"Memórias da Serva de Deus Luisa Piccarreta"
VIGÉSIMA QUARTA HORA
(Final)
E beijando-a e voltando a beijar te afastas. Pobre Mãe, quanto me compadeço a cada passo no encontro surgem novas dores, que fazemo maior sua imensidade e tornam mais amargas suas ondas, te inundam, te afogam, e a cada instante te sentes morrer.
Outros passos mais e chegas ao ponto onde esta manhã o encontraste embaixo do peso enorme da cruz, esgotado, jorrando sangue, com um monte de espinhos na cabeça, os quais, golpeando na cruz penetravam mais adentro e em cada golpe lhe davam dores de morte.
O olhar de Jesus, cruzando-se com o teu buscava piedade, e os soldados para tirar este alívio a Jesus e a Ti, o empurraram e o fizeram cair, fazendo-lhe derramar novamente sangue; agora Tu vês o terreno empapado com ele, e lançando-te por terra te ouço dizer enquanto beijas aquele sangue: “Meus anjos, vinde fazer guarda a este sangue, a fim de que nunhuma gota seja pisoteada e profanada.”
Mãe sofredora, deixa-me que te dê a mano para levantar-te e sustentar-te, porque te vejo agonizar sobre o sangue de Jesus. Porém novas dores encontras conforme caminhas, por todas as partes vês pegadas de sangue e lembranças da dor de Jesus. Por isso apressas o passo e te encerras no cenáculo. Também eu me encerro no cenáculo, mas meu cenáculo é o coração santíssimo de Jesus; e de dentro de seu coração quero vir sobre teus joelhos maternos para fazer-te companhia nesta hora de amarga desolação.
Não resiste meu coração deixar-te só em tanta dor. Mãe desolada, olha a tua pequena filha, sou demasiado pequena, e por mim só nem posso nem quero viver; põe-me sobre teus joelhos e estreita-me entre teus braços maternos, faz-me de Mãe, tenho necessidade de ser guiada, de ajuda, de sustentação, olha minha pobreza e sobre minhas chagas derrama uma lágrima tua, e quando me vejas distraída estreita-me em teu coração materno, e torna a chamar em mim a Vida de Jesus.
Mas enquanto te rogo me vejo obrigada a deter-me para por atenção em tuas terríveis dores, e me sinto traspassar ao ver que conforme moves a cabeça sentes que te penetram mais adentro os espinhos que tomastes de Jesus, com as espetadas de todos nossos pecados de pensamento, que penetrando-te até nos olhos te fazem derramar lágrimas mescladas com sangue, e enquanto choras, tendo em teus olhos a vista de Jesus passam diante de tua vista todas as ofensas das criaturas.
Como ficas amargurada por isto, como compreendes o que Jesus sofreu, tendo em Ti suas mesmas penas. Porém uma dor não espera a outra, e pondo atenção em teus ouvidos te sentes aturdir pelo eco das vozes das criaturas, e segundo cada espécie de vozes ofensivas de criaturas, penetrando pelos ouvidos ao coração, te traspassam, e repetes o estribilho: “Filho, quanto sofrestes!”
Desolada Mãe, quanto me compadeço, permita-me que te limpe o rosto banhado em lágrimas e sangue, mas me sinto retroceder ao vê-lo azulado, irreconhecível e pálido, com uma palidez mortal, ah, compreendo, são os maus tratos dados a Jesus que tomastes sobre Ti e que te fazem tanto sofrer, tanto, que movendo teus lábios para rezar ou para deixar escapar suspiros de teu inflamado peito, sinto tua respiração amarga e teus lábios queimados pela sede de Jesus.
Minha pobre Mãe, quanto me compadeço, tuas dores vão crescendo sempre mais, e parece que se dêem a mão entre eles, e tomando tuas mãos nas minhas, as vejo traspassadas por cravos, e é nestas mesmas mãos que sentes a dor ao ver os homicídios, as traições, os sacrilégios e todas as obras más, que repetem os golpes, agrandando as chagas e exacerbando-as cada vez mais.
Quanto me compadeço, Tu és a verdadeira Mãe crucificada, tanto, que nem sequer os pés ficam sem cravos; e mais, não só os sentes cravar, senão também arrancar por tantos passos inícuos e pelas almas que vão ao inferno, e Tu corres ao seu lado a fim de que não caiam nas chamas infernais, mas ainda não é tudo, crucificada Mãe, todas tuas penas, reunindo-se juntas, fazem eco no coração e te traspassam, não com sete espadas mas com milhares e milhares de espadas; muito mais que tendo em Ti o coração divino de Jesus, que contém todos os corações e envolve em sua pulsação as pulsações de todos, e essa pulsação divina conforme bate assim vai dizendo: “Almas, Amor.”
E Tu, à pulsação que diz almas, te sentes correr em tuas pulsações todos os pecados e te sentes dar morte, e na pulsação que diz amor, te sentes dar vida; assim que Tu estás em contínua atitude de morte e de vida. Mãe crucificada, quanto me compadeço de tuas dores, são inenarráveis; quisera mudar meu ser em línguas, em voz, para compadecer-me, mas diante de tantas dores são nada meus compadecimentos; por isso chamo os anjos, a Trindade Sacrossanta, e lhes rogo que ponham em torno a Ti suas harmonias, seus contentamentos, sua beleza, para adoçar e compadecer tuas intensas dores, que te sustentam entre seus braços e que te mudem em amor todas tuas penas.
E agora desolada Mãe, um agradecimento em nome de todos por tudo o que sofrestes, e te rogo por esta tua amarga desolação, que me venhas para assistir no ponto de minha morte, quando mimha pobre alma se encontre só, abandonada por todos, em meio de mil angústias e temores; vem Tu então a devolver-me a companhia que tantas vezes te fiz em minha vida, vem a assistir-me, ponde ao meu lado e afugenta o inimigo, lava minha alma com tuas lágrimas, cubra-me com o sangue de Jesus, veste-me com seus méritos, embeleza-me com tuas dores e com todas as penas e as obras de Jesus; e em virtude das penas de Jesus e de tuas dores, faz desaparecer todos meus pecados, dando-me o total perdão, e expirando minha alma recebe-me entre teus braços, põe-me embaixo de teu manto, esconde-me do olhar do inimigo e leva-me ao Céu e põe-me nos braços de Jesus. Ficamos nisto, minha amada Mãe!
E agora te rogo que dês a todos os moribundos a companhia que te fiz hoje, a todos faz-lhes de Mãe, são momentos extremos e se necessitam grandes ajudas, por isso não negues a ninguém teu ofício materno. Uma última palavra: “Enquanto te deixo, te rogo que me encerres no coração santíssimo de Jesus, e Tu minha sofredora Mãe, faz-me de sentinela a fim de que Jesus não me ponha fora de seu coração, e que eu, mesmo que quisesse, não possa sair. Por isso beijo tua mão materna e abençoa-me.
AMÉM
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