Joana d'Arc: O mito e a santa
30.05.12, Em Personagens, Santidade, por ACIPrensa
À cada 30 de maio, a Igreja celebra Santa Joana d'Arc, a heroína francesa levada à fogueira por causa de sua fé. Sua apaixonante vida tem sido objeto de numerosos relatos e filmes, onde a fantasia se sobrepõe à realidade.
Em janeiro de 2011, o Papa Bento XVI nos presenteou com uma catequese da Audiência Geral na qual deixando de lado todos os mitos, destacou a grande santidade desta mulher, modelo para todos os leigos. Se queres conhecer a história real, não deixes de lê-la.
AUDIÊNCIA GERAL
Sala Paulo VI, Quarta-feira 26 de janeiro de 2011
Santa Joana d'Arc
Queridos irmãos e irmãs:
Hoje quero falar-vos de Joana d'Arc, uma jovem santa do final da Idade Média, falecida aos 19 anos, em 1431. Esta santa francesa, citada várias vezes no Catecismo da Igreja católica, é particularmente próxima a santa Catarina de Sena, padroeira da Itália e da Europa, de quem falei em uma catequese recente.
Com efeito, são duas mulheres jovens do povo, leigas e consagradas na virgindade; duas místicas comprometidas, não no claustro, mas no meio das realidades mais dramáticas da Igreja e do mundo de seu tempo. Talvez sejam as figuras mais características das «mulheres fortes» que, no final da Idade Média, levaram sem medo a grande luz do Evangelho às complexas vicissitudes da história. Poderíamos compará-las com as santas mulheres que permaneceram no Calvário, perto de Jesus crucificado e de sua Mãe Maria, enquanto os Apóstolos tinham fugido e Pedro tinha renegado Ele três vezes.
A Igreja, nesse período, vivia a profunda crise do grande cisma de Ocidente, que durou quase 40 anos. Quando morre Catarina de Sena, em 1380, há um Papa e um Anti-papa; quando nasce Joana, em 1412, háay um Papa e dois Anti-papas. Além desta laceração no seio da Igreja, havia contínuas guerras fratricidas entre os povos cristãos da Europa, a mais dramática das quais foi a interminável «Guerra dos cem anos» entre a França e a Inglaterra.
Joana d'Arc não sabia ler nem escrever, mas podemos conhecer profundamente sua alma graças à duas fontes de valor histórico excepcional: dos dois Processos contra ela. O primeiro, o Processo de condenação (PCon), contém a transcrição dos numerosos interrogatórios a Joana durante os últimos meses de sua vida (fevereiro-maio de 1431), e refere literalmente as palavras da santa.
O segundo, o Processo de nulidade da condenação, ou de «reabilitação» (PNul), contém as declarações de cerca de 120 testemunhas oculares de todos os períodos de sua vida (cf. Procès de Condamnation de Jeanne d’Arc, 3 vol. y Procès en Nullité de la Condamnation de Jeanne d’Arc, 5 vol., ed. Klincksieck, París 1960-1989).
Joana nasce em Domremy, uma pequena aldeia situada na fronteira entre a França e Lorena. Seus pais são camponeses assentados, conhecidos por todos como excelentes cristãos. Deles recebe uma boa educação religiosa, com notável influência da espiritualidade do Nome de Jesus, que ensinava São Bernardino de Sena e os franciscanos difundiram na Europa. Ao Nome de Jesus se une sempre o Nome de Maria e assim, um marco da religiosidade popular, a espiritualidade de Joana é profundamente cristocêntrica e mariana. Desde sua infância demonstra uma grande caridade e compaixão para os mais pobres, os enfermos e todos os que sofrem, no contexto dramático da guerra.
Por suas próprias palavras sabemos que a vida religiosa de Joana amadurece como experiência mística a partir da idade de 13 anos (PCon, I, pp. 47-48). Através da «voz» do arcanjo São Miguel, Joana percebe que o Senhor a chama a intensificar sua vida cristã e também a comprometer-se em primeira pessoa pela libertação de seu povo.
Sua resposta imediata, seu «sim», é o voto de virgindade, com um novo compromisso na vida sacramental e na oração: participação diária na missa, confissão e comunhão frequentes, longos momentos de oração silenciosa diante do Crucifixo ou da imagem da Virgem.
A compaixão e o compromisso da jovem camponesa francesa frente ao sofrimento de seu povo se fazem mais intensos por sua relação mística com Deus. Um dos aspectos mais originais da santidade desta jovem é precisamente este vínculo entre experiência mística e missão política. Depois dos anos de vida oculta e de amadurecimento interior segue o biênio breve, mas intenso, de sua vida pública: um ano de ação e um ano de paixão.
No começo do ano de 1429, Joana inicia sua obra de libertação. Os numerosos testemunhos nos mostram esta jovem de só 17 anos como uma pessoa muito forte e decidida, capaz de convencer a homens inseguros e desmoralizados. Superando todos os obstáculos, se encontra com o Delfim da França, o futuro rei Charles VII, que em Poitiers a submete a um exame por parte de alguns teólogos da universidade. Seu juízo é positivo: não veem nela nada de mal, só uma boa cristã.
Em 22 de março de 1429, Joana dita uma importante carta ao rei de Inglaterra e aos seus homens que assediam a cidade de Orleans (ib., pp. 221-222). Sua proposta é uma paz verdadeira na justiça entre os dois povos cristãos, à luz dos nomes de Jesus e de Maria, mas é rechaçada, e Joana deve lutar pela libertação da cidade, que acontece em 8 de maio. Um outro momento culminante de sua ação política é a coroação do rei Charles VII em Reims, em 17 de julho de 1429.
Durante um ano inteiro, Joana vive com os soldados, levando a cabo entre eles uma autêntica missão de evangelização. São numerosos os testemunhos sobre a bondade de Joana, de sua valentia e de sua extraordinária pureza. Todos a chamam e ela mesma se define «a donzela», ou seja, a virgem.
A paixão de Joana começa em 23 de maio de 1430, quando cai prisioneira nas mãos de seus inimigos. Em 23 de dezembro a levam à cidade de Rouen. Ali tem lugar o longo e dramático Processo de condenação, que se inicia em fevereiro de 1431 e acaba em 30 de maio com a fogueira.
É um processo grande e solene, presidido por dois juízes eclesiásticos, o bispo Pierre Cauchon e o inquisidor Jean le Maistre, mas na realidade inteiramente dirigido por um nutrido grupo de teólogos da célebre Universidade de París, que participam no processo como assessores. São eclesiásticos franceses, que ao fazerem uma opção política oposta a de Joana, a priori tem um juízo negativo sobre sua pessoa e sobre sua missão.
Este processo é uma página desconcertante da história da santidade e também uma página iluminadora sobre o mistério da Igreja que, segundo as palavras do concílio Vaticano II, é «por sua vez santa e sempre necessitada de purificação» (Lumen gentium, 8).
É o encontro dramático entre esta santa e seus juízes, que são eclesiásticos. Acusam e julgam a Joana, a quem chegam a condenar como hereje e mandam à morte terrível da fogueira. À diferença dos santos teólogos que tinham iluminado a Universidade de París, como São Boaventura, São Tomás de Aquino e o beato Duns Scoto, de quem falei em algumas catequeses, estes juízes são teólogos carentes da caridade e da humildade para ver nesta jovem a ação de Deus.
Vêm à mente as palavras de Jesus segundo as quais os mistérios de Deus são revelados a quem tem o coração dos pequenos, enquanto que permanecem ocultos aos sábios e inteligentes que não tem humildade (cf. Lc 10, 21). Assim, os juízes de Joana são radicalmente incapazes de comprendê-la, de ver a beleza de sua alma: não sabiam que estavam condenando uma santa.
O tribunal rechaça, em 24 de maio, a apelação de Joana ao julgamento do Papa. Na manhã de 30 de maio, recebe pela última vez a santa Comunhão no cárcere e imediatamente a levam ao supício na praça do antigo mercado. Pede a um dos sacerdotes que sustente diante da fogueira uma cruz de procissão. Assim morre olhando Jesus crucificado e pronunciando várias vezes e em voz alta o Nome de Jesus (PNul, I, p. 457; cf. Catecismo da Igreja católica, n. 435).
Cerca de 25 anos mais tarde, o Processo de nulidade, iniciado debaixo da autoridade do Papa Calixto III, se conclui com uma solene sentença que declara nula a condenação (7 de julho de 1456; PNul, II, pp. 604-610). Este longo processo, que recolheu as declarações dos testemunhos e dos julgamentos de muitos teólogos, todos favoráveis a Joana, põe em relevo sua inocência e a perfeita fidelidade à Igreja. Mais tarde, em 1920, Joana d'Arc foi canonizada por Bento XV.
Queridos irmãos e irmãs, o Nome de Jesus, invocado por nossa santa até os últimos instantes de sua vida terrena, era como a contínua respiração de sua alma, como o batimento de seu coração, o centro de toda sua vida.
O «Mistério da caridade de Joana d'Arc», que tanto fascinou ao poeta Charles Péguy, é este amor total a Jesus, e ao próximo em Jesus e por Jesus. Esta santa havia compreendido que o amor abraça toda a realidade de Deus e do homem, do céu e da terra, da Igreja e do mundo. Jesus sempre ocupa o primeiro lugar em sua vida, segundo sua formosa expressão: «Nosso Senhor deve ser o primeiro a ser servido» (PCon, I, p. 288; cf. Catecismo da Igreja católica, n. 223).
Amá-lo significa obedecer sempre a sua vontade. Ela afirma com total confiança e abandono: «Encomendo-me a Deus meu Criador, o amo com todo meu coração» (ib., p. 337). Com o voto de virgindade, Joana consagra de modo exclusivo toda sua pessoa ao único Amor de Jesus: é «sua promessa feita a nosso Senhor de custodiar bem sua virgindade de corpo e de alma» (ib., pp. 149-150).
A virgindade da alma é o estado de graça, valor supremo, para ela mais precioso que a vida: é um dom de Deus que se há de receber e custodiar com humildade e confiança. Um dos textos mais conhecidos do primeiro Processo se refere precisamente a isto: «Interrogada se sabia que estava na graça de Deus, responde: se não estou, que Deus me queira por nela; se estou, que Deus me queira conservar nela» (ib., p. 62; cf. Catecismo da Igreja católica, n. 2005).
Nossa santa vive a oração na forma de um diálogo contínuo com o Senhor, que ilumina também seu diálogo com os juízes e lhe dá paz e segurança. Ela pede com confiança: «Dulcíssimo Deus, em honra de vossa santa Paixão, vos peço, se me amais, que me reveleis como devo responder a estes homens da Igreja» (ib., p. 252).
Joana contempla Jesus como o «Rei do Céu e da Terra». Assim, em seu estandarte, Joana fez pintar a imagem de «Nosso Senhor que sustenta o mundo» (ib., p. 172): ícone de sua missão política. A libertação de seu povo é uma obra de justiça humana, que Joana leva a cabo na caridade, por amor a Jesus.
O seu é um formoso exemplo de santidade para os leigos comprometidos na vida política, sobretudo nas situações mais difíceis. A fé é a luz que guia toda escolha, como testemunhará, um século mais tarde, outro grande santo, o inglês Tomás Moore. Em Jesus Joana contempla também toda a realidade da Igreja, tanto a «Igreja triunfante» do céu, como a «Igreja militante» da terra. Segundo suas palavras: «De Nosso Senhor e da Igreja, me parece que é toda una» (ib., p. 166).
Esta afirmação, citada no Catecismo da Igreja católica (n. 795), tem um caráter realmente heróico no contexto do Processo de condenação, frente a seus juízes, homens da Igreja, que a perseguiram e a condenaram. No amor a Jesus Joana encontra a força para amar a Igreja até o final, inclusive no momento da condenação.
Compraz-me recordar que santa Joana d'Arc teve uma profunda influência sobre uma jovem santa da época moderna: Teresa do Menino Jesus. Em uma vida completamente distinta, transcorrida na clausura, a carmelita de Lisieux se sentia muito próxima a Joana, vivendo no coração da Igreja e participando nos sofrimentos de Cristo pela salvação do mundo.
A Igreja as reuniu como padroeiras de França, depois da Virgem Maria. Santa Teresa havia expressado seu desejo de morrer como Joana, pronunciando o Nome de Jesus (Manuscrito B, 3r), e a animava o mesmo grande amor a Jesus e ao próximo, vivido na virgindade consagrada.
Queridos irmãos e irmãs, com seu luminoso testemunho, santa Joana d'Arc nos convida a uma medida alta da vida cristã: fazer da oração o fio condutor de nossas jornadas; ter plena confiança ao cumprir a vontade de Deus, qualquer que seja; viver a caridade sem favoritismos, sem limites e tirando, como ela, do amor a Jesus um profundo amor à Igreja. Graças.
Fonte: Vatican.va
http://www.aciprensa.com/blog/juana-de-arco-el-mito-y-la-santa/#.T-CuyBceM1Q
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