
"Memórias da Serva de Deus Luisa Piccarreta"
SÉTIMA HORA
Das 11 às 12 da noite
Terceira hora de agonia no Horto de Getsêmani
Graças te dou, oh, Jesus, por chamar-me à união contigo por meio da oração, e tomando teus pensamentos, tua língua, teu coração e fundindo-me toda em tua Vontade e em teu amor, estendo meus braços para abraçar-te e apoiando minha cabeça sobre teu coração começo:
Meu doce bem, meu coração não resiste; te olho e vejo que segues agonizando. O sangue em rios te escorre por todo o corpo e com tanta abundância, que não sustendo-te em pé caiu num lago de sangue.
Oh, meu amor, rompe-me o coração ao ver-te tão fraco e esgotado! Teu rosto adorável e tuas mãos criadoras se apoiam na terra e se enchem de sangue; me parece que é por causa dos rios de iniquidade que te mandam as criaturas, Tu quisestes dar rios de sangue para fazer que estas culpas fiquem afogadas neles e assim, com isso, dar a cada um o teu perdão. Mas, oh, meu Jesus, reanima-te, é demasiado o que sofres; basta até aqui o teu amor.
E enquanto parece que meu amável Jesus morre em seu próprio sangue, o amor lhe dá nova vida. Vejo-O mover-se com dificuldade, se põe de pé e assim, manchado de sangue e de lama, parece que quer caminhar, mas não tendo forças con dificuldade se arrasta.
Minha doce vida, deixa que te leve entre meus braços. Vais talvez aos teus amados discípulos? Mas qual não é a dor de teu adorável coração ao encontrá-los de novo dormindo. E Tu com voz trêmula e apagada os chamas: “Meus filhos, não durmais, a hora está próxima, não veis a que estado me reduzi? Ah, ajudem-me, não me abandoneis nestas horas extremas.
E quase vacilante estás a ponto de cair ao seu lado, enquanto João estende os braços para suster-te. Estás tão irreconhecível que se não houvesse sido pela suavidade e doçura de tua voz, não te teriam reconhecido.
Depois, recomendando-lhes que estejam despertos e que orem, regressas ao horto, mas com uma segunda ferida no coração. Nesta ferida vejo, meu bem, todas as culpas daquelas almas que, não obstante as manifestações de teus favores em dons, beijos e carícias, nas noites da provação, esquecendo-se de teu amor e de teus dons, ficam sonolentos e adormecidos, perdendo assim o espírito de contínua oração e vigilância.
Meu Jesus, é certo que depois de ter-te visto, depois de ter experimentado teus dons, para permanecer privados e resistir se necessita grande força, só um milagre pode fazer que tais almas resistam à provação. Por isso, enquanto me compadeço de Ti por essas almas, cujas negligências, leviandades e ofensas são as mais amargas ao teu coração, te rogo que no caso de que elas chegassem a dar um só passo que possa no mais mínimo desgostar-te, as circundes de tanta Graça que as detenhas, para que não percam o espírito de contínua oração.
Meu doce Jesus, enquanto regressas ao horto, parece que não podes mais; levantas ao Céu a face manchada de sangue e de terra e pela terceira vez repetes: “Pai, se é possível passe de Mim este cálice. Pai Santo, ajuda-me, tenho necessidade de consolo; é verdade que pelas culpas que tomei sobre Mim estou repugnante, desprezível, o último entre os homens diante de tua Majestade infinita; tua Justiça está indignada comigo; mas olha-me, Oh, Pai, sou sempre teu Filho, que formo uma só coisa contigo. Ah, ajuda, piedade, oh, Pai, não me deixes sem consolo!”
Depois me parece ouvir, oh, meu doce bem, que chamas em tua ajuda a amada Mãe: “Doce Mãe, estreita-me entre teus braços como me estreitavas quando menino; dá-me aquele leite que tomava de ti para dar-me forças e adoçar as amarguras de minha agonia; dá-me teu coração que é todo meu contento. Minha Mãe, Madalena, amados apóstolos, todos vós que me amais, ajudai-me, confortai-me, não me deixeis só nestes momentos extremos, fazei todos uma coroa ao meu redor, dêem-me por consolo vossa companhia e vosso amor.”
Jesus, meu amor, quem pode resistir o ver-te nestes extremos? Qual coração será tão duro que não se rompa ao ver-te afogado em sangue? Quem não derramará torrentes amargas de lágrimas ao escutar os dolorosos gemidos que buscam ajuda e consolo?
Meu Jesus, consola-te; vejo que o Pai te envia um anjo como consolo e ajuda, para que possas sair deste estado de agonia e possas entregar-te em mãos dos judeus. E enquanto estejas com o anjo, eu recorrerei ao Céu e terra. Tu me permitirás que tome este sangue que derramaste, afim de que possa dá-lo a todos os homens como prêmio de salvação de cada um e levar-te por consolo e em correspondência, seus afetos, pulsações, pensamentos, passos e obras.
Minha Mãe Celestial, venho a Ti para irmos juntas à todas as almas dando-lhes o sangue de Jesus. Doce Mãe, Jesus quer consolo, e o maior consolo que lhe podemos dar é levar-lhe almas.
Madalena, acompanhe-nos; os anjos todos, vinde ver qual estado se reduziu Jesus. Ele quer consolo de todos e é tal e tanto o abatimento no qual se encontra, quem não rechaça ninguém.
Meu Jesus, enquanto bebes o cálice cheio de intensas amarguras que o Pai te enviou, ouço que suspiras mais, que gemes e que deliras, e com voz sufocada dizes: “Almas, almas, venham, aliviem-me, tomem sua parte em minha Humanidade, vos quero, suspiro por vós! Ah, não sejais surdos à minha voz, não façais vãos meus desejos ardentes, meu sangue, meu amor, minhas penas! Venham, almas, venham!”
Delirante Jesus, cada gemido teu e suspiro é uma ferida ao meu coração, que não me dá paz, pelo que faço meu teu sangue, teu Querer, teu ardente zelo, teu amor, e girando pelo Céu e terra quero ir à todas as almas para dar-lhes teu sangue como prêmio de sua salvação e levar-te a Ti para acalmar teus desejos, teus delírios e adoçar as amarguras de tua agonia. E enquanto faço isto, Tu acompanha-me com teu olhar.
Minha Mãe, venho a Ti porque Jesus quer almas, quer consolo. Assim dá-me tua mão materna e giremos juntas por todo o mundo em busca de almas. Encerremos em seu sangue os afetos, os desejos, os pensamentos, as obras, os passos de todas as criaturas, e lancemos em suas almas as chamas do coração de Jesus, afim de que se rendam, e assim, encerradas em seu sangue e transformadas em suas chamas, as conduziremos em torno de Jesus para adoçar-lhe as penas de sua amarguíssima agonia.
Meu Anjo guarda, preceda-nos tu, e vá dispondo as almas que receberam este sangue, afim de que nenhuma gota fique sem seu copioso efeito. Minha Mãe, rápido, giremos! Vejo o olhar de Jesus que nos segue, escuto seus repetidos soluços que nos estimulam a apressar nossa tarefa.
E eis aqui, Mãe, aos primeiros passos nos encontramos às portas das casas onde jazem os enfermos. Quantos membros desgarrados! Quantos debaixo da atrocidade das dores prorrompem em blasfêmias e tentam tirar-se a vida, outros são abandonados por todos e não têm quem lhes dê uma palavra de consolo, nem os mais necessários socorros, e por isso maldizem e se desesperam.
Ah, Mãe, escuto os soluços de Jesus que vê correspondidas com ofensas suas mais delicadas predileções de amor que fazem sofrer as almas para torná-las semelhantes a Ele. Ah, demo-lhes seu sangue, afim de que lhes administre as ajudas necessárias e com sua luz lhes faça compreender o bem que há em sofrer e a semelhança que adquirem com Jesus; e tu Minha Mãe, ponde ao seu lado e como Mãe afetuosa toca com tuas mãos maternas seus membros doloridos, alivia suas dores, toma-as em teus braços e de teu coração derrama torrentes de graças sobre todas suas penas.
Faz companhia aos abandonados, consola os aflitos, a quem carece dos meios necessários dispõe tuas almas generosas que os socorram, a quem se encontra debaixo da atrocidade das dores obtém-lhes trégua e repouso, e assim, fortalecidos, possam com mais paciência suportar quanto Jesus dispõe para eles.
Sigamos nosso percurso e entremos nas estâncias dos moribundos. Minha Mãe, que terror, quantas almas estão por cair no inferno, quantas depois de uma vida de pecado querem dar a última dor a esse coração repetidamente traspassado, coroando seu último suspiro com um ato de desespero!
Muitos demônios estão em torno delas infundindo em seu coração terror e espanto pelos divinos juízos, e assim dar o último assalto para levá-las ao inferno, quiseram fazer sair das chamas infernais para envolvê-las e assim não dar lugar à esperança. Outras, atadas aos vínculos da terra não sabem resignar-se e dar o último passo; ah, Mãe, os momentos são extremos, tem muita necessidade de ajuda, não vês como tremem, como se debatem entre os espasmos da agonia, como pedem ajuda e piedade?
A terra já desapareceu para elas! Mãe Santa, põe tua mão materna sobre suas frontes geladas, acolhe Teus últimos suspiros; demos a cada moribundo o sangue de Jesus, e assim, pondo em fuga os demônios, disponha a todos para receber os últimos sacramentos e a uma boa e santa morte.
(continua)

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