Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

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O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Fanáticos. O sensato para o mundo moderno e ilustrado é não crer em nada, ao menos não com excessiva veemência.


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Fanáticos

Christopher Fleming - 10 abril, 2015  
  
Seguramente meus leitores simpatizarão comigo se disser que estou muito acostumado  que me chamem de “fanático”. É curioso como hoje em dia  qualquer pessoa com convicções profundas merece este apelativo, quando está fora dessas convicções. O católico que crê firmemente em tudo o que a Igreja sempre  ensinou é colocado na mesma categoria de um maluco que afirma ser a reencarnação do deus não sei do que, ou de um assassino que degola crianças em nome de Alá. O sensato para o mundo moderno e ilustrado é não crer em nada, ao menos não com excessiva veemência. O sensato é o agnosticismo, o “tudo depende”. O sensato é “não julgar”, porque realmente não sabemos se a nossa é melhor que outras opções. Uma pessoa que diz conhecer a Verdade (com letra maiúscula) e, sem pedir desculpas a quem possa ofender, prega essa Verdade aos outros, é um intolerante, um perigo para a sociedade, um fanático.

Naturalmente, não me preocupa demasiado que me chamem de fanático, porque creio que nunca me  acusaram realmente de fanatismo, tal e como eu entendo a palavra, mas sim no sentido  que eu acabei de explicar, ou seja, me acusam de crer de pés juntos tudo o que Deus  revelou através de Seu Filho e através de Sua Santa Igreja Católica. Mais que um insulto, para mim isso é uma medalha de glória, pelo que só sorrio e dou graças ao Senhor.

Então, em qual sentido eu entendo  que uma pessoa pode ser um fanático? Uma definição de fanático que sempre gostei é a seguinte: o fanático é aquele que repete a mesma ação, esperando cada vez um resultado diferente. Exemplos abundam na vida ordinária. Eu vi fracassar um negócio por culpa da cegueira voluntária do dono, que se empenhava em crer que tudo mudaria com outra campanha de marketing, com mais publicidade, com ofertas diversas, etc., quando na realidade tinha um problema de fundo: seu produto não era atrativo. Antes de reconhecer este fato,  o proprietário estava em dívida até as sobrancelhas, tentando por todos os meios que o negócio inviável funcionasse. É difícil reconhecer que algo pelo qual tenha trabalhado muitas horas e investido muito dinheiro, não funciona. No entanto, é muitíssimo melhor render-se diante da evidência e “ir direto ao assunto”, em vez de prosseguir pelo caminho errado, que só  leva à ruína absoluta.

Neste sentido os diretores das companhias multinacionais, muitas vezes podem ser mais espertos que as pequenas empresas porque olham tudo desde uma perspectiva mais desapaixonada, sem deixar que suas emoções lhes confundam. Um bom exemplo disso é o que ocorreu com a empresa Coca-Cola no ano de 1985, quando introduziram a New Coke. O produto fracassou estrepitosamente desde o primeiro dia de seu lançamento. A empresa recebeu inumeráveis queixas de seus clientes, – uma média de 4000 chamadas telefônicas diárias -, pedindo a volta do produto antigo. Chegaram a contratar  um  psiquiatra para atender os iracundos clientes. Até  Fidel Castro utilizou o fracasso tão sonoro da New Coke como um exemplo da degeneração capitalista americana. Os diretores, assombrados por esta reação negativa, inclusive diria hostil, frente ao novo produto, que era o fruto de anos de cuidadosas investigações e  degustações, tardaram pouco em re-introduzir a antiga Coca-Cola, sob a  etiqueta de Classic Coke. Mas após anos de quedas de vendas da New Coke, objeto  com cada vez  maior ridicularização e escárnio, a empresa optou definitivamente por sua erradicação no ano 2002.

O que tem isto ver com  religião? Por si o leitor ainda não  adivinhou, existe um paralelismo interessante entre esta história e a história recente da Igreja Católica. A Igreja, outra multinacional, cujo negócio não é outro senão as almas, após vários anos de experimentação, quis dar aos seus “clientes” um produto novo, el Novus Ordo Missae. Em pouco tempo se viu claramente que este produto não só não gerava os resultados desejados, mas que causava uma grande rejeição entre os “clientes” mais fiéis. Sem ir mais longe, na Espanha se formou uma Irmandade com mais de 5000 sacerdotes que pediam permissão para seguir dizendo a Missa Tridentina. Na Inglaterra se fez uma petição similar a Roma, firmada entre outros pela conhecida escritora Agatha Christie, daí que se conhece como o Indulto Agatha Christie. Quase  de um dia para outro templos e seminários se esvaziaram e nos sete anos posteriores à  promulgação da Nova Missa uma quarta parte dos sacerdotes do mundo pendurou a batina.

A diferença do caso da Coca-Cola, foi que a Igreja tardou muitíssimo em reagir diante da derrocada. Apesar de sofrer uma deserção sem comparação em sua longuíssima história, após décadas vendo como a assistência à Missa caía sem cessar, os bispos do mundo seguiam anunciando uma nova Primavera Eclesial. A soberba de querer ter razão a qualquer preço lhes impedia de reconhecer que seu experimento tinha fracassado, e mais que uma primavera, aquilo parecia um cruel inverno. O que a Coca-Cola fez em menos de um ano, – reintroduzir seu produto antigo -, a Igreja levou 40 anos, uma cifra muito apropriada para essa travessia pelo deserto. Finalmente em 2007, Bento XVI liberou a Missa Tridentina de seu cativeiro. Como a Coca-Cola, a Igreja mantém o desacertado produto novo, apesar de seus resultados nefastos, a respeito do negócio de almas que está em causa. Seguindo com o paralelismo, é  fácil vaticinar que  num futuro a Nova Missa será por fim descartada, e  tudo voltará aonde estávamos antes do Concílio Vaticano II.

O problema é que, diferente da história da Coca-Cola, não estamos falando de algo trivial. Estamos falando de almas, milhões das quais se terão perdido para sempre por causa da Novus Ordo Missae, que a duras penas transmite a verdadeira fé católica. Sinceramente, segundo minha definição de fanático, os que realmente são fanáticos são precisamente os pastores da Igreja que, apesar dos maus frutos evidentíssimos da Nova Missa, se empenham no erro. Creem que com os mesmos remédios que levam 40 anos aplicando, -uma liturgia dessacralizada, protestantizada, banalizada,- conseguirão resultados diferentes. Estão convencidos, contra toda evidência, que seu produto é maravilhoso, e que se existe algum problema, será culpa de seus fiéis.

Se um bispo refletir sobre a queda espetacular na assistência à Missa há quase 50 anos (  poucos se atrevem a tocar nesse problema embaraçoso) atribuirá a qualquer fator externo: a secularização do Ocidente, o debilitamento da família, a perda da fé, etc. A causa nunca será a Missa em si. No entanto, uma rápida análise do que ocorreu nos anos posteriores à introdução da Nova Missa em comunidades com outros ritos (os coptos, os orientais, os melquitas, etc), demonstra que os fatores externos não tiveram uma influência tão grande, porque nas ditas comunidades a assistência à Missa se manteve bastante estável durante os turbulentos anos ´60 e ´70. Naquela época tampouco houve um descenso tão brusco na prática religiosa entre os protestantes.

Quando no mês passado o Papa Francisco disse a Missa na igreja de Ognissanti de Roma, onde há 50 anos seu predecessor Paulo VI havia dito a primeira Missa na língua vernácula, deixou muito claro o que pensa a  respeito da reforma litúrgica:

Não podemos voltar atrás. Temos que seguir, sempre adiante. Quem volta atrás comete um grande erro. 

Meuis leitores me perdoarão se digo que isto me soa a fanatismo. É exatamente o contrário do que teria que fazer; diante de um panorama tão  desolador, um homem sensato reconsideraria se os meios que utiliza  para chegar até este ponto são os mais idôneos. Qualquer viajante sabe que se se perder, em lugar de prosseguir, o lógico é retroceder até onde tomou a direção equivocada. Mas Francisco não. Nada impedirá o “progresso” eclesial que seguramente existe em sua cabeça, mas que a cada dia que passa se afasta mais da realidade.


Christopher Fleming

De nacionalidad britânica. Casado com três filhos. Professor de piano e organista. Vive em Murcia, Espanha. Converso do ateísmo e do protestantismo-modernismo. Católico até a morte.

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