Visões de Santa Catarina de Sena
Santa Catarina de Sena teve, como tantos outros santos, visões do Purgatório, e também do inferno. Aqui reproduzimos uma breve narração de uma de suas experiências místicas.
» O que você viu, mãe, durante esse tempo e por que retornou sua alma ao corpo? -Perguntei de novo-. Peço-lhe encarecidamente que não me oculte nada.
»-Saiba, Padre -me respondeu-, que minha alma penetrou num mundo desconhecido e viu o prêmio dos justos e o castigo dos pecadores. Mas aqui me falha a memória e a pobreza dal longuagem me impede fazer uma descrição adequada dessas coisas. No entanto lhe direi o que puder. Tenha a segurança de que vi a ESSÊNCIA divina e por isso sofro tanto ao ver-me de novo acorrentada ao corpo.
Se não me impedisse o amor a Deus e ao próximo, morreria de dor. Meu grande consolo está em sofrer porque tenho a segurança de que meus sofrimentos me permitirão uma visão mais perfeita de Deus.
Eis porque as tribulações, em lugar de resultar-me penosas, constituem para mim uma delícia. Vi os tormentos do inferno e os do purgatório; não existem palavras com que possa descrevê-los. Se os pobres mortais tivessem a mais ligeira idéia deles, sofreriam mil mortes antes que expor-se a experimentar um desses tormentos no espaço de um só dia.
Vi em particular os tormentos que sofrem aqueles que pecam no estado do matrimônio não observando as normas que ele impõe e buscando nele unicamente os prazeres sensuais».
E como eu lhe perguntasse porque este pecado, que não é em si pior que os demais, recebe tão duro castigo, me disse: «-Porque se presta pouca atenção e então produz menos contrição e se comete com maior facilidade. Nada há tão perigoso como uma falta, por pequena que seja, quando quem a comete não a purifica cuidadosamente com as águas da penitência».
Catarina prosseguiu depois com o que havia começado. «Enquanto minha alma contemplava estas coisas, meu esposo celestial me disse: ‘-Vês a glória que perdem e os tormentos que sofre quem me ofende. Volte então à vida e mostra aos extraviados que vivem assim o terrível perigo que os ameaça’.
E como minha alma se mostrasse horrorizada diante do pensamento de retornar ao mundo, o Senhor agregou: ‘-Exige-o assim a salvação de muitas almas; neste retorno já não viverás como antes. Abandonarás tua cela e continuamente irás de um lado a outro através a cidades a fim de salvar muitas almas. Eu cuidarei de ti; te trarei e te levarei; te confiarei a honra de meu SANTO NOME e tu ensinarás minha doutrina a altos e a baixos, a leigos, a sacerdotes e monjes; te darei um dom de palavra e de sabedoria que ninguém poderá resistir. Eu te porei na presença dos Pontífices e dos governantes, tanto da Igreja como do povo para confundir assim a arrogância dos poderosos’.
Enquanto Deus se dirigia desta maneira à minha alma, me encontrei de repente, sem poder explicar como, unida ao corpo. Então me acometeu uma grande pena e verti copiosas lágrimas durante três dias e três noites; sempre que recordo isto não posso reprimir os desejos de chorar, e, Pai, não se admire disto: posso acaso evitar que meu coração se sinta destroçado ao recordar a glória que cheguei a possuir e de que ahora me sinto privada?
A salvação de meu próximo é a causa disto; se eu amo tão ardentemente as almas cuja conversão pôs o Senhor em minhas mãos, é porque tem custado muito caro. Eu me separei de Deus; me tem privado do gozo de sua glória por um tempo que ainda me é desconhecido».
Uma vez que Deus me concedeu a graça de escutar estas coisas, me pergunto se não seria meu dever publicá-las em uma época e que o egoísmo faz aos homens tão cegos e tão incrédulos.
Meus irmãos e irmãs no Senhor se opuseram a que as publicasse em vida de Catarina. Mas agora que ela se foi à mansão dos bem aventurados, eu me creio obrigada a falar com o fim de que tão grande milagre não deixe de ser conhecido por minha culpa. As seguintes circunstâncias dão toda a autenticidade possível ao fato.
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