
"Memórias da Serva de Deus Luisa Piccarreta"
VIGÉSIMA QUARTA HORA
Das 4 às 5 da tarde
A sepultura de Jesus
Graças te dou, ó Jesus, por me chamar à união contigo por meio da oração, e tomando teus pensamentos, tua língua, teu coração e fundindo-me toda em tua Vontade e em teu amor, estendo meus braços para abraçar-te e apoiando minha cabeça sobre o seu coração começo:
Minha sofrida Mãe, vejo que te dispões ao último sacrifício, o de ter que dar sepultura ao teu Filho morto Jesus, e resignadíssima ao Querer de Deus o acompanhas e com tuas mãos o pões no sepulcro, e enquanto recompões aqueles membros tratas de dar-lhe o último adeus e o último beijo, e pela dor te sentes arrancar o coração do peito.
O amor te crava sobre esses membros, e pela força do amor e de dor tua Vida está a ponto de ficar apagada junto com teu extinto Filho. Pobre Mãe, como farás sem Jesus? Ele é tua vida, teu tudo, e no entanto é o Querer do Eterno que assim o quer. Terás que combater com duas potências insuperáveis: O amor e o Querer Divino.
O amor te tem cravada, de modo que não podes separar-te; o Querer Divino se impõe e quer este sacrifício. Pobre Mamãe, como farás? Quanto me compadeço! Ah, anjos do Céu, vinde levantá-la de cima dos imóveis membros de Jesus, de outra maneira morrerá!
Mas, oh maravilha, enquanto parecia extinta junto com Jesus, escuto sua voz tremendo e interrompida por soluços que diz: “Filho amado, Filho, este era o único consolo que ficou e que mitigava minhas penas: Tua Santíssima Humanidade, desafogar-me sobre estas chagas, adorá-las, beijá-las, mas agora também isto me tiram, o Querer Divino assim o quer e Eu me resigno; mas deves saber, oh Filho, que o quero e não o posso, só o pensamento de fazer me faltam as forças e a vida me abandona. Ah, permite-me, oh Filho, para poder receber força e vida para fazer esta amarga separação, que me deixe toda sepultada em Ti, e que tome para Mim tua Vida, tuas penas, tuas reparações e tudo o que Tu és. Ah, só um intercâmbio de vida entre Tu e Eu pode dar-me força para cumprir o sacrifício de separar-me de Ti.”
Minha aflita Mãe, assim decidida, vejo que de novo percorres esses membros, e pondo tua cabeça sobre a de Jesus, a beijas e nela encerras teus pensamentos, tomando para ti seus espinhos, os aflitos e ofendidos pensamentos de Jesus, e tudo o que sofreu em sua sacratíssima cabeça. Oh, como quisestes animar a inteligência de Jesus com a tua, para poder dar vida por vida! E já sentes que começas a reviver, em ter tomado em tua mente os pensamentos e os espinhos de Jesus.
Dolorosa Mãe, te vejo beijar os olhos apagados de Jesus, e ficas traspassada ao ver que Ele já não te olha mais. Quantas vezes esses olhares divinos, olhando-te, te extasiavam no Paraíso e te faziam ressurgir da morte à vida! Porém agora, ao ver que já não te olham te sentes morrer, por isso vejo que deixas teus olhos nos de Jesus e tomas para Ti os seus, suas lágrimas, a amargura desse olhar que tanto sofreu ao ver as ofensas das criaturas e tantos insultos e desprezos.
Porém vejo traspassada Mãe que beijas seus santíssimos ouvidos, o chamas e o tornas a chamar e lhe dizes: “Meu Filho, será possível que não me escutes mais? Tu que mesmo em cada pequeno gesto me escutavas, e agora choro, te chamo, e não me escutas?
Ah, o amor amoroso é o mais cruel tirano! Tu eras para Mim mais que minha própria Vida, e agora deverei sobreviver a tanta dor? Por isso, oh Filho, deixo meu ouvido no teu e tomo para Mim o que sofreu teu santíssimo ouvido, o eco de todas as ofensas que se repercutiam no teu, só isto me pode dar vida, tuas penas, tuas dores.”
Enquanto dizes isto, é tanta a dor, as angústias do coração, que perdes a voz e ficas sem movimento. Minha pobre Mãe, minha pobre Mãe, quanto me compadeço, quantas mortes cruéis não sofres!
Porém sofrida Mãe, o Querer Divino se impõe e te dá o movimento, e Tu olhas o rosto santíssimo de Jesus, o beijas e exclamas: “Adorado Filho, como estás desfigurado, se o amor não me dissesse que és meu Filho, minha Vida, meu tudo, não te reconheceria mais, tão irreconhecível ficastes. Tua natural beleza se transformou em deformidade, tua face se tornou violeta; a luz, a graça que irradiava teu formoso rosto –que olhar-te e ficar beatificada era o mesmo–, se converteu em palidez de morte, oh Filho amado, Filho, como ficastes reduzido, que feio trabalho lhe fez o pecado em teus santíssimos membros, oh, como tua inseparável Mãe quisera restituir-te tua primitiva beleza. Quero fundir meu rosto no teu e tomar para Mim o teu, tuas bofetadas, as cusparadas, os desprezos e tudo o que sofreu em teu rosto santíssimo. Ah! Filho, se me queres viva dá-me tuas penas, de outra maneira Eu morro.”
E é tanta a dor, que te sufoca, te corta as palavras e ficas como extinta sobre o rosto de Jesus. Pobre Mãe, quanto me compadeço! Meus Anjos, venham para sustentar minha Mãe, sua dor é imensa, a inunda, a afoga e já não lhe fica mais vida nem forças.
Mas o Querer Divino rompendo estas ondas de dor que a afogam, lhe restitui a vida.
Estás já sobre a boca, e ao beijá-la te sentes amargar teus lábios pela amargor do fel que amargou tanto a boca de Jesus, e soluçando continuas: “Meu Filho, diga uma última palavra a tua Mãe, será possível que não deva escutar mais tua voz? Todas tuas palavras que em vida me disseste, como tantas flechas que me ferem o coração de dor e de amor; e agora vendo-te mudo, estas flechas se removem em meu lacerado coração e me dão inumeráveis mortes, e a viva força parece que querem arrancar-te uma última palavra, e não obtendo-a me rasgam e me dizem: “Então não o escutarás mais; não voltarás a ouvir mais seu doce sotaque, a melodia de sua palavra criadora que em Ti criava tantos paraísos por quantas palavras dizia.”
Ah, meu paraíso terminou e não terei outra coisa que amarguras, ah Filho, quero dar-te minha língua para animar a tua, dá-me o que sufrestes em tua santíssima boca, a amargura do fel, tua sede ardente, tuas reparações e preces, e assim, ouvindo por meio destas tua voz, minha dor será mais suportável, e tua Mãe poderá seguir vivendo no meio de tuas penas.”
Mãe destroçada, vejo que te apressas porque os que estão ao teu redor querem fechar o sepulcro, e quase como voando passas sobre as mãos de Jesus, as tomas entre as tuas, as beijas, as estreitas ao coração, e deixando tuas mãos nas suas tomas para Ti as dores e as perfurações daquelas mãos santíssimas. E chegando aos pés de Jesus e venndo el rasgo cruel que os cravos fizeram naqueles pés, pões neles os teus e tomas para Ti aquelas chagas e te pões no lugar de Jesus para correr ao lado dos pecadores para arrancá-los do inferno.
Angustiada Mãe, já vejo que dás o último adeus ao coração traspassado de Jesus. Aqui te deténs, é o último assalto ao teu coração materno, te sentes arrancar do peito pela veemência do amor e da dor, e por si mesmo te escapa para ir encerrar-se no coração santíssimo de Jesus; e Tu vendo-te sem coração te apressas a tomar o coração Sacratíssimo de Jesus no teu, seu amor rechaçado por tantas criaturas, tantos desejos seus ardentes não realizados pela ingratidão delas, as dores, as feridas que traspassam esse coração santíssimo e que te terão crucificada durante toda tua Vida.
E venndo essa larga ferida a beijas e tomas em teus lábios seu sangue, e sentindo-te a Vida de Jesus, sentes a força para fazer a amarga separação, por isso o abraças e permites que a pedra sepulcral o encerre.
Minha sofrida Mãe, chorando te suplico que no permitas que por agora Jesus nos seja tirado de nosso olhar, espera que primeiro me encerre em Jesus para tomar sua Vida em mim, se Tu não podes viver sem Jesus, que és a sem mancha, a santa, a cheia de Graça, muito menos eu que sou a debilidade, a miséria, a cheia de pecados, como posso viver sem Jesus?
Ah Mãe dolorosa, não me deixes só, leva-me contigo; mas antes deposita-me toda em Jesus, esvazia-me de tudo para poder por Jesus todo em mim, assim como o pusestes em Ti. Começa comigo o ofício materno que Jesus te deu estando na cruz, e abrindo em minha pobreza extrema uma brecha em teu coração materno, com tuas mãos maternas encerra-me toda, toda em Jesus; encerra em minha mente os pensamentos de Jesus, a fim de que nenhum outro pensamento entre em mim; encerra os olhos de Jesus nos meus, a fim de que jamais possa fugir de meu olhar; põe seu ouvido no meu, para que sempre o escute e cumpra em tudo seu Santíssimo Querer; seu rosto o ponha no meu, a fim de que olhando aquele rosto tão desfigurado por meu amor, o ame, me compadeça e repare; põe sua língua na minha para que fale, reze e ensine com a língua de Jesus; suas mãos nas minhas para que cada movimento que eu faça e cada obra que realize tomem vida das obras e movimentos de Jesus; põe seus pés nos meus, a fim de que cada passo que eu dê seja vida para as outras criaturas, vida de salvação, de força, de zelo para todas as criaturas.
E agora, minha aflita Mãe, permite-me que beije seu coração e que beba seu preciosíssimo sangue, e Tu, encerrando seu coração no meu faz que possa viver de seu amor, de seus desejos e de suas penas. e agora toma a mão direita de Jesus, já rígida, para que me dês com ela sua última bênção.
E agora permite que a pedra feche o sepulcro, e Tu, destroçada beijas este sepulcro e chorando lhe dizes teu último adeus e partes, mas é tanta tua dor, que agora ficas petrificada, agora gelada.
Minha traspassada Mãe, junto contigo dou o adeus a Jesus, e chorando, quero compadecer-me e fazer-te companhia em tua amarga desolação, quero por-me ao teu lado, para dar a cada suspiro teu, a cada angústia e dor, uma palavra de consolo, um olhar de compaixão. Recolherei tuas lágrimas, e se te vejo desfalecer te sustentarei em meus braços.
Porém vejo que estás obrigada a regressar a Jerusalém pelo caminho por onde vieste. Uns quantos passos e te encontras diante da cruz sobre a qual Jesus sofreu tanto e morreu, e Tu corres, a abraças, e vendo-a tecida de sangue, uma por uma se renova em teu coração as dores que Jesus sofreu sobre ela, e não podendo conter a dor, soluçando exclamas:
“Oh! cruz, tão cruel devias ser com meu Filho? Ah, em nada o perdoastes! Que mal te fez? Não permitistes a Mim, sua dolorosa Mãe, dar-le nem sequer um gole de água quando a pedia, e à sua boca abrasada lhe destes fel e vinagre; meu coração traspassado me o sentia liquefazer e teria querido dar àqueles lábios me liquefeito coração para tirar-lhe a sede, mas tive a dor de ver-me rechaçada.
Oh cruz cruel, sim, mas santa, porque fostes divinizada e santificada pelo contato de meu Filho. Aquela crueldade que usaste com Ele, mudá-la em compaixão para os miseráveis mortais, e pelas penas que Ele sofreu sobre ti, obtém graça e força às almas sofredoras, para que nenhuma se perca por causa de tribulações e cruzes. Demasiado me custam as almas, me custam a Vida de um Filho Deus; e Eu, como Corredentora e Mãe as confio a ti, oh cruz.”
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