LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

CAPÍTULO 34. Trata como neste tempo foi conveniente que se
ausentasse deste lugar. Diz a causa porque o seu prelado a
mandou ir consolar uma senhora, muito importante, que estava
muito aflita. Trata do que ali lhe sucedeu e diz a grande graça
que o Senhor lhe fez de, por seu intermédio, mover a uma
pessoa para O servir muito, deveras, em quem ela encontrou
depois favor e amparo. É muito para notar.
1. Pois, por mais cuidado que eu tivesse para que nada disto se
percebesse, não se podia fazer toda esta obra tão em segredo, que
não se viesse a saber por algumas pessoas. Umas acreditavam e
outras não. Eu temia muito que, em vindo o Provincial, se lhe
dissessem alguma coisa, ele me mandasse não cuidar disso e então
logo tudo estava terminado.
Remediou-o o Senhor desta maneira: aconteceu, que; num lugar
grande, a mais de vinte léguas deste, estava uma senhora muito
aflita por lhe ter morrido o marido; estava tão arrasada que se
temia pela sua saúde. Teve ela notícia desta pobre pecadora, e
assim permitiu o Senhor que lhe dissessem bem de mim, para
outros bens que daqui sucederam. Incutiu-lhe o Senhor um muito
grande desejo de me ver, parecendo-lhe que se consolaria comigo.
Esta senhora conhecia muito o Provincial e, como era pessoa
principal e soube que eu estava num mosteiro em que se saía,
procurou logo por, todas as vias que pode, e não o fazer não devia
estar em sua mão, levar-me para sua casa, mandando um pedido ao
Provincial que estava bem longe. Este mandou-me uma ordem, com
preceito de obediência para que fosse imediatamente com outra
companheira. Soube isto na noite de Natal.
2. Causou-me certo alvoroço e muita pena ver que, por pensarem
que havia em mim algum bem, queriam que eu fosse, pois, como eu
me via tão ruim, não podia sofrer isto. Encomendando-me muito a
Deus, estive as Matinas todas, ou grande parte delas, em grande
arroubamento. Disse-me o Senhor que não deixasse de ir e que não
ouvisse pareceres, porque poucos me aconselhariam sem
temeridade; pois, embora encontrasse trabalhos, servir-se-ia muito a
Deus e que, para este negócio do mosteiro, convinha ausentar-me
até chegar o Breve; porque o demônio tinha armado uma grande
trama, em vindo o Provincial; mas nada temesse, que Ele lá me
ajudaria.
Fiquei muito animada e consolada. Disse tudo isto ao Reitor e ele
aconselhou-me a que, de nenhum modo, deixasse de ir, porque
outros me diziam que isso não se podia admitir, que era invenção do
demônio para que lá me viesse algum mal: que voltasse a enviar
recado ao Provincial.
3. Obedeci ao Reitor e, pelo que tinha entendido na oração, ia sem
medo, embora não sem grandíssima confusão de ver a que título me
levavam, e como se enganavam tanto. Isto me fazia importunar mais
o Senhor para que não me desamparasse. Consolava-me muito
saber que havia casa da Companhia de Jesus no lugar para onde ia,
e poder estar sujeita ao que me mandassem, como estava aqui; pois
parecia-me que, com isso, estaria com alguma segurança.
Foi o Senhor servido de que aquela senhora se consolasse tanto
com a minha ida, que começou logo a ter conhecida melhoria e cada
dia se achava mais consolada. Teve-se isto em muito porque, como
disse, a dor trazia-a em grande angústia; e deve-o ter feito o Senhor
pelas muitas orações que faziam por mim as pessoas boas que eu
conhecia, para que fosse bem sucedida. Era muito temente a Deus e
tão boa, que a sua muita cristandade supriu o que a mim me faltava.
Tomou-me grande amor; eu lhe tinha muito por ver sua bondade.
Mas quase tudo me era cruz; porque os regalos me davam grande
tormento e o fazer-se tanto caso de mim, trazia-me em grande temor.
Andava a minha alma tão encolhida que não me ousava descuidar,
nem se descuidava o Senhor. Porque, enquanto ali estive, me fez o
Senhor grandes graças, e estas davam-me tanta liberdade e tanto
me faziam menosprezar tudo o que via - e quanto mais eram, mais -
que eu não deixava de tratar com aquelas tão senhoras, que muito à
minha honra poderia eu servi-Ias com a liberdade como se fora sua
igual.
4. Tirei daqui um proveito muito grande e dizia-lhe. Vi que era mulher
e tão sujeita a paixões e fraquezas como eu. Vi o pouco em que se
há de ter o senhorio e como, quanto maior é, mais cuidados e
trabalhos têm e um cuidado de ter a compostura conforme a seu
estado, que nem as deixa viver. O comer é fora de horas e sem
acerto, porque tudo há de andar conforme à dignidade e não à
compleição: muitas vezes hão de comer os manjares mais
conformes à sua posição e não a seu gosto.
É assim que de todo aborreci o desejar ser senhora - Deus me livre
de má compostura! Embora esta, com ser das principais do reino,
creio que haverá poucas mais humildes e é muito afável e simples.
Fazia-me pena e a tenho de ver como anda muitas vezes não
conforme à sua inclinação, para cumprir com o que exige a sua
posição. Pois quanto aos criados é pouco o pouco que deles há que
fiar, embora ela os tivesse bons. Não se há de falar mais com um
que com outro, sob pena de ficar malquisto aquele que assim se
favorece.
É uma sujeição e, chamar senhores a pessoas semelhantes, é uma
das mentiras que o mundo diz, pois não me parece senão que são
escravos de mil coisas.
5. Foi o Senhor servido que, durante o tempo que estive naquela
casa, todas as pessoas melhorassem no servir a Sua Majestade,
ainda que não estive livre de trabalhos e de invejas que algumas
sentiam pelo muito amor que aquela senhora me tinha. Deviam
porventura pensar que pretendia algum interesse. E o Senhor devia
permitir que coisas semelhantes, e outras de outro teor, me dessem
algum trabalho, para que não me embebesse no regalo que havia
por outra parte, e de tudo Ele foi servido tirar-me com melhoria da
minha alma.
6. Estando eu ali, acertou de vir um religioso, pessoa muito principal
e com quem eu, havia já muitos anos, tinha tratado algumas vezes.
Estando à Missa, num mosteiro da sua Ordem, ali perto onde eu
estava, deu-me desejo de saber em que disposição estava aquela
alma que eu desejava fosse muito servo de Deus e levantei-me para
lhe ir falar. Mas, como já me encontrava recolhida em oração,
pareceu-me depois que era perder tempo, pois quem me metia a
mim naquilo e tornei-me a sentar. Parece-me que foram três, três
vezes que isto me aconteceu e, enfim, pôde mais o anjo bom de que
o mau, e fui chamá-lo e veio me falar num confessionário.
Comecei a perguntar-lhe - e ele a mim - pelas nossas vidas, porque
havia muitos anos que não nos tínhamos visto. Comecei-lhe a dizer
que a minha tinha sido de muitos trabalhos de alma. Instou muito
para que eu lhe dissesse que trabalhos eram esses. Disse-lhe que
não eram para se saber, nem para que eu lhes dissesse. Ele disse
que, pois o sabia o padre dominicano - de quem tenho falado - que
era muito seu amigo, ele lhes diria depois, que assim nada se me
desse de lhes dizer.
7. O caso é que não esteve na sua mão deixar de me importunar,
nem na minha, me parece, deixar de lhe dizer; porque, não obstante
o pesar e vergonha que costumava ter quando tratava estas coisas,
com ele e com o Reitor que tenho dito, não tive nenhuma pena,
antes me consolei muito. Disse-lhe debaixo de confissão.
Pareceu-me mais avisado do que nunca, embora sempre o tive por
ser de grande entendimento. Vi os grandes talentos e qualidades
que tinha para dar muito proveito; se de todo se desse a Deus. É que
eu tenho isto de uns anos para cá: não vejo pessoa que muito me
contente, que não queira logo vê-la de todo dar-se a Deus. E isto
com umas ânsias que, algumas vezes, não me posso conter. Pois,
embora deseje que todos O sirvam, com estas pessoas que me
satisfazem, é com muito grande ímpeto, e assim importuno muito ao
Senhor por elas. Com o religioso que digo, aconteceu-me assim.
8. Rogou-me que o encomendasse muito a Deus, e não era preciso
pedir-me que já estava de modo que não poderia fazer outra coisa.
Vou-me para onde a sós costumava ter oração e começo a tratar
com o Senhor, estando muito recolhida, num estilo amável, como
muitas vezes Lhe falo, sem saber o que digo. Então é o amor que
fala e a alma está tão alheada que não olho à diferença que há dela
para Deus. Porque o amor que ela conhece que Sua Majestade lhe
tem, faz com que se esqueça de si e parece-lhe que está n'Ele, que é
como coisa própria, sem divisão, e diz desatinos. Recordo-me que,
depois de Lhe pedir, com muitas lágrimas, que pusesse aquela alma
a Seu serviço muito deveras que, embora eu o tivesse por bom, não
me contentava; queria-o muito melhor, disse-Lhe: "Senhor, não me
haveis de negar esta graça; vede que é bom este sujeito para nosso
amigo".
9. Oh! bondade e humanidade grande de Deus, que não olha às
palavras senão aos desejos e amor com que se dizem! Como sofre
que uma como eu fale a Sua Majestade tão atrevidamente! Seja
bendito para sempre sem fim.
10. Recordo-me que naquela noite, durante aquelas horas de oração,
deu-me uma grande aflição ao pensar se estava na inimizade de
Deus. E, como eu não podia saber se estava ou não em graça, afligia-me
esta pena. Não que eu o desejasse saber, mas sim desejava
morrer, para não me ver em vida onde não tinha segurança de não
estar morta. É que não podia haver para mim morte mais dura do
que pensar que tinha ofendido a Deus e suplicava-Lhe que não o
permitisse, toda em gozo e derretida em lágrimas. Então entendi que
bem me podia consolar e ficar certa de que estava em graça, porque
semelhante amor de Deus e o fazer-me Sua Majestade aquelas
graças e os sentimentos que dava à alma, não eram compatíveis
com serem feitas a alma que estivesse em pecado mortal.
Fiquei confiada de que o Senhor havia de fazer, desta pessoa, o que
Lhe suplicava. Mandou-me que Lhe dissesse umas palavras. Isto
senti muito porque não sabia como lhes dizer. Ter de dar recado
a terceira pessoa - como já disse - é sempre o que mais me custa,
em especial sem saber como essa pessoa o aceitaria ou até se
zombaria de mim. Fiquei numa grande angústia. Enfim, senti-me tão
persuadida a fazê-lo que, segundo me parece, prometi a Deus não
deixar de as dizer, e pela grande vergonha que tinha, escrevi-as e
dei-lhas.
11. Bem me pareceu sei coisa de Deus pelo efeito que fizeram.
Determinou-se muito deveras a dar-se à oração, embora não o
fizesse desde logo. O Senhor, como o queria para Si, por meu
intermédio, lhe mandava dizer umas verdades que, sem eu o
entender, vinham tão a propósito que ele se espantava, e o Senhor
devia o dispor a crer que eram de Sua Majestade. Eu, ainda que
miserável, era muito o que suplicava ao Senhor, que de todo em
tudo o atraísse a Si e lhe fizesse aborrecer as satisfações e coisas
da vida. E assim - seja Ele louvado para sempre! - o fez tão deveras
que, de cada vez que me fala, me tem como embevecida. Se eu não o
tivesse visto, tivera por duvidoso fazer-lhe Deus em tão breve tempo
tão crescidas graças e trazê-lo tão ocupado em Si, que parece já
não viver para coisa da terra.
Sua Majestade o tenha de Sua mão, que, se assim for adiante (o que
espero no Senhor, por ir muito bem fundado no conhecer-se a si
mesmo), será um dos Seus mais assinalados servos e de grande
proveito para muitas almas. Porque, em coisas de espírito, em
pouco tempo adquiriu muita experiência, e isto são dons que Deus
dá quando quer e como o quer, e não está atido ao tempo nem aos
serviços. Não digo que isto não faça muito ao caso, mas que muitas
vezes o Senhor não dá em vinte anos a contemplação que a outros
dá num. Sua Majestade sabe a causa.
E o engano está em nos parecer que, pelos anos, havemos de
entender o que de nenhum modo se pode alcançar sem experiência.
Assim erram muitos - como tenho dito -, em querer conhecer
espíritos, sem o terem.
Não digo que quem não tiver espírito, se é letrado, não governe a
quem o tem, mas entende-se quanto ao exterior e interior que vá
conforme a via natural, por obra do entendimento; e no sobrenatural,
olhe a que vá conforme à Sagrada Escritura. No demais não se mate,
nem pense entender o que não entende, nem afogue os espíritos
pois, quanto a isso, já outro maior Senhor os governa, que não estão
sem superior.
12. Não se espante nem lhe pareçam coisas impossíveis - tudo é
possível ao Senhor -, mas procure esforçar a fé e humilhar-se
porque, nesta ciência, o Senhor faz porventura mais sábia a uma
velhinha do que a ele, embora seja muito letrado. E com esta
humildade aproveitará mais às almas e a si, do que em se fazer
contemplativo sem o ser. Porque torno a dizer que, se não tem muita
experiência e se não tem muita humildade para reconhecer que não
o entende, mas que, no entanto, não é coisa impossível, ganhará
pouco e dará ainda menos a ganhar a quem dirige. Não haja porém
medo: se tem humildade, o Senhor permitirá que não se engane nem
um nem outro.
13. Pois este Padre que digo, como o Senhor lhe deu experiência em
muitas coisas, tem procurado estudar tudo o que por estudo tem
podido saber neste caso, pois é bem letrado. E, o que não entende
por experiência, informa-se de quem a tem e, por isso, ajuda-o o
Senhor com dar-lhe muita fé e assim tem ele aproveitado muito e
feito aproveitar algumas almas e a minha é uma delas. Como o
Senhor sabia os trabalhos em que me havia de ver - pois ia levar
consigo a alguns que me governavam - parece que Sua Majestade
proveu a que ficassem outros que me têm ajudado em trabalhos e
feito grande bem. Tem-no mudado o Senhor quase de todo, de
maneira que ele quase não se conhece, por assim dizer, e dado
forças corporais para a penitência (que antes não tinha, por ser
enfermo). Tornou-se animado para tudo o que é bom e outras
coisas, que bem parece ser muito particular chamamento do Senhor.
Seja bendito para sempre.
14. Creio que todo o bem lhe vem das graças que o Senhor lhe tem
feito na oração, pois que não são postiças. Já nalgumas coisas quis
o Senhor que se tenha exercitado, e sai-se delas como quem tem já
conhecida a verdade do mérito que se ganha em sofrer
perseguições. Espero na grandeza do Senhor que por meio dele há de
vir muito bem a alguns da sua Ordem e a ela mesma. Já isto se
começa a entender. Tenho tido grandes visões, nas quais o Senhor
me disse algumas coisas de grande admiração a seu respeito e do
Reitor da Companhia de Jesus, de quem tenho falado, e de outros
dois religiosos da Ordem de S. Domingos, em especial de um. Pelo
seu aproveitamento - provado por obra - também já o Senhor tem
dado a entender algumas dessas coisas que antes eu tinha sabido
por Ele. De quem agora falo, tem sido muitas vezes.
15. Uma coisa quero dizer agora aqui. Estava eu uma vez no
locutório com ele, e era tanto o amor que a minha alma e espírito
entendia que ardia no dele, que me tinha quase absorta, porque
considerava as grandezas de Deus, em quão pouco tempo subira
uma alma a tão alto estado. Fazia-me grande confusão, porque via-o,
com tanta humildade, escutar o que eu dizia em algumas coisas de
oração, e que pouca eu tinha em tratar assim com pessoa
semelhante. Mas isto o Senhor mo devia sofrer pelo grande desejo
que eu tinha de o ver muito adiantado. Fazia-me tanto proveito estar
com ele que parece que deixava em minha alma ateada um novo
fogo para desejar principiar de novo a servir ao Senhor.
Ó Jesus meu! O que faz uma alma abrasada no Vosso amor! Quanto
a deveríamos estimar e suplicar ao Senhor a deixasse nesta vida!
Quem tem o mesmo amor, atrás destas almas haveria de andar, se
pudesse.
16. Grande coisa é um enfermo achar outro ferido do mesmo mal;
muito se consola de ver que não está só; muito se ajudam a padecer
e até a merecer; firme apoio se oferecem, já como
gente determinada a arriscar mil vidas por Deus e desejam que se
lhes ofereça ensejo de as perder. São como soldados que, para
ganhar o despojo e fazer-se com ele ricos, desejam que haja guerra;
tendo compreendido que não o podem ser senão por aqui, este é o
seu ofício: trabalhar. Oh! grande coisa é quando o Senhor dá esta
luz de entender o muito que se ganha em padecer por Ele! Não se
compreende este bem, enquanto não se deixa tudo, pois quem se
atém a alguma coisa, sinal é que a tem em conta. E se a tem em
conta, forçosamente lhe há de pesar de a deixar e já vai tudo
imperfeito e perdido. Vem aqui bem a propósito dizer: perdido está
quem atrás de perdido anda. E que maior perdição e que maior
cegueira; que maior desventura, que ter em muito o que não é nada?
17. Pois, voltando ao que dizia, estando eu em grandíssimo gozo
considerando aquela alma, na qual me parece queria o Senhor que
eu visse claramente os tesouros que nela tinha depositado, e vendo
a graça que me fizera de que fosse por meu intermédio - achando-me
indigna disso -, em muito mais estima tinha eu as graças que o
Senhor lhe fizera e mais as tomava à minha conta do que se fossem
feitas a mim, e louvava muito ao Senhor por ver que Sua Majestade
ia cumprindo meus desejos e tinha ouvido a minha oração, que era
que o Senhor despertasse pessoas semelhantes.
Estando já minha alma que não podia sofrer em si tanto gozo, saiu de
si e perdeu-se para mais ganhar. Perdeu as considerações, e deixou
de ouvir aquela língua divina, pela qual parece que falava o Espírito
Santo, e deu-me um grande arroubamento que me fez quase perder
os sentidos, embora durasse pouco tempo. Vi Cristo, com
grandíssima majestade e glória, mostrando grande prazer do que ali
se passava e assim me disse e quis que eu visse claramente que, em
semelhantes práticas, sempre se achava presente e o muito que se
serve em que assim se deleitem em falar d'Ele.
Outra vez, estando longe deste lugar, vi os anjos levantarem esse
padre com muita glória. Entendi, por esta visão, que ia muito adiante
a sua alma. E assim era, pois lhe haviam levantado um falso
testemunho bem contra a sua honra, pessoa a quem ele tinha feito
muito bem e remediado a honra e a alma. Ele o sofreu com muita
alegria e fez outras obras em serviço de Deus e padeceu outras
perseguições.
18. Não me parece que convenha agora declarar mais coisas. Se
depois parecer a V Mercê, pois que as sabe, poder-se-ão escrever
para glória do Senhor. De todas as que tenho dito de profecias que o
Senhor me dizia desta casa, e de outras que ainda direi e de mais
coisas, todas se têm cumprido; algumas, três anos antes que se
dessem e outras em mais e outras em menos tempo. E sempre eu as
dizia ao confessor e a esta minha amiga viúva com quem tinha
licença de falar, como já disse. Tenho sabido que ela as dizia a
outras pessoas e estas sabem que não minto, nem Deus permita
que, em nenhuma coisa, quanto mais sendo tão graves, eu use
senão de toda a verdade.
19. Tendo morrido um cunhado meu subitamente e estando eu com
muita pena por não se ter chegado a confessar, foi-me dito na
oração que assim também havia de morrer a minha irmã, que fosse
lá e fizesse com que se dispusesse para isso. Disse-o ao meu
confessor e, como não me deixava ir, foi-me repetido mais vezes.
Ele, como visse isto, disse-me que fosse, pois nada se perderia.
Ela vivia numa aldeia e, como fui sem lhe dizer nada disto, fiz por lhe
ir dando a luz que pude em todas as coisas e com que se
confessasse muito amiúde e em tudo tivesse conta na sua alma. Era
muito boa e assim fez. Desde há quatro ou cinco anos que tinha este
costume e muito boa conta com a sua consciência. Morreu sem
ninguém a ver e sem se poder confessar. Bem foi que, como
costumava, havia pouco mais de oito dias que se tinha confessado.
A mim deu-me grande alegria quando soube da sua morte. Esteve
muito pouco no Purgatório. Não me parece que haveria oito dias,
quando, acabando de comungar, me apareceu o Senhor e quis que
visse como a levava ao Céu. Em todos estes anos, desde que isto
me foi dito até que morreu, não se me esquecia o que me tinha
dado a entender, nem à minha companheira que, logo que a minha
irmã morreu, veio ter comigo muito espantada por ver, como se
tinha cumprido.
Seja Deus louvado para sempre, que tanto cuidado tem das almas
para que se não percam.


CAPÍTULO 34. Trata como neste tempo foi conveniente que se
ausentasse deste lugar. Diz a causa porque o seu prelado a
mandou ir consolar uma senhora, muito importante, que estava
muito aflita. Trata do que ali lhe sucedeu e diz a grande graça
que o Senhor lhe fez de, por seu intermédio, mover a uma
pessoa para O servir muito, deveras, em quem ela encontrou
depois favor e amparo. É muito para notar.
1. Pois, por mais cuidado que eu tivesse para que nada disto se
percebesse, não se podia fazer toda esta obra tão em segredo, que
não se viesse a saber por algumas pessoas. Umas acreditavam e
outras não. Eu temia muito que, em vindo o Provincial, se lhe
dissessem alguma coisa, ele me mandasse não cuidar disso e então
logo tudo estava terminado.
Remediou-o o Senhor desta maneira: aconteceu, que; num lugar
grande, a mais de vinte léguas deste, estava uma senhora muito
aflita por lhe ter morrido o marido; estava tão arrasada que se
temia pela sua saúde. Teve ela notícia desta pobre pecadora, e
assim permitiu o Senhor que lhe dissessem bem de mim, para
outros bens que daqui sucederam. Incutiu-lhe o Senhor um muito
grande desejo de me ver, parecendo-lhe que se consolaria comigo.
Esta senhora conhecia muito o Provincial e, como era pessoa
principal e soube que eu estava num mosteiro em que se saía,
procurou logo por, todas as vias que pode, e não o fazer não devia
estar em sua mão, levar-me para sua casa, mandando um pedido ao
Provincial que estava bem longe. Este mandou-me uma ordem, com
preceito de obediência para que fosse imediatamente com outra
companheira. Soube isto na noite de Natal.
2. Causou-me certo alvoroço e muita pena ver que, por pensarem
que havia em mim algum bem, queriam que eu fosse, pois, como eu
me via tão ruim, não podia sofrer isto. Encomendando-me muito a
Deus, estive as Matinas todas, ou grande parte delas, em grande
arroubamento. Disse-me o Senhor que não deixasse de ir e que não
ouvisse pareceres, porque poucos me aconselhariam sem
temeridade; pois, embora encontrasse trabalhos, servir-se-ia muito a
Deus e que, para este negócio do mosteiro, convinha ausentar-me
até chegar o Breve; porque o demônio tinha armado uma grande
trama, em vindo o Provincial; mas nada temesse, que Ele lá me
ajudaria.
Fiquei muito animada e consolada. Disse tudo isto ao Reitor e ele
aconselhou-me a que, de nenhum modo, deixasse de ir, porque
outros me diziam que isso não se podia admitir, que era invenção do
demônio para que lá me viesse algum mal: que voltasse a enviar
recado ao Provincial.
3. Obedeci ao Reitor e, pelo que tinha entendido na oração, ia sem
medo, embora não sem grandíssima confusão de ver a que título me
levavam, e como se enganavam tanto. Isto me fazia importunar mais
o Senhor para que não me desamparasse. Consolava-me muito
saber que havia casa da Companhia de Jesus no lugar para onde ia,
e poder estar sujeita ao que me mandassem, como estava aqui; pois
parecia-me que, com isso, estaria com alguma segurança.
Foi o Senhor servido de que aquela senhora se consolasse tanto
com a minha ida, que começou logo a ter conhecida melhoria e cada
dia se achava mais consolada. Teve-se isto em muito porque, como
disse, a dor trazia-a em grande angústia; e deve-o ter feito o Senhor
pelas muitas orações que faziam por mim as pessoas boas que eu
conhecia, para que fosse bem sucedida. Era muito temente a Deus e
tão boa, que a sua muita cristandade supriu o que a mim me faltava.
Tomou-me grande amor; eu lhe tinha muito por ver sua bondade.
Mas quase tudo me era cruz; porque os regalos me davam grande
tormento e o fazer-se tanto caso de mim, trazia-me em grande temor.
Andava a minha alma tão encolhida que não me ousava descuidar,
nem se descuidava o Senhor. Porque, enquanto ali estive, me fez o
Senhor grandes graças, e estas davam-me tanta liberdade e tanto
me faziam menosprezar tudo o que via - e quanto mais eram, mais -
que eu não deixava de tratar com aquelas tão senhoras, que muito à
minha honra poderia eu servi-Ias com a liberdade como se fora sua
igual.
4. Tirei daqui um proveito muito grande e dizia-lhe. Vi que era mulher
e tão sujeita a paixões e fraquezas como eu. Vi o pouco em que se
há de ter o senhorio e como, quanto maior é, mais cuidados e
trabalhos têm e um cuidado de ter a compostura conforme a seu
estado, que nem as deixa viver. O comer é fora de horas e sem
acerto, porque tudo há de andar conforme à dignidade e não à
compleição: muitas vezes hão de comer os manjares mais
conformes à sua posição e não a seu gosto.
É assim que de todo aborreci o desejar ser senhora - Deus me livre
de má compostura! Embora esta, com ser das principais do reino,
creio que haverá poucas mais humildes e é muito afável e simples.
Fazia-me pena e a tenho de ver como anda muitas vezes não
conforme à sua inclinação, para cumprir com o que exige a sua
posição. Pois quanto aos criados é pouco o pouco que deles há que
fiar, embora ela os tivesse bons. Não se há de falar mais com um
que com outro, sob pena de ficar malquisto aquele que assim se
favorece.
É uma sujeição e, chamar senhores a pessoas semelhantes, é uma
das mentiras que o mundo diz, pois não me parece senão que são
escravos de mil coisas.
5. Foi o Senhor servido que, durante o tempo que estive naquela
casa, todas as pessoas melhorassem no servir a Sua Majestade,
ainda que não estive livre de trabalhos e de invejas que algumas
sentiam pelo muito amor que aquela senhora me tinha. Deviam
porventura pensar que pretendia algum interesse. E o Senhor devia
permitir que coisas semelhantes, e outras de outro teor, me dessem
algum trabalho, para que não me embebesse no regalo que havia
por outra parte, e de tudo Ele foi servido tirar-me com melhoria da
minha alma.
6. Estando eu ali, acertou de vir um religioso, pessoa muito principal
e com quem eu, havia já muitos anos, tinha tratado algumas vezes.
Estando à Missa, num mosteiro da sua Ordem, ali perto onde eu
estava, deu-me desejo de saber em que disposição estava aquela
alma que eu desejava fosse muito servo de Deus e levantei-me para
lhe ir falar. Mas, como já me encontrava recolhida em oração,
pareceu-me depois que era perder tempo, pois quem me metia a
mim naquilo e tornei-me a sentar. Parece-me que foram três, três
vezes que isto me aconteceu e, enfim, pôde mais o anjo bom de que
o mau, e fui chamá-lo e veio me falar num confessionário.
Comecei a perguntar-lhe - e ele a mim - pelas nossas vidas, porque
havia muitos anos que não nos tínhamos visto. Comecei-lhe a dizer
que a minha tinha sido de muitos trabalhos de alma. Instou muito
para que eu lhe dissesse que trabalhos eram esses. Disse-lhe que
não eram para se saber, nem para que eu lhes dissesse. Ele disse
que, pois o sabia o padre dominicano - de quem tenho falado - que
era muito seu amigo, ele lhes diria depois, que assim nada se me
desse de lhes dizer.
7. O caso é que não esteve na sua mão deixar de me importunar,
nem na minha, me parece, deixar de lhe dizer; porque, não obstante
o pesar e vergonha que costumava ter quando tratava estas coisas,
com ele e com o Reitor que tenho dito, não tive nenhuma pena,
antes me consolei muito. Disse-lhe debaixo de confissão.
Pareceu-me mais avisado do que nunca, embora sempre o tive por
ser de grande entendimento. Vi os grandes talentos e qualidades
que tinha para dar muito proveito; se de todo se desse a Deus. É que
eu tenho isto de uns anos para cá: não vejo pessoa que muito me
contente, que não queira logo vê-la de todo dar-se a Deus. E isto
com umas ânsias que, algumas vezes, não me posso conter. Pois,
embora deseje que todos O sirvam, com estas pessoas que me
satisfazem, é com muito grande ímpeto, e assim importuno muito ao
Senhor por elas. Com o religioso que digo, aconteceu-me assim.
8. Rogou-me que o encomendasse muito a Deus, e não era preciso
pedir-me que já estava de modo que não poderia fazer outra coisa.
Vou-me para onde a sós costumava ter oração e começo a tratar
com o Senhor, estando muito recolhida, num estilo amável, como
muitas vezes Lhe falo, sem saber o que digo. Então é o amor que
fala e a alma está tão alheada que não olho à diferença que há dela
para Deus. Porque o amor que ela conhece que Sua Majestade lhe
tem, faz com que se esqueça de si e parece-lhe que está n'Ele, que é
como coisa própria, sem divisão, e diz desatinos. Recordo-me que,
depois de Lhe pedir, com muitas lágrimas, que pusesse aquela alma
a Seu serviço muito deveras que, embora eu o tivesse por bom, não
me contentava; queria-o muito melhor, disse-Lhe: "Senhor, não me
haveis de negar esta graça; vede que é bom este sujeito para nosso
amigo".
9. Oh! bondade e humanidade grande de Deus, que não olha às
palavras senão aos desejos e amor com que se dizem! Como sofre
que uma como eu fale a Sua Majestade tão atrevidamente! Seja
bendito para sempre sem fim.
10. Recordo-me que naquela noite, durante aquelas horas de oração,
deu-me uma grande aflição ao pensar se estava na inimizade de
Deus. E, como eu não podia saber se estava ou não em graça, afligia-me
esta pena. Não que eu o desejasse saber, mas sim desejava
morrer, para não me ver em vida onde não tinha segurança de não
estar morta. É que não podia haver para mim morte mais dura do
que pensar que tinha ofendido a Deus e suplicava-Lhe que não o
permitisse, toda em gozo e derretida em lágrimas. Então entendi que
bem me podia consolar e ficar certa de que estava em graça, porque
semelhante amor de Deus e o fazer-me Sua Majestade aquelas
graças e os sentimentos que dava à alma, não eram compatíveis
com serem feitas a alma que estivesse em pecado mortal.
Fiquei confiada de que o Senhor havia de fazer, desta pessoa, o que
Lhe suplicava. Mandou-me que Lhe dissesse umas palavras. Isto
senti muito porque não sabia como lhes dizer. Ter de dar recado
a terceira pessoa - como já disse - é sempre o que mais me custa,
em especial sem saber como essa pessoa o aceitaria ou até se
zombaria de mim. Fiquei numa grande angústia. Enfim, senti-me tão
persuadida a fazê-lo que, segundo me parece, prometi a Deus não
deixar de as dizer, e pela grande vergonha que tinha, escrevi-as e
dei-lhas.
11. Bem me pareceu sei coisa de Deus pelo efeito que fizeram.
Determinou-se muito deveras a dar-se à oração, embora não o
fizesse desde logo. O Senhor, como o queria para Si, por meu
intermédio, lhe mandava dizer umas verdades que, sem eu o
entender, vinham tão a propósito que ele se espantava, e o Senhor
devia o dispor a crer que eram de Sua Majestade. Eu, ainda que
miserável, era muito o que suplicava ao Senhor, que de todo em
tudo o atraísse a Si e lhe fizesse aborrecer as satisfações e coisas
da vida. E assim - seja Ele louvado para sempre! - o fez tão deveras
que, de cada vez que me fala, me tem como embevecida. Se eu não o
tivesse visto, tivera por duvidoso fazer-lhe Deus em tão breve tempo
tão crescidas graças e trazê-lo tão ocupado em Si, que parece já
não viver para coisa da terra.
Sua Majestade o tenha de Sua mão, que, se assim for adiante (o que
espero no Senhor, por ir muito bem fundado no conhecer-se a si
mesmo), será um dos Seus mais assinalados servos e de grande
proveito para muitas almas. Porque, em coisas de espírito, em
pouco tempo adquiriu muita experiência, e isto são dons que Deus
dá quando quer e como o quer, e não está atido ao tempo nem aos
serviços. Não digo que isto não faça muito ao caso, mas que muitas
vezes o Senhor não dá em vinte anos a contemplação que a outros
dá num. Sua Majestade sabe a causa.
E o engano está em nos parecer que, pelos anos, havemos de
entender o que de nenhum modo se pode alcançar sem experiência.
Assim erram muitos - como tenho dito -, em querer conhecer
espíritos, sem o terem.
Não digo que quem não tiver espírito, se é letrado, não governe a
quem o tem, mas entende-se quanto ao exterior e interior que vá
conforme a via natural, por obra do entendimento; e no sobrenatural,
olhe a que vá conforme à Sagrada Escritura. No demais não se mate,
nem pense entender o que não entende, nem afogue os espíritos
pois, quanto a isso, já outro maior Senhor os governa, que não estão
sem superior.
12. Não se espante nem lhe pareçam coisas impossíveis - tudo é
possível ao Senhor -, mas procure esforçar a fé e humilhar-se
porque, nesta ciência, o Senhor faz porventura mais sábia a uma
velhinha do que a ele, embora seja muito letrado. E com esta
humildade aproveitará mais às almas e a si, do que em se fazer
contemplativo sem o ser. Porque torno a dizer que, se não tem muita
experiência e se não tem muita humildade para reconhecer que não
o entende, mas que, no entanto, não é coisa impossível, ganhará
pouco e dará ainda menos a ganhar a quem dirige. Não haja porém
medo: se tem humildade, o Senhor permitirá que não se engane nem
um nem outro.
13. Pois este Padre que digo, como o Senhor lhe deu experiência em
muitas coisas, tem procurado estudar tudo o que por estudo tem
podido saber neste caso, pois é bem letrado. E, o que não entende
por experiência, informa-se de quem a tem e, por isso, ajuda-o o
Senhor com dar-lhe muita fé e assim tem ele aproveitado muito e
feito aproveitar algumas almas e a minha é uma delas. Como o
Senhor sabia os trabalhos em que me havia de ver - pois ia levar
consigo a alguns que me governavam - parece que Sua Majestade
proveu a que ficassem outros que me têm ajudado em trabalhos e
feito grande bem. Tem-no mudado o Senhor quase de todo, de
maneira que ele quase não se conhece, por assim dizer, e dado
forças corporais para a penitência (que antes não tinha, por ser
enfermo). Tornou-se animado para tudo o que é bom e outras
coisas, que bem parece ser muito particular chamamento do Senhor.
Seja bendito para sempre.
14. Creio que todo o bem lhe vem das graças que o Senhor lhe tem
feito na oração, pois que não são postiças. Já nalgumas coisas quis
o Senhor que se tenha exercitado, e sai-se delas como quem tem já
conhecida a verdade do mérito que se ganha em sofrer
perseguições. Espero na grandeza do Senhor que por meio dele há de
vir muito bem a alguns da sua Ordem e a ela mesma. Já isto se
começa a entender. Tenho tido grandes visões, nas quais o Senhor
me disse algumas coisas de grande admiração a seu respeito e do
Reitor da Companhia de Jesus, de quem tenho falado, e de outros
dois religiosos da Ordem de S. Domingos, em especial de um. Pelo
seu aproveitamento - provado por obra - também já o Senhor tem
dado a entender algumas dessas coisas que antes eu tinha sabido
por Ele. De quem agora falo, tem sido muitas vezes.
15. Uma coisa quero dizer agora aqui. Estava eu uma vez no
locutório com ele, e era tanto o amor que a minha alma e espírito
entendia que ardia no dele, que me tinha quase absorta, porque
considerava as grandezas de Deus, em quão pouco tempo subira
uma alma a tão alto estado. Fazia-me grande confusão, porque via-o,
com tanta humildade, escutar o que eu dizia em algumas coisas de
oração, e que pouca eu tinha em tratar assim com pessoa
semelhante. Mas isto o Senhor mo devia sofrer pelo grande desejo
que eu tinha de o ver muito adiantado. Fazia-me tanto proveito estar
com ele que parece que deixava em minha alma ateada um novo
fogo para desejar principiar de novo a servir ao Senhor.
Ó Jesus meu! O que faz uma alma abrasada no Vosso amor! Quanto
a deveríamos estimar e suplicar ao Senhor a deixasse nesta vida!
Quem tem o mesmo amor, atrás destas almas haveria de andar, se
pudesse.
16. Grande coisa é um enfermo achar outro ferido do mesmo mal;
muito se consola de ver que não está só; muito se ajudam a padecer
e até a merecer; firme apoio se oferecem, já como
gente determinada a arriscar mil vidas por Deus e desejam que se
lhes ofereça ensejo de as perder. São como soldados que, para
ganhar o despojo e fazer-se com ele ricos, desejam que haja guerra;
tendo compreendido que não o podem ser senão por aqui, este é o
seu ofício: trabalhar. Oh! grande coisa é quando o Senhor dá esta
luz de entender o muito que se ganha em padecer por Ele! Não se
compreende este bem, enquanto não se deixa tudo, pois quem se
atém a alguma coisa, sinal é que a tem em conta. E se a tem em
conta, forçosamente lhe há de pesar de a deixar e já vai tudo
imperfeito e perdido. Vem aqui bem a propósito dizer: perdido está
quem atrás de perdido anda. E que maior perdição e que maior
cegueira; que maior desventura, que ter em muito o que não é nada?
17. Pois, voltando ao que dizia, estando eu em grandíssimo gozo
considerando aquela alma, na qual me parece queria o Senhor que
eu visse claramente os tesouros que nela tinha depositado, e vendo
a graça que me fizera de que fosse por meu intermédio - achando-me
indigna disso -, em muito mais estima tinha eu as graças que o
Senhor lhe fizera e mais as tomava à minha conta do que se fossem
feitas a mim, e louvava muito ao Senhor por ver que Sua Majestade
ia cumprindo meus desejos e tinha ouvido a minha oração, que era
que o Senhor despertasse pessoas semelhantes.
Estando já minha alma que não podia sofrer em si tanto gozo, saiu de
si e perdeu-se para mais ganhar. Perdeu as considerações, e deixou
de ouvir aquela língua divina, pela qual parece que falava o Espírito
Santo, e deu-me um grande arroubamento que me fez quase perder
os sentidos, embora durasse pouco tempo. Vi Cristo, com
grandíssima majestade e glória, mostrando grande prazer do que ali
se passava e assim me disse e quis que eu visse claramente que, em
semelhantes práticas, sempre se achava presente e o muito que se
serve em que assim se deleitem em falar d'Ele.
Outra vez, estando longe deste lugar, vi os anjos levantarem esse
padre com muita glória. Entendi, por esta visão, que ia muito adiante
a sua alma. E assim era, pois lhe haviam levantado um falso
testemunho bem contra a sua honra, pessoa a quem ele tinha feito
muito bem e remediado a honra e a alma. Ele o sofreu com muita
alegria e fez outras obras em serviço de Deus e padeceu outras
perseguições.
18. Não me parece que convenha agora declarar mais coisas. Se
depois parecer a V Mercê, pois que as sabe, poder-se-ão escrever
para glória do Senhor. De todas as que tenho dito de profecias que o
Senhor me dizia desta casa, e de outras que ainda direi e de mais
coisas, todas se têm cumprido; algumas, três anos antes que se
dessem e outras em mais e outras em menos tempo. E sempre eu as
dizia ao confessor e a esta minha amiga viúva com quem tinha
licença de falar, como já disse. Tenho sabido que ela as dizia a
outras pessoas e estas sabem que não minto, nem Deus permita
que, em nenhuma coisa, quanto mais sendo tão graves, eu use
senão de toda a verdade.
19. Tendo morrido um cunhado meu subitamente e estando eu com
muita pena por não se ter chegado a confessar, foi-me dito na
oração que assim também havia de morrer a minha irmã, que fosse
lá e fizesse com que se dispusesse para isso. Disse-o ao meu
confessor e, como não me deixava ir, foi-me repetido mais vezes.
Ele, como visse isto, disse-me que fosse, pois nada se perderia.
Ela vivia numa aldeia e, como fui sem lhe dizer nada disto, fiz por lhe
ir dando a luz que pude em todas as coisas e com que se
confessasse muito amiúde e em tudo tivesse conta na sua alma. Era
muito boa e assim fez. Desde há quatro ou cinco anos que tinha este
costume e muito boa conta com a sua consciência. Morreu sem
ninguém a ver e sem se poder confessar. Bem foi que, como
costumava, havia pouco mais de oito dias que se tinha confessado.
A mim deu-me grande alegria quando soube da sua morte. Esteve
muito pouco no Purgatório. Não me parece que haveria oito dias,
quando, acabando de comungar, me apareceu o Senhor e quis que
visse como a levava ao Céu. Em todos estes anos, desde que isto
me foi dito até que morreu, não se me esquecia o que me tinha
dado a entender, nem à minha companheira que, logo que a minha
irmã morreu, veio ter comigo muito espantada por ver, como se
tinha cumprido.
Seja Deus louvado para sempre, que tanto cuidado tem das almas
para que se não percam.

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