"Memórias da Serva de Deus Luisa Piccarreta"
Das 10 às 11 da manhã
DÉCIMA OITAVA HORA
Jesus toma a cruz e se dirige ao Calvário onde é despido.
Graças te dou, oh Jesus, por chamar-me à união contigo por meio da oração, e tomando teus pensamentos, tua língua, teu coração e fundindo-me toda em tua Vontade e em teu amor, estendo meus braços para abraçar-te e apoiando minha cabeça sobre teu coração começo:
Meu Jesus, amor insaciável, vejo que não te dás paz, sinto teus desvarios de amor, tuas dores; o teu coração bate com força e em cada batimento sinto explosões, torturas, violências de amor, e Tu, não podendo conter o fogo que te devora, te cansas, gemes, suspiras, e em cada gemido te ouço dizer: “Cruz!” Cada gota de teu sangue repete: “Cruz!”
Todas tuas penas, nas quais como em um mar interminável Tu nadas dentro, repetem entre elas: “Cruz!” E Tu exclamas: “Oh cruz amada e suspirada, só tu salvarás meus filhos, e Eu concentro em ti todo meu amor!”
Entretanto, teus inimigos te fazem reentrar no pretório, lhe tiram a púrpura querendo por de novo tuas vestes. Mas ai, quanta dor! Seria mais doce morrer que ver-te sofrer tanto!
A veste se agarra na coroa e não podem tirá-la por cima, então com uma crueldade jamais vista te arrancam tudo junto, suas vestes e a coroa. Com tão cruel puxão muitos espinhos se rompem e ficam cravados em tua santíssima cabeça; o sangue corre em rios e é tanta tua dor, que gemes; mas teus inimigos não se importando com tuas torturas, põem tuas vestes e de novo tornam a por a coroa apertando-a fortemente sobre tua cabeça, e fazem que os espinhos cheguen aos olhos, às orelhas, então não há parte de tua santíssima cabeça que não sinta as espetadas delas.
É tanta tua dor que vacilas embaixo dessas mãos cruéis, te estremeces dos pés à cabeça e entre atrozes espasmos estás a ponto de morrer, e com teus olhos apagados e cheios de sangue, com trabalho me olhas para pedir ajuda no meio de tanta dor.
Meu Jesus, rei das dores, deixe que te sustente e te estreite em meu coração. Quisera tomar o fogo que te devora para incinerar teus inimigos e por-te a salvo, mas Tu não queres porque as ânsias da cruz se fazem más ardentes e queres imolar-te sobre ela, para o bem de teus inimigos. Mas enquanto te estreito em meu coração, Tu estreitando-me ao teu me dizes:
“Minha filha, desafogue meu amor, e junto comigo repara por aqueles que fazerm o bem e me desonram. Estes judeus me vestem com minhas roupas para mais desacreditar-me diante do povo, para convencê-lo de que Eu sou um malfeitor.
Aparentemente a ação de vestir-me era boa, mas em si mesma era má. Ah, quantos fazem obras boas, administram sacramentos, os frequentam mas com fins humanos e inclusive perversos, mas o bem mal feito leva à dureza; Eu quero ser coroado uma segunda vez, com dores mais atrozes que na primeira vez, para romper esta dureza e assim, com meus espinhos, atraí-los a Mim.
Ah, minha filha, esta segunda coroação é muito mais dolorosa, sinto a cabeça nadando entre espinhos, e em cada movimento que faço ou golpe que me dão, tantas mortes cruéis sofro.
Reparo assim a malícia das ofensas, reparo por aqueles que em qualquer estado de ânimo em que se encontrem, em vez de pensar na própria santificação se dissipam e rechaçam minha Graça, e regressam para dar-me espinhos mais agudos, e Eu sou obrigado a gemer, a chorar com lágrimas de sangue e a suspirar por sua salvação.
Ah, Eu faço tudo para amá-las, e as criaturas fazem de tudo para ofender-me! Ao menos tu não me deixes só em minhas penas e em minhas reparações.”
Meu destrozado bem, contigo reparo, contigo sofro, mas vejo que teus inimigos te precipitam pelas escadas, o povo com furor e ânsias te espera; te fazem encontrar preparada a cruz, que com tantos suspiros buscas, e Tu com amor a olhas e com passo decidido te acercas para abraçá-la, mas antes a beijas, e correndo-te um estremecimento de alegria por tua santíssima Humanidade, com sumo contentameto teu tornas a olhá-la e medes sua largura e sua altura.
Nela estabeleces a porção para todas as criaturas, as dotas suficientemente para vinculá-las à Divinidade com laço de núpcias e fazê-las herdeiras do Reino dos Céus; depois, não podendo conter o amor com o qual as amas, tornas a beijar a cruz e lhe diz:
“Cruz adorada, finalmente te abraço; eras tu o suspiro de meu coração, o martírio de meu amor, mas tu, oh cruz, tardaste até agora, enquanto meus passos sempre se dirigiam para ti. Cruz santa, eras tu a meta de meus desejos, a finalidade de minha existência cá embaixo, em ti concentro todo meu Ser; em ti ponho todos meus filhos e tu serás sua vida e sua luz, sua defesa, sua custódia, sua força.
Tu os ajudarás em tudo e os conduzirás gloriosos ao Céu. Oh cruz, cátedra de sabedoria, só tu ensinarás a verdadeira santidade, só tu formarás os heróis, os atletas, os mártires, os santos. Cruz bela, tu és meu trono e devendo Eu partir da terra, tu permanecerás no meu lugar; a ti entrego em dote todas as almas. A ti as confio para que me as custodies e as salves.”
E dizendo isto, ansioso a pões sobre teus santíssimos ombros. Ah meu Jesus, a cruz para teu amor é demasiado ligeira, mas ao peso da cruz se une o de nossas enormes e imensas culpas, enormes e imensas quanto é a extensão dos céus, e Tu, meu bem quebrantado, sentes embaixo dela o peso de tantas culpas, tua alma se horroriza diante da vista delas e sente a pena de cada culpa; tua santidade fica perturbada diante de tanta fealdade, e por isto pondo a cruz sobre teus ombros, vacilas, arquejas, e de tua santíssima Humanidade brota um suor mortal.
Ah, meu amor, não tenho ânimo para deixar-te só, quero dividir junto contigo o peso da cruz, e para aliviar-te o peso das culpas me estreito aos teus pés; quero dar-te o nome de todas as criaturas: Amor por quem não te ama, louvores por quem te despreza, bênçãos, agradecimentos, obediência por todos.
Declaro que em qualquer ofensa que recebas, eu quero oferecer-me toda para reparar-te, fazer o ato oposto às ofensas que as criaturas te fazem e consolar-te com meus beijos e meus contínuos atos de amor.
Porém vejo que sou demasiado miserável, tenho necessidade de Ti para poder reparar de verdade, por isso me uno à tua santíssima Humanidade, e junto a Ti uno meus pensamentos aos teus para reparar meus pensamentos maus e os de todos; uno minha boca à tua para reparar as blasfêmias e as más conversações; uno meu coração ao teu para reparar as inclinações, os desejos e os afetos maus; numa palavra, quero reparar tudo o que repara tua santíssima Humanidade, unindo-me à imensidade de teu amor por todos e ao bem imenso que fazes a todos.
Porém não estou contente ainda, quero unir-me à tua Divindade e perder meu nada n'Ela, e assim te dou o tudo: Dou teu amor para confortar tuas amarguras; dou teu coração para reconfortar-te por nossas friezas, incorrespondências, ingratidões e pouco amor das criaturas; dou tuas harmonias para aliviar-te o ouvido das blasfêmias que lhe chegam; dou tua beleza para reconfortar-te das fealdades de nossas almas quando nos sujamos na culpa; dou tua pureza para aliviar-te pelas faltas de retidão de intenção, e pela lama e podridão que vês em tantas almas; dou tua imensidade para aliviar-te de las estreitezas voluntárias onde se metem as almas; dou teu ardor para queimar todos os pecados etodos os corações, a fim de que todos te amem e ninguém mais te ofenda; em suma, dou tudo o que Tu és para dar-te satisfação infinita, amor eterno, imenso e infinito.
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