Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Prossegue na mesma matéria e dá alguns avisos sobre o modo de proceder na oração de quietude. Diz como há muitas almas que chegam a ter esta oração e poucas as que passam adiante.


LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila

CAPÍTULO 15. Prossegue na mesma matéria e dá alguns avisos sobre o modo de proceder na oração de quietude. Diz como há muitas almas que chegam a ter esta oração e poucas as que passam adiante. São muito necessárias e proveitosas as coisas que aqui se dizem.

1. Voltemos agora ao assunto. Esta quietude e recolhimento da alma é coisa que se torna muito sensível pela satisfação e paz que
infunde, com grandíssimo contentamento e sossego das potências,
e muito suave deleite. Parece-lhe - como nunca chegou antes - que nada lhe fica a desejar e de boa vontade diria, como São Pedro, poderia ser ali a sua morada. Não ousa mexer-se nem menear a cabeça, porque lhe parece que  há de fugir das mãos aquele bem, nem respirar algumas vezes queria. Não percebe a pobrezinha que, se por si mesma nada pode para trazer a si aquele bem, ainda menos poderá para o deter além do tempo que o Senhor quiser.

Já disse que neste primeiro recolhimento e quietude não se perdem as potências da alma; mas está tão satisfeita com Deus que, enquanto aquilo dura, embora as duas potências se dissipem, como a vontade está unida a Deus, não perde a quietude e o sossego mas, antes, torna pouco a pouco a recolher o entendimento e a memória. Porque, embora não esteja ainda de todo em tudo engolfada, está tão bem ocupada, sem saber como, que, por mais esforços que empreguem, não lhe podem tirar o seu contento e gozo, então vai ajudando esta centelhazinha de amor de Deus para que ela não se apague.

2. Praza à Sua Majestade dar me a graça para que eu consiga compreender, porque há muitas, muitas almas que chegam a este estado, e poucas as que passam adiante, e não sei quem tem a culpa. Bem certo é não ser Deus que falta, pois, visto que Sua Majestade faz a graça de que se chegue a este ponto, não creio que cesse de fazer muitas mais, a não ser por nossa culpa. 

E importa muito que a alma; chegando aqui, conheça a grande dignidade em que está e a grande graça que o Senhor lhe tem feito e como, em boa razão, não deveria mais ser da terra, pois parece que Ele, em Sua bondade, a fez cidadã do Céu, se ela o não estorvar por culpa sua. E desventurada será se voltar atrás! Penso que seria para ir até ao mais baixo, como eu ia indo, se a misericórdia do Senhor não me tivesse feito voltar. É que, para a maior parte, será por graves culpas, ao meu ver, pois não é possível deixar tão grande bem sem grande cegueira de muito mal.

3. E assim rogo, por amor do Senhor, às almas a quem Sua Majestade fez tão grande graça de chegarem a este estado, que se conheçam e tenham em muito, com uma humildade e santa presunção para não voltarem às panelas do Egito. E se, por sua fraqueza e maldade, é ruim e miserável natural caírem como eu fiz, tenham sempre diante de si o bem que perderam e tenham desconfiança e andem com temor. 

E têm razão de o ter porque, se não voltam à oração, hão de ir de mal a pior. Isto chamo eu verdadeira queda: ficar aborrecido no caminho por onde se ganhou tanto bem. É com estas almas que falo; não digo que não hão de ofender a Deus e cair em pecados, ainda que com boa razão deles tinha que se guardar muito quem começou a receber estas graças, mas somos miseráveis. Eu aviso para que não deixe de ter oração, que ali entenderá o que faz e obterá do Senhor arrependimento e fortaleza para se levantar. Creia que, se desta oração se afastar, ao meu ver, está em perigo. Não sei se entendo o que digo, porque - como tenho dito - julgo por mim...

4. É, pois, esta oração uma centelhazinha de Seu verdadeiro amor que o Senhor começa a acender na alma, e Ele quer que a alma vá
compreendendo que coisa é esse regalado amor. Esta quietude e
recolhimento e centelhazinha, se é espírito de Deus e não gosto dado pelo demônio ou procurado por nós à quem tenha experiência, impossível é deixar de entender que é coisa que não se pode adquirir. 

Este nosso natural é, porém, tão desejoso de coisas saborosas, que tudo quer provar. Mas fica logo muito frio porque, por muito que se queira começar a fazer ateando o fogo para alcançar este gosto, só parece que se lhe deita água para o apagar. Esta centelhazinha posta por Deus; por pequenininha que seja, faz muito ruído; e, se a alma não a mata por sua culpa, é a que começa a atear o grande fogo que lança de si as chamas, como direi em seu lugar, do grandíssimo amor de Deus que Sua Majestade faz arder nas almas perfeitas.

5. Esta centelha é um sinal ou penhor que Deus dá a esta alma de já, a ter escolhido para grandes coisas se ela se dispuser para as
receber. É grande dom, muito maior do que eu poderei dizer.
E isto, para mim é de grande lástima, porque - como digo - conheço muitas almas que chegam aqui, e as que daqui passam, como haveriam de passar, são tão poucas que me causa vergonha dizê-lo.

Não digo eu que haja poucas, porque muitas deve haver - pois para alguma coisa nos sustenta Deus. Digo o que tenho visto. Quisera eu muito avisá-las de que procurem não esconder o talento, pois parece que Deus as quer escolher para proveito de outras muitas, em especial nestes tempos em que há falta de amigos fortes de Deus para sustentar os fracos. Os que em si reconhecerem esta graça, tenham-se por tais, e saibam responder com as leis que até
mesmo a boa amizade do mundo exige. E, se assim não for, temam e tenham medo, - como já disse - não se façam mal a si, e praza a
Deus que seja só a eles.

6. O que a alma há de fazer nos tempos desta quietude, não é mais
que proceder com suavidade e sem ruído. Chamo "ruído" andar com
o entendimento buscando muitas palavras e considerações para dar graças por este benefício e amontoar pecados e faltas para ver que o não merece. 

Tudo isto põe-se aqui em ação: e representa o entendimento, e revolve-se a memória. Estas potências, certo é, a mim me cansaram às vezes, pois, apesar de ter pouca memória, não a posso subjugar. A vontade, com serenidade e sensatez, entenda que não se negocia bem com Deus à força de braços e que estes são como que grandes troços de madeira postos sem discrição, que  não servem mais senão para abafar esta centelha. Reconheça-o e diga com humildade: - Senhor, que posso eu aqui? O que tem a ver a serva com o Senhor e a terra com o Céu? 

- Ou outras palavras que aqui se lhe oferecerem de amor bem fundado no conhecimento de que é verdade o que diz. E não faça caso do entendimento que é maçante. Nem ela lhe queira dar parte do que goza ou trabalha para o recolher, pois muitas vezes a alma ver-se-á nesta união de vontade e sossego e com o entendimento muito dissipado e mais vale que ela - digo a vontade - o deixe e não se vá atrás dele, mas que se fique a gozar daquela mercê, recolhida como sábia abelha. Se nenhuma entrasse na colmeia e para se trazerem umas às outras todas se fossem, mal se poderia fabricar o mel.

7. Assim perderá muito a alma se não tem cuidado nisto; em especial se o entendimento for agudo; porque, quando começa  por pouco que seja ordenar práticas e a buscar razões, se são bem apresentadas, pensará que faz alguma coisa. A razão que aqui há de ter é entender claramente que não há nenhuma para que Deus nos faça tão grande graça, mas tão somente a Sua bondade. 

E, vendo que estamos tão perto de Sua Majestade, pedir graças e
rogar-Lhe pela Igreja e pelos que se nos recomendaram e pelas almas do purgatório. Não com ruído de palavras, mas com o sentimento de desejar que nos ouça. É oração que abarca muito e alcança-se mais com ela do que com muito falar do entendimento.

Desperte em si a vontade algumas razões que se lhe apresentarão
da mesma razão de se ver tão melhorada, para avivar este amor e
proponha-se alguns atos amorosos a fazer por Aquele a Quem tanto deve, mas sem admitir - como tenho dito - ruído do entendimento, à busca de grandes coisas. Mais fazem aqui ao caso
umas palhazinhas postas com humildade (e menos serão de que
palhas, se formos nós a pô-las) e mais ajudam a acender este fogo
do que muita lenha junta de razões muito doutas, ao nosso ver, que no espaço dum Credo abafarão a centelha. 

Isto é bom para os letrados que me mandaram escrever; porque, por bondade de Deus, todos chegaram aqui e poderá ser que se lhes vá o tempo em aplicar as Escrituras. E ainda que as letras não deixarão de lhes aproveitar muito, antes e depois, aqui, nestes momentos de oração, pouca necessidade há delas - ao que me parece - a não ser que seja para esfriar a vontade. É que o entendimento está então com uma tão grande claridade, por se ver tão perto da luz, que até eu, com ser a que sou, pareço outra.

8. E assim tem-me acontecido, estando nesta quietude, que, apesar
de não entender quase nada do que rezo em latim, em especial no Saltério, não só não entender o texto em língua comum, mas de ir mais além regalando-me ao ver o que ele quer dizer.

Deixemos o caso dos que tivessem de pregar ou ensinar, por que então bom é se servirem eles daquele bem, para ajudar aos pobres
de pouco saber como eu, pois é grande coisa a caridade e este desejo de fazer aproveitar sempre as almas, indo claramente só por Deus.

Assim, pois, nestes tempos de quietude deixe descansar a alma com o seu descanso. Deixem as letras de lado. Tempo virá em que elas lhes sejam de proveito no serviço do Senhor e eles as tenham em tanto que, por nenhum tesouro, as quereriam ter deixado de saber, só para servir a Sua Majestade, pois que ajudam muito. 

Mas, diante da Sabedoria infinita, creiam-me que vale mais um pouco de estudo de humildade e um ato dela, de que toda a ciência do mundo! Aqui não há que arguir, mas somente conhecer com simplicidade o que somos e apresentarmo-nos assim diante de Deus. Quer Ele que a alma se faça néscia - como de verdade o é ante a Sua presença - pois Sua Majestade se humilha tanto que a suporta junto de Si, sendo nós o que somos.

9. Também se aplica o entendimento em dar graças; mas com a vontade, com sossego, com um não ousar elevar os olhos como o publicano, dá mais agradecimentos do que quanto o entendimento - em transtornar a retórica - por ventura possa dar.

Aqui, enfim, não se há de deixar de tudo a oração mental , nem mesmo algumas orações vocais, se alguma vez o quiserem ou puderem, porque, se a quietude for grande, mal se pode falar, a não ser a muito custo.

Sente-se, ao meu ver, quando é espírito de Deus ou quando procurado por nós, isto é, se - com um começo de devoção que Deus nos concede - nós queremos, por nós mesmos, passar já a este sossego da vontade, como já tenho dito; não produz nenhum efeito, acaba depressa e deixa aridez.

10. Se é do demônio, uma alma exercitada o entenderá, penso eu, porque deixa inquietação e pouca humildade e pouca disposição para os efeitos que consigo traz o espírito de Deus. Não deixa luz no entendimento, nem firmeza na verdade. O demônio pode causar aqui pouco ou nenhum dano se a alma endereçar o deleite e suavidade que ali sente para Deus e n'Ele põe seus pensamentos e desejos, como ficou dito. 

Nada pode então ganhar o demônio; antes permitirá Deus que, com o próprio deleite que causa na alma, venha a perder muito, porque este deleite ajudará a que a alma - como pensa que é de Deus - venha muitas vezes à oração com cobiça de O gozar; se ela for humilde e não curiosa nem interesseira de deleites, ainda mesmo que estes sejam espirituais, senão amiga de cruz, pouco caso fará do gosto que dá o demônio. E isto não poderá ela assim fazer, se for espírito de Deus, mas antes o terá em muito. 

Mas em coisa sugerida pelo demônio, como ele é todo mentira, ao ver que a alma com o gosto e deleite se humilha - porque nisto há de ela ter muito, e em todas as coisas de oração e gostos procurar sair humilde - o demônio não voltará muitas vezes, vendo que perde.

11. Por isto e por muitas outras coisas, avisei eu no primeiro modo de oração -na primeira água - o muito que importa começarem as almas a terem oração indo se desapegando de todo o gênero de contentamentos e entrarem nela determinadas única e somente a ajudarem Cristo a levar a cruz, como bons cavaleiros que, sem soldo algum, querem servir a seu Rei, pois sabem que têm a paga bem segura. 

E olhos postos no verdadeiro e perpétuo reino que pretendemos ganhar! Grandíssima coisa é ter-se isto sempre bem presente, em especial nos princípios. Depois vê-se mui claramente que mais preciso é esquecê-lo para poder viver; do que procurá-lo: lembrar o pouco que tudo dura, e como tudo é nada. e o nada em que se há de apreciar o descanso.

12. Parece ser isto coisa muito baixa e assim é na verdade. Os mais adiantados em perfeição teriam até por afronta e correr-se-iam a si mesmos se pensassem que deixam os bens deste mundo porque se hão de acabar, quando - embora estes durassem para sempre - eles se alegrariam de os deixar por Deus e isto tanto mais, quanto mais perfeitos fossem, e quanto mais durassem. Aqui, nestes, já está crescido o amor e é ele o que opera. Mas, para os que começam, é lhes importantíssimo ter estes pensamentos e não os tenham por baixos. É grande o bem que se ganha e assim o recomendo tanto.

Isto ser-lhes-á necessário - até aos muitos elevados em oração em certas épocas em que Deus os quer provar e parecem abandonados por Sua Majestade. Pois, como já tenho dito - e quisera eu que não o esquecessem -, nesta vida em que vivemos a alma cresce, e cresce de verdade mas não como o corpo, embora assim o digamos. É que, uma criança; depois de crescer e ter corpo e o ter grande - já de homem - não torna a decrescer e a ter corpo de menino. Aqui, quer o Senhor que seja assim ( tenho visto por mim) pois não o sei por outra via. Deve ser para nos humilhar para nosso maior bem e não nos descuidemos enquanto estivermos neste desterro, pois quem mais alto estiver, mais há que temer e se fiar menos em si.

Ocasiões há em que estes mesmos, que já têm a sua vontade tão posta na de Deus, que se deixariam atormentar e passariam mil mortes para não cair e cometer uma imperfeição, se vêem tão combatidos de tentações e perseguições que - para não fazer pecados e se livrarem de ofender a Deus - é preciso, e torna-se-lhes necessário aproveitar as primeiras armas da oração, e voltar a pensar que tudo acaba, e que há Céu e inferno, e outras coisas deste gênero.

13. Pois, voltando ao que dizia, grande fundamento é, para se livrar dos ardis e gostos vindos do demônio, uma alma começa  com a determinação de seguir o caminho de cruz desde o princípio e de não desejar as ditas consolações. O mesmo Senhor nos ensinou este caminho de perfeição ao dizer: «Toma a tua cruz e segue-Me». É Ele o nosso modelo; não tem que temer quem, só para O contentar, segue Seus conselhos.

14. No aproveitamento que virem em si entenderão estas almas que isso não lhes vem do demônio. É que; embora tornem a cair, fica-lhes um sinal de que esteve ali o Senhor: o levantarem-se depressa, além destes que agora direi: - quando é espírito de Deus, não é necessário andar atrás de coisas à busca de humildade e confusão, porque o mesmo Senhor as dá de modo bem diferente do que podemos obter por meio das nossas consideraçõezinhas, que não são nada em comparação duma verdadeira humildade, que traz consigo luz, que aqui ensina o Senhor e que produz uma confusão que nos desfaz. 

É coisa muito perceptível este conhecimento que Deus dá para que entendamos que nenhum bem possuímos por nós mesmos, e quanto maiores as graças, maior a compreensão. -Incute um grande desejo de ir avante na oração e de não a deixar por nenhuma coisa de trabalho que possa advir. A tudo se oferece. - Sente uma segurança com humildade e temor de que se há de salvar. - Deixa  longe o temor servil da alma e dá-lhe o filial temor muito mais acrescido. - Vê que  começa um amor a Deus muito sem interesse próprio. - Deseja momentos de solidão para mais gozar daquele bem.

15. Enfim, para não me cansar, é um princípio de todos os bens, um
estarem já as flores em termos de não lhes faltar senão um quase nada para desabrochar. Isto verá muito claramente a alma e de nenhuma maneira poderá então convencer-se de que não esteve Deus com ela, até se ver de novo com quebras e imperfeições, que então tudo teme. 

E é bem que haja temor, embora haja almas que lhes é de mais proveito acreditarem, de certeza, que é Deus, de que todos os temores que lhes possam infundir. Se a alma é de si amorosa e agradecida, mais a faz voltar para Deus a memória da graça que Ele lhe fez, do que todos os castigos do inferno que lhe representam. Pelo menos a mim, apesar de tão ruim, isto me acontecia.

16. Porque os sinais do bom espírito se irão; mas  a quem custa muito trabalho tirá-los a limpo, não os digo agora aqui. Creio que, com o favor de Deus, nisto entenderei alguma coisa; porque, mesmo deixando à parte a experiência em que muito tenho entendido, eu sei que alguns letrados muito letrados e de pessoas muito santas quem é de razão que se dê crédito. Não andem, pois, as almas tão cansadas quando aqui chegarem pela bondade do Senhor, como, eu tenho andado.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Começa a declarar o segundo grau de oração que o Senhor faz sentir à alma gostos mais particulares. Declara-o para fazer ver como já são sobrenaturais. É muito importante.




Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

         CAPÍTULO 14. Começa a declarar o segundo grau de oração que o Senhor  faz  sentir à alma gostos mais particulares. Declara-o para fazer ver como já são sobrenaturais. É muito importante.

1. Já fica dito com que trabalhos se rega este jardim e quanto precisa da força de braços, tirando a água do poço. Digamos agora o segundo modo de a tirar que o Senhor do horto ordenou para que, por meio de ferramentas próprias, o hortelão tirasse mais água com menos trabalho e pudesse descansar sem estar continuamente trabalhando.

Este modo, aplicado à oração que chamam de quietude, é o que eu agora quero tratar.

2. Aqui começa a se recolher a alma e toca já em coisa sobrenatural, porque de nenhuma maneira ela o pode conseguir, por mais diligências que faça.

Verdade é que parece ter-se cansado, algum tempo em andar e a trabalhar com o entendimento, enchendo-os ; aqui, porém, a água subiu mais alto e assim trabalha-se muito menos para a tirar do poço? Digo que a água está mais perto, porque a graça dá-se mais claramente a conhecer à alma.

Isto é recolher as potências dentro de si para gozar
daquele contentamento com mais gosto; mas não se perdem, nem ficam adormecidas Só a vontade se ocupa de maneira que, sem saber como, se torna cativa, dando somente consentimento para que a prenda Deus, como quem bem sabe ser presa de Quem ama.

Oh! Jesus e Senhor meu, como nos vale aqui o Vosso amor! porque  tem o nosso tão atado que lhe não deixa liberdade para, naquele ponto, amar coisa alguma senão a Vós.

3. As outras duas potências ajudam a vontade para que se torne capaz de gozar tanto bem, ainda que algumas vezes, mesmo estando unida a vontade, aconteça não ajudar  muito.

Mas então, não faça caso delas, mas fique em seu gozo e quietude; porque se as quiser recolher, ela e elas perderão. São, então, como pombas que não se contentam com a comida que lhes dá o dono do pombal sem trabalho algum e vão buscar  comer em outras partes; mas acham tão mau, que voltam, e assim vão e vêm ver se a vontade lhes dá aquilo de que goza.

Se o Senhor lhes quer dar comida, detêm-se; se não, tornam a ir buscá-la. Devem pensar que se aproveita à vontade e, às vezes, em querer a memória ou imaginação representar o que goza, a prejudicará. Tenha, pois, cuidado de se tê-las como direi.

4. Tudo isto que aqui se passa é com grande consolo e com tão
pouco trabalho que não cansa a oração, embora dure muito tempo; porque o entendimento obra aqui muito passo a passo e tira muito mais água do que tirava do poço. As lágrimas que Deus aqui dá, já são com gozo; ainda que se sintam, não se procuram.

5. Esta água, de grandes bens e graças que o Senhor dá aqui, faz crescer as virtudes muito mais  em comparação da oração anterior. É que a alma já se vai elevando acima da sua miséria e já se  dá alguma noticia dos gostos da glória.

Isto, creio, a faz crescer mais e também chegar mais perto da verdadeira virtude de onde todas as virtudes procedem, que é Deus; porque começa Sua Majestade a se comunicar a esta alma e quer que ela sinta como  lhe comunica.

Chegando aqui, começa logo a perder a cobiça das coisas de cá de baixo, ficando ao mesmo tempo a perder poucas graças, porque vê claramente que um momento daquele gosto não se pode aqui conseguir, nem há riquezas, nem senhorios, nem honras, nem deleites que bastem para dar, num abrir e fechar de olhos, este contentamento porque é verdadeiro, e alegria que se vê que nos alegra.

Porque as coisas daqui de baixo, só por maravilha -julgo eu - entenderemos onde está esse contentamento; nunca lhes falta um «senão». Nestas é tudo «sim» enquanto dura; o «não» vem depois, por se ver que acabou e que não o pode voltar a recuperar, nem sabe como; pois, mesmo que se faça em pedaços com penitências e orações e todas as demais coisas, se o Senhor não lho quiser dar, de pouco lhe aproveita.

Quer Deus, por Sua grandeza, que esta alma entenda que Sua Majestade está tão perto dela, que já não tem necessidade de enviar mensageiros, mas tão somente falar ela mesma com Ele e não em alta voz: já está tão perto que num mexer os lábios a entende.

6. Parece impertinência dizer isto, pois sabemos que Deus sempre nos entende e está conosco. Nisto não há que duvidar que é assim.

Mas quer este Imperador e Senhor nosso que compreendamos aqui que nos entende e o que faz em nós a Sua presença. E faz também entender que quer particularmente começar a operar na alma pela grande satisfação interior e exterior que lhe dá e pela diferença que há, como já tenho dito, entre este deleite e contentamento e os de cá da terra.

Parece encher o vazio que, pelos nossos pecados, tínhamos feito na alma. É no mui íntimo da alma esta satisfação, sem ela saber por onde nem como lhe veio, nem sabe muitas vezes o que há de fazer, nem querer, nem pedir. Tudo lhe parece que encontra  junto e não sabe o que encontra, nem mesmo eu sei como dá-lo a entender; é que, para muitas coisas, ser-me-ia preciso ter letras.

Aqui ficaria bem dar a entender o que é auxílio geral e particular, que muitos o ignoram e, como o Senhor quer que a alma aqui veja este auxílio particular quase à vista de olhos, como dizem.

Ser-me-iam também precisas letras para muitas coisas que irão erradas; mas, como será visto por pessoas que entendem se há erro, vou descuidada: porque, tanto a respeito de letras como de espírito,  sei que o posso estar, indo para as mãos de quem vai, pois saberão entender e tirar o que estiver mal.

7. Quereria, pois, dar isto a entender, porque são princípios fundamentais e, quando o Senhor começa a fazer estas graças, a própria alma não as entende nem sabe o que há de fazer de si.

Porque, se Deus a leva por caminho de temor, como   fez a mim, é grande trabalho se não há quem a entenda, e grande o gosto ao ver-se como que pintada, pois vê então claramente que é por ali que vai.

E é grande bem saber e o que há a fazer para se ir aproveitando em qualquer destes estados. Como tenho sofrido muito e perdido longo tempo por não saber que fazer, sinto grande lástima das almas que se vêem sós quando chegam aqui.

Tenho lido muitos livros espirituais, e embora toquem no que faz ao caso, explicam muito pouco e, se não for alma muito exercitada, mesmo explicando bem, ela terá ainda bastante que fazer para  entender.

8. Eu queria muito que o Senhor me favorecesse para aqui dizer os efeitos que operam na alma estas coisas que começam a ser sobrenaturais, para que se entenda, pelos efeitos, quando é espírito de Deus. Digo “se entenda" conforme ao que aqui se pode entender.

Será sempre bom, no entanto, andarmos com temor e recato; porque, embora seja de Deus, alguma vez poderá o demônio transfigurar-se em anjo de luz. E, se não for alma muito exercitada, não o entenderá; e tão exercitada que, para o entender, é preciso chegar muito ao cume da oração.

Ajuda-me pouco, o pouco tempo de que disponho e assim será preciso que Sua Majestade faça-o por mim, porque tenho que andar com a Comunidade e com muitas outras ocupações, pois estou em uma casa que agora se começa, como depois se verá; e assim é muito difícil sem ter assento o que escrevo, e a pouco e pouco.

Isto não quisera eu, porque, quando o Senhor dá espírito, escreve-se com mais facilidade e melhor; parece então que é como quem tem um modelo na frente, por onde vai copiando aquele trabalho; mas, se o espírito falta, não mais se conserta esta linguagem: parece uma confusão - é maneira de dizer -ainda que se tenham tido muitos anos de oração.

E assim me parece de grandíssima vantagem, quando escrevo, estar concentrada, porque vejo então claramente que não sou eu quem o diz, nem o ordeno com o entendimento, nem sei depois como acertei a dizê-lo. Isto me acontece muitas vezes.

9. Agora, voltemos à nossa horta ou vergel, e vejamos como começam estas árvores a impregnar-se para florescer e dar depois fruto, e as flores e os cravos na mesma, para dar perfume. Regala-me esta comparação. Muitas vezes, no princípio  (e praza ao Senhor haja eu agora começado a servir Sua Majestade! digo, nos primeiros tempos do que direi de aqui por diante da minha vida), era para mim grande deleite considerar a minha alma como um jardim e que o Senhor  passeava nele.

Suplicava-Lhe qe aumentasse o odor das florzinhas de virtudes que começavam - segundo me parecia - a querer sair à luz e fosse para Sua glória e, pois eu nada queria para mim, que as sustentasse e cortasse as que quisesse, porquanto bem sabia eu haviam de sair melhores. Disse "cortar", porque vem tempo em que na alma não há memória deste horto; tudo parece estar seco e não haverá água para o sustentar, nem mesmo parece ter havido jamais na alma coisa de virtude!

Passa-se muito trabalho, porque o Senhor quer que  pareça ao pobre do hortelão que tudo quanto tem feito para  cultivar e regar, está perdido. Então é o verdadeiro limpar e arrancar pela raiz as ervazinhas más - embora pequenas - que tenham ficado, reconhecendo que não há diligência que baste se Deus nos tira a água da graça, e termos em pouco o nosso nada e até menos que nada. Ganha-se aqui muita humildade; tornam de novo a crescer as flores.

10. Oh! Senhor meu e Bem meu! Não posso dizer isto sem lágrimas e grande regalo da minha alma, pois Vós, Senhor, quereis estar assim conosco e estais no Sacramento, porque com toda a verdade assim se pode crer, pois que é de fé. E com grande verdade podemos fazer esta comparação. E, a não ser por nossa culpa, poderemos gozar convosco e Vós folgareis conosco, pois dizeis ter Vossas delícias em estar com os filhos dos homens.

Oh! Senhor meu! Que é isto? Sempre que ouço esta palavra dá-me grande consolo e isto mesmo quando andava muito perdida. Será possível, Senhor, que haja uma alma que chegue a ponto de Vós lhe dardes graças e regalos semelhantes, e entender que Vós folgais com ela, e Vos torne a ofender depois de tantos favores e de tão grandes mostras do amor que lhe tendes, do qual se não pode duvidar, pois se vê claramente a obra?

Sim, há, por certo, e não uma vez mas muitas, que sou eu. E praza à Vossa bondade, Senhor, que seja só eu a ingrata e a que tenha feito tão grande maldade e tido tão excessiva ingratidão.

Porque, ao menos dela, a Vossa infinita bondade tem tirado algum bem; e quanto maior foi o mal, mais resplandece o grande bem de Vossas misericórdias. E com quanta razão as posso eu para sempre cantar!

11. Suplico-Vos, Deus meu, que assim seja e eu as cante sem fim, já que tivestes por bem de as usar tão excessivas para comigo, que pasmam os que as vêem. A mim, fazem-me sair muitas vezes de mim mesma, para melhor Vos poder louvar; porque, estando em mim sem Vós, nada poderei, Senhor meu, senão tornar a ver cortadas as flores deste horto, de sorte que esta miserável terra voltaria a servir de esterqueira como antes.

Não o permitais, Senhor, nem queirais que se perca uma alma que com tantos trabalhos comprastes e tantas vezes de novo a tornastes a resgatar e a tirar dos dentes do terrível dragão.

12. Perdoe-me Vossa Mercê sair do assunto; e, como falo a meu propósito, não se espante, pois é como se apodera da alma aquilo que escreve. Às vezes, muito faz em não se deixar ir por diante em louvores a Deus, pois se lhe representa, enquanto vai escrevendo, o muito que Lhe deve.

E creio não causará desgosto a V. Mercê, porque ambos, me parece, podemos cantar uma e a mesma coisa, ainda que de maneira diferente; pois é muito mais o que eu devo a Deus, por Ele mais me ter perdoado, como V. Mercê sabe.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Continua a tratar do primeiro grau de oração e dá uns conselhos para algumas tentações que o demônio apresenta algumas vezes. É muito proveitoso.



Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

        CAPÍTULO 13. Continua a tratar do primeiro grau de oração e dá uns conselhos para algumas tentações que o demônio apresenta algumas vezes. É muito proveitoso.

1. Parece-me bem falar sobre algumas tentações que tenho visto ter no princípio -algumas tenho-as tido - e dar alguns avisos sobre coisas que julgo necessárias.

Procure andar ao princípio com alegria e liberdade, porque há pessoas que parece que se vai embora a devoção se se descuidam um pouco. Bom é cada qual andar com temor para não se fiar nem pouco nem muito de si mesmo, pondo-se em ocasiões em que  é fácil ofender a Deus.

Isto é muito necessário até já se estar muito forte na virtude. E não há muitos que o estejam tanto que, metidos em ocasiões favoráveis ao seu natural, se possam descuidar.

Que sempre - enquanto vivemos, e até por humildade - é bom conhecer a nossa miserável natureza. Mas há muitas coisas em que se pode, como já disse, ter recreação, mesmo para se voltar mais forte à oração. Em tudo é preciso discrição.

2. Ter grande confiança, pois convém muito não apoucar os desejos, mas esperar de Deus que, se nos esforçamos, pouco a pouco -embora não seja logo -poderemos chegar aonde muitos santos chegaram com Seu favor.

Se eles nunca se tivessem determinado a desejá-lo e pouco a pouco pô-lo por obra, nunca teriam subido a tão alto estado. Quer Sua Majestade e é amigo de almas animosas, logo que andem com humildade e sem nenhuma confiança em si. Não tenho visto a nenhuma destas que se fique cá por baixo neste caminho, nem a nenhuma alma cobarde - sob capa de humildade que ande em muitos anos o que essas outras andam em muito poucos.

Espanta-me o muito que faz neste caminho o animar-se a grandes coisas; porque, embora depois a alma não tenha forças, dá um voo e chega a muito, ainda que - como avezinha que tem fracas penas - se canse e fique mais algum tempo.

Isto aproveitou-me muito como aquilo que diz Santo Agostinho: «Dá-me, Senhor, o que me mandas e manda o que quiseres». Pensava muitas vezes que S. Pedro nada tinha perdido em se lançar ao mar, embora depois temesse.

Estas primeiras determinações são grande coisa, ainda que, neste primeiro estado, seja preciso ir-se detendo e ater-se à discrição e parecer do mestre; mas há que olhar-se para que seja de tal forma, que não ensine a andar como sapos nem se contente com que a alma se faça só caçar lagartixas.

A humildade, no entanto, sempre à frente para se compreender que não hão de vir - estas forças - das nossas.

4. Mas é preciso entendermos como tem que ser esta humildade, porque penso que o demônio faz muito mal, a fim de que não vão muito adiante almas que têm oração, fazendo-lhes compreender mal a humildade, e que lhes pareça soberba o ter grandes desejos e querer imitar os santos e desejar o martírio.

Logo nos diz ou dá a entender que as coisas dos santos são para admirar, mas não para as fazermos nós que somos pecadores.
Isto também o digo eu; mas temos de olhar ao que é de espantar  e ao que é de imitar. De fato, não seria bem que uma pessoa fraca e enferma se expusesse a muitos jejuns e penitências ásperas, e fosse para um deserto onde não pudesse dormir nem tivesse que comer, ou coisas semelhantes.

Mas sem pensar que nos podemos esforçar com o favor de Deus a ter um grande desprezo do mundo, a não estimar honras, nem estar preso ao dinheiro. Temos uns corações tão apertados, que parece nos há de faltar a terra em querendo-nos descuidar um pouco do corpo para darmos ao espírito.

Depois nos parece que ajuda ao recolhimento ter muito bem consertado tudo o que é preciso, porque os cuidados inquietam a oração.

A mim, isto me pesa; termos tão pouca confiança em Deus e tanto amor próprio, que nos inquiete este cuidado. E assim é que, onde o espírito está tão pouco acostumado como isto, umas ninharias nos dão tão grande trabalho como a outros coisas grandes e de muito valor.

E, a nosso juízo, presumimos de espirituais!

5. Parece agora para mim esta maneira de caminhar para querer conciliar corpo e alma para não perder aqui na terra o descanso e gozar lá no Céu de Deus. E assim será, se andarmos em justiça e apegados à virtude, mas é passo de galinha; nunca com ele se chegará à liberdade de espírito.

Maneira muito boa de proceder, me parece, para o estado de casados, que hão de viver conforme à sua vocação; mas para outro estado, de maneira alguma desejo tal maneira de aproveitar, nem me farão crer que é boa.

Tenho-a experimentado e sempre me ficaria assim, se o Senhor, por Sua bondade, não me tivesse ensinado outro atalho.

6. Ainda que, nisto de desejos, sempre os tive grandes, procurava isto que tenho dito: ter oração e viver a meu belo prazer. Creio que, se tivesse tido quem me lançasse a voar, mais  teria eu me empenhado em que estes desejos fossem com obras.

Mas são - por nossos pecados - tão poucos e tão contados os que não tenham neste caso discrição demasiada, que julgo ser isto causa bastante para os que começam, não chegarem mais depressa a uma grande perfeição.

O Senhor nunca falta, nem é por Ele que há falha; nós é que somos os faltosos e miseráveis.

7. Também se podem imitar os santos procurando solidão e silêncio e muitas outras virtudes, que não nos matarão estes negros corpos que tão concertadamente se querem levar para desconcertar a alma.

E o demônio ajuda muito a torná-los inaptos; quando vê um pouco de temor. Mais não quer para nos dar a entender que tudo nos há de matar e tirar a saúde; até o ter lágrimas faz-nos temer cegar...

Passei por isto e por isso o sei, e não sei que melhor vista nem
saúde podemos desejar que perdê-la por tal causa.

Como sou tão doente, até que me determinei a não fazer caso do corpo nem da saúde, sempre estive atada, sem valer para nada; é ainda agora faço bem pouco. Mas quis Deus que eu entendesse este ardil do demônio; e quando ele me punha diante 'ó perder a saúde', dizia: «Pouco vai em que eu morra».

Quando era o descanso: «Não tenho necessidade de descansar, mas sim de cruz». E assim outras coisas. Vi claramente que, em muitas, muitas delas, embora eu de fato fosse muito doente, era tentação do demônio ou frouxidão minha.

Desde que não ando com tantos cuidados e não sou tão amimada, tenho muito mais saúde.

Assim vai muito de, nos princípios - ao começar a ter oração - não se preocupar com os pensamentos. Creiam o que digo, porque sei isto por experiência. E, para que repreendam em mim, poderá também aproveitar o dizer estas minhas faltas.

8. Outra tentação que  logo há muito de ordinário, é desejar que todos sejam muito espirituais, pois começam a saborear o  sossego e o lucro que ele traz. Desejar isto não é mal; o procurá-lo é que poderá não ser bom se não há muita discrição e dissimulação para proceder de modo a não parecer que querem ensinar; porque neste caso, quem quiser fazer algum bem, precisa de ter virtudes muito fortes para não causar tentação aos outros.

Aconteceu isto comigo - e por isso o compreendo - quando procurava, como já tenho dito, que outras tivessem oração. Como, por um lado, me viam enaltecer o grande bem que era ter oração e por outro lado me viam com grande pobreza de virtudes, trazia-as eu tentadas e desatinadas, como depois me disseram.

E tinham sobrada razão, porque não percebiam como se podia harmonizar uma coisa com a outra. E fui eu causa de não terem por mal o que de si o era, por verem que o fazia algumas vezes, parecendo-lhes haver algum bem em mim.

9. E isto faz o demônio: parece se ajudar com as boas virtudes que temos para autorizar - no que pode - o mal que pretende. Por pouco que este seja, quando é numa comunidade, deve ganhar muito, quanto mais que, o que eu fazia de mal, era muito, muito. E assim, em muitos anos, só três aproveitaram o que eu lhes dizia; mas depois, quando o Senhor já me havia  dado mais forças na virtude, em dois ou três anos aproveitaram muitas, como depois direi.

E, além disto, há outro grande inconveniente que é prejudicar a
alma; pois o que mais temos de procurar ao princípio é de cuidar
só dela, fazendo de conta que não há na terra senão Deus e ela; e isto é o que muito lhe convém.

10. Dá ainda outra tentação que é sentir pena dos pecados e faltas que se vêem nos outros. É que todas elas vêm com capa de zelo pela virtude que é preciso entender e andar com cuidado.

O demônio persuade que sentir pena dos pecados é só por  querer que não se ofenda a Deus e Sua honra, e logo querem remediar. Ficamos tão inquietos com isto que impede a oração, e o maior mal é pensar que é virtude e perfeição e grande zelo de Deus.

Deixo então a pena que dão os pecados públicos - se o houvesse por costume - duma Congregação ou os males da Igreja, dessas heresias onde vemos perderem-se tantas almas. Este pesar é muito bom e, como tal, não inquieta.

A certeza será pois, para a alma que tiver oração, descuidar-se de tudo e de todos e tomar conta de si mesma e em contentar a Deus. Isto convém muito, muito, porque, se fosse dizer os erros que tenho visto cometer, confiados na boa intenção! ...

Procuremos, pois, atender sempre às virtudes e às coisas boas que virmos nos outros e tapar seus defeitos com os nossos grandes pecados. E com esta maneira de agir - embora não se faça logo com perfeição ganha-se uma grande virtude, que é: 'de termos a todos por melhores do que nós'.

E começa-se a lucrar por aqui com o favor de Deus que é necessário em tudo, e, quando falta, são desnecessários os esforços. Supliquemos-Lhe que nos dê esta virtude, pois, fazendo o que está em nossas mãos, Deus não faltará.

11. Atendam também a este aviso os que consideram muito o entendimento, tirando de uma coisa, muitas outras coisas e conceitos. Aos que não podem trabalhar com ele - como a mim  acontecia - não há mais a dizer senão que tenham paciência até que o Senhor lhes dê em que se ocupem, e luz, pois podem tão pouco por si mesmos, que o entendimento mais os embaraça que ajuda.

Pois voltando aos que ponderam, digo para não irem todo o tempo nisso; embora seja muito meritório, porque - como é oração saborosa parece que não há de ter dia de domingo, nem momento que não seja de trabalho. Logo julgam perderem  tempo e eu tenho por grande ganho esta perda.

Mas antes - como tenho dito - imaginem-se diante de Cristo e, sem cansaço do entendimento, estejam falando e regalando-se com Ele, sem se cansarem compondo razões, mas apresentando-Lhe necessidades e a razão que Ele tem para não nos sofrer ali; uma coisa a um tempo e outra a outro, para que se não canse a alma de comer sempre o mesmo manjar.

Estes são muito gostosos e proveitosos - se o paladar se acostuma a comer deles - e trazem consigo grande sustento para dar à alma vida e grandes lucros.

12. Quero me explicar melhor, porque estas coisas de oração são todas elas muito difíceis e, se não se encontra mestre, é muito mais difícil de entender. Isto faz que, embora eu quisesse abreviar - e bastava apenas mencioná-las, para o bom entendimento de quem me mandou escrever estas coisas da oração, a minha rudeza não dá lugar para dizer e dar a entender em poucas palavras uma coisa que tanto importa ser bem declarada.

Eu sofri tanto que tenho dó dos que começam só com livros porque é coisa estranha quão diferentemente se entende o que ali se vê, depois de experimentado.

Pois, voltando ao que dizia, ponhamo-nos a pensar num passo da
Paixão, digamos,  quando o Senhor estava atado à coluna. Anda
o entendimento rebuscando o que ali há a considerar: as grandes dores e pena que Sua Majestade teria naquela solidão e outras muitas coisas que, se o entendimento é vivo, poderá deduzir daqui.

E então, se se é letrado? Este é o modo de oração por que todos tem que começar, continuar e acabar; é  excelente e seguro caminho, até que o Senhor os leve a outras coisas sobrenaturais.

13. Digo «todos»; mas, no entanto, há muitas almas que tirarão mais proveito de outras meditações do que na da sagrada Paixão pois, assim como há muitas moradas no Céu, há muitos caminhos.

Algumas pessoas aproveitam considerando-se no inferno, outras no Céu - e afligem-se em pensar no inferno -outras na morte. Algumas, se são ternas de coração, doem-se muito de pensar sempre na Paixão e regalam-se e tiram fruto em contemplar o poder e a grandeza de Deus nas criaturas e o amor que nos teve, o qual se manifesta em todas as coisas. E é admirável maneira esta de proceder não deixando, no entanto, muitas vezes a Paixão e vida de Cristo, que é de onde nos veio e vem todo o bem.

14. É necessário que esteja  avisado sobre o que começa, para verem o que aproveita mais. Para isto, é muito necessário ter mestre experimentado; que, se não,  pode errar muito e trazer uma alma sem entender nem deixar que ela se entenda a si mesma. Pois, como esta sabe que é grande mérito estar sujeita a um mestre, não ousará sair daquilo que lhe mandam.

Eu tenho encontrado almas encurraladas e angustiadas por não terem experiência quem as ensinava, que me faziam lástima. Algumas nem sabiam já o que fazer de si; porque, não entendendo eles o espírito, afligem alma e corpo e impedem o aproveitamento.

Uma, que tratou comigo, tinha-a o mestre atada, havia oito anos; não a deixava sair do próprio conhecimento. E o Senhor tinha-a já em oração de quietude e assim passava muito trabalho.

15. Embora o conhecimento próprio jamais se deve deixar, não há alma tão gigante que não tenha muitas vezes de tornar a ser menino e de mamar (e isto jamais se esqueça e quem sabe   direi mais vezes, porque importa muito). É que não há estado de oração tão elevado que não seja muitas vezes necessário tornar ao princípio.

E os pecados e conhecimento próprio é o pão com que todos os
manjares  tem que comer, por delicados que estes sejam, neste
caminho de oração e sem este pão elas não se poderiam sustentar.

Mas há de se comer com conta e medida. Depois que uma alma se vê já rendida e entende claramente que em si não tem coisa boa, e se sente envergonhada diante de tão grande Rei, e vê o pouco que Lhe paga para o muito que Lhe deve, que necessidade há de gastar aqui o tempo? Mas sim irmos a outras coisas que o Senhor nos põe diante e não há razão para que as deixemos, pois Sua Majestade sabe melhor do que nós o que nos convém comer.

16. Portanto, importa muito que o mestre seja de bom entendimento - e que tenha experiência. Se com isto tem letras, é grandíssima coisa; mas, se não  podem se encontrar estas três coisas juntas, as duas primeiras importam mais, porque letrados podem procurar para com eles comunicarem quando tiverem necessidade.

Digo que nos princípios, se eles não têm oração, aproveitam pouco as letras? Não digo que não se trate então com letrados, porque espírito que não vá fundado na verdade, mais o quisera sem oração.

Grande coisa é ter letras, porque estas nos ensinam  o que pouco sabemos e nos dão luz e, apoiados nas verdades da Sagrada Escritura, fazemos o que devemos. De devoções tolas, livre-nos Deus!...

17. Quero me explicar melhor, pois creio que me meto em muitas coisas. Sempre tive esta falta de não me saber dar a entender - como já tenho dito - senão à custa de muitas palavras.

Começa uma freira a ter oração; se um simplório a dirige e se a este assim achar, dará a entender que é melhor  obedecer  a ele do que ao superior; e isto sem malícia, mas pensando que acerta, porque se não é religioso, parecerá que é assim.

E, se é mulher casada, dirá que é melhor, quando haveria de atender à sua casa, estar em oração, ainda que descontente o marido. E assim não saberá ordenar nem o tempo nem as coisas, para que tudo vá conforme à verdade. Por faltar  a luz, não a dá aos outros ainda que queira.

E embora pareça que para isto não são precisas letras, a minha opinião foi sempre e será que qualquer cristão procure tratar - se puder - com quem as tem boas e, quanto mais, melhor. E os que vão por caminho de oração têm disto maior necessidade, e tanto maior, quanto mais espirituais.

18. E não se engane dizendo que letrados sem oração não são para quem a tem. Tenho tratado com muitos e, de há uns anos para cá, tenho-os procurado mais sendo maior a necessidade e sempre fui amiga deles. E embora alguns não tenham experiência, não aborrecem o espírito nem o ignoram; porque na Sagrada Escritura que estudam, sempre encontram a verdade do bom espírito.

Tenho para mim que pessoa de oração que trate com letrados, se ela se não quiser enganar, não a enganará o demônio com ilusões, pois creio que os demônios temem de grande modo as letras humildes e virtuosas, sabendo que serão descobertos e sairão com perda.

19. Disse isto porque há opiniões de que os letrados não são para gente de oração, se não têm espírito. Já disse que é necessário mestre espiritual; mas se este não for letrado, é grande inconveniente.

Contudo, será de muita ajuda tratar com eles, desde que sejam virtuosos; porque, embora não tenham espírito, aproveitar-nos-á e Deus lhes dará a entender o que têm de ensinar e até os fará espirituais para nosso proveito.

E isto não o digo sem o ter experimentado e aconteceu-me a mim com mais de dois. Digo que, para se render uma alma a estar de todo sujeita a um só mestre, erra muito se não procurar que seja tal como fica dito.

Se for religioso, há que estar sujeito ao seu Prelado, a quem porventura faltarão todas as três coisas, - o que não será já pequena cruz -sem que ele, de sua própria vontade, sujeite o seu entendimento a quem o não tenha bom.

Pelo menos disto nunca eu  pude me convencer a mim mesma nem me parece que convém. Se é secular, louve a Deus porque pode escolher a quem há que estar sujeito e não perca esta tão virtuosa liberdade; antes esteja sem nenhum até o encontrar.

O Senhor lhe dará, desde que vá tudo fundado em humildade e com desejo de acertar. Eu louvo-O muito - e nós as mulheres e os que não têm letras sempre Lhe havíamos de dar infinitas graças - por haver quem, com tantos trabalhos, tenha alcançado a verdade que nós, ignorantes, ignoramos.

20. Espantam-me muitas vezes letrados - religiosos em especial -com o trabalho com que ganharam o que sem nenhum trabalho, mais que o de perguntar, aproveitei . E que haja pessoas que  não querem aproveitar disto!

Não o queira Deus! Vejo-os sujeitos aos trabalhos da Religião, que são grandes, com penitência e mau comer, rendidos à obediência que é certo para mim, algumas vezes, de grande confusão e, além disso, mau dormir, tudo trabalho, tudo cruz.

Parece que seria grande mal se alguém, por sua culpa, perdesse tanto bem. E poderá ser que pensemos que alguns de nós estamos livres destes trabalhos e vivendo a nosso prazer, dando-nos eles tudo já pronto - que, por termos um pouco mais de oração,   temos de ter vantagens em tantos trabalhos.

21. Bendito sejais Vós, Senhor, que tão inábil e sem proveito me
fizestes; mas louvo-Vos muito, por despertardes a tantos que nos despertem. Havia de ser muito contínua a nossa oração por esses que nos esclarecem. Que seríamos sem eles entre tão grandes tempestades como agora tem a Igreja? Se alguns tem havido ruins, mais resplandeceram os bons. Praza ao Senhor que os tenha de Sua mão e os ajude para que nos ajudem. Amém.

22. Muito tenho saído propositadamente do que comecei a dizer; mas tudo é a propósito para os que começam, a fim de que comecem caminho tão alto, de maneira a irem metidos no verdadeiro caminho. Pois, voltando ao que dizia, de pensar em Cristo atado à coluna, é bom discorrer um pouco e pensar nas penas que ali teve e por que as teve e quem é Aquele que as teve e o amor com que as passou. Mas não se canse em andar sempre a buscar isto, antes se fique ali com Ele, aquietado o entendimento.

Se puder ocupá-lo em ver que o Senhor o olha, e acompanhe-O, e fale, e peça, e humilhe-se, e regale-se com Ele, e lembre-se que não merecia estar ali.

Quando puder fazer isto - embora seja logo de princípio, ao começar a oração, achará grande proveito, pois dá grandes lucros este modo de oração; pelo menos teve-os a minha alma.
Não sei se acerto em o dizer; V. Mercê o verá. Praza ao Senhor que eu acerte em O contentar sempre. Amém.


LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Prossegue no assunto deste primeiro grau de oração. Diz até onde podemos chegar, com o favor de Deus, e o dano que há em querer elevar o espírito para coisas sobrenaturais, até que o Senhor o faça.




LIVRO DA VIDA DE SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

CAPÍTULO 12. Prossegue no assunto deste primeiro grau de
oração. Diz até onde podemos chegar, com o favor de Deus, e
o dano que há em querer elevar o espírito para coisas
sobrenaturais, até que o Senhor o faça.

1. O que pretendi dar a entender no capítulo anterior - embora me tenha desviado muito em outras coisas, por me parecerem muito necessárias - foi dizer o que podemos por nós mesmos adquirir e como, nesta primeira devoção,podemos de certo modo ajudar a nós mesmos.

É que, pensar e esquadrinhar o que o Senhor passou por nós, move-nos à compaixão e é saborosa esta pena e as lágrimas que daqui procedem. Pensar na glória que esperamos e no amor que o Senhor nos teve e 'na Sua ressurreição, infunde em nós um gozo que nem é de todo espiritual nem sensível, mas sim gozo virtuoso, e pena muito meritória.

Desta maneira são todas as coisas que causam devoção adquirida, em parte, com o entendimento, que esta não se pode merecer nem
ganhar se Deus a não dá. Convém muito a uma alma a quem o Senhor não fez subir mais do que até aqui, não procurar fazê-lo subir mais acima por si mesma: e note-se isto muito porque não lhe
aproveitará senão para perder.

2. Pode neste estado fazer muitos atos para se determinar a trabalhar muito por Deus e despertar o amor; assim como para ajudar a crescer as virtudes, conforme diz um livro chamado «Arte de servir a Deus», que é muito bom e apropriado para os que estão neste grau, porque trabalha o entendimento. Pode representar-se que está diante de Cristo e acostumar-se a enamorar-se muito da Sua Sagrada Humanidade, trazendo-O sempre consigo. E fale com Ele. É pedir-Lhe ajuda para as necessidades e queixar-se-Lhe dos trabalhos. É alegrar-se com Ele nos contentos e não O esquecer deles. Isto sem procurar orações compostas, mas palavras conforme os seus desejos e necessidade.

É excelente maneira de aproveitar e muito em breve. Quem trabalhar em trazer consigo esta preciosa companhia e se aproveitar muito dela e de verdade cobrar amor a este Senhor, a Quem tanto devemos, eu o dou por aproveitado.

3. Para isto não se há de dar nada por não ter devoção sensível, como tenho dito,' mas sim agradecer ao Senhor que nos deixa andar desejosos de O contentar, embora sejam fracas as obras.

Este modo de trazer a Cristo conosco aproveita em todos os estados e é um meio seguríssimo para ir aproveitando no primeiro e chegar em breve ao segundo grau de oração e, nos últimos, andar seguros contra os perigos que o demónio pode armar.

4. Pois isto é o que podemos. Quem quiser passar daqui e levantar o espírito para sentir gostos que, não lhe são dados, perde uma e outra coisa, a meu parecer, porque é coisa sobrenatural; e perdida a ajuda do entendimento, fica a alma deserta e com muita aridez.

E como este edifício vai todo fundado em humildade, quanto mais chegados a Deus, mais adiante há de ir esta virtude e, se assim não for, vai tudo perdido. E parece algum gênero de soberba querermos subir mais, pois Deus já faz demasiado, segundo o que somos, em nos aproximar de Si.

Não se há de entender com isto que digo do subir - com o
pensamento - a pensar coisas altas do Céu e das grandezas que lá
há ou de Deus, e Sua grande sabedoria. Embora eu nunca o fizesse, que para isso não tinha habilidade, como já tenho dito, Deus dava-me a graça de que entendesse esta verdade - pois eu achava-me tão ruim - que até para pensar coisas da terra, não era pouco atrevimento, quanto mais as do Céu.

Outras pessoas se aproveitarão, em especial se têm letras, que é, a meu parecer, um grande tesouro para este exercício, se forem com humildade. De uns dias para cá o tenho visto em alguns letrados que há pouco começaram e têm aproveitado  muito. Isto faz-me ter grandes ânsias de que muitos sejam espirituais, como adiante direi.

5. Pois, isto que digo - que não subam sem que Deus os faça subir - é linguagem de espírito; entender-me-á quem tiver alguma experiência - que eu não o sei dizer - se, tal como o digo, não se
entende.

Na mística teologia de que comecei a falar, deixa de trabalhar o  entendimento porque Deus o suspende, como depois  hei de declarar, se o souber e Ele me der o Seu favor para isto.

Presumir ou pensar de o suspendermos nós, é o que eu digo que
não se faça, nem se deixe de discorrer com ele porque ficaremos
numa pasmaceira e frios e não faremos uma nem outra coisa.

Quando o Senhor suspende o entendimento e o faz parar, dá-lhe
com que se espante e se ocupe e, sem discorrer, entenda mais no
espaço dum Credo do que nós podemos entender com todas as
nossas diligências da terra em muitos anos.

Mas ocuparmos nós as potências da alma e pensarmos fazê-las estar quietas, é desatino.
E torno a dizer, ainda que não se entenda: não é de grande humildade. Embora não haja culpa, pena sim que haverá, pois será
trabalho perdido, e fica a alma com um desgostozinho como quem
vai saltar e a seguram por detrás: parece-lhe já ter empregado sua força e encontra-se sem efetuar o que com ela queria fazer.

No pouco lucro que lhe fica, verá - quem nisto quiser reparar - este pouquinho de falta de humildade que digo. Porque isto tem de
excelente esta virtude: não há obra que ela acompanhe que deixe a
alma desgostada.
Parece-me tê-lo dado a entender e, porventura, será só para mim.
Abra o Senhor os olhos dos que o lerem com a experiência, e - por
pouca que seja - logo o compreenderão.

6. Bastantes anos passei em que lia muita coisa e não entendia nada; e também muito tempo em que, embora me desse Deus a
entender, não sabia dizer palavra para o dar a compreender, e não
me custava isto pouco trabalho.

Quando Sua Majestade quer, num momento, ensina tudo de maneira que me espanto. Uma coisa posso dizer com verdade: embora falasse com muitas pessoas espirituais que me queriam dar a entender o que o Senhor me dava para que o soubesse dizer, o certo é que era tanta a minha rudeza que, nem pouco nem muito, isso me aproveitava.

Ou assim o quereria o Senhor - para que não tivesse ninguém a quem agradecer -, pois Sua Majestade foi sempre o meu mestre. Seja por tudo bendito, que grande confusão é para mim poder dizer isto com verdade.

Sem o querer, nem pedir (pois nisto não tenho sido nada curiosa - e teria sido virtude sê-lo senão em outras vaidades), deu-me Deus num momento a graça de compreender tudo com toda a claridade e de o saber dizer, de maneira que se espantavam meus confessores e eu mais do que eles, porque entendia melhor a minha rudeza.

Isto foi há pouco e, assim, o que o Senhor não me ensina, não procuro saber, se não for coisa que toque à minha consciência.

7. Torno outra vez a avisar que muito importa não levantar o espírito, se o Senhor não o eleva. O que isto seja, entende-se logo. Em especial para mulheres é maior o mal, pois poderá o demônio causar alguma ilusão; ainda que tenho por certo o Senhor não consentir que faça dano a quem procura com humildade achegar-se a Ele, antes tirará mais proveito e lucro por onde o demônio pensava fazê-lo perder.

Por ser este caminho mais usado dos principiantes e porque importam muito os avisos que dei, me fui alongando tanto.
Tê-los-ão escrito em outras partes muito melhor, eu o confesso, e foi com farta confusão e vergonha que o escrevi, embora não com tanta como havia de ter.

Seja o Senhor bendito por tudo, pois a uma como eu, quer e consente que fale em coisas Suas, tais e tão sublimes.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Diz a razão por que não se ama a Deus com perfeição em tempo breve. Começa a declarar, em uma comparação, quatro graus de oração.


Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

       CAPÍTULO 11. Diz a razão por que não se ama a Deus com
perfeição em  tempo breve.  Começa a declarar, em uma
comparação, quatro graus de oração. Vai tratando aqui do
primeiro. É muito proveitoso para os que começam e para os
que não têm gostos na oração.

1. Falando agora dos que começam a ser servos do amor -
 não me parece outra coisa nos determinarmos a seguir
neste caminho da oração a Quem tanto nos amou - é uma dignidade
tão grande que me delicio estranhamente em pensar nela; porque o
temor servil logo desaparece se, neste primeiro estado, vamos como devemos ir. 

Oh! Senhor da minha alma e Bem meu! Por que não quisestes que, querendo uma alma amar-Vos  o quanto pode, deixar tudo para melhor se empregar neste amor de Deus, ela logo gozasse ao subir à posse deste amor perfeito? Disse mal: deveria ter dito e queixar-me por nós não querermos, pois toda a culpa é nossa de não se gozar logo de tão grande dignidade. 

Pois, em chegando a ter este verdadeiro amor de Deus com perfeição, ele traz consigo todos os bens. Fazemo-nos, no entanto, tão difíceis e somos tão tardios em  darmos tudo a Deus que, como Sua Majestade não quer que gozemos de coisa tão preciosa senão a grande preço, não acabamos de nos dispor.

2. Bem vejo que não há  na terra tão grande bem  que se possa comprar ; mas, se fizéssemos tudo o que pudermos para não nos
apegarmos às coisas dela, e todo o nosso cuidado e atos fosse com as coisas do Céu, creio sem dúvida que, muito em breve nos daria este bem, se, em breve, de tudo nos dispuséssemos, como alguns santos o fizeram. 

Mas, quando parece que damos tudo, oferecemos a Deus a
renda e os frutos e ficamos com a raiz e a posse. Determinamos
ser pobres - e é de grande merecimento - mas muitas vezes
tornamos a ter cuidados e fazemos diligência para não nos faltar,
não só o necessário, senão também o supérfluo, e em procurar
amigos que nos dêem. 

E assim pomo-nos em maior cuidado e, talvez em, perigo, para que nada nos falte do que antes tínhamos em possuir a fazenda.
Parece também que renunciamos à honra de ser religiosos ou ao já ter começado a ter vida espiritual e a seguir a perfeição, e não nos têm ainda tocado num ponto de honra, quando nos esquecemos que já a demos a Deus e nos queremos tornar a adornar com ela e a tomar-lhe - como dizem - das mãos. E depois de O termos -de livre vontade, ao que parece - feito Senhor dela!... Assim é com todas as outras coisas.

3. Estranha maneira de buscar amor de Deus! E logo o queremos às
mãos cheias, como se costuma dizer. Termos as nossas afeições,
visto que não procuramos efetuar nossos desejos, nem acabamos
de os levantar da terra e, muitas consolações espirituais, não está
bem nem me parece que se coadune uma coisa com a outra. 

E assim, porque se não acaba de dar tudo junto, não colocamos 
junto este tesouro. Praza ao Senhor que, gota a gota, no-lo dê Sua
Majestade, embora seja nos custando todos os trabalhos do mundo.

4. Muito grande misericórdia faz Ele a quem dá graça e ânimo para
se  'determinar a procurar este bem com todas as forças, porque,
quando se persevera, não se nega' Deus a ninguém. 

Pouco a pouco vai habilitando o ânimo para que se saia com esta vitória. Digo ânimo, porque são tantas as dificuldades que    o demônio apresenta a princípio para que não comecem de fato este
caminho, como quem sabe o dano que daqui lhe vem, porque não só
perde aquela alma mas muitas. 

Se quem começa se esforça, com o favor de Deus, para chegar ao cume da perfeição, creio que jamais vai sozinho ao Céu; sempre leva muita gente atrás de si; como a bom capitão, dá-lhe Deus quem vá em sua companhia. 

Põe-lhe diante o demônio tantos perigos e dificuldades, que é preciso muito ânimo para não voltar atrás, senão  muito e muito favor de Deus.

5. Falando, pois, dos primeiros tempos dos que já estão determinados a prosseguir este bem e a sair-se com esta empresa
(que do resto, do que comecei a dizer de mística teologia - creio que se chama assim - falarei mais adiante), é nestes primeiros tempos que têm o maior trabalho; porque são eles os que trabalham, conquanto seja o Senhor a dar-lhes os meios para isso. 

Nos outros graus de oração o mais é prazer, ainda que, primeiros, medianos e últimos, todos levem suas cruzes embora diferentes. Por este caminho, por onde foi Cristo, hão-de ir os que O seguem, se não se querem perder; e bem-aventurados trabalhos que ainda cá nesta vida tão sobejamente se pagam.

6. Terei de me aproveitar de alguma comparação, embora as
quisesse evitar por ser mulher e escrever simplesmente o que me
mandam; mas esta linguagem de espírito é tão má em declarar aos
que não têm letras, como eu,  terei de buscar algum meio e
poderá ser que mais vezes não acerte com a comparação; servirá
para dar recreação a V. Mercê ver tanta ignorância.

Parece-me agora ter lido ou ouvido esta comparação, que, como
tenho má memória, nem sei onde nem a que propósito; mas, para o
meu, contenta-me agora. Há-de fazer conta, quem principia, que
começa a plantar um horto em terra muito infrutífera, que, temi muito más ervas, para que nele se deleite o Senhor. 

Sua Majestade arranca as más ervas e vai plantando as boas. Façamos pois de conta que isto já está feito quando uma alma se determina a ter oração e já dela começou a usar. Com a ajuda de Deus, devemos procurar, como bons hortelãos, que cresçam estas plantas e ter cuidado de as regar para que se não percam, mas que venham a dar flores de grande perfume, a fim de recrear a este Senhor nosso e Ele venha deleitar-Se muitas vezes a este horto e a gozar entre estas virtudes.

7. Pois vejamos agora de que maneira se pode regar, para que
entendamos o que temos de fazer, o trabalho que nos há-de custar, se é maior que o ganho, e quanto tempo se há-de ter.

Parece-me a mim que se pode regar de quatro maneiras: ou  
tirando água dum poço, que é à custa de grande trabalho; ou com  aparelho hidráulico para tirar água do poço, em que se tira com um torno (tenho-a tirado assim algumas vezes) e é com menos trabalho que este outro e tira-se mais água; ou de um rio ou arroio, e com isto se rega muito melhor, pois fica mais farta a terra de água e não é preciso regar tão amiúde, e é com muito menos trabalho do hortelão; ou com chover muito, que a rega o Senhor sem trabalho nenhum nosso e é sem comparação muito melhor que tudo o que ficou dito.

8. Aplicar estas quatro maneiras de ter água, com que
se há-de sustentar este horto - porque, sem ela, se perderá -, é o que a mim me faz caso. Pareceu-me poder assim declarar algo de quatro graus de oração em que o Senhor, por Sua bondade, tem
posto algumas vezes a minha alma. 

Praza a Sua bondade eu acerte a dizê-lo de maneira que aproveite uma das pessoas que me mandaram escrever. A esta tem o Senhor levado - em quatro meses - muito mais adiante do que eu estava ao fim de dezessete anos. 

Tem-se disposto melhor e assim, sem trabalho seu, rega este
pomar com todas estas quatro águas; embora a última ainda não lhe seja dada senão em gotas; mas vai de modo que depressa se engolfe nela, com a ajuda do Senhor. Gostarei que se ria; se lhe parecer desatino a maneira de declarar.

9. Daqueles que começam a ter oração, podemos dizer que são os que tiram água do poço. É muito à sua custa, como tenho dito, porque se hão-de cansar em recolher os sentidos e, como estão acostumados a andar distraídos, é forte trabalho. 

Têm necessidade de se irem acostumando a não  lhes dar nada de ver nem  ouvir, e até mesmo de o pôr por obra nas horas de oração, de estar em solidão e, apartados de tudo, pensar na sua vida passada embora isto, no entanto, primeiros e últimos, todos o hão-de fazer muitas vezes; ainda que haja mais e menos neste pensamento, como depois direi. 

Ao princípio ainda lhes dá pesar, porque não acabam de perceber se se arrependem dos pecados; e,: sim, que o fazem, pois se determinam a servir a Deus tão verdadeiramente. Hão-de procurar pensar na vida de Cristo e cansa-se nisto o entendimento.

Até aqui nós o podemos conseguir por nós mesmos, entende-se
com o favor de Deus, pois sem ele já se sabe que nem podemos ter
um bom pensamento. Isto é começar a tirar água do poço, e praza
ainda a Deus que a haja! Ao menos não falta por nossa parte, pois a vamos tirar e fazemos o que podemos para regar estas flores. 

E é Deus tão bom que, quando por motivos que Sua Majestade sabe - e porventura para grande proveito nosso -, Ele quer que o poço esteja seco, mesmo sem água sustenta as flores e faz crescer as virtudes, fazendo nós, como bons hortelãos, o que está em nossas mãos.

Chamo aqui água às lágrimas, e, embora não as haja, à ternura e ao
sentimento interior de devoção.

10. Que fará pois, aqui, quem vê durante muitos dias que não há
mais que secura e desgosto e dissabor, e sente tão má vontade para vir tirar água? Pois, tudo deixaria se não se lembrasse que dá prazer e serve ao Senhor da horta, e não olhasse a não perder tudo quanto já serviu, e ainda ao que espera ganhar com o grande trabalho que é deitar muitas vezes o balde ao poço e tirá-lo sem água? 

E muitas vezes lhe acontecerá até nem para isto se lhe alçarem os braços, nem poder ter um bom pensamento, porque este trabalhar com o entendimento - entendido está - é o tirar água do poço.
Pois, como digo, que fará aqui o hortelão? Alegrar-se e consolar-se e ter por grandíssima graça o trabalharem horto de tão grande
Imperador. E visto saber que O alegra naquilo, e seu intento não
há-de ser de contentar-se a si mesmo senão a Ele, louve-O muito; o Senhor tem nele confiança pois vê que, sem pagar-lhe nada, tem tão grande cuidado do que lhe encomendou. 

Ajude-O a levar a cruz e pense que toda a vida nela viveu. Não queira aqui seu reino, nem deixe jamais a oração; e assim determine-se - embora esta aridez lhe dure toda a vida - a não deixar Cristo cair sob o peso da cruz. 

Tempo virá em que se lhe pague tudo por junto. Não tenha medo de perder o trabalho. A bom amo serve, para ele está olhando. Não faça caso de maus pensamentos; olhe que também os representava o demônio a São Jerônimo no deserto.

11. Têm seu preço estes trabalhos, que, como quem os passou
muitos anos, são grandíssimos, quando tirava uma gota de água
deste bendito poço pensava que me fazia Deus graça. 

E parece-me que para estes trabalhos é preciso mais ânimo de que para outros muitos do mundo. Mas tenho visto claramente que Deus não os deixa sem grande prémio ainda nesta vida, pois é bem certo que, numa só hora das que, desde então para cá, o Senhor de Si mesmo me tem dado a gostar, ficam - a meu parecer - pagas todas as angústias que passei muito tempo para me manter em oração.

Tenho para mim que o Senhor quer dar muitas vezes no princípio, e outras vezes no fim, estes  tormentos e outras muitas tentações que se oferecem, para experimentar a Seus amadores e saber se
poderão beber o cálice e ajudá-Lo a levar a cruz, antes de lhes
confiar grandes tesouros. 

E para bem nosso, creio, quer Sua Majestade levar-nos por aqui, para entendermos bem o pouco que somos. É que depois as graças são de tão grande dignidade, que antes que no-las dê, quer que - por experiência - vejamos primeiro a nossa miséria, para que não nos aconteça como a Lúcifer.

12. Que fazeis Vós, Senhor meu, que não seja para maior bem da
alma que entendeis já ser Vossa e que se põe em Vosso poder para
seguir-Vos por onde fordes até à morte da cruz,  e que está
determinada a ajudar-Vos a levá-la e a não Vos deixar só com ela?

Quem vir em si esta determinação, não, não tem que temer! Gente
espiritual não tem de que se afligir; postos já em tão alto grau, como é querer tratar a sós com Deus e deixar os passatempos do mundo, o mais difícil está feito. Louvai por isto a Sua Majestade e confiai na Sua bondade, porque nunca faltou a Seus amigos. 

Tampai os olhos para não pensar, porque dá devoção àquele em tão poucos dias, e não a mim em tantos anos. Acreditemos que é tudo para maior bem somos nossos, senão Seus. Grande graça nos faz em querer que queiramos cavar no horto do qual é Senhor e permanecermos junto d'Ele que, de certeza, está conosco. 

Se Ele quer que cresçam estas plantas e flores, a uns, com dar-lhes água que tiram deste poço, a outros, sem ela, que se me dá a mim? Fazei, Senhor, o que quiserdes, não Vos ofenda eu, não se percam as virtudes, se alguma já me destes, só por Vossa bondade. 

Padecer quero, Senhor, pois Vós padecestes. Cumpra-se em mim de todas as maneiras a Vossa vontade e não praza a Vossa Majestade que coisa de tanto preço, como Vosso amor, se dê a gente que Vos serve só por gostos.

13. Há de se notar muito - e digo-o porque o sei por experiência -
que a alma que neste caminho espiritual de oração mental começa a
caminhar com determinação e pode por si mesma conseguir não
fazer muito caso, nem de se consolar nem desconsolar muito, quer
lhe faltem estes gostos e ternura, quer lhes dê o Senhor, tem já
andado grande parte do caminho. 

Não tenha medo de voltar atrás, por mais que tropece, porque o edifício vai começado em firme fundamento. Sim, não está o amor de Deus em ter lágrimas nem nestes gostos e ternura, que na maior parte os desejamos e consolamos com eles, mas sim em servi-Lo com justiça e fortaleza de ânimo e humildade. Mais me parece isto receber, que darmos nós alguma coisa.

14. Para mulherzinhas como eu; fracas e com pouca fortaleza, parece-me convir o que Deus agora faz comigo: levar-me com delícias para que possa sofrer alguns trabalhos que Sua Majestade quis dar-me. Mas que servos de Deus, homens de tomo, de letras, de entendimento, façam tanto caso como vejo fazer, de que Deus não lhes dá devoção sensível, dá-me desgosto ouvir. Não digo que não a tomem, se Deus lhe der, e a tenham em muito, porque então terá Sua Majestade visto que convém; mas, quando a não tiverem, não se aflijam e entendam que não é necessária, pois Sua Majestade não a dá, e andem senhores de si. Creiam que é falta; eu o tenho experimentado e visto. Creiam que é imperfeição e não andar com liberdade de espírito, senão fracos para acometidas.

15. Isto não o digo tanto para os que começam, (embora faça tanto
finca-pé nisto, porque lhes importa muito começar com esta
liberdade e determinação), mas para outros; pois haverá muitos, e
há realmente, que começaram e nunca mais acabam. 

E creio ter nisto grande parte este não abraçar a cruz desde o princípio, e andarão aflitos parecendo-lhes que não fazem nada! Em deixando obrar o entendimento, não o podem sofrer e, porventura, é então que cresça a vontade e cobra forças e eles não o entendem.

Temos de pensar que o Senhor não olha para estas coisas, que embora a nós nos pareçam faltas, não o são. Sua Majestade conhece a nossa miséria e baixo natural bem melhor do que nós mesmos, e sabe que estas almas já desejam pensar n'Ele e amá-Lo sempre.

Esta determinação é o que Ele quer; esta outra aflição, que damos a nós mesmos, não serve senão para inquietar a alma e,  se
estava incapaz de aproveitar durante uma hora, esteja quatro. 

Porque, muitas vezes nasce da indisposição corporal. Tenho grandíssima experiência disto e sei que é verdade, porque o tenho observado com cuidado e tratado depois com pessoas espirituais. 

Somos tão miseráveis que, a encarceradinha desta pobre alma participa das misérias do corpo. As mudanças do tempo e a variabilidade de humores muitas vezes fazem que, sem culpa sua, não possa fazer o que quer, mas que padeça de todas as maneiras. 

E quanto mais a quiserem então forçar, pior é e mais dura o mal; haja, pois, discrição para ver quando assim é e não afoguem a pobre. Entendam que são enfermos; mude-se a hora da oração e muitas vezes será alguns dias. 

Passem como puderem este desterro, que é farta a má ventura de uma alma que ama a Deus, ver que vive nesta miséria e que não
pode o que quer, por ter a tão mau hóspede, como é este corpo.

16. Disse "com discrição", porque algumas vezes o demônio fará
isto; e assim é bom nem sempre deixar a oração, quando há grande
distraimento e perturbação no entendimento; nem sempre
atormentar a alma obrigando-a ao que não pode.

Há outras ocupações exteriores, de obras de caridade e de leitura; mas às vezes nem mesmo para isto estará. Sirva então ao corpo por amor de Deus, para que ele sirva outras muitas vezes a alma; e tome alguns passatempos santos de conversação - que o sejam - ou ir passear ao campo, conforme aconselhar o confessor. 

Em tudo é grande coisa a experiência, pois dá a entender o que nos convém e em tudo se se serve a Deus. Suave é Seu jugo e é grande negócio não levar a alma arrastada, como se diz, mas com suavidade, para seu maior aproveitamento.

17. Assim, torno a avisar - e ainda que o diga muitas vezes nada se
perde com isso - pois importa muito: de securas, de inquietação e
distraimento dos pensamentos, ninguém se deprima nem aflija. 

Se quer ganhar liberdade de espírito e não andar sempre atribulado, comece por não se espantar com a cruz e verá como o Senhor também lhe ajuda a levar, e a alegria com que anda e o proveito que tira de tudo. Porque já se vê que, se do poço não mana água, nós não lha podemos pôr. Verdade é que não havemos de ficar descuidados para a tirar, quando a haja; porque então já Deus quer, por este meio, multiplicar as virtudes.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila