
Para enquadrar melhor a história de Adzopé e de Madre Eugenia relatamos uma entrevista com o T. Bosio a Raul Follerau, publicado em "Primavera", uma revista quinzenal destinada aos jovens em particular:
"Hitler, o ditador nazista da Alemanha, lançou contra a França o exército mais poderoso da história. Tanques com suástica atravessaram a fronteira e se concentraram em Paris. Follereau, um Católico, que nunca teve medo de suas convicções, tinha escrito uma série de artigos intitulada: Hitler, o Anticristo. Ao entrar em Paris, os nazistas começaram a olhar para ele.
Mesmo como um soldado de uniforme (que foi chamado ao exército Francês, mas na guerra-relâmpago não tiveram sequer tempo para disparar um tiro), Raoul bateu na porta Convento das Irmãs de Nossa Senhora dos Apóstolos, na periferia de Lyon. No dia seguinte, começou a vaguear em torno da grande propriedade um jardineiro estranho no convento, que não podia lidar com a enxada e traçava sulcos terrivelmente tortos.
Nesses mesmos dias de 1939, quando os alemães entraram em Paris, um hidroavião pousou sobre a lagoa de Abidjam, na ilha Desidée, ao longo da Costa do Marfim. É uma fantástica ilha com grandes palmeiras balançando, um mar de pérola, sol ardente, no entanto, é um inferno para viver. Quando canoas esparsas se aproximam, a terra é povoada por figuras estranhas, parecendo estátuas terrivelmente corroídas pelo tempo. Os remadores jogam água em sacos de arroz, latas de carne, depois fogem rapidamente.
Como figuras horrivelmente mutiladas se lançam na água com gritos altíssimos (de ódio? de desespero? de alegria selvagem?). Quem cuida da água pega uma parte do dinheiro, volta à costa pronta para defender a qualquer custo as lutas terríveis que se acendem entre a areia. Aquela ilha é uma prisão, o cemitério de leprosos na Costa do marfim.
Do hidroavião sai uma pequena freira vestida de branco. É madre Eugenia, a superiora geral das Irmãs Missionárias. Seu barco toca o solo, e mantém-se um momento paralisada na frente daqueles restos humanos que estão todos alinhados ali na costa, sem entender o que está acontecendo. Mas de repente se agita, estende a mão, sorrisos, ouve histórias trágicas e terríveis. Quando sai, a pequena freira irrompe em lágrimas de tristeza e raiva.
Dez dias depois, no jardim do mosteiro de Lyon, madre Eugenia conversa com "jardineiro" Raoul Follereau. Uma raiva grande agita agora todos: "A Europa, foi à guerra! Milhões de franceses com bombas e canhões! E há pessoas mais pobres no mundo que morrem de fome e da mais negra miséria! Meninos de 12 anos sem mãos, rosto desfigurado, que dormem no chão. Mulheres jovens passando fome. E nós jogamos na guerra ... Eu vou construir uma cidade naquela floresta.
Não é um hospital, mas uma cidade onde os leprosos não mais serão agrupados como bestas, mas tratados como homens, com todo o respeito e dignidade que merecem. Sem paredes que delimitem eles, que restringem o céu e o horizonte. Cada família terá a sua casa e seu pequeno jardim. Vou trazer o cinema, rádio, construirei um laboratório, onde os leprosos, serão capazes de trabalhar, um hospital e um parque infantil onde as crianças poderão correr, rir ... tenho cem freiras prontas para partir.Agora eu preciso encontrar um milhão".
Raoul sentiu na voz da freirinha uma vontade grande e decidiu fazer alguma coisa. Mas onde encontrar o dinheiro na medida em que Paris estava devastada, ocupada, saqueada? Madre Eugenia viu de repente a seu "jardineiro" atirar a enxada, limpar o suor e dizer calmamente: "Eu vou conseguir o milhão."
Raoul Follereau deixa o convento. O medo da polícia militar se foi. "Não tenho à minha disposição, senão um caminho: a minha palavra. Imediatamente farei conferências. " A primeira, no Teatro Municipal de Annecy, o assiste um grande número de pessoas. Além de Follereau no palco, senta-se um escritor famoso que apresenta ao público. Raoul escreve um número de documentos e lê-os em voz alta e com um gesto largo. Muito largo.
De repente, num movimento brusco da mão afeta o copo cheio de água que está lá na mesa e vai cair nas folhas do escritor famoso. Ele não se perturba. Sussurra suavemente: "Não se preocupe, continue." Follereau tem de todos a atenção, mas com horror vê que suas folhas estavam completamente encharcadas e ilegíveis. Ele fecha os olhos, se concentra por um momento, então se lança numa aventura. Faz um discurso de improviso, quente e nervoso rasgando rajadas de aplausos. Daquele dia em diante Follereau nunca mais escreveu um discurso.

Convites dos amigos dos leprosos (como é agora rebatizado) vêm agora de toda a França. Depois de uma turnê de três meses, Follereau consegue para Madre Eugenia o primeiro milhão de francos. O hidroavião retorna novamente para a lagoa de Abidjan.
Nos anos difíceis que se seguiram, enquanto grassa a guerra, continua Follereau sua cruzada. E a França sangrenta divide seu pão preto com os leprosos da Costa do Marfim. Na floresta virgem surge uma nova cidade, Adzopé. As freiras missionárias trabalham com o enxada e a pá, abrindo metro por metro uma estrada longa de quinze quilômetros, construíram três pontes sobre um pântano infestado de jacarés.
"Antes de fazer as casas, conta madre Eugenia que teve que destocar, desterrar, limpar, nivelar o terreno. Derrubada as árvores pequenas era fácil, ou quase. Mas não eram as enormes, algumas eram de madeira tão dura que não se poderia nem riscar. Outras tinham troncos tão grandes que levavam três dias para quebrar um.
E nós éramos uma centena. E então veio o período chuvoso, e tivemos que ficar por três meses com os braços cruzados olhando para o céu ...".
Dez anos dura a "batalha de Adzopé". Em 1951 o sonho de Madre Eugenia é plenamente realizado: os leprosos têm sua cidade, com casinhas de pedra branca, um hospital moderno, e as crianças tem escola e um enorme parque para correr e brincar. "(T. Bosio: "Somos todos leprosos" em PRIMAVERA de 2-1974)

Raoul Follereau
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