"Memórias da Serva de Deus Luisa Piccarreta"
VIGÉSIMA SEGUNDA HORA
Das 2 às 3 da tarde
Terceira hora de agonia na Cruz. Quinta, sexta e sétima palavra sobre a cruz. Morte de Jesus
Graças te dou, ó Jesus, por me chamar à união contigo por meio da oração, e tomando teus pensamentos, tua língua, teu coração e fundindo-me toda em tua Vontade e em teu amor, estendo meus braços para abraçar-te e apoiando minha cabeça sobre o seu coração começo:
Meu crucificado moribundo, abraçada à tua cruz sinto o fogo que queima toda tua santíssima pessoa; o teu coração bate tão forte, que levantando as costelas te atormenta de modo tão penetrante e horrível, que toda tua santíssima Humanidade sofre uma transformação que te faz irreconhecível.
O amor que incendeia teu coração seca e te queima, e Tu não podendo contê-lo, sentes fortemente o tormento, não só da sede corporal pelo derramamento de todo teu sangue, mas muito mais pela sede ardente da saúde de nossas almas. Tu, como água quisestes beber-nos para por-nos todos a salvo dentro de Ti, por isso, reunindo tuas debilitadas forças gritas:
“Tenho sede!”
Ah! esta palavra repetes a cada coração: “Tenho sede de tua vontade, de teus afetos, de teus desejos, de teu amor; água mais fresca e doce não podes dar-me, do que tua alma.
Ah! não me deixes queimar, tenho sede ardente, pela qual não só me sinto queimar a língua e a garganta, tanto que não posso mais articular palavra, mas sinto também secar o coração e as entranhas.
Piedade de minha sede, piedade!” E delirando pela grande sede te abandonas à Vontade do Pai.
Ah, meu coração não pode viver mais ao ver a impiedade de teus inimigos, que em lugar de água te dão fel e vinagre, e Tu não os rechaças. Ah, compreendo, é o fel de tantas culpas, é o vinagre de nossas paixões não domadas que querem dar-te, e que em lugar de confortar-te te queimam demais.
Oh meu Jesus, eis aqui meu coração, meus pensamentos, meus afetos, eis aqui todo meu ser a fim de que Tu acalmes tua sede e dês um alívio à tua boca seca e amarga. Tudo o que tenho, tudo o que sou, tudo é para Ti, oh meu Jesus. Se fossem necessárias minhas penas para poder salvar ainda que seja uma só alma, aqui me tens, estou disposta a sofrer tudo. A Ti eu me ofereço inteiramente, faz de mim o que melhor te apraza.
Quero reparar a dor que Tu sofres por todas as almas que se perdem e a pena que te dão aquelas, as quais, enquanto Tu permites que tenham tristezas, abandonos, elas em vez de oferecer a Ti como alívio da sede ardente que te devora, se abandonam a si mesmas e assim te fazem penar mais.
Sexta Palavra
Meu bem moribundo, o mar interminável de tuas penas, o fogo que te consome, e mais que tudo o Querer Supremo do Pai que quer que Tu morras, e não nos permitem esperar que possas continuar vivendo. E eu, como poderei viver sem Ti? Já te faltam as forças, teus olhos se velam, teu rosto se transforma e se cobre de uma palidez mortal, a boca está entreaberta, a respiração ofegante e intermitente, tanto, que já não há esperança de que te possas reanimar.
Ao fogo que te queima o sustitui um gelo e um suor frio que te banha a fronte, os músculos, e os nervos se contraem sempre mais pela acerbidade das dores e pelas perfurações dos cravos; as chagas se abrem mais e eu tremo, me sinto morrer. Olho-te, oh meu bem, e vejo descer de teus olhos as últimas lágrimas, mensageiras da morte próxima, enquanto que cansadamente fazes ouvir ainda outra palavra:
“Tudo está consumado!”
Oh meu Jesus, já estás todo esgotado, já não te fica nada mais, o amor chegou ao seu término. E eu, me consumi toda por teu amor? Que agradecimento não deverei eu dar-te, qual não terá que ser minha gratidão para Ti? Oh meu Jesus, quero reparar por todos, reparar pelas faltas de correspondência ao teu amor, e consolar-te pelas afrontas que recebes das criaturas enquanto te estás consumindo de amor sobre a cruz.
Sétima Palavra
Meu agonizante crucificado, Jesus, já estás a ponto de dar o último suspiro de tua vida mortal, tua santíssima Humanidade já está rígida, o coração parece que não bate mais. Com a Madalena me abraço aos teus pés e queria, se fosse possível, dar minha vida para reanimar a tua.
Entretanto, oh Jesus, vejo que reabres teus olhos moribundos e olhas em torno da cruz, como se quisesses dar o último adeus a todos, olhas à tua agonizante Mãe que não tem mais movimento nem voz, tantas são as penas que sofre, e com teu olhar lhe dizes:
“Adeus Mãe, Eu me vou, mas te terei em meu coração. Tu tem cuidado dos filhos meus e teus.” Olhas para a chorosa Madalena, ao fiel João; e aos teus inimigos e com teu olhar lhes dizes: “Eu vos perdoo e vos dou o beijo da paz.” Nada escapa ao teu olhar, de todos te despedes e a todos perdoas. Depois reunindo todas tuas forças e com voz forte e sonora, gritas:
“Pai, em tuas mãos encomendo meu espírito!”
E inclinando a cabeza expiras. Meu Jesus, neste grito toda a natureza se trastorna e chora tua morte, a morte de seu Criador. A terra treme fortemente e com seu tremor parece que chora e quer sacudir as almas de todos para que te reconheçam como o verdadeiro Deus.
O véu do templo se rasga, os mortos ressuscitam, o sol que até agora tem chorado tuas penas, retira horrorizado sua luz. Teus inimigos à este grito se ajoelham, se golpeiam no peito e dizem: “Verdadeiramente este é o Filho de Deus.” E tua Mãe, petrificada e moribunda, sofre penas mais duras que a morte.
Meu Jesus morto, com este grito Tu nos pões também a todos nós nas mãos do Pai, para que não nos rechace; por isso gritas forte não só com a voz, mas com todas tuas penas e com as vozes de teu sangue:
“Pai, em tuas mãos ponho meu espírito e todas as almas!”
Meu Jesus, também eu me abandono em Ti, e dá-me a graça de morrer toda em teu amor, em teu Querer, rogando-te que não permitas jamais, nem na vida nem na morte, que eu saia de tua Santíssima Vontade.
Quero reparar por todos aqueles que não se abandonam perfeitamente à tua Santíssima Vontade, perdendo assim, ou reduzindo o precioso fruto de tua Redenção. Qual não será a dor de teu coração, oh meu Jesus, ao ver tantas criaturas que fogem de teus braços e se abandonam a si mesmas? Piedade de todos, oh meu Jesus, piedade de mim.
Beijo tua cabeça coroada de espinhos e te peço perdão por tantos pensamentos meus de soberba, de ambição e de amor próprio, e te prometo que cada vez que me venha um pensamento que não seja todo para Ti, oh Jesus, e me encontre em ocasião de ofender-te, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Oh Jesus, beijo teus formosos olhos banhados pelas lágrimas e cobertos por sangue coagulado, e te peço perdão por quantas vezes te ofendi com maus olhares e imodestos; te prometo que cada vez que meus olhos se sintam impulsionados a olhar coisas da terra, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Oh meu Jesus, beijo teus sacratíssimos ouvidos, aturdidos até os últimos momentos por insultos e horríveis blasfêmias. E te peço perdão por quantas vezes escutei e te fiz escutar conversas que nos afastam de Ti, e por tantas conversas más que fazem as criaturas, e te prometo que cada vez que me encontre em ocasião de ouvir aquilo que não convém, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Oh meu Jesus, beijo teu santíssimo rosto, pálido, lívido, ensanguentado, e te peço perdão por tantos desprezos, insultos e afrontas que recebes de nós, viilíssimas criaturas, por nossos pecados. Eu te prometo que cada vez que me venha a tentação de não dar-te toda a glória, o amor e a adoração que te devo, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Oh meu Jesus, beijo tua santíssima boca, ardida e amarga. Peço-te perdão por quantas vezes te ofendi com minhas conversas más, por quantas vezes concorri para amargurar-te e a aumentar tua sede; te prometo que cada vez que me venha o pensamento de dizer coisas que poderiam ofender-te, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Oh meu Jesus, beijo teu santíssimo pescoço e vejo ainda as marcas das correntes e das cordas que te oprimem, te peço perdão por tantas ataduras e por tantos apegos das criaturas, que acrescentaram cordas e correntes ao teu santíssimo pescoço. Prometo-te que cada vez que me sinta perturbado pelos apegos, desejos e afetos que não sejam para Ti, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Meu Jesus, beijo teus santíssimos ombros e te peço perdão por tantas ilícitas satisfações, perdão por tantos pecados cometidos com os cinco sentidos de nosso corpo; te prometo que cada vez que me venha o pensamento de ter algum prazer ou satisfação que não seja para tua glória, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Meu Jesus, beijo teu santíssimo peito e te peço perdão por tantas friezas, indiferenças, tibiezas e ingratidões horrendas que recebes das criaturas, e te prometo que cada vez que me sinta esfriar em teu amor, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Meu Jesus, beijo tuas sacratíssimas mãos; te peço perdão por todas as obras más e indiferentes, por tantos atos envenenados pelo amor próprio e pela própria estima; te prometo que cada vez que me venha o pensamento de não operar somente por teu amor, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Oh meu Jesus, beijo teus santíssimos pés e te peço perdão por tantos passos, por tantos caminhos percorridos sem reta intenção, por tantos que se afastam de Ti para ir em busca dos prazeres da terra. Prometo-te que cada vez que me venha o pensamento de apartar-me de Ti, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, vos encomendo a minha alma!”
Oh meu Jesus, beijo teu sacratíssimo coração e quero encerrar n'Ele, junto com minha alma, a todas as almas redimidas por Ti, para que todas sejam salvas, sem excluir ninguém.
Oh Jesus, encerra-me em teu coração e fecha as portas dele, de modo que eu não possa ver outra coisa que a Ti só. Prometo-te que cada vez que me venha o pensamento de querer sair deste coração, gritarei imediatamente: “Jesus e Maria, à vocês dou meu coração e a minha alma!”