huffingtonpost.es/carrie-cariello
Carrie Cariello
Escritora
Eu sei o que provoca o autismo
Publicado: 12/03/2015
Na semana passada estava navegando pela Internet e encontrei um artigo que proclamava que o autismo e a circuncisão estão relacionados. Não pude evitar. Ri às a gargalhadas.
Sem nenhum método em particular, ao longo dos anos tenho lido as seguintes explicações do autismo:
- É causado pelo mercúrio.
- É causado pelo chumbo.
- O autismo começa pela falta de contato materno.
- Alguns pesticidas podem provocar autismo.
- O plástico.
- O glúten agrava os trastornos associados ao autismo.
- As pessoas com autismo deveriam comer mais morangos.
- A fumaça do cano de escapamento é uma das principais causas do autismo.
- As substâncias químicas de las frigideiras antiaderentes podem provocar autismo.
A do vínculo materno acho especialmente dolorosa. O certo é que custei a estabelecer contato com Jack. O pequeno passou um ano gritando e chorando. Começou a dormir a noite inteira com seis semanas, e deixou de fazê-lo aos três meses.

2015-01-19-BabyJack.jpg
Estaba esgotada, e além disso Joe e eu discutíamos constantemente. Longas brigas, discussões e gritos se entremesclavam. Pela primeira vez, senti que o casamento me escapava das mãos, como se fosse de areia .
Meu filho mais velho, Joey -um menino doce, tranquilo e amável-, tinha um ano nessa época. Seu caráter simples não fazia mais que ressaltar as esquisitices de seu novo irmãozinho.
Porém estou certa que não há ninguém neste mundo que esteja mais unida a Jack agora. E sabem por que? Jack tem autismo.
Alegra-me poder afirmar que sei o que provocou o autismo de Jack e, sem mais demora, eu gostaria de contar a vocês.
Esperem.
É um pouco complicado.
Rufem os tambores, por favor.
Jack tem autismo porque, como disse seu irmão Henry de 5 anos, nasceu com ele.
Sim, creio que o autismo é uma condição genética. Creio que, de algum modo, o DNA de Joe se mesclou com meu DNA e tivemos um filho que pensa que a quarta-feira é laranja. Talvez seu código genético único o torne mais sensível para as coisas a nossa volta, como o chumbo, o mercúrio e o plástico.
Do morango não tenho nem ideia.
(Durante anos culpei a família de Joe pelo gen do autismo. Mas faz uns anos fui a um funeral de um familiar meu, olhei para a sala e foi como hmmm...).
Na semana passada estava em uma cafeteria e se aproximou uma mulher, que se apresentou. Disse-me que sua filha Lily está na classe de Jack. Assenti e sorri, peguei a chícara de café, e também o cupcake- do balcão, e dei a volta para ir embora.
"Espera", me disse tocando-me o braço. "Só queria te dizer algo. Lily me contou que no outro dia um garoto o chamou de esquisito na classe".
Encolhi os ombros. "Sei. Geralmente acontece isso".
"Lily me contou que respondeu ao garoto que Jack não é esquisito. Disse que Jack é exatamente como tem que ser".
Imaginem meu dilema. Se me ponho a falar que o autismo é uma epidemia e a berrar sobre a necessidade de descobrir de onde vem e quem o começou e como curar, bem, em parte estaria contradizendo toda a mensagem de aceitação e tolerância e falta de prejuízos.
Esta frágil casa de cristal que levamos esforçando-nos para construir toda uma década estouraria em milhares de pedacinhos diminutos.
Mas, por outro lado, sim é uma espécie de epidemia. Há muitas famílias que querem ter filhos e talvez queiram ter alguma ideia sobre como prevenir este trastorno do autismo. Meus próprios filhos também terão filhos, e se o autismo realmente é causado pela fumaça do cano de escapamento, ficaria bem saber para então comprar carros elétricos.
Ao mesmo tempo, não quero centrar-me tanto no que, quando, onde e como e como esquecer-me de quem.
Porque não me importa de onde vem.
Mesmo que tenha curiosidade.
Não me importa saber porque Jack tem autismo.
Mesmo que gostasse de ter essa informação.
Não há nada mal nele.
Mesmo que talvez algo não vá bem de tudo, quando se fica 45 minutos falando de todos os tipos de chicletes diferentes que há no supermercado.
Eu não mudaria nada.
Ou talvez mudasse algumas coisas.
Estou admirada pelo autismo e suas espetaculares surpresas.
Odeio o autismo porque faz que meu filho fale demasiado de chicletes.
Ele é frágil.
Mas é sadio.
O autismo não é culpa de ninguém.
Talvez devesse deixar de usar tupperwares e animá-lo a que coma morangos mesmo os odiando, e voltar a pintar a casa para assegurar-me de que não há rastro de chumbo nas paredes.
Pode ser que deva tirar as frigideiras.
Ou talvez tinha que ter me esforçado mais por querê-lo com mais intensidade quando era um bebê que se revolvia nos meus braços.
Talvez seja minha culpa.
Como podem observar, meus sentimentos sobre o diagnóstico do autismo de Jack são tão complexos como um prisma com milhares de cores e ângulos e luzes. Alguns dias, minhas dúvidas erão sussurros dentro de meu coração; outras vezes era como se alguém me gritasse no ouvido.
Não sou cientista. Não sou suficientemente inteligente. Mas sou uma mãe. E mesmo não sendo tampouco suficientemente inteligente para isso, conheço o autismo desse ângulo.
Conheço a rigidez, a obsessão e a raiva de ter um assistente no colégio. Conheço a decepção e o medo. Conheço a melancolia silenciosa que acompanha o fato de ser diferente ou esquisito, porque vejo todo dia.
Quando você vive com alguém que tem autismo, diz sempre a frase por agora.
Por agora, a rádio está na emissora adequada.
Por agora, não está gritando.
Por agora, segue dormindo.
Por agora, está bem.
Assim que, por agora, vou crer que o autismo de Jack se deve ao DNA, ao RNA (a mensagem do DNA é passada para o RNA) e a genética.
Por agora, tentarei acrescentar uma pitada de verde, azul, roxo e laranja nas pinceladas brancas e negras da ciência. Juntos, completaremos a tela do autismo até que surja uma imagem mais clara.
Ainda não sei exatamente qual é o aspecto dessa imagem, mas gosto de pensar que é uma utopia de diferentes tipos: a intersecção perfeita entre a ciência as pessoas. Há morangos, filhotes e chicletes de menta do recipiente azul.
Há meninas altas e louras chamadas Lily e meninos com óculos chamados Jack.
E, se olhar com atenção, pode ver uma casa de cristal ao longe, quase no horizonte, brilha e lança flashes com o sol. A imagem é arrebatadora.
Se te aproximar mais para ver, verá uma frase gravada na porta principal. Essa frase, essa coleção de palavras, é muito, muito grande.
É um muro apoiado contra uma maré de incerteza.
É um milhão de estrelas brilhantes em uma noite longa e escura.
É paz e perdão, poder e orgulho. É uma libertação constante.
A primeira vez que ouvi essas palavras, estava em uma cafeteria comprando um cupcake.
"Ele é exatamente como tem que ser".
Este post apareceu originalmente na edição americana de 'The Huffington Post' e foi traduzido do inglês para o espanhol por Marina Velasco Serrano.
http://www.huffingtonpost.es/carrie-cariello/se-lo-que-provoca-el-autismo_b_6846176.html
Carrie Cariello Escritora
Eu sei o que provoca o autismo
Publicado: 12/03/2015
Na semana passada estava navegando pela Internet e encontrei um artigo que proclamava que o autismo e a circuncisão estão relacionados. Não pude evitar. Ri às a gargalhadas.
Sem nenhum método em particular, ao longo dos anos tenho lido as seguintes explicações do autismo:
- É causado pelo mercúrio.
- É causado pelo chumbo.
- O autismo começa pela falta de contato materno.
- Alguns pesticidas podem provocar autismo.
- O plástico.
- O glúten agrava os trastornos associados ao autismo.
- As pessoas com autismo deveriam comer mais morangos.
- A fumaça do cano de escapamento é uma das principais causas do autismo.
- As substâncias químicas de las frigideiras antiaderentes podem provocar autismo.
A do vínculo materno acho especialmente dolorosa. O certo é que custei a estabelecer contato com Jack. O pequeno passou um ano gritando e chorando. Começou a dormir a noite inteira com seis semanas, e deixou de fazê-lo aos três meses.
2015-01-19-BabyJack.jpg
Estaba esgotada, e além disso Joe e eu discutíamos constantemente. Longas brigas, discussões e gritos se entremesclavam. Pela primeira vez, senti que o casamento me escapava das mãos, como se fosse de areia .
Meu filho mais velho, Joey -um menino doce, tranquilo e amável-, tinha um ano nessa época. Seu caráter simples não fazia mais que ressaltar as esquisitices de seu novo irmãozinho.
Porém estou certa que não há ninguém neste mundo que esteja mais unida a Jack agora. E sabem por que? Jack tem autismo.
Alegra-me poder afirmar que sei o que provocou o autismo de Jack e, sem mais demora, eu gostaria de contar a vocês.
Esperem.
É um pouco complicado.
Rufem os tambores, por favor.
Jack tem autismo porque, como disse seu irmão Henry de 5 anos, nasceu com ele.
Sim, creio que o autismo é uma condição genética. Creio que, de algum modo, o DNA de Joe se mesclou com meu DNA e tivemos um filho que pensa que a quarta-feira é laranja. Talvez seu código genético único o torne mais sensível para as coisas a nossa volta, como o chumbo, o mercúrio e o plástico.
Do morango não tenho nem ideia.
(Durante anos culpei a família de Joe pelo gen do autismo. Mas faz uns anos fui a um funeral de um familiar meu, olhei para a sala e foi como hmmm...).
Na semana passada estava em uma cafeteria e se aproximou uma mulher, que se apresentou. Disse-me que sua filha Lily está na classe de Jack. Assenti e sorri, peguei a chícara de café, e também o cupcake- do balcão, e dei a volta para ir embora.
"Espera", me disse tocando-me o braço. "Só queria te dizer algo. Lily me contou que no outro dia um garoto o chamou de esquisito na classe".
Encolhi os ombros. "Sei. Geralmente acontece isso".
"Lily me contou que respondeu ao garoto que Jack não é esquisito. Disse que Jack é exatamente como tem que ser".
Imaginem meu dilema. Se me ponho a falar que o autismo é uma epidemia e a berrar sobre a necessidade de descobrir de onde vem e quem o começou e como curar, bem, em parte estaria contradizendo toda a mensagem de aceitação e tolerância e falta de prejuízos.
Esta frágil casa de cristal que levamos esforçando-nos para construir toda uma década estouraria em milhares de pedacinhos diminutos.
Mas, por outro lado, sim é uma espécie de epidemia. Há muitas famílias que querem ter filhos e talvez queiram ter alguma ideia sobre como prevenir este trastorno do autismo. Meus próprios filhos também terão filhos, e se o autismo realmente é causado pela fumaça do cano de escapamento, ficaria bem saber para então comprar carros elétricos.
Ao mesmo tempo, não quero centrar-me tanto no que, quando, onde e como e como esquecer-me de quem.
Porque não me importa de onde vem.
Mesmo que tenha curiosidade.
Não me importa saber porque Jack tem autismo.
Mesmo que gostasse de ter essa informação.
Não há nada mal nele.
Mesmo que talvez algo não vá bem de tudo, quando se fica 45 minutos falando de todos os tipos de chicletes diferentes que há no supermercado.
Eu não mudaria nada.
Ou talvez mudasse algumas coisas.
Estou admirada pelo autismo e suas espetaculares surpresas.
Odeio o autismo porque faz que meu filho fale demasiado de chicletes.
Ele é frágil.
Mas é sadio.
O autismo não é culpa de ninguém.
Talvez devesse deixar de usar tupperwares e animá-lo a que coma morangos mesmo os odiando, e voltar a pintar a casa para assegurar-me de que não há rastro de chumbo nas paredes.
Pode ser que deva tirar as frigideiras.
Ou talvez tinha que ter me esforçado mais por querê-lo com mais intensidade quando era um bebê que se revolvia nos meus braços.
Talvez seja minha culpa.
Como podem observar, meus sentimentos sobre o diagnóstico do autismo de Jack são tão complexos como um prisma com milhares de cores e ângulos e luzes. Alguns dias, minhas dúvidas erão sussurros dentro de meu coração; outras vezes era como se alguém me gritasse no ouvido.
Não sou cientista. Não sou suficientemente inteligente. Mas sou uma mãe. E mesmo não sendo tampouco suficientemente inteligente para isso, conheço o autismo desse ângulo.
Conheço a rigidez, a obsessão e a raiva de ter um assistente no colégio. Conheço a decepção e o medo. Conheço a melancolia silenciosa que acompanha o fato de ser diferente ou esquisito, porque vejo todo dia.
Quando você vive com alguém que tem autismo, diz sempre a frase por agora.
Por agora, a rádio está na emissora adequada.
Por agora, não está gritando.
Por agora, segue dormindo.
Por agora, está bem.
Assim que, por agora, vou crer que o autismo de Jack se deve ao DNA, ao RNA (a mensagem do DNA é passada para o RNA) e a genética.
Por agora, tentarei acrescentar uma pitada de verde, azul, roxo e laranja nas pinceladas brancas e negras da ciência. Juntos, completaremos a tela do autismo até que surja uma imagem mais clara.
Ainda não sei exatamente qual é o aspecto dessa imagem, mas gosto de pensar que é uma utopia de diferentes tipos: a intersecção perfeita entre a ciência as pessoas. Há morangos, filhotes e chicletes de menta do recipiente azul.
Há meninas altas e louras chamadas Lily e meninos com óculos chamados Jack.
E, se olhar com atenção, pode ver uma casa de cristal ao longe, quase no horizonte, brilha e lança flashes com o sol. A imagem é arrebatadora.
Se te aproximar mais para ver, verá uma frase gravada na porta principal. Essa frase, essa coleção de palavras, é muito, muito grande.
É um muro apoiado contra uma maré de incerteza.
É um milhão de estrelas brilhantes em uma noite longa e escura.
É paz e perdão, poder e orgulho. É uma libertação constante.
A primeira vez que ouvi essas palavras, estava em uma cafeteria comprando um cupcake.
"Ele é exatamente como tem que ser".
Este post apareceu originalmente na edição americana de 'The Huffington Post' e foi traduzido do inglês para o espanhol por Marina Velasco Serrano.
http://www.huffingtonpost.es/carrie-cariello/se-lo-que-provoca-el-autismo_b_6846176.html
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