
Homilia de Bento XVI na Missa em Santiago de Compostela
Queridos irmãos em Jesus Cristo
Dou graças a Deus pelo dom de poder estar aqui nesta explêndida praça repleta de arte, culturas e significado espiritual. Neste ano santo, chego como peregrino entre os peregrinos, acompanhando tantos que vem aqui sedentos da fé em Jesus Cristo Ressuscitado. Fé anunciada e transmitida fielmente pelos apóstolos como São Tiago maior, venerado em Compostela, neste ano memorial.
Agradeço as gentis palavras de boas vindas de Dom Julián Barrio, Arcebispo desta Igreja particular e a amável presença de suas Altezas Reais os Príncipes de Asturias, os senhores cardeais, assim como dos numeros irmãos no episcopado e no sacerdócio. Também saúde cordialmente os Parlamentares Europeus, membros do intergrupo "Caminho de Santiago" assim como as distintas autoridades nacionais, autônomas e locais que quiseram estar presentes nesta Celebração.
Tudo isso é sinal de deferência para com o Sucessor de Pedro e também do sentimento profundo que Santiago de Compostela desperta na Galícia e nos demais povos da Espanha, que reconhecem o Apóstolo como seu Patrono e protetor. Uma calorosa saudação, igualmente, às pessoas consagradas, seminaristas e fiéis que participam desta Eucaristia e, com uma emoção particular, aos peregrinos, cujo ardor genuíno do espírito compostelano, sem o qual pouco ou nada se entenderia do que aqui se realiza.
Uma frase da primeira leitura afirma com admirável simplicidade: "Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor". Com efeito, no ponto de partida de tudo o que o cristianismo foi e continua sendo não se encontra um projeto humano, sem Deus, que declara a Jesus justo e santo diante da sentença do tribunal humano que o condenou como blasfemo e subversivo. Deus, que arrancou Jesus da morte. Deus, que fará justiça a todos os injustamente humilhados da história.
"Somos testemunhas dessas coisas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu aos que lho obedecem" (Hb 5,32), disseram os apóstolos. Assim pois, eles deram testemunho da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, a quem conheceram enquanto pregava e fazia milagres. A nós, queridos irmãos, nos toca hoje seguir o exemplo dos apóstolos, conhecendo ao Senhor cada dia mais e dando um testemunho claro e destemido de seu Evangelho. Não existe maior tesouro que possamos oferecer aos nossos contemporâneos. Assim imitaremos também a São Paulo que, em meio a tantas tribulações, naufrágios e solidão, proclama exultante: "Este tesouro nós trazemos em vasos de argila, para que vejam que esse poder extraordinário provém de Deus e não de nós" (II Cor 4,7).
Junto a estas palavras do Apóstolo dos gentios, estão as próprias palavras do Evangelho que acabarmos de escutar, e que nos convidam a viver de acordo com a humildade de Cristo que, seguindo em tudo a vontade do Pai, veio para servir, "para dar sua vida em resgate de muitos" (cf Mt 20,28). Para os discípulos que queriam seguir e imitar a Cristo, o servir aos irmãos já não é uma mera opção, mas parte essencial de seu ser. Um serviço que não se mede pelos critérios mundanos do imediato, do material do vistoso, mas faz presente o amor de Deus a todos os homems e em todas as suas dimensões, e dá testemunho Dele, inclusive com os gestos mais simples.
Ao propor este novo modo de se relacionar com a comunidade, baseado na lógica do amor e do serviço, Jesus se dirige também aos "chefes dos povos", porque onde não há entrega pelos demais, surgem formas de prepotência e exploração que não deixam espaço para uma autêntica promoção humana integral.
Gostaria que essa mensagem chegasse, principalmente aos jovens: principalmente a vocês, este conteúdo essencial do Evangelho os indica um cainho, para que, renunciando a um modo de pensar egoísta, de curto alcance, como tantas vezes lhes é proposto, e assumindo a Jesus, possam se realizar plenamente e serem sementes de esperança.
Isto é o que nos recorda também a celebração deste Ano Santo Compostelano. E isto é o que, no segredo do coração, sabendo explicitamente ou sentido sem saber expressá-lo com palavras, vivem tantos peregrinos que caminham a Santiago de Compostela para abraçar o Apóstolo. O cansaço do andar, a variedade das paisagens, o encontro com pessoas de outra nacionalidade, os abrem ao mais profundo e comum que nos une aos homens: seres em busca, seres necessitados de verdade e de beleza, de uma experiência de graça, de caridade e de paz, de perdão e redenção.
E no mais recôndito de todos os homens ressoa uma presença de Deus e da ação do Espírito Santo. Sim, a todo homem que faz silêncio em seu interior e se distancia de seus anseios, desejos e quereres imediatos, ao homem que reza, Deus o ilumina para que O encontre e para que reconheça a Cristo.
Quem peregrina a Santiago, no fundo, o faz para encontrar-se sobretudo com Deus que é refletido na majestade de Cristo, o acolhe e abençoa ao chegar ao Pórtico da Glória.
Desde aqui, como mensageiro do Evangelho que Pedro e São Tiago marcaram com o proprio sangue, desejo voltar meu olhar para a Europa que peregrinou a Compostela. Quais são suas grandes necessidades, temores e esperanças? Qual é o contributo específico e fundamental da Igreja para esta Europa, que percorreu no último meio século um caminho para novas configurações e projetos? Seu trabalho se centra em uma realidade tão simples e decisiva como esta: que Deus existe e que é Ele quem nos têm dado a vida. Somente Ele é absoluto, amor fiel e imutável, meta infinita que transparece através de todos os bens, verdades e belezas admiráveis deste mundo; admiráveis, porém insuficientes para o coração do homem. Bem compreendeu isto Santa Teresa de Jesus quando escreveu: "Só Deus basta!"
É uma tragédia que na Europa, sobretudo no século XIX, se afirmasse e divulgasse a convicção de que Deus é o antagonista do homem e o inimigo de sua liberdade. Com isto se queria colocar na sombra a verdadeira fé bíblica em Deus, que enviou ao mundo o seu Filho, Jesus Cristo, a fim de que ninguém pereça, mas que todos tenham a vida eterna (cf. Jo 3,16).
O autor sagrado afirma diante de um paganismo para o qual Deus está com inveja do homem ou o despreza: "Como Deus teria criado todas as coisas se não as tivesse amado, Ele que, em sua infinita plenitude, não precisa de nada?" (cf. Sab 11,24-26). Como teria se revelado aos homens, se não queria protegê-los? Deus é a origem de nosso ser, fundamento e ápice de nossa liberdade. Não seu oponente.
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