar.

Daquilo que tenho experiência, posso dizer que, por males que faça quem começou a ter oração, não a deixe, pois é o meio por onde pode tornar a emendar-se e, sem ela, será muito mais dificultoso. E não o tente o demônio, do mesmo modo que a mim, que a deixei por humildade. Creia que não podem faltar as palavras do Senhor, arrependendo-nos de verdade e determinando-nos a não O ofender, Ele volta à amizade que tinha e a dar as graças que antes dava, e, às vezes, muito mais se o arrependimento o merecer.

A quem ainda não a começou, por amor do Senhor lhe rogo, não
necessite de tanto bem. Não há aqui que temer senão que desejar.
Mesmo quando não for avante mas se esforçando em ser perfeito que mereça os gostos e regalos que Deus dá a estes, pouco a pouco irá entendendo o caminho para o Céu; e se persevera, espero eu na
misericórdia de Deus, pois ninguém O tomou por amigo que não lhe
pagasse. 

E outra coisa não é, a meu parecer, oração mental, senão
tratar de amizade - estando muitas vezes tratando a sós - com quem sabemos que nos ama. 

E se ainda não O amais (porque para que seja verdadeiro o amor e para que dure a amizade precisa encontrar  as condições: a do Senhor já se sabe, não pode ter falta; a nossa é ser viciosa, sensual, ingrata), não podeis por vós mesmas chegar a amá-Lo, porque não é da vossa condição; mas, vendo o muito que é ter a Sua amizade e o muito que vos ama, passais por esta pena estando muito com Quem é tão diferente de vós.

6. Oh! bondade infinita do meu Deus, que parece que Vos vejo e me vejo nesta sorte! Oh! regalo dos anjos, que eu, quando Vos
vejo, queria desfazer em amar-Vos! 

Quão certo é sofrerdes Vós por quem não sofre por Vós e Vós estais com ele! Oh! que bom amigo sois, Senhor meu, como vai regalando e sofrendo e esperais que se afaça à Vossa condição e, entretanto, sofreis Vós a sua!

Tomais em conta, meu Senhor, os momentos de quem Vos quer, e
com um ponto de arrependimento esqueceis o que Vos temos ofendido.

Tenho visto isto claramente por mim, e não vejo, meu Criador, por
que todo o mundo não procura chegar-se a Vós por meio desta
particular amizade; os maus - que não são como Vós- para
que os façais bons em suportarem que Vós estejais com eles,
sequer ao menos duas horas cada dia, embora eles não estejam
convosco senão com mil revoltas de cuidados e pensamentos do
mundo, como eu fazia. 

Por este esforço que fazem em querer estar em tão boa companhia, pois vedes que a princípio não podem mais, nem depois de algumas vezes, Vós forçais, Senhor, os demônios
para que não os tentem e cada dia tenham menos força para os
tentar, e dais a eles força para vencer. Sim, Vida de todas as vidas, que não matais a nenhum dos que se fiam de Vós e Vos querem por amigo, mas lhes sustentais a vida do corpo com mais saúde e a dais à alma.

7. Não entendo o medo dos que temem começar a ter oração
mental, nem sei porque o hão-de ter. Bem sabe se meter o
demônio para nos fazer mal de verdade, se com medos me faz não
pensar no que ofendi a Deus, porque muito Lhe devo, em que há
inferno e há glória, e nos grandes trabalhos e dores que passou por mim.

Esta foi toda a minha oração, quando andava nestes perigos. Nisto
pensava quando podia; e muitas, muitas vezes, durante alguns anos, tinha mais conta em desejar que se acabasse a hora que eu tinha para mim determinando ali estar e em escutar quando batia o
relógio, do que em outras coisas boas. 

Muitas vezes não sei que penitência grave me poderia oferecer que eu não a fizesse de melhor vontade que recolher-me a ter oração.
E certo é que era tão incomportável a força que o demônio me fazia ou o meu mau costume para que não fosse à oração, e a tristeza que me dava entrando no oratório que, para me forçar, era preciso valer-me de todo o meu ânimo que dizem não é pequeno. 

E tem-se visto  ter-me dado Deus muito mais que de mulher (senão que o tenho empregado mal) e por fim, ajudava-me o Senhor.
Depois de eu ter assim me forçado, achava-me com mais quietude e regalo do que algumas vezes que tinha desejo de rezar.

8. Pois se, coisa tão ruim como eu, tanto tempo sofreu pelo Senhor-e vê-se claramente que por aqui se remediaram todos os meus males -que pessoa, por má que seja, poderá temer? 

Porque por muito que seja, não será tantos anos depois de ter recebido tantas graças do Senhor. E, quem poderá desconfiar, se tanto me suportou, só porque desejava e procurava algum lugar e tempo para que estivesse comigo, e isto algumas vezes sem vontade, e só pela grande força que eu fazia, ou me  fazia o Senhor? 

Pois, se aos que não O servem, mas O ofendem, a oração lhes vai tão bem  e lhes é tão necessária, e se ninguém pode com verdade encontrar dano que ela lhe possa causar, que seja maior que o de não a ter, os que servem a Deus e O querem servir, porque a hão-de deixar? 

Por certo que, se não é para passar com mais trabalho os trabalhos da vida, eu não o posso entender; ou então para fechar a Deus a porta, a fim de que por ela não lhes dê alegria. 

Em verdade lhes tenho pena, pois à sua custa servem a Deus. Aos que tratam de oração, o mesmo Senhor lhes paga, pois, por um pouco de trabalho dá gosto para que com Ele passem os trabalhos.

9. Porque destes gostos que o Senhor dá aos que perseveram na
oração muito se tratará mais adiante, nada direi aqui; só digo que
para estas graças tão grandes que a mim tem feito, a porta é a
oração. Fechada esta porta, não sei como as fará, porque, embora queira entrar a deleitar-se com uma alma e cumulá-la de bens, não terá por onde, pois a quer só e limpa e com grande vontade de receber Seus dons. Se Lhe pomos muitos tropeços e não fazemos nada para os tirar, como há-de vir a nós? E queremos que nos faça Deus grandes graças!

10. Para que vejam Sua misericórdia e o grande bem que foi para
mim não ter deixado a oração e lição, direi aqui - pois importa tanto que isto se entenda - a bateria que faz o demónio a uma alma, a fim de a ganhar, e o artifício e misericórdia com que o Senhor procura chamá-la de novo a Si, e se guardem dos perigos de que não me guardei. 

E sobretudo, por amor de Nosso Senhor e pelo grande amor
com que nos anda atraindo para que voltemos a Ele, peço que se
guardem das ocasiões; uma vez metidas nelas, não há que fiar
quando tantos inimigos nos combatem e tantas fraquezas há em nós para nos defendermos.

11. Quisera eu saber descrever o cativeiro em que, nestes tempos,
trazia a minha alma. Bem entendia eu que estava cativa, mas não
acabava de entender em que, nem podia de todo crer que coisas que os confessores não me agravavam tanto, fossem tão más como eu o sentia na minha alma. Disse-me um, indo eu a ele com escrúpulos, que embora tivesse subida contemplação, não havia inconveniente em semelhantes ocasiões e tratos.

Isto era já lá para o fim, que eu já ia, com o favor de Deus, afastando-me mais dos grandes perigos, mas sem fugir de todo da ocasião.
Como me viam com bons desejos e ocupação de oração, parecia-lhes que fazia muito; mas minha alma entendia que não era fazer
aquilo a que estava obrigada por Aquele a quem tanto devia. 

Lástima lhe tenho agora do muito que passou e do pouco socorro que encontrou por toda a parte, a não ser de Deus, e da muita entrada que tinha para seus passatempos e contentos com o dizerem-lhe que eram lícitos.

12. O tormento nos sermões não era pequeno. Era afeiçoadíssima a eles, de modo que, se via algum pregar com espírito e bem, cobrava-lhe particular afeição, sem o procurar, que não sei quem me infundia. 

Quase nunca me parecia tão mau o sermão que não o
ouvisse de boa vontade, embora no dizer dos que o ouviam não
pregasse bem. Se era bom, era para mim muito particular recreação.

De falar de Deus ou de ouvir falar d'Ele, quase nunca me cansava; e isto depois que comecei a ter oração. Por um lado, tinha grande
consolo nos sermões; por outro atormentavam-me, porque ali
compreendia eu que não era o que devia ser e, em grande parte, por culpa minha. Suplicava ao Senhor que me ajudasse, mas, devia
faltar - ao que agora me parece - o não pôr eu de todo a confiança
em Sua Majestade nem perder totalmente a que punha em mim.

Buscava remédio, fazia diligências; mas não devia compreender que tudo aproveita pouco se, perdida totalmente a confiança em nós mesmos, não a pomos em Deus.
Desejava viver, pois bem entendia que não vivia, antes pelejava com uma sombra de morte e não havia quem me desse vida nem a podia eu tomar. E Quem ma podia dar tinha razão de não me socorrer, pois tantas vezes me havia chamado a Si e eu O havia deixado.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila