LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

CAPÍTULO 30. Retoma a narração da sua vida e diz como o
Senhor remediou muito os seus trabalhos trazendo ao lugar
onde ela estava o santo homem Frei Pedro de Alcântara, da
ordem do glorioso S. Francisco. Trata também de grandes
tentações e trabalhos interiores que tinha algumas vezes.
1. Vendo eu, pois, o pouco ou nada que conseguia fazer para não ter
estes ímpetos tão grandes, também já eu temia de os ter; porque
dor e alegria, não podia eu entender como podiam andar juntos.
Dor corporal e alegria espiritual, já eu sabia que era bem
possível; mas tão excessiva dor espiritual e com tão grandíssimo
gosto, isto me desatinava.
Nem mesmo cessava em procurar resistir-lhe, mas podia tão pouco,
que algumas vezes me cansava. Amparava-me com a cruz e queria me
defender d'Aquele que com ela nos amparou a todos. Via que
ninguém me entendia, que isto era muito claro para mim; mas não o
ousava dizer senão a meu confessor, porque seria dizer, bem de
verdade, que não tinha humildade.
2. Foi o Senhor servido de remediar grande parte do meu trabalho - e
por então todo ele - em trazer a este lugar o bendito Frei Pedro de
Alcântara, de quem já fiz menção e disse um pouco da sua
penitência. Entre outras coisas, certificaram-me que durante vinte
anos tinha trazido continuamente um cilício de folhas de lata. É
autor de uns pequenos livros de oração que agora se usam muito,
em língua vulgar, porque, como quem a tinha bem exercitado,
escreveu muito proveitosamente para os que a têm. Guardou a
primeira Regra do Bem-aventurado S. Francisco com todo o rigor, e
mais um pouco que lá fica dito.
3. Soube pois a viúva; serva de Deus e minha amiga de quem tenho
falado, que estava aqui tão grande homem. Sabia minha necessidade,
pois era testemunha das minhas aflições e me consolava muito; era
tanta a sua fé que não podia deixar de crer que era espírito de Deus
o que todos os mais diziam ser do demônio. Como é pessoa de
muito bom entendimento e de muito segredo e a quem o Senhor
fazia muitas graças na oração, quis Sua Majestade dar-lhe luz no
que os letrados ignoravam. Davam-me licença meus confessores
para que me descansasse nela, comunicando-lhe algumas coisas
que então tinha, pois por muitas razões era digna disso. Cabia-lhe,
algumas vezes, parte das mercês que o Senhor me fazia, com avisos
muito proveitosos para sua alma.
Pois, assim que o soube, para que mais facilmente pudesse tratar
com ele, sem dizer-me nada, alcançou licença do meu Provincial
para que estivesse oito dias em sua casa. Aí e em algumas Igrejas
falei com ele muitas vezes, nesta primeira vez que aqui esteve; e
depois em diversos tempos comuniquei muito com ele. Dei-lhe
conta, em suma, da minha vida e maneira de proceder na oração
com a maior clareza que eu soube. Isto tenho eu tido sempre: tratar
com toda a claridade e verdade com aqueles a quem comunico a
minha alma. Até os primeiros movimentos quisera eu lhes fossem
manifestos, e nas coisas mais duvidosas e de suspeita eu os arguia
com razões contra mim. Assim, sem fingimento e subterfúgio, tratei com
ele da minha alma.
4. Quase logo no princípio vi que me entendia, por experiência, e
isto era tudo o que eu precisava. É que então eu não me sabia
entender, como agora, para o saber dizer, que depois recebi de Deus
o saber compreender e dizer as graças que Sua Majestade me faz.
Era, pois, preciso que tivesse passado por isso quem de todo me
entendesse e declarasse o que era. Ele deu-me grandíssima luz;
porque, pelo menos nas visões que não eram imaginárias, eu não
podia entender o que podia ser aquilo, e, nas que via com os olhos
da alma, tão pouco entendia como podia ser; pois, como tenho dito,
só era das que se vêem com os olhos corporais, que me parecia a
mim que havia de fazer caso, e estas não as tinha eu.
5. Este santo homem deu-me luz em tudo e tudo me explicou. Disse-me
que não tivesse pena, mas sim louvasse a Deus e estivesse tão
certa de que era espírito Seu que, a não ser a fé, coisa mais
verdadeira não podia haver, nem que tanto se pudesse crer.
Consolava-se muito comigo e dava-me todo o seu favor e graça, e
sempre depois teve muito cuidado de mim e dava-me parte de suas
coisas e negócios. E como me via com desejos do que ele já pusera
por obra - pois estes dávamos o Senhor muito decididos -, e me via
com tanto ânimo, gostava de tratar comigo. É que, para aqueles a
quem o Senhor chega a este estado, não há prazer nem consolo que
iguale ao de topar com pessoas a quem lhes parece ter o Senhor
concedido princípios disto mesmo. Então não devia eu ter muito
mais, ao que me parece, e praza ao Senhor que o tenha agora!
6. Teve grandíssima pena de mim. Disse-me que um dos maiores
trabalhos deste mundo era o que eu tinha padecido, que é a
contradição dos bons; ainda me restava muito a padecer, porque
sempre teria necessidade de ajuda e não havia nesta cidade quem
me entendesse. Ele falaria, no entanto, ao que me confessava e a um
dos que mais penas me dava, que era este cavalheiro casado de
quem já falei. Este, como quem me tinha maior amizade, me fazia
toda a guerra; é alma temerosa e santa, e, como pouco antes me
tinha visto tão ruim, não acabava de se tranquilizar.
E assim o fez este santo homem, que lhes falou a ambos e lhes deu
causas e razões para que se tranquilizassem e não me inquietassem
mais. O confessor de pouco precisava, mas o cavalheiro tanto, que
ainda de todo não bastou; contribuiu porém, para que não me
amedrontasse tanto.
7. Ficámos combinados em eu lhe escrever de aí em diante o que me
sucedesse de novo, e de mutuamente nos encomendarmos muito a
Deus. Era tanta a sua humildade que tinha em conta as orações
desta miserável. Era muita a minha confusão. Deixou-me com
grandíssimo consolo e contentamento e fez com que eu tivesse
oração com segurança e não duvidasse de que era de Deus. Daquilo
do que eu tivesse alguma dúvida e tudo para maior segurança,
desse parte ao confessor e com isto vivesse tranquila.
Mas nem assim eu podia ter essa segurança de todo em todo,
porque me levava o Senhor por caminho de temer, crendo que era
demônio quando me diziam que o era. Ninguém podia, no entanto,
fazer com que eu tivesse temor ou segurança de maneira a que lhes
pudesse dar mais crédito do que aquele que o Senhor punha na
minha alma. Assim é que, embora me consolasse e sossegasse, não
lhe dei tanto crédito, para ficar de todo sem temor, em especial
quando o Senhor me deixava nos trabalhos de alma que agora direi.
Contudo fiquei - como digo -, muito consolada.
Não me fartava de dar graças a Deus e ao glorioso Pai S. José, pois
me pareceu que o trouxera, porque era Comissário Geral da
Custódia de S. José, a quem eu muito me encomendava e a Nossa
Senhora.
8. Acontecia-me algumas vezes - e ainda agora me acontece, embora
não tantas - estar com grandíssimos trabalhos de alma e ao mesmo
tempo com tormentos e dores no corpo, de males tão fortes que não
me podia valer.
Outras vezes tinha males corporais muito graves e, como não tinha
os da alma, passava-os com muita alegria. Mas, quando era tudo
junto, era tão grande trabalho que me via na maior aflição. Todas as
mercês que o Senhor me fizera se me olvidavam; só me ficava
memória como de coisa que se sonhou, para dar pena. É que se
entorpece o entendimento de modo que me fazia andar com mil
dúvidas e suspeitas, parecendo-me que não o tinha entendido bem e
que talvez fosse ilusão minha. Bastava que andasse eu enganada,
sem que enganasse os bons. Parecia-me ser eu tão má, que,
quantos males e heresias se tinham levantado, eram por meus
pecados.
9. Esta é uma humildade falsa que o demônio inventava para
desassossegar-me e, tentar se podia, trazer a alma ao desespero.
Tenho já tanta experiência que é coisa de demônio, que ele, como já
vê que o entendo, não me atormenta nisto tantas vezes como
costumava. Isto vê-se claramente na inquietação e desassossego
com que começa, no alvoroço que dá na alma todo o tempo que
dura, na escuridão e aflição que nela deixa, na secura e má
disposição para a oração e para qualquer bem. Dir-se-ia que afoga a
alma e ata o corpo para que de nada aproveite. Porém, a humildade
verdadeira, embora a alma se conheça por ruim e nos dê pena ver o
que somos e pensemos grandes encarecimentos da nossa maldade,
tão grandes como os que ficam ditos e se sintam de verdade, não
vem com alvoroço, nem desassossega a alma, nem a escurece, nem
traz secura. Antes, pelo contrário - pois é tudo ao revés -, a regala
com quietude, com suavidade, com luz. Pena que, por outra parte,
conforta por ver quão grande graça lhe faz Deus em lhe dar aquela
pena e quão bem empregada é. Dói-lhe o que ofendeu a Deus e, por
outra parte, a Sua misericórdia a dilata. Tem luz para se confundir a
si mesma e louva a Sua Majestade porque tanto lhe sofreu.
Nesta outra humildade, que insinua o demônio, não há luz para
nenhum bem; tudo lhe parece põe Deus a fogo e a sangue.
Representa-lhe a justiça e, embora tenha fé de que há misericórdia,
porque o demônio não pode tanto que a faça perder, é de maneira a
não me consolar, antes, quando olha a tão grande misericórdia, a
ajuda a maior tormento, porque parece que estava obrigada a mais.
10. É uma invenção do demônio das mais penosas e sutis e
dissimuladas que tenho conhecido dele, e assim quisera avisar V
Mercê para que, se por aqui o tentar, tenha alguma luz e o conheça,
se ele lhe deixar entendimento para o perceber. Não pense que
bastam letras e saber, pois embora a mim tudo me falte, depois que
saio disto, bem vejo que é desatino. O que tenho entendido é que o
Senhor assim o quer é permite e dá licença ao demônio, como lha
deu para que tentasse a Jó, embora a mim - como a ruim - não seja
com aquele rigor.
11. Tem-me acontecido e me recordo ter sido um dia antes da
véspera do Corpus Christi, festa de que sou devota, embora não
tanto como devia. Desta vez durou-me só até ao dia, que de outras
vezes durou-me oito e quinze dias e até três semanas e não sei se
mais, em especial as Semanas Santas em que costumo ter as
minhas delícias de oração. Acontece-me que o demônio me prende
de repente o entendimento, com coisas tão ridículas às vezes, que
em outras ocasiões me riria delas, e o faz estar transtornando tudo o
que ele quer. A alma ali se fica aferrolhada, sem ser senhora de si,
sem poder pensar outra coisa mais que nos disparates que ele lhe
representa, que quase não têm tomo, nem atam nem desatam; só
atam para oprimir a alma de maneira que não cabe em si. É assim
que metem acontecido: parecer-me que andam os demónios como
que jogando à bola com a alma e sem ela conseguir livrar-se de seu
poder.
Não se pode dizer o que neste caso se padece; ela anda a buscar
amparo e permite Deus que não o encontre; só fica sempre a razão
do livre arbítrio, mas não clara. Digo eu que deve ser quase como
ter vendados os olhos, como uma pessoa que muitas vezes tem ido
por um caminho que, embora seja de noite e às escuras, pelo tino
anterior, já sabe onde pode tropeçar, porque o tem visto de dia e
guarda-se daquele perigo. Assim é aqui para não ofender a Deus,
parece que se vai pelo costume. Deixemos de parte o mantê-la o
Senhor, que é o que faz ao caso.
12. A fé está então tão acalmada e adormecida como todas as
demais virtudes, embora não perdida, pois que bem acredita o que a
Igreja crê e tem por verdade, mas pronunciado com a boca, e parecelhe,
por outro lado, que a apertam e entorpecem; tem a impressão
que é quase como uma coisa que ouviu ao longe que ela conhece a
Deus.
O amor tem-no tão tíbio que, se ouve falar d'Ele, escuta como uma
coisa que crê ser assim, porque a Igreja o tem por verdade; mas não
tem memória daquilo que tem experimentado em si.
Ir rezar ou estar em solidão não é senão para lhe causar mais
angústia, porque o tormento que sente em si é incomportável. A meu
parecer, é um pouco cópia do inferno. Isto é assim, segundo o
Senhor me deu a entender numa visão, porque a alma se queima em
si, sem saber quem nem por onde lhe põem fogo, nem como fugir
dele, nem com que o apagar.
Pois, querer buscar remédio na leitura, é como se não soubesse ler.
Uma vez aconteceu-me ir ler uma vida dum santo a ver se me
embebia e consolava com o que ele padeceu, e ler quatro ou cinco
vezes outras tantas linhas e, apesar de ser em língua vulgar, menos
entendia delas no fim do que no princípio, e assim o deixei. Isto me
aconteceu muitas vezes; mas desta, me recordo mais em particular.
13. Ter, pois, conversação com alguém, é pior; porque o demônio
incute um espírito tão desabrido de ira, que me parece a todos
quereria comer, sem poder fazer mais nada. Alguma coisa parece,
no entanto, que faço em me ir à mão, ou fá-lo o Senhor em ter de
Sua mão a quem assim está, para que não diga nem faça contra
seus próximos coisa que os prejudique e em que ofenda a Deus.
Pois ir ao confessor, o certo é que muitas vezes me acontecia isto
que direi. Embora sendo tão santos como são os que neste tempo
tratei e trato, me diziam palavras e me ralhavam com uma aspereza
tal, que depois, quando eu lhas repetia, eles mesmos se espantavam
e me diziam que mais não estava em sua mão. Porque, ainda que
propusessem a si mesmos não o fazer de outras vezes, quando
tivesse semelhantes trabalhos de corpo e de alma, porque ficavam
depois com compaixão e até escrúpulo, e se determinavam a
consolar-me com piedade, não podiam. Não diziam eles palavras
más - digo em que ofendessem a Deus -, mas as mais desabridas
que se sofriam num confessor. Deviam pretender mortificar-me, e
embora outras vezes gostava e estivesse para o sofrer, então tudo
me era tormento.
Pois dá-me também para recear que os engano, e ia então a eles e
avisava-os muito deveras que se acautelassem de mim, que poderia
ser que os enganasse. Bem via eu que, com advertência, não o faria,
nem lhes diria mentira, mas tudo me era causa de temor. Um deles
me disse uma vez, pois entendeu a tentação, que não me afligisse,
porque embora eu quisesse enganá-lo, senso tinha ele pára não se
deixar enganar. Deu-me isto muita consolação.
14. Algumas vezes - e quase habitualmente, pelo menos o mais
frequente -, em acabando de comungar, descansava; e até algumas
vezes, em chegando ao Sacramento, logo no mesmo momento
ficava tão bem de alma e corpo, que eu me espantava. Não parece
senão que, num instante, se desfazem todas as trevas da alma, e
desponta o sol, conhecendo então as tontarias em que tinha estado
metida.
Outras vezes, com uma só palavra que me dizia o Senhor, como:
Não estejas aflita; não tenhas medo - como já deixei dito de outra
vez ou com ver alguma visão -; ficava de todo sã, como se nunca
tivesse tido nada. Regalava-me com Deus, queixava-me a Ele, como
consentia que tantos tormentos padecesse. Mas tudo isso era bem
pago, pois que quase sempre vinham depois em grande abundância
as mercês.
Não me parece senão que a alma sai como o ouro do crisol, mais
afinada e clarificada para ver em si o Senhor. E assim se fazem
depois pequenos estes trabalhos, apesar de parecerem
incomportáveis, è se desejam tornar a padecer, se o Senhor disso
mais Se há-de servir. E, ainda que haja mais tribulações e
perseguições, conquanto se passem sem ofender o Senhor e de as
padecer por Ele, tudo é para maior lucro, embora eu não os leve
como se hão-de levar, senão muito imperfeitamente.
15. Outras vezes me vinham e vêm tribulações de outro género, que
de todo em todo me parece que se me tira a possibilidade de pensar
coisa boa, nem desejá-la fazer, e só me fica a alma e o corpo de todo
inútil e pesado; mas não tenho com isto essas outras tentações e
desassossegos, a não ser um desgosto, sem entender de quê, e
nada me contenta a alma. Procurava então fazer boas obras
exteriores para me ocupar um tanto à força, e reconheço bem o
pouco que é uma alma quando se esconde a graça. Não me causava
isto muita pena, porque, o ver assim minha baixeza, me dava alguma
satisfação.
16. Outras vezes, acho-me de modo que tão-pouco posso pensar
coisa ordenada a respeito de Deus, nem de bem que vá com algum
assento, nem ter oração, ainda que esteja em soledade; mas sinto
que O conheço. O entendimento e a imaginação entendo eu que é o
que aqui me prejudica, pois a vontade me parece que está boa e
disposta para todo o bem. Este entendimento, porém, está tão
perdido que não parece senão um louco furioso que ninguém
consegue atar, nem sou senhora de o fazer estar quedo, sequer o
tempo dum Credo. Algumas vezes me rio e conheço minha miséria,
fico a olhar para ela e deixo-a a ver o que faz; e -glória a Deus nunca
- por maravilha - vai a coisa má, mas sim indiferente: se há alguma
coisa a fazer aqui, ali ou acolá. Conheço, então, melhor a
grandíssima mercê que me faz o Senhor quando está atado este
louco em perfeita contemplação. Vejo o que seria se me vissem
neste desvario as pessoas que me têm por boa. Tenho grande
lástima de ver a alma em tão má companhia. Desejo vê-la com
liberdade, e assim digo ao Senhor: quando, Deus meu, chegarei
finalmente a ver a minha alma toda unida em Vosso louvor, de modo
a que Vos gozem todas as potências? Não permitais já, Senhor, que
seja assim despedaçada, que não parece senão que cada pedaço
anda disperso por seu lado.
Isto, padeço eu muitas vezes. Algumas bem entendo que faz muito
ao caso a pouca saúde corporal. Recordo-me muito do dano que nos
fez o primeiro pecado e que daqui nos vem, penso eu, o sermos
incapazes de gozar de tanto bem em um ser, e devem ser os meus
que, se eu não tivesse cometido tantos, estaria com mais inteireza
no bem.
17. Passei também outro grande trabalho pois, como me parecia
entender todos os livros que lia, que tratam de oração, e que o
Senhor já me tinha dado aquilo, achei que não tinha necessidade
deles e assim não os lia, mas sim, vidas de santos, porque como eu
me vejo tão falha no que eles serviam a Deus, isto parece que me
aproveita e anima. Parecia-me pouca humildade pensar que já tinha
chegado a ter aquela oração; e como não podia conseguir de mim
mesma pensar outra coisa, dava-me isto muita pena, até que
letrados e o bendito Frei Pedro de Alcântara me disseram que não
fizesse caso. Bem vejo eu que, no servir a Deus, ainda não comecei -
embora no fazer-me Sua Majestade mercês seja como aos muito
bons - e que sou a mesma imperfeição, a não ser nos desejos e em
amor, pois nisto bem vejo me favoreceu o Senhor, para que O possa
servir em alguma coisa. Bem me parece a mim que O amo, mas as
obras me desconsolam e as muitas imperfeições que veio em mim.
18. Outras vezes dá-me uma tontice de alma -digo eu que é-, pois,
nem bem nem mal me parece que faço, senão andar na peugada das
pessoas, como dizem; sem pena nem glória, nem lhe dá vida, nem
morte, nem prazer, nem pesar. Nem parece que se sinta nada.
Parece-me a mim que anda a alma como um jumentinho que pasta,
que se sustenta porque lhe dão de comer e come quase sem o
sentir. É que, neste estado, a alma não deve estar sem comer
algumas grandes mercês de Deus, pois em vida tão miserável não
lhe pesa viver e leva isto com igualdade de ânimo, mas não se
sentem movimentos nem efeitos para que a alma o entenda.
19. Parece-me agora a mim que é como um navegar com o vento
muito sereno, que se anda muito sem entender como. Nestas outras
maneiras são tão grandes os efeitos, que a alma vê quase logo sua
melhoria, porque fervem os desejos e nunca acaba a alma de se
satisfazer. Isto têm os grandes ímpetos de amor, que tenho dito, a
quem Deus os dá. É como umas fontezinhas que eu tenho visto
manar, que nunca cessam de fazer mover a areia para cima.
Bem natural me parece este exemplo ou comparação das almas que
aqui chegam; sempre está bulindo o amor e pensando que fará. Não
cabe em si, como na terra parece que não cabe aquela água, senão
que a lança de si. Assim está a alma muito habitualmente, que não
sossega nem cabe em si com o amor que tem; já ele a tem embebida
em si. Quereria que outras bebessem, pois a ela não lhe faz falta,
para que a ajudassem a louvar a Deus. Oh! quantas vezes me
recordo da água viva de que falou o Senhor à Samaritana! E assim
sou muito afeiçoada àquele Evangelho, e certo é que, sem entender
como agora este bem, já o era desde muito criança e suplicava
muitas vezes ao Senhor que me desse daquela água e, onde eu
estava sempre, tinha um quadro, de quando o Senhor chegou ao
poço, com este letreiro: “Domine, da mihi aquam”.
20. Parece também como um fogo que é grande e, para que não se
apague, é preciso que tenha que queimar. São assim as almas que
digo. Ainda que fosse muito à sua custa, quereriam trazer lenha para
que não cessasse este fogo. Eu sou tal que, até com palhas que
pudesse lançar nele, me contentaria. E assim me acontece algumas
e muitas vezes: umas, eu me rio e outras me aflijo muito. O
movimento interior incita-me a que sirva em algo - já que não sou
para mais - em pôr ramitos e flores em imagens, em varrer, em
compor um oratório, em umas coisitas tão baixas que me fazia
confusão. Se fazia ou faço alguma penitência, era tudo pouco e de
maneira que, a não aceitar o Senhor a vontade, via que era sem
nenhum préstimo, e eu mesma me ria de mim.
Pois não têm pouco trabalho as almas a quem Deus dá, por Sua
bondade, este fogo de Seu amor em abundância, se lhes faltarem
forças corporais para fazer alguma coisa por Ele. É uma pena bem
grande; porque, como lhe faltam forças para deitar alguma lenha
neste fogo e ela morre para que não se apague, parece-me que
dentro de si ela se consome e se faz cinza e desfaz em lágrimas e se
queima; e é grande tormento, embora saboroso.
21. Louve muito e muito ao Senhor a alma que chegou aqui e a quem
Ele dá forças corporais para fazer penitência, ou lhe deu letras e
talentos e liberdade para pregar e confessar e levar almas a Deus,
que não sabe nem entende o bem que tem, se não chegou a
experimentar o que é não poder nada no serviço do Senhor e
receber sempre muito. Seja bendito por tudo e dêem-Lhe glória os
anjos. Amém.
22. Não sei se faço bem em escrever tantas minudências. Como V.
Mercê me tornou a mandar que não se me desse nada de me
alongar, nem deixasse nada por dizer, vou tratando com clareza e
verdade tudo que me recordo. E não pode deixar de ficar muito por
dizer, porque teria de gastar muito mais tempo, e tenho tão pouco
como tenho dito, e porventura para não tirar nenhum proveito.

CAPÍTULO 30. Retoma a narração da sua vida e diz como o
Senhor remediou muito os seus trabalhos trazendo ao lugar
onde ela estava o santo homem Frei Pedro de Alcântara, da
ordem do glorioso S. Francisco. Trata também de grandes
tentações e trabalhos interiores que tinha algumas vezes.
1. Vendo eu, pois, o pouco ou nada que conseguia fazer para não ter
estes ímpetos tão grandes, também já eu temia de os ter; porque
dor e alegria, não podia eu entender como podiam andar juntos.
Dor corporal e alegria espiritual, já eu sabia que era bem
possível; mas tão excessiva dor espiritual e com tão grandíssimo
gosto, isto me desatinava.
Nem mesmo cessava em procurar resistir-lhe, mas podia tão pouco,
que algumas vezes me cansava. Amparava-me com a cruz e queria me
defender d'Aquele que com ela nos amparou a todos. Via que
ninguém me entendia, que isto era muito claro para mim; mas não o
ousava dizer senão a meu confessor, porque seria dizer, bem de
verdade, que não tinha humildade.
2. Foi o Senhor servido de remediar grande parte do meu trabalho - e
por então todo ele - em trazer a este lugar o bendito Frei Pedro de
Alcântara, de quem já fiz menção e disse um pouco da sua
penitência. Entre outras coisas, certificaram-me que durante vinte
anos tinha trazido continuamente um cilício de folhas de lata. É
autor de uns pequenos livros de oração que agora se usam muito,
em língua vulgar, porque, como quem a tinha bem exercitado,
escreveu muito proveitosamente para os que a têm. Guardou a
primeira Regra do Bem-aventurado S. Francisco com todo o rigor, e
mais um pouco que lá fica dito.
3. Soube pois a viúva; serva de Deus e minha amiga de quem tenho
falado, que estava aqui tão grande homem. Sabia minha necessidade,
pois era testemunha das minhas aflições e me consolava muito; era
tanta a sua fé que não podia deixar de crer que era espírito de Deus
o que todos os mais diziam ser do demônio. Como é pessoa de
muito bom entendimento e de muito segredo e a quem o Senhor
fazia muitas graças na oração, quis Sua Majestade dar-lhe luz no
que os letrados ignoravam. Davam-me licença meus confessores
para que me descansasse nela, comunicando-lhe algumas coisas
que então tinha, pois por muitas razões era digna disso. Cabia-lhe,
algumas vezes, parte das mercês que o Senhor me fazia, com avisos
muito proveitosos para sua alma.
Pois, assim que o soube, para que mais facilmente pudesse tratar
com ele, sem dizer-me nada, alcançou licença do meu Provincial
para que estivesse oito dias em sua casa. Aí e em algumas Igrejas
falei com ele muitas vezes, nesta primeira vez que aqui esteve; e
depois em diversos tempos comuniquei muito com ele. Dei-lhe
conta, em suma, da minha vida e maneira de proceder na oração
com a maior clareza que eu soube. Isto tenho eu tido sempre: tratar
com toda a claridade e verdade com aqueles a quem comunico a
minha alma. Até os primeiros movimentos quisera eu lhes fossem
manifestos, e nas coisas mais duvidosas e de suspeita eu os arguia
com razões contra mim. Assim, sem fingimento e subterfúgio, tratei com
ele da minha alma.
4. Quase logo no princípio vi que me entendia, por experiência, e
isto era tudo o que eu precisava. É que então eu não me sabia
entender, como agora, para o saber dizer, que depois recebi de Deus
o saber compreender e dizer as graças que Sua Majestade me faz.
Era, pois, preciso que tivesse passado por isso quem de todo me
entendesse e declarasse o que era. Ele deu-me grandíssima luz;
porque, pelo menos nas visões que não eram imaginárias, eu não
podia entender o que podia ser aquilo, e, nas que via com os olhos
da alma, tão pouco entendia como podia ser; pois, como tenho dito,
só era das que se vêem com os olhos corporais, que me parecia a
mim que havia de fazer caso, e estas não as tinha eu.
5. Este santo homem deu-me luz em tudo e tudo me explicou. Disse-me
que não tivesse pena, mas sim louvasse a Deus e estivesse tão
certa de que era espírito Seu que, a não ser a fé, coisa mais
verdadeira não podia haver, nem que tanto se pudesse crer.
Consolava-se muito comigo e dava-me todo o seu favor e graça, e
sempre depois teve muito cuidado de mim e dava-me parte de suas
coisas e negócios. E como me via com desejos do que ele já pusera
por obra - pois estes dávamos o Senhor muito decididos -, e me via
com tanto ânimo, gostava de tratar comigo. É que, para aqueles a
quem o Senhor chega a este estado, não há prazer nem consolo que
iguale ao de topar com pessoas a quem lhes parece ter o Senhor
concedido princípios disto mesmo. Então não devia eu ter muito
mais, ao que me parece, e praza ao Senhor que o tenha agora!
6. Teve grandíssima pena de mim. Disse-me que um dos maiores
trabalhos deste mundo era o que eu tinha padecido, que é a
contradição dos bons; ainda me restava muito a padecer, porque
sempre teria necessidade de ajuda e não havia nesta cidade quem
me entendesse. Ele falaria, no entanto, ao que me confessava e a um
dos que mais penas me dava, que era este cavalheiro casado de
quem já falei. Este, como quem me tinha maior amizade, me fazia
toda a guerra; é alma temerosa e santa, e, como pouco antes me
tinha visto tão ruim, não acabava de se tranquilizar.
E assim o fez este santo homem, que lhes falou a ambos e lhes deu
causas e razões para que se tranquilizassem e não me inquietassem
mais. O confessor de pouco precisava, mas o cavalheiro tanto, que
ainda de todo não bastou; contribuiu porém, para que não me
amedrontasse tanto.
7. Ficámos combinados em eu lhe escrever de aí em diante o que me
sucedesse de novo, e de mutuamente nos encomendarmos muito a
Deus. Era tanta a sua humildade que tinha em conta as orações
desta miserável. Era muita a minha confusão. Deixou-me com
grandíssimo consolo e contentamento e fez com que eu tivesse
oração com segurança e não duvidasse de que era de Deus. Daquilo
do que eu tivesse alguma dúvida e tudo para maior segurança,
desse parte ao confessor e com isto vivesse tranquila.
Mas nem assim eu podia ter essa segurança de todo em todo,
porque me levava o Senhor por caminho de temer, crendo que era
demônio quando me diziam que o era. Ninguém podia, no entanto,
fazer com que eu tivesse temor ou segurança de maneira a que lhes
pudesse dar mais crédito do que aquele que o Senhor punha na
minha alma. Assim é que, embora me consolasse e sossegasse, não
lhe dei tanto crédito, para ficar de todo sem temor, em especial
quando o Senhor me deixava nos trabalhos de alma que agora direi.
Contudo fiquei - como digo -, muito consolada.
Não me fartava de dar graças a Deus e ao glorioso Pai S. José, pois
me pareceu que o trouxera, porque era Comissário Geral da
Custódia de S. José, a quem eu muito me encomendava e a Nossa
Senhora.
8. Acontecia-me algumas vezes - e ainda agora me acontece, embora
não tantas - estar com grandíssimos trabalhos de alma e ao mesmo
tempo com tormentos e dores no corpo, de males tão fortes que não
me podia valer.
Outras vezes tinha males corporais muito graves e, como não tinha
os da alma, passava-os com muita alegria. Mas, quando era tudo
junto, era tão grande trabalho que me via na maior aflição. Todas as
mercês que o Senhor me fizera se me olvidavam; só me ficava
memória como de coisa que se sonhou, para dar pena. É que se
entorpece o entendimento de modo que me fazia andar com mil
dúvidas e suspeitas, parecendo-me que não o tinha entendido bem e
que talvez fosse ilusão minha. Bastava que andasse eu enganada,
sem que enganasse os bons. Parecia-me ser eu tão má, que,
quantos males e heresias se tinham levantado, eram por meus
pecados.
9. Esta é uma humildade falsa que o demônio inventava para
desassossegar-me e, tentar se podia, trazer a alma ao desespero.
Tenho já tanta experiência que é coisa de demônio, que ele, como já
vê que o entendo, não me atormenta nisto tantas vezes como
costumava. Isto vê-se claramente na inquietação e desassossego
com que começa, no alvoroço que dá na alma todo o tempo que
dura, na escuridão e aflição que nela deixa, na secura e má
disposição para a oração e para qualquer bem. Dir-se-ia que afoga a
alma e ata o corpo para que de nada aproveite. Porém, a humildade
verdadeira, embora a alma se conheça por ruim e nos dê pena ver o
que somos e pensemos grandes encarecimentos da nossa maldade,
tão grandes como os que ficam ditos e se sintam de verdade, não
vem com alvoroço, nem desassossega a alma, nem a escurece, nem
traz secura. Antes, pelo contrário - pois é tudo ao revés -, a regala
com quietude, com suavidade, com luz. Pena que, por outra parte,
conforta por ver quão grande graça lhe faz Deus em lhe dar aquela
pena e quão bem empregada é. Dói-lhe o que ofendeu a Deus e, por
outra parte, a Sua misericórdia a dilata. Tem luz para se confundir a
si mesma e louva a Sua Majestade porque tanto lhe sofreu.
Nesta outra humildade, que insinua o demônio, não há luz para
nenhum bem; tudo lhe parece põe Deus a fogo e a sangue.
Representa-lhe a justiça e, embora tenha fé de que há misericórdia,
porque o demônio não pode tanto que a faça perder, é de maneira a
não me consolar, antes, quando olha a tão grande misericórdia, a
ajuda a maior tormento, porque parece que estava obrigada a mais.
10. É uma invenção do demônio das mais penosas e sutis e
dissimuladas que tenho conhecido dele, e assim quisera avisar V
Mercê para que, se por aqui o tentar, tenha alguma luz e o conheça,
se ele lhe deixar entendimento para o perceber. Não pense que
bastam letras e saber, pois embora a mim tudo me falte, depois que
saio disto, bem vejo que é desatino. O que tenho entendido é que o
Senhor assim o quer é permite e dá licença ao demônio, como lha
deu para que tentasse a Jó, embora a mim - como a ruim - não seja
com aquele rigor.
11. Tem-me acontecido e me recordo ter sido um dia antes da
véspera do Corpus Christi, festa de que sou devota, embora não
tanto como devia. Desta vez durou-me só até ao dia, que de outras
vezes durou-me oito e quinze dias e até três semanas e não sei se
mais, em especial as Semanas Santas em que costumo ter as
minhas delícias de oração. Acontece-me que o demônio me prende
de repente o entendimento, com coisas tão ridículas às vezes, que
em outras ocasiões me riria delas, e o faz estar transtornando tudo o
que ele quer. A alma ali se fica aferrolhada, sem ser senhora de si,
sem poder pensar outra coisa mais que nos disparates que ele lhe
representa, que quase não têm tomo, nem atam nem desatam; só
atam para oprimir a alma de maneira que não cabe em si. É assim
que metem acontecido: parecer-me que andam os demónios como
que jogando à bola com a alma e sem ela conseguir livrar-se de seu
poder.
Não se pode dizer o que neste caso se padece; ela anda a buscar
amparo e permite Deus que não o encontre; só fica sempre a razão
do livre arbítrio, mas não clara. Digo eu que deve ser quase como
ter vendados os olhos, como uma pessoa que muitas vezes tem ido
por um caminho que, embora seja de noite e às escuras, pelo tino
anterior, já sabe onde pode tropeçar, porque o tem visto de dia e
guarda-se daquele perigo. Assim é aqui para não ofender a Deus,
parece que se vai pelo costume. Deixemos de parte o mantê-la o
Senhor, que é o que faz ao caso.
12. A fé está então tão acalmada e adormecida como todas as
demais virtudes, embora não perdida, pois que bem acredita o que a
Igreja crê e tem por verdade, mas pronunciado com a boca, e parecelhe,
por outro lado, que a apertam e entorpecem; tem a impressão
que é quase como uma coisa que ouviu ao longe que ela conhece a
Deus.
O amor tem-no tão tíbio que, se ouve falar d'Ele, escuta como uma
coisa que crê ser assim, porque a Igreja o tem por verdade; mas não
tem memória daquilo que tem experimentado em si.
Ir rezar ou estar em solidão não é senão para lhe causar mais
angústia, porque o tormento que sente em si é incomportável. A meu
parecer, é um pouco cópia do inferno. Isto é assim, segundo o
Senhor me deu a entender numa visão, porque a alma se queima em
si, sem saber quem nem por onde lhe põem fogo, nem como fugir
dele, nem com que o apagar.
Pois, querer buscar remédio na leitura, é como se não soubesse ler.
Uma vez aconteceu-me ir ler uma vida dum santo a ver se me
embebia e consolava com o que ele padeceu, e ler quatro ou cinco
vezes outras tantas linhas e, apesar de ser em língua vulgar, menos
entendia delas no fim do que no princípio, e assim o deixei. Isto me
aconteceu muitas vezes; mas desta, me recordo mais em particular.
13. Ter, pois, conversação com alguém, é pior; porque o demônio
incute um espírito tão desabrido de ira, que me parece a todos
quereria comer, sem poder fazer mais nada. Alguma coisa parece,
no entanto, que faço em me ir à mão, ou fá-lo o Senhor em ter de
Sua mão a quem assim está, para que não diga nem faça contra
seus próximos coisa que os prejudique e em que ofenda a Deus.
Pois ir ao confessor, o certo é que muitas vezes me acontecia isto
que direi. Embora sendo tão santos como são os que neste tempo
tratei e trato, me diziam palavras e me ralhavam com uma aspereza
tal, que depois, quando eu lhas repetia, eles mesmos se espantavam
e me diziam que mais não estava em sua mão. Porque, ainda que
propusessem a si mesmos não o fazer de outras vezes, quando
tivesse semelhantes trabalhos de corpo e de alma, porque ficavam
depois com compaixão e até escrúpulo, e se determinavam a
consolar-me com piedade, não podiam. Não diziam eles palavras
más - digo em que ofendessem a Deus -, mas as mais desabridas
que se sofriam num confessor. Deviam pretender mortificar-me, e
embora outras vezes gostava e estivesse para o sofrer, então tudo
me era tormento.
Pois dá-me também para recear que os engano, e ia então a eles e
avisava-os muito deveras que se acautelassem de mim, que poderia
ser que os enganasse. Bem via eu que, com advertência, não o faria,
nem lhes diria mentira, mas tudo me era causa de temor. Um deles
me disse uma vez, pois entendeu a tentação, que não me afligisse,
porque embora eu quisesse enganá-lo, senso tinha ele pára não se
deixar enganar. Deu-me isto muita consolação.
14. Algumas vezes - e quase habitualmente, pelo menos o mais
frequente -, em acabando de comungar, descansava; e até algumas
vezes, em chegando ao Sacramento, logo no mesmo momento
ficava tão bem de alma e corpo, que eu me espantava. Não parece
senão que, num instante, se desfazem todas as trevas da alma, e
desponta o sol, conhecendo então as tontarias em que tinha estado
metida.
Outras vezes, com uma só palavra que me dizia o Senhor, como:
Não estejas aflita; não tenhas medo - como já deixei dito de outra
vez ou com ver alguma visão -; ficava de todo sã, como se nunca
tivesse tido nada. Regalava-me com Deus, queixava-me a Ele, como
consentia que tantos tormentos padecesse. Mas tudo isso era bem
pago, pois que quase sempre vinham depois em grande abundância
as mercês.
Não me parece senão que a alma sai como o ouro do crisol, mais
afinada e clarificada para ver em si o Senhor. E assim se fazem
depois pequenos estes trabalhos, apesar de parecerem
incomportáveis, è se desejam tornar a padecer, se o Senhor disso
mais Se há-de servir. E, ainda que haja mais tribulações e
perseguições, conquanto se passem sem ofender o Senhor e de as
padecer por Ele, tudo é para maior lucro, embora eu não os leve
como se hão-de levar, senão muito imperfeitamente.
15. Outras vezes me vinham e vêm tribulações de outro género, que
de todo em todo me parece que se me tira a possibilidade de pensar
coisa boa, nem desejá-la fazer, e só me fica a alma e o corpo de todo
inútil e pesado; mas não tenho com isto essas outras tentações e
desassossegos, a não ser um desgosto, sem entender de quê, e
nada me contenta a alma. Procurava então fazer boas obras
exteriores para me ocupar um tanto à força, e reconheço bem o
pouco que é uma alma quando se esconde a graça. Não me causava
isto muita pena, porque, o ver assim minha baixeza, me dava alguma
satisfação.
16. Outras vezes, acho-me de modo que tão-pouco posso pensar
coisa ordenada a respeito de Deus, nem de bem que vá com algum
assento, nem ter oração, ainda que esteja em soledade; mas sinto
que O conheço. O entendimento e a imaginação entendo eu que é o
que aqui me prejudica, pois a vontade me parece que está boa e
disposta para todo o bem. Este entendimento, porém, está tão
perdido que não parece senão um louco furioso que ninguém
consegue atar, nem sou senhora de o fazer estar quedo, sequer o
tempo dum Credo. Algumas vezes me rio e conheço minha miséria,
fico a olhar para ela e deixo-a a ver o que faz; e -glória a Deus nunca
- por maravilha - vai a coisa má, mas sim indiferente: se há alguma
coisa a fazer aqui, ali ou acolá. Conheço, então, melhor a
grandíssima mercê que me faz o Senhor quando está atado este
louco em perfeita contemplação. Vejo o que seria se me vissem
neste desvario as pessoas que me têm por boa. Tenho grande
lástima de ver a alma em tão má companhia. Desejo vê-la com
liberdade, e assim digo ao Senhor: quando, Deus meu, chegarei
finalmente a ver a minha alma toda unida em Vosso louvor, de modo
a que Vos gozem todas as potências? Não permitais já, Senhor, que
seja assim despedaçada, que não parece senão que cada pedaço
anda disperso por seu lado.
Isto, padeço eu muitas vezes. Algumas bem entendo que faz muito
ao caso a pouca saúde corporal. Recordo-me muito do dano que nos
fez o primeiro pecado e que daqui nos vem, penso eu, o sermos
incapazes de gozar de tanto bem em um ser, e devem ser os meus
que, se eu não tivesse cometido tantos, estaria com mais inteireza
no bem.
17. Passei também outro grande trabalho pois, como me parecia
entender todos os livros que lia, que tratam de oração, e que o
Senhor já me tinha dado aquilo, achei que não tinha necessidade
deles e assim não os lia, mas sim, vidas de santos, porque como eu
me vejo tão falha no que eles serviam a Deus, isto parece que me
aproveita e anima. Parecia-me pouca humildade pensar que já tinha
chegado a ter aquela oração; e como não podia conseguir de mim
mesma pensar outra coisa, dava-me isto muita pena, até que
letrados e o bendito Frei Pedro de Alcântara me disseram que não
fizesse caso. Bem vejo eu que, no servir a Deus, ainda não comecei -
embora no fazer-me Sua Majestade mercês seja como aos muito
bons - e que sou a mesma imperfeição, a não ser nos desejos e em
amor, pois nisto bem vejo me favoreceu o Senhor, para que O possa
servir em alguma coisa. Bem me parece a mim que O amo, mas as
obras me desconsolam e as muitas imperfeições que veio em mim.
18. Outras vezes dá-me uma tontice de alma -digo eu que é-, pois,
nem bem nem mal me parece que faço, senão andar na peugada das
pessoas, como dizem; sem pena nem glória, nem lhe dá vida, nem
morte, nem prazer, nem pesar. Nem parece que se sinta nada.
Parece-me a mim que anda a alma como um jumentinho que pasta,
que se sustenta porque lhe dão de comer e come quase sem o
sentir. É que, neste estado, a alma não deve estar sem comer
algumas grandes mercês de Deus, pois em vida tão miserável não
lhe pesa viver e leva isto com igualdade de ânimo, mas não se
sentem movimentos nem efeitos para que a alma o entenda.
19. Parece-me agora a mim que é como um navegar com o vento
muito sereno, que se anda muito sem entender como. Nestas outras
maneiras são tão grandes os efeitos, que a alma vê quase logo sua
melhoria, porque fervem os desejos e nunca acaba a alma de se
satisfazer. Isto têm os grandes ímpetos de amor, que tenho dito, a
quem Deus os dá. É como umas fontezinhas que eu tenho visto
manar, que nunca cessam de fazer mover a areia para cima.
Bem natural me parece este exemplo ou comparação das almas que
aqui chegam; sempre está bulindo o amor e pensando que fará. Não
cabe em si, como na terra parece que não cabe aquela água, senão
que a lança de si. Assim está a alma muito habitualmente, que não
sossega nem cabe em si com o amor que tem; já ele a tem embebida
em si. Quereria que outras bebessem, pois a ela não lhe faz falta,
para que a ajudassem a louvar a Deus. Oh! quantas vezes me
recordo da água viva de que falou o Senhor à Samaritana! E assim
sou muito afeiçoada àquele Evangelho, e certo é que, sem entender
como agora este bem, já o era desde muito criança e suplicava
muitas vezes ao Senhor que me desse daquela água e, onde eu
estava sempre, tinha um quadro, de quando o Senhor chegou ao
poço, com este letreiro: “Domine, da mihi aquam”.
20. Parece também como um fogo que é grande e, para que não se
apague, é preciso que tenha que queimar. São assim as almas que
digo. Ainda que fosse muito à sua custa, quereriam trazer lenha para
que não cessasse este fogo. Eu sou tal que, até com palhas que
pudesse lançar nele, me contentaria. E assim me acontece algumas
e muitas vezes: umas, eu me rio e outras me aflijo muito. O
movimento interior incita-me a que sirva em algo - já que não sou
para mais - em pôr ramitos e flores em imagens, em varrer, em
compor um oratório, em umas coisitas tão baixas que me fazia
confusão. Se fazia ou faço alguma penitência, era tudo pouco e de
maneira que, a não aceitar o Senhor a vontade, via que era sem
nenhum préstimo, e eu mesma me ria de mim.
Pois não têm pouco trabalho as almas a quem Deus dá, por Sua
bondade, este fogo de Seu amor em abundância, se lhes faltarem
forças corporais para fazer alguma coisa por Ele. É uma pena bem
grande; porque, como lhe faltam forças para deitar alguma lenha
neste fogo e ela morre para que não se apague, parece-me que
dentro de si ela se consome e se faz cinza e desfaz em lágrimas e se
queima; e é grande tormento, embora saboroso.
21. Louve muito e muito ao Senhor a alma que chegou aqui e a quem
Ele dá forças corporais para fazer penitência, ou lhe deu letras e
talentos e liberdade para pregar e confessar e levar almas a Deus,
que não sabe nem entende o bem que tem, se não chegou a
experimentar o que é não poder nada no serviço do Senhor e
receber sempre muito. Seja bendito por tudo e dêem-Lhe glória os
anjos. Amém.
22. Não sei se faço bem em escrever tantas minudências. Como V.
Mercê me tornou a mandar que não se me desse nada de me
alongar, nem deixasse nada por dizer, vou tratando com clareza e
verdade tudo que me recordo. E não pode deixar de ficar muito por
dizer, porque teria de gastar muito mais tempo, e tenho tão pouco
como tenho dito, e porventura para não tirar nenhum proveito.
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