Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Trata do quarto grau de oração. Começa a declarar, de modo excelente, a grande dignidade que o Senhor eleva a alma que está neste estado. Serve de estímulo aos que tratam de oração para se esforçarem a chegar a tão alto estado, pois se pode alcançar na terra, não pelos próprios merecimentos mas por bondade do Senhor.


LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

 CAPÍTULO 18. Trata do quarto grau de oração. Começa a declarar, de modo excelente, a grande dignidade que o Senhor eleva a alma que está neste estado. Serve de estímulo aos que tratam de oração para se esforçarem a chegar a tão alto estado, pois se pode alcançar na terra, não pelos próprios merecimentos mas por bondade do Senhor. Leia-se com atenção, pois é descrito muito delicadamente e apresenta coisas muito importantes.

1. Ó Senhor me ensine palavras com que possa dizer alguma coisa sobre a quarta água. Bem preciso do Seu favor, mais ainda do que para a anterior, na qual a alma ainda sentia não estar morta de tudo.

E assim podemos   dizer, pois embora esteja no mundo, tem, no entanto, - como já se disse - sentidos para compreender que está na terra e sentir sua solidão e se aproveita do exterior para dar a entender aquilo que está sentindo,  ao menos por sinais.

Em todos os modos de oração que ficam ditos, trabalha algum tanto o hortelão; ainda que nestes últimos o trabalho vai acompanhado de tanta glória e consolo de alma que jamais  queria sair dele, e assim não se sente como trabalho, mas antes como glória.
Aqui não há sentir, senão gozar sem entender o que se goza. Entende-se que se goza um bem, onde se encerram conjuntamente todos os bens, mas não se compreende que bem seja este. Todos os sentidos sentem este gozo, de modo que não fica nenhum desocupado para se poder empregar em outra coisa exterior ou
interior.

Antes, se dava licença para fazerem, como disse, algumas mostras do grande gozo que sentiam; aqui, a alma goza mais, sem comparação e, no entanto, pode-se dar a entender muito menos, porque não fica poder no corpo, nem a alma o tem, para comunicar aquele gozo. Nesse tempo tudo lhe seria de grande embaraço e tormento e estorvo para seu descanso. E digo até que, se é união de todas as potências - enquanto estiver nela não pode, embora o queira, e se pode, já não é união.

2. Como  esta oração a que chamam união g e em que consiste, não sei dar a entender. Isto se declara na mística teologia, que os termos eu não saberei nomear, nem sei entender o que é a mente, nem tão pouco que diferença tenha da alma ou do espírito. Tudo me parece  a mesma coisa, se bem que a alma saia algumas vezes de si mesma à maneira dum fogo que está ardendo  feito chama, e cresce algumas vezes com ímpeto e as chamas sobem muito acima do fogo, mas nem por isso é coisa diferente, senão a mesma chama que está no fogo.

Isto V.V. Mercês - com suas letras - o entenderão porque melhor eu não sei dizer. O que pretendo declarar é o que sente a alma quando está nesta divina união.

3. O que é união, já se sabe: é quando duas coisas divididas fazem-se uma. Oh! Senhor meu, como sois bom! Bendito sejais para sempre!

Louvem-Vos, Deus meu, todas as coisas, pois assim nos amastes, a
podermos de verdade falar desta comunicação que, ainda estando neste desterro, tendes com as almas. Até mesmo com as que são boas é grande a liberalidade e magnanimidade Vossa, Senhor meu; enfim, dais como quem sois. 

Oh! liberalidade infinita, quão magníficas são as Vossas obras! Isto espanta quem não tem o entendimento ocupado com coisas da terra de modo a não ter nenhum para entender verdades. 

Mas, que dais graças tão soberanas a almas que tanto Vos ofendem, por certo que a mim isto faz com que me acabe o entendimento e, quando chego a pensar nisto, não posso ir adiante. Para onde há de ir que não seja voltar atrás? Dar-Vos graças por tão grandes presentes, não sabe como. Em dizer disparates, acho alívio algumas vezes.

4. E muitas vezes, acabando de receber estas graças ou quando Deus mais começa a fazer - pois uma vez nelas, já tenho dito não há poder para nada - acontece-me dizer: "Senhor, olhai o que fazeis, não esqueçais tão depressa meus tão grandes males. Já que para me perdoardes, os tendes esquecido, suplico-Vos que, para pôr limite nas graças, deles Vos recordeis. 

Não ponhais, Criador meu, tão precioso licor em vaso tão quebrado, pois já tendes visto, em outras vezes, que torno a derramar. Não ponhais tesouro semelhante onde ainda não está perdida de todo, como deveria estar, a cobiça das consolações da vida, pois gastá-lo-á mal. 

Como confiais a defesa desta cidade e as chaves da fortaleza a um prefeito tão covarde que, ao primeiro embate dos inimigos, os deixa entrar dentro? Não seja tanto o Vosso amor, ó Rei Eterno, que ponhais em risco jóias tão preciosas. Parece, Senhor meu, dar-se assim ocasião para que se tenham em pouco, pois as colocais em poder de criatura tão ruim, tão baixa, tão fraca e miserável e de tão pouco valor. 

Pois, se bem que trabalhe para não as perder com o Vosso favor - e não pequeno precisa ser, conforme sou -, não posso com elas dar ganho a ninguém; enfim, mulher e não boa, senão ruim. Dir-se-ia que não só se escondem os talentos, mas que se enterram, pondo-os em terra tão desprezível. Não costumais Vós, Senhor, fazer semelhantes grandezas e graças para uma alma senão para que aproveite a muitas.

Já sabeis, Deus meu, que, com toda a vontade e todo o coração Vos suplico e tenho suplicado algumas vezes e o tenho por bem de
perder o maior bem que se possui na terra, para que Vós façais estas graças a quem mais aproveite com este bem, a fim de que
cresça a Vossa glória".

5. Estas e outras coisas tem-me acontecido dizê-las muitas vezes.
Via depois a minha insensatez e pouca humildade, porque bem sabe o Senhor o que convém e que não havia forças em minha alma para se salvar, se Sua Majestade - com tantas graças - não as
pusesse nelas.

6. Também pretendo dizer as graças e os efeitos que ficam na alma e o que ela por si mesma pode fazer ou se contribui para chegar a tão alto estado.

7. Acontece vir esta elevação de espírito ou junção com o amor celestial. A meu entender, é diferente a união do levantamento desta mesma união. A quem não tiver experimentado este último, parecer-lhe-á  que não, e a mim me parece que, apesar de ser tudo um, o Senhor opera de diferente modo. No voo de espírito cresce muito mais o desapego das criaturas. 

Eu tenho visto claramente ser particular graça, embora - como tenho dito seja tudo a mesma coisa ou o pareça; também um fogo pequeno é fogo, tal como um grande, e bem se vê a diferença que há de um ao outro. Num fogo pequeno, antes que um pequeno pedaço de ferro se ponha em brasa passa muito tempo, mas, se o fogo é grande, embora seja maior o ferro, em muito pouquinho tempo perde, na aparência, a natureza que tem. 

É assim, a meu parecer, nestes dois modos de graças do Senhor, e sei que, quem tiver chegado a arroubamentos, o entenderá bem. Se o não tiver experimentado, parecer-lhe-á desatino, e bem pode ser que  seja, porque querer uma como eu falando em coisas tão altas e dando a entender algo daquilo de que parece até impossível haver palavras para o começar a dizer, não é muito que desatine.

8. Mas creio que o Senhor me há-de ajudar, pois sabe Sua Majestade que, depois de obedecer, a minha intenção é de tornar gulosa as almas com um tão sumo bem. Não direi coisa que não tenha experimentado muito. E assim é que, quando comecei a escrever desta última água, mais impossível me parecia saber tratar alguma coisa dela do que falar em grego, pois tão dificultoso é. 

Com isto, deixei tudo e fui comungar. Bendito seja o Senhor que assim favorece os ignorantes! Oh! virtude da obediência que tudo podes!

Esclareceu-me Deus o entendimento, umas vezes com palavras e
outras pondo-me diante como o havia de dizer, pois, tal como fez na oração passada, parece que Sua Majestade quer dizer o que eu não posso e nem sei.

Isto que digo é inteira verdade e assim, o que for bom, é Sua a
doutrina; o mau, está claro, é desta profundidade de males que eu sou. E assim digo que se houver pessoas que tenham chegado às coisas de oração que o Senhor tem feito a esta miserável - e muitas deve haver - se quiserem tratar destas coisas comigo, parecendo-lhes desencaminhadas, o Senhor ajudará a Sua serva para sair avante com Sua verdade.

9. Falemos agora desta água que vem do Céu, para com sua abundância encher e fartar todo este horto. Se o Senhor nunca deixasse de a dar quando dela houvesse necessidade, já se vê o descanso que teria o hortelão. E se não houvesse inverno, mas sempre tempo ameno, sem nunca faltarem flores e frutas, já se vê o deleite que teria. Mas, enquanto vivermos, é impossível; sempre há de haver o cuidado de, quando faltar uma água, procurar outra. 

Esta vem do Céu  muitas vezes quando mais descuidado está o hortelão. Verdade é que, nos princípios, quase sempre é depois de longa oração mental que, dum grau a outro, o Senhor vem tomar esta avezinha e pô-la no ninho, para que descanse. Como a tem visto voar muito tempo, procurando com o entendimento e a vontade e com todas as forças buscar a Deus e contentá-Lo, quer dar-lhe o prêmio ainda nesta vida. E que grande prêmio! Basta um momento para ficarem pagos todos os trabalhos que nela pode ter.

10. Estando assim a alma buscando a Deus, sente-se, com deleite
grandíssimo e suave, quase de todo desfalecer, à maneira de
desmaio. Vai-lhe faltando o fôlego e todas as forças corporais, de
modo que não pode sequer mexer as mãos a não ser a muito custo.
Os olhos fecham-se-lhe sem os querer fechar, ou se os tem abertos, não vê quase nada. Se lê, nem acerta  dizer letra nem quase consegue bem conhecê-la: vê as letras, mas como o entendimento não ajuda, não as consegue ler embora queira. Ouve, mas não entende o que ouve. 

Não se aproveita, pois, nada dos sentidos, a não ser para eles não a deixarem acabar de se entregar a seu prazer e assim antes a
estorvam. Falar, é por demais; não consegue formar palavra, nem tem forças - ainda que conseguisse - para a poder pronunciar; porque toda a força exterior se perde e se concentra nas da alma aumentando-lhes para melhor poder gozar da sua glória. O deleite exterior que se sente é grande e muito manifesto.

11. Esta oração, por longa que seja, não faz dano; pelo menos a mim nunca fez. Nem me recordo ter-me o Senhor feito alguma vez esta graça, por mal que então estivesse, que me sentisse pior, antes ficava com grande melhoria. Mas, que mal pode fazer tão grande bem? São tão manifestas as operações exteriores, que não se pode duvidar que grande foi a causa, pois assim tirou as forças com tanto deleite para as deixar maiores.

12. Verdade é que nos princípios passa em tão breve tempo - pelo
menos a mim assim acontecia que, quando assim passa com
brevidade, nem estes sinais exteriores, nem a falta de sentidos, se dão tanto a perceber. Mas bem se compreende pela abundância das graças, que foi grande a claridade do sol que esteve na alma, pois assim a derreteu. E note-se isto: por longo que tenha sido o espaço de tempo em que a alma esteve nesta suspensão de todas as potências, é bem breve a meu parecer. 

Quando estivesse meia hora, é já muito; eu - segundo julgo - nunca estive tanto. Verdade é que mal se pode calcular o tempo que se está, pois então não se dá conta; mas digo que, duma assentada, sem que volte a si alguma potência, é muito pouco tempo. 

A vontade é que segura a teia, mas as outras duas potências depressa voltam a importunar. Como a vontade está quieta, volta-se de novo a suspender e assim se ficam outra vez um pouco e depois tornam a reviver.

13. Nisto podem-se passar algumas horas de oração e passam-se de fato; porque, começando as duas potências a embriagar-se e a
gostar daquele vinho divino, com facilidade se tornam a perder, para muito mais ganharem; e, acompanhando a vontade, gozam todas três. Mas, neste estarem de todo perdidas e em nada terem
imaginação - pois a meu parecer também esta se perde de todo -, digo que é por breve espaço. Contudo não voltam a si totalmente que não possam estar algumas horas como que desatinadas, voltando Deus, pouco a pouco acolhê-las a Si.

14. Venhamos agora ao interior, ao que a alma aqui sente. Diga-o.
quem o sabe, pois nem se pode entender, quanto mais dizer.
Estava eu pensando, depois de comungar e de sair desta mesma
oração que descrevo, quando quis escrever isto: o que fazia a alma
nesse tempo. 

Disse-me o Senhor estas palavras: “Desfaz-se toda, filha, para mais se meter em Mim; já não é ela quem vive, senão Eu”.

Como não pode compreender o que entende, é um não entender entendendo. Quem o tiver experimentado entenderá algo disto. Com mais clareza não se pode dizer por ser tão obscuro o que ali se passa. Só poderei dizer que se representa a alma estar junta com Deus e fica uma certeza que de nenhuma maneira se pode deixar de crer. 

Aqui faltam e se suspendem todas as potências de modo que - como tenho dito -, de nenhuma maneira, se percebe a sua ação. Se a alma estava pensando em um passo da Paixão, perde-o da memória como se nunca dele a tivesse; se estava lendo, não há acordo nem nada que impeça no que lia; se reza, tão pouco. 

Assim é que a esta borboletazinha importuna da memória aqui se lhe queimam as asas; já não mais pode esvoaçar. A vontade deve estar bem ocupada em amar, mas não compreende como ama. O entendimento, se entende, não percebe como entende; pelo menos, não pode compreender nada do que entende. A mim, não me parece que entende, porque - como digo - não se entende a si mesmo. E não acabo de entender isto.

15. Aconteceu-me a mim a princípio que, na minha ignorância, não
sabia que Deus estava em todas as coisas e, como me parecia tê-Lo
tão presente, parecia-me impossível  deixar de crer que estivesse
ali; não podia, por me parecer quase evidente ter percebido estar ali a Sua mesma presença. 

Os que não tinham letras me diziam que estava presente só pela graça; eu não o podia crer, porque - como digo - parecia-me estar presente e assim andava com pesar. Um grande letrado da Ordem do glorioso São Domingos tirou-me desta dúvida, dizendo-me como estava presente e se comunicava a nós, o que muito me consolou.

É de notar e entender que esta água do Céu, este grandíssimo favor do Senhor, deixava sempre a alma com grandes ganhos, como agora direi.



domingo, 17 de fevereiro de 2013

Quando Deus dá tão alta oração como esta, a alma pode fazer tudo isto e muito mais - pois estes são os seus efeitos - e entende que o faz sem nenhum cansaço do entendimento.


LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila

CAPÍTULO 17. Prossegue na mesma matéria deste terceiro
grau de oração. Acaba de expor os efeitos que produz. Diz o
dano aqui causado pela imaginação e a memória.

1.  Este modo de oração fica razoavelmente explicado e o que fará à alma ou, melhor dizendo, o que nela faz Deus, pois é Ele quem toma o ofício de hortelão e quer que ela se eleve. A vontade só tem de consentir naquelas graças que goza, e de se oferecer  a verdadeira Sabedoria a tudo quanto nela quiser operar . 

É preciso ânimo, porque já é tanto o gozo que parece algumas vezes não faltar nada para a alma acabar de sair deste corpo. E que venturosa morte seria!

2. Aqui me parece ser bom, como disse a V. Mercê, a alma abandonar-se, totalmente, nos braços de Deus. Se a quiser levar ao Céu, vai; se ao inferno, não tem medo, pois vai com o seu Bem; que se acabe de tudo a vida, isso ela quer; se  durar mil anos, também. Disponha dela Sua Majestade como de coisa própria Vossa; já não é senhora de si mesma; está dada inteira ao Senhor; despreocupe-se, pois, de tudo.

Digo: quando Deus dá tão alta oração como esta, a alma pode fazer tudo isto e muito mais - pois estes são os seus efeitos - e entende que o faz sem nenhum cansaço do entendimento. Somente me parece que está espantada de ver como o Senhor age tão bem de hortelão, não querendo que ela tenha trabalho algum, senão o de se deleitar quando começam as flores a dar perfume. 

Num contato destes - por pouco que dure - é  o Hortelão que enfim, como Criador da água, que a dá sem medida. O que a pobre da alma, com trabalho e cansaço do entendimento, não pôde porventura conseguir em vinte anos,   este Hortelão celestial faz num instante; e a fruta cresce e amadurece de maneira que a alma se pode sustentar do seu horto, querendo-o o Senhor. Mas não lhe dá licença de repartir a fruta, até que esteja forte com quanto dela tenha comido.

Não se  vai tudo  a provando. E não   dando nada de proveito, nem  pagando aqueles a quem a der, os mantenha e dê de comer à sua custa, e fique, porventura, morta de fome.

Isto, bem entendido, vai dirigido a tais entendimentos que o saberão aplicar melhor de que eu o saberei dizer, por muito que me canse.

3. Enfim; as virtudes ficam agora mais fortes que na oração de quietude passada. E isto de um modo que a alma não as pode  ignorar, porque se vê outra e, sem saber como, começa a obrar grandes coisas com o perfume que as flores dão de si. Quer o Senhor que estas se abram para que ela veja que tem virtudes, embora veja muito bem que não as podia ganhar e nem pôde em muitos anos e, naquele breve espaço de tempo, lhas deu o Celestial Hortelão. Aqui é muito maior e muito mais profunda  a humildade que fica na alma que no passado, porque vê mais claramente que de si não fez nem pouco nem muito, a não ser consentir que o Senhor lhe desse graças e as abraçasse com vontade. Este modo de oração parece-me união muito evidente de toda a alma com Deus. Mas dir-se-ia que Sua Majestade quer dar licença às potências para que entendam e gozem do muito que Ele ali opera.

4. Acontece algumas vezes - e até muitas - estando unida a vontade que se vê e se entende claramente que está presa e gozando e com muita quietude. Digo que isto se vê claramente, mas só quanto à vontade, pois, por outro lado, o entendimento e a memória ficam tão livres que podem tratar de negócios e atender a obras de caridade. A mim, pelo menos, isto deixou-me tonta e por isso o digo aqui para que V. Mercê veja o que pode ser e o entenda quando o tiver.

Isto, que agora disse, ainda que pareça tudo uma e a mesma coisa é, em parte, diferente da oração de quietude. É que ali a alma está tão quieta que não quer se mexer nem um pouco, gozando naquele ócio santo de Maria. Nesta oração pode também ser Marta, e assim quase que está trabalhando ao mesmo tempo na vida ativa e contemplativa. Pode atender a obras de caridade e a negócios que convenham ao seu estado, e ler, embora o entendimento e a memória não estejam de todo senhores de si e entendam bem que a melhor parte da alma está em outro lugar. 

É como se estivéssemos falando com alguém e, por outro lado, nos falasse outra pessoa: nem bem estaríamos com uma nem com outra. É coisa que se sente muito claramente e dá muita satisfação e alegria quando se tem e é muito boa disposição para que, em achando tempo de solidão ou de desocupação de negócios, a alma chegue a uma quietude mui sossegada. 

É  andar como uma pessoa que está em si satisfeita, que não tem necessidade de comer, sente o estômago satisfeito, de maneira que não se poria a comer qualquer manjar, mas não está tão farto que, se os vir bons, deixe de o fazer de boa vontade. Assim não quereria então a alma alegrias do mundo, porque tem em si o que mais a satisfaz. Maiores contentamentos de Deus, desejos de satisfazer Seus desejos, de gozar mais, de estar com Ele, é isto o que quer.

5. Há outro modo de união, que ainda não é perfeita união, mas que é mais do que esta que acabo de dizer, embora não o seja tanto como a que se disse desta terceira água.

Quando o Senhor  as der todas - se não as tem já - gostará muito V. Mercê de encontrar tudo escrito e entender o que é. Uma coisa é dar o Senhor a graça; outra, entender qual é a graça; e outra, o sabê-la dizer e dar a compreender como é. Pois, embora pareça não ser preciso mais do que a primeira para a alma não andar confusa e medrosa e prosseguir com mais ânimo no caminho do Senhor, calcando debaixo dos pés todas as coisas do mundo, contudo é grande proveito e graça entendê-lo. Por cada uma destas graças, é motivo para que quem a tem louve muito ao Senhor. Quem a não tem, louve-O igualmente por Sua Majestade por  conceder a alguns dos que vivem para que nos aproveitasse a nós.

Ora, acontece muitas vezes esta maneira de união que agora quero dizer (pois a mim, em especial, tem-me Deus feito esta graça não poucas vezes) apodera-se Deus da vontade e também do entendimento, a meu parecer, porque este não discorre, mas está ocupado gozando de Deus, tal como quem está olhando e vê tanta coisa que nem sabe para onde olhar, perde-se-lhe a vista por um e outro objeto, e não sabe dar conta de coisa alguma. 

A memória permanece livre e unida à imaginação e, como se vê só, é para louvar a Deus a guerra que ela faz e como procura desassossegar tudo. A mim, deixa-me cansada e me aborrece, e muitas vezes suplico ao Senhor que, se tanto fará me  estorvar, me tire nestas alturas.

Digo-lhe algumas vezes: quando, meu Deus, estará toda unida a minha alma no Vosso louvor e não feita em pedaços sem poder valer-se a si mesma? Aqui, vejo o mal que nos fez o pecado, pois assim nos sujeitou a não fazer sempre o que queremos, ou seja, de estar sempre ocupados em Deus.

6. Digo que me acontece às vezes, - e hoje tem sido uma delas e assim tenho-o bem na memória -, que vejo desfazer-se a minha alma com o desejo de se ver toda ela unida onde tem a maior parte de si mesma e ser-lhe impossível, pois dá-lhe tal guerra a memória e imaginação que o não pode conseguir. 

E como a estas lhes falta a ajuda das outras potências, de nada valem nem mesmo para fazer mal. Muito fazem em desassossegar. "Para fazer mal" digo, porque não têm força nem sabem estar quietas. Como o entendimento não ajuda pouco nem muito no que lhe representa a memória, esta não pára em nada, anda dum lado para o outro, que não parece senão destas borboletas da noite, importunas e irrequietas. Muito a propósito, me parece vir esta comparação, porque ainda que não tenha força para fazer nenhum mal, importuna aos que a vêem.

Para isto não sei que remédio haja, pois até agora não me fez Deus entender; de boa vontade o tomaria para mim, pois me atormenta, como digo, muitas vezes. Apresenta-se-nos aqui a nossa miséria, e mui claramente o grande poder de Deus; pois esta potência, que permanece à solta, tanto nos danifica e nos cansa, e as outras que estão com Sua Majestade, tão grande descanso nos dão.

7. O último remédio que encontrei depois de me ter fatigado muitos anos, é o que disse na oração de quietude: que não se faça mais caso da imaginação que dum louco; é deixá-la com seu tema, que só Deus lhe pode tirar. Enfim, aqui fica por escrava. 

Temos que a sofrer com paciência, como fez Jacó a Lia; pois bastante graça nos faz o Senhor permitindo que gozemos de Raquel. Digo que fica escrava porque, afinal, não pode, por muito que faça, trazer a si as outras potências. Antes, são estas que, sem nenhum trabalho, a fazem ir muitas vezes a elas. 

Algumas vezes, é Deus servido de se compadecer, ao vê-la tão perdida e desassossegada com o desejo de estar com as outras, e consente-lhe, então, Sua Majestade que se queime no fogo daquela vela divina onde as outras já estão feitas em pó, perdido o seu ser natural, tornado quase sobrenatural, gozando de tão grandes bens.

8. Em todas estas modalidades, desta última água da fonte de que falei, é tão grande a glória e descanso da alma, que o corpo participa muito sensivelmente daquele gozo e deleite. E isto claramente se vê e as virtudes ficam tão crescidas, como tenho já dito.

Parece que o Senhor quis declarar-me estes estados de oração em
que a alma se vê, tanto quanto aqui se pode dar a entender, segundo julgo. Trate disto, V. Mercê, com pessoa espiritual que tenha chegado aqui e tenha letras. Se lhe disser que está bem, creia que lhe comunicou Deus. Tenha-o em muito apreço e agradeça a Sua Majestade. 

Com o andar do tempo - como tenho dito - folgará muito de assim entender o que é, enquanto não lhe é dada a graça para compreender, por si mesmo, embora lhe seja dado de o gozar. Uma vez que Sua Majestade lhe tenha concedido a primeira, com o seu entendimento e letras, logo entenderá, pelo que ficou aqui dito.

Seja Ele por tudo louvado por todos os séculos dos séculos. Amém.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Oh! Valha-me Deus! Como fica uma alma quando está assim! Toda ela queria ser línguas para louvar ao Senhor! Diz mil desatinos santos, atinando sempre em contentar a Quem a tem assim.


LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

CAPÍTULO 16. Trata do terceiro grau de oração e vai declarando coisas muito elevadas, e o que pode a alma que chegar aqui, e os efeitos que fazem estas graça tão grandes do Senhor. É muito bom para elevar o espírito com louvores a Deus para grande consolação de quem aqui chegar.

1. Falemos agora da terceira água com que se rega esta horta: é a água corrente de rio ou da fonte, e rega-se com muito menos trabalho, embora alguém dê o encaminhar a água. Quer aqui o Senhor ajudar o hortelão, de maneira que quase é Ele o jardineiro e quem faz tudo.

É um sono das potências em que nem tudo se perde nem se entende como operam. O gosto, suavidade e deleite são, sem comparação, maiores do que o passado. É a água da graça que chega à garganta desta alma, de modo que já não pode ir para diante, nem sabe como, nem como voltar atrás; queria gozar de grandíssima glória. É como alguém que está com a vela na mão,' por lhe faltar pouco para morrer da morte que deseja. 

Está gozando naquela agonia com o maior deleite que se pode dizer. Não me parece outra coisa senão um morrer em quase  tudo a todas as coisas do mundo e estar gozando de Deus.

Eu não sei outros termos para o dizer ou declarar, nem sabe então a alma o que fazer; porque nem sabe se há de falar, calar, rir ou chorar. É um glorioso desatino, uma celestial loucura; onde se aprende a verdadeira sabedoria, e é deleitosíssima maneira de a alma gozar.

2. E é assim que o Senhor me deu em abundância e muitas vezes esta oração, creio que há cinco ou até seis anos; mas eu nem a entendia nem a saberia dizer; e assim tinha para mim ser melhor dizer muito pouco ou nada, chegando aqui. Que tudo  era união de todas as potências e que era mais que a passada, bem o entendia eu e muito claramente; mas confesso, não podia determinar nem perceber como era esta diferença.

Creio que pela humildade que V. Mercê tem tido em querer se ajudar com uma simplicidade tão grande como a minha,  acabando hoje de comungar, deu-me o Senhor esta oração sem eu poder ir adiante; e inspirou-me estas comparações e ensinou a maneira de o dizer e o que há de fazer aqui a alma. Certo é que me espantei e o entendi num momento.

Muitas vezes estive assim, como desatinada e embriagada neste amor, e jamais tinha podido entender como era. Bem via eu ser obra de Deus, mas não podia compreender como operava aqui; porque, embora as potências estejam de fato e em verdade quase  todas unidas a Ele, não estão contudo tão engolfadas que não operem.
Gostei em extremo de tê-lo agora entendido. Bendito seja o Senhor que assim me regalou!

3. Só têm habilidade as potências para se ocuparem todas em Deus.
Nem parece que alguma se ouse mexer, nem que a possamos fazer mover, a não ser que, com muito trabalho, nos quiséssemos distrair; e ainda assim não me parece que isso se pudesse então conseguir.

Dizem-se aqui muitas palavras em louvor de Deus, sem ordem nem concerto, se o mesmo Senhor as não concerta. Pelo menos o entendimento não vale aqui nada. Quisera a alma dar vozes em louvores e ficar que não cabe em si; um desassossego saboroso. Já se abrem as flores, já começam a dar seu olor. 

Aqui queria a alma que todos a vissem e entendessem a sua glória para que á ajudassem nos louvores a Deus e quisera comunicar e dar-lhes parte do seu gozo, porque não pode com tanto gozar. 

Parece-me ser como aquela que diz o Evangelho que queria chamar ou chamou as suas vizinhas. Isto, a meu parecer, devia sentir o admirável espírito do real profeta Davi quando tangia a harpa é cantava os louvores de Deus. Deste glorioso Rei sou eu muito devota e quereria que todos o fossem, em especial os que são pecadores.

4. Oh! Valha-me Deus! Como fica uma alma quando está assim! Toda ela queria ser línguas para louvar ao Senhor! Diz mil desatinos santos, atinando sempre em contentar a Quem a tem assim. 

Eu sei duma pessoa que, sem ser poeta, lhe acontecia fazer de repente coplas muito sentidas, declarando bem a sua pena, não tiradas do seu entendimento, senão que, para mais gozar a glória que tão saborosa pena lhe dava, dela se queixava a seu Deus.

Todo o seu corpo e alma queria que se despedaçassem para mostrar o gozo que sente com esta pena. E, que tormentos se lhe poderiam pôr então diante dela que lhe não fosse saboroso passá-los por seu Senhor? 

Vê claramente que não faziam quase nada de sua parte os mártires em os passar, porque bem conhece a alma que a fortaleza lhe vem de outra parte. Mas, que sentirá por ter razão, a fim de viver no mundo e voltar aos cuidados e cortesias que nele há?

Não penso, porém, ter enriquecido coisa alguma que não fique baixa em relação a este modo de gozo que o Senhor quer neste desterro dar a gozar à alma. Bendito sejais para sempre, Senhor, e louvem-Vos todas as coisas eternamente. E pois que ao escrever isto não estou fora desta santa loucura celestial - de que tão sem méritos meus e por Vossa bondade e misericórdia me fazeis graça - eu Vos suplico, meu Rei, que tenhais agora por bem que todos aqueles com quem eu tratar estejam ou loucos de Vosso amor ou permiti que eu não trate com ninguém. 

Ordenai, Senhor, ou que eu não tenha mais em conta coisa que seja do mundo, ou tirai-me dele. Não pode mais, Deus meu, esta Vossa serva sofrer tantos trabalhos como tem por se ver sem Vós e, assim, se há de viver, não quer descanso nesta vida, nem que Vós lho deis. 

Queria já esta alma ver-se livre do corpo: ou comer, a mata; ou dormir, a atormenta; vê que se lhe passa o tempo da vida vivendo em regalos e que nada já a pode regalar fora de Vós. Parece que vive contra a natureza, pois já não queria viver em si, senão em Vós.

5. Oh! Verdadeiro Senhor e glória minha, que tênue e pesadíssima cruz tendes preparada para os que chegam a este estado! Tênue, porque é suave; pesada, porque vezes há que não há sofrimento que não sofra. Jamais queria, no entanto, ver-se livre dela, se não fosse para ver-se já conVosco. 

Quando se recorda que não Vos serviu em nada e que, vivendo, Vos pode servir, queria carregar-se com muito mais pesada cruz e nunca, até ao fim do mundo, morrer. Tem em nada o seu descanso a troco de Vos fazer um pequeno serviço; não sabe o que desejar, mas bem entende que não deseja outra coisa senão a Vós.

6. Oh! filho meu! (que é tão humilde que assim se quer nomear aquele a quem isto vai dirigido e me mandou escrever), sejam só para si algumas coisas em que V. Mercê vir que saio dos limites. É que não há razão que baste para não me tirar dela quando o Senhor me põe fora de mim, nem creio que sou eu a que falo desde que comunguei esta manhã. Parece-me sonhar o que vejo e não queria ver senão enfermos do mal com que eu agora estou. 

Suplico a V. Mercê que sejamos todos loucos por amor d'Aquele a Quem por nós assim chamaram. Diz V. Mercê que me quer bem, pois em dispor-se para que Deus lhe faça esta graça quero eu que me  mostre, porque vejo muito poucos, que os não veja com senso demasiado, para o que lhes diz respeito. Bem pode ser que o tenha eu mais que todos.

Não me consinta V. Mercê, meu Pai, pois também o é, assim como é filho, pois é meu confessor e a quem confiei a minha alma.
Desengane-me com verdade, que se usam muito pouco estas verdades.

7. Este contrato quisera eu que fizéssemos os cinco que, ao presente, nos amamos em Cristo. Como outros que nestes tempos se juntavam em.segredo para ir contra Sua Majestade e ordenar maldades e heresias, procurássemos nós juntarmo-nos alguma vez para nos desenganarmos uns aos outros e dizerem que nos poderíamos emendar e contentar mais a Deus. Não há quem tão bem se conheça a si mesmo como nos conhecem os que nos estão olhando, se é com amor e cuidado do nosso aproveitamento.

Digo "em segredo", porque já não se usa esta linguagem. Até os pregadores vão ordenando seus sermões de modo a não descontentar. Boa será a intenção e a obra também; mas assim emendam-se poucos. Mas, como é que não são muitos os que, por meio dos sermões, deixam vícios públicos? Sabe o que. me parece?

Têm muito senso os que pregam. Não estão sem ele, com o grande fogo de amor de Deus como estavam os apóstolos, e assim aquece pouco esta chama. Não digo que seja tanta como eles tinham, mas quisera que fosse mais do que vejo. Sabe V. Mercê o que deve fazer muito neste caso? Em já  ter aborrecimento à vida e em pouca estima a honra. Nada se lhes dava - a troco de dizer uma verdade e de a sustentar para glória de Deus - de perder tudo ou de ganhar tudo; porque, quem deveras tudo tem arriscado por Deus, com igual ânimo suporta tanto uma como outra coisa. Não digo que sou destas, mas queria sê-lo.

8. Oh! grande liberdade, termos por cativeiro o ter de viver e tratar conforme às leis do mundo! Como esta liberdade se alcança do Senhor, não há escravo que não arrisque tudo para se resgatar e voltar à sua terra. 

É, pois, este o verdadeiro caminho; não há que parar nele, porque nunca acabaremos de ganhar tão grande tesouro, até que se nos acabe a vida. O Senhor nos dê para isto o Seu favor. Rasgue V Mercê isto que tenho dito, se lhe parecer, e tome-o como uma carta para si e perdoe-me por ter sido muito atrevida.