Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Prossegue o assunto começado e diz algumas grandes graças que lhe fez o Senhor e as coisas que Sua Majestade lhe dizia para a assegurar e para que respondesse aos que a contradiziam.

LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

 
CAPÍTULO 29. Prossegue o assunto começado e diz algumas
grandes graças que lhe fez o Senhor e as coisas que Sua
Majestade lhe dizia para a assegurar e para que respondesse
aos que a contradiziam.

1. Muito saí do propósito, pois que tratava de dizer as causas que há
para se ver que não é imaginação; porque, como poderíamos, com
esforço, representar a Humanidade de Cristo e ir ordenando com a
imaginação a Sua grande formosura? E não seria necessário pouco
tempo, se nalguma coisa se houvesse de parecer com ela. Bem pode
alguém representá-la na imaginação e fixá-la durante algum tempo, e
os traços que tem, e a sua brancura, e, pouco a pouco, ir
aperfeiçoando mais e imprimindo na memória aquela imagem. Isto,
quem lho impede, pois com o entendimento o pode fabricar?

No que tratamos, nada podemos fazer para isto, senão que a temos
de ver quando o Senhor a quer representar e como quer e o que
quer. Não há tirar nem pôr, nem modo para isso, por mais que
façamos, nem para vê-Lo quando queremos, nem para O deixar de
ver. Em querendo fixar alguma coisa particular, logo se perde a
visão de Cristo.

2. Dois anos e meio me durou isto, muito frequentemente me fazia
Deus esta mercê. Haverá mais de três anos que Ele deixou de ma
fazer tão de contínuo e substituiu-a por outra mais subida, como
talvez direi depois. Via que me estava falando e eu contemplando
aquela grande formosura e a suavidade, com que dizia aquelas
palavras por aquela formosíssima e divina boca, e outras vezes com
rigor desejar eu perceber a cor de Seus olhos e do tamanho que
eram, para o saber dizer, jamais mereci vê-lo, nem me serve de nada
procurá-lo, antes se me esvai de todo a visão. É verdade que
algumas vezes vejo que olha para mim com piedade, mas tem tanta
força este olhar, que a alma filão o pode sofrer e fica em tão subido
arroubamento que, para melhor O gozar todo, perde esta formosa
vista. Assim, aqui, não há querer e não querer. Vê-se claramente que
o Senhor quer que não haja senão humildade e confusão, e tomar o
que nos derem e louvar a Quem o dá.

3. Isto acontece em todas as visões, sem excepção, pois nenhuma
coisa se pode, nem para ver menos nem mais faz ou desfaz a nossa
diligência. Quer o Senhor que vejamos com muita clareza que isto
não é obra nossa, senão de Sua Majestade. É que, assim, muito
menos podemos ter soberba; antes nos faz permanecer humildes e
temerosos, vendo que, do mesmo modo como o Senhor nos tira o
poder para ver o que queremos, assim nos pode também tirar estas
mercês e a graça, e ficarmos perdidos de todo. Quer que sempre
andemos com medo, enquanto vivemos neste desterro.

4. Quase sempre se me representava o Senhor assim ressuscitado e
na Hóstia do mesmo modo, a não ser algumas vezes em que, para
me esforçar, se estava em tribulação, me mostrava as Chagas;
algumas vezes na Cruz e no Horto; com a coroa de espinhos,
poucas vezes; levando a cruz também algumas, para - como digo -
necessidades minhas e também de outras pessoas, mas sempre a
carne glorificada.

Fartas afrontas e trabalhos passeiem dizê-lo e fartos temores e
fartas perseguições. Tão certo lhes parecia que eu tinha demônio,
que algumas pessoas me queriam exorcizar. Disto, a mim pouco se
me dava; mais sentia quando via que temiam os confessores de
confessar-me ou quando sabia que de mim lhes diziam alguma
coisa. Contudo, jamais podia ter pesar de ter visto estas visões
celestiais, e nem por todos os bens e deleites do mundo eu as
trocaria sequer por uma só vez que delas gozei. Sempre tive isto por
grande mercê do Senhor e me parece um grandíssimo tesouro, e o
mesmo Senhor mo assegurava muitas vezes. Eu mesma me via
crescer em O amar muitíssimo; ia-me queixar a Ele de todos estes
trabalhos; e sempre saía consolada da oração e com novas forças. A
eles não ousava eu contradizer, porque via que era tudo pior, pois
lhes parecia pouca humildade. Com o meu confessor tratava; ele
consolava-me sempre muito quando me via aflita.

5. Como as visões foram crescendo, um deles, que antes me ajudava
(com quem me confessava algumas vezes quando o ministro não
podia), começou a dizer que era claro ser obra do demónio.
Mandaram-me, visto não me ser possível resistir, que me benzesse
quando visse alguma visão, e fizesse figas, porque podia ter por
certo que era demônio, e com isto ele não viria e que não tivesse
medo, pois Deus me guardaria e me tiraria estas visões. Para mim
era isto causa de grande pesar, porque, como não podia crer senão
que era Deus, era coisa terrível para mim. E tão-pouco podia desejar
- como tenho dito - que me fossem tiradas; mas, enfim, fazia quanto
me mandavam. Suplicava muito ao Senhor que me livrasse de ser
enganada. Isto sempre o fazia e com muitas lágrimas e o pedia a S.
Pedro e a S. Paulo porque o Senhor me disse - como foi no seu dia
que Ele me apareceu pela primeira vez - que eles me guardariam
para que não fosse enganada. E assim os via muitas vezes ao meu
lado esquerdo muito claramente, embora não por visão imaginária.
Eram estes gloriosos santos muito meus senhores.

6. Dava-me grandíssima pena ter de fazer figas, quando via esta
visão do Senhor. É que, quando eu O via presente, embora me
fizessem em pedaços, não poderia crer que era o demónio, e assim
isto foi um género de penitência bem grande para mim e, para não
me andar tanto a benzer, tomava uma cruz na mão. Isto fazia-o
quase sempre; as figas não tão de contínuo, porque sentia-o muito.

Lembrava-me das injúrias que Lhe tinham feito os judeus e
suplicava-Lhe me perdoasse, porque o fazia para obedecer a quem
Ele tinha em Seu lugar e que não me culpasse, pois eram os
ministros que ele tinha posto na Sua Igreja. Dizia-me o Senhor que
não me perturbasse com isso, que fazia bem em obedecer, mas Ele
faria com que se entendesse a verdade.

Quando me tiraram a oração, pareceu-me que ficara magoado; disseme
que lhes dissesse que aquilo já era tirania. Dava-me razões para
que entendesse que não era demónio; algumas direi depois.

7. Uma vez, tendo eu a cruz na mão, que a trazia num rosário, pegou
nela o Senhor com a Sua e quando ma tornou a dar tinha quatro
pedras grandes, muito mais preciosas que diamantes e isto sem
comparação. É que nem quase mesmo a pode haver com o que se
vê de sobrenatural, pois o diamante parece coisa contrafeita e
imperfeita à vista das pedras preciosas que lá se vêem. Tinha as
cinco chagas de muito linda feitura. Disse-me o Senhor que assim a
veria de aí em diante, e assim foi que não via a madeira de que era
feita, senão estas pedras; mas isto a ninguém acontecia senão a
mim.

Desde que me mandaram fazer estas tais provas e resistir, foi muito
maior o crescimento das mercês. E em me querendo distrair, nunca
saia de oração; até dormindo me parecia que estava nela. Então
cresciam o amor e as queixas que eu fazia ao Senhor, pois não
podia sofrer, nem estava na minha mão, deixar de pensar n 'Ele, por
mais que eu quisesse e por mais que me esforçasse. Contudo,
obedecia quando podia, mas nisto pouco ou nada podia e o Senhor
nunca me dispensou de obedecer. Mas, ainda que me dizia para o
fazer, assegurava-me, por outro lado, e ensinava-me o que lhes
havia de dizer, e assim ainda o faz agora. Dava-me razões tão fortes
que a mim me incutiam inteira segurança.

8. Dentro de pouco tempo começou Sua Majestade, como mo tinha
prometido, a mostrar mais claramente que era Ele, crescendo em
mim um amor tão grande de Deus que não sabia quem mo infundia,
porque era muito sobrenatural, nem eu o procurava. Via-me morrer
com desejo de ver a Deus e não sabia aonde havia de buscar esta
vida, a não ser com a morte. Davam-me uns ímpetos tão grandes
deste amor que, embora não fossem tão insofríveis como os que já
de outra vez tenho dito, nem de tanto valor, eu não sabia que fazer
de mim. Nada me satisfazia, nem eu cabia em mim, senão que
verdadeiramente me parecia que se me arrancava a alma. Oh!
artifício soberano do Senhor, de que indústria tão delicada usáveis
para com a Vossa escrava miserável! Escondíeis-Vos de mim e
apertáveis-me com Vosso amor com uma morte tão saborosa que
nunca a alma quereria sair dela.

9. Quem não tiver passado por estes ímpetos tão grandes,
impossível é podê-lo entender; não é desassossego do peito, nem
umas devoções que costumam dar muitas vezes, que parece afogam
o espírito, que não cabe em si. Esta oração é mais baixa e devem-se
reprimir estes ímpetos procurando, com suavidade, recolhê-los
dentro de si e acalmar a alma. Pois isto é como meninos que têm um
choro acelerado, e parece que se vão abafar, e com dar-lhes de
beber, cessa aquele demasiado sentimento. Assim aqui: a razão
procure atalhar, retesando a rédea, porque poderia ser que para isto
concorresse o mesmo natural. Volte a consideração com o temor de
que nem tudo aquilo é perfeito, mas que nisto pode ter muita parte a
sensibilidade e acalme esta criança com um regalo de amor que a
faça mover a amar com suavidade e não aos empurrões, como
dizem. Recolha este amor dentro de si e não seja como panela que
ferve demasiado, porque pondo lenha sem discrição, se derrama
toda. Modere a causa que lhe serviu para atear esse fogo e procure
abafar a chama com lágrimas suaves e não penosas, como são as
destes sentimentos, que fazem muito dano. Eu as tive algumas
vezes nos princípios e deixavam-me com a cabeça perdida e o
espírito cansado, de sorte que no outro dia, e até por mais tempo,
não estava em condições de voltar à oração. Assim, pois, é mister
grande discrição nos princípios para que tudo vá com suavidade e
se disponha o espírito a obrar interiormente; procure-se evitar muito
o exterior.

10. Estes outros ímpetos são diferentíssimos. Não pomos nós a
lenha, antes parece que, aceso já o fogo, de súbito nos lançam nele
para que nos queimemos. Não procura a alma que lhe doa esta
chaga da ausência do Senhor, mas cravam-lhe, por vezes, uma seta
no mais vivo das entranhas e do coração, que ela não sabe o que
tem, nem o que quer. Bem entende que quer a Deus, e que a seta
parece vir ervada para se aborrecer a si mesma por amor deste
Senhor e que perderia, de boa vontade, a vida por Ele.
Não se pode encarecer nem dizer o modo como Deus chaga a alma,
e a grandíssima pena que dá, de modo que a faz não saber de si;
mas esta é pena tão saborosa, que não há deleite na vida que mais
contento dê. Sempre a alma quereria, como tenho dito, estar
morrendo deste mal.

11. Esta junção de pena e glória trazia-me desatinada, pois não
podia entender como aquilo podia ser. Oh! o que é ver uma alma
ferida! Pois digo que se entende de maneira que bem se pode dizer
ferida por tão excelente causa e vê claramente que não fez nada por
onde lhe viesse este amor, mas parece-lhe que, do muito grande que
o Senhor lhe tem, caiu nela de repente aquela centelha que a faz
arder toda. Oh! quantas vezes me recordo, quando assim estou,
daquele verso de David: “Quemadmodum desiderat cervus ad fontes
aquarum”. Dir-se-ia que o vejo cumprir-se literalmente em mim!

12. Quando isto não dá com tanta força, parece que se aplaca um
pouco, pelo menos a alma busca remédio - pois não sabe que fazer -
com algumas penitências. Estas, porém, não se sentem, nem mesmo
causa mais dor o derramar sangue do que se o corpo estivesse
morto. Busca modos e maneiras para fazer alguma coisa em que
padeça por amor de Deus, mas é tão grande a primeira dor, que eu
não conheço tormento corporal que lha tirasse. Como não está nisto
o remédio, são demasiado baixas estas medicinas para tão subido
mal; todavia aquieta-se um pouco e algo disto passa, pedindo a
Deus lhe dê remédio para seu mal; e nenhum vê senão a morte, pois
só com esta, pensa poder gozar de todo do seu Bem. Outras vezes é
tão forte este ímpeto que nem isto, nem mesmo nada, se consegue
fazer. Tolhe todo o corpo e nem pés, nem braços pode menear; se
está em pé, cai sentada como coisa inanimada. Não pode nem
mesmo respirar, só dá uns gemidos, não grandes, porque mais não
pode; são-no, porém, no sentimento.

13. Quis o Senhor que viesse então algumas vezes esta visão. Via
um anjo ao pé de mim, para o lado esquerdo, em forma corporal,zz o
que não costumo ver senão por maravilha. Ainda que muitas vezes
se me representam anjos, é sem os ver, senão como na visão
passada, que disse antes. Nesta visão quis o Senhor que o visse
assim: não era grande mas pequeno, formoso em extremo, o rosto
tão incendido, que parecia dos anjos mais sublimes que parecem
todos se abrasam. Devem ser os que chamam Querubins, que os
nomes não mos dizem, mas bem vejo que no Céu há tanta diferença
duns anjos a outros e destes outros a outros, que não o saberia
dizer. Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da
ponta de ferro, me parecia que tinha um pouco de fogo. Parecia-me
meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às
entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava
toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que
me fazia dar aqueles queixumes e tão excessiva a suavidade que me
causava esta grandíssima dor, que não se pode desejar que se tire,
nem a alma se contenta com menos de que com Deus. Não é dor
corporal mas espiritual, embora o corpo não deixa de ter a sua parte,
e até muita. É um requebro tão suave que têm entre si a alma e Deus,
que suplico à Sua bondade o dê a gostar a quem pensar que minto.

14. Os dias que isto durava, andava como alienada; não queria ver
nem falar, senão abraçar-me com a minha pena, que era para mim
maior glória que quantas há em tudo o criado.
Isto me acontecia algumas vezes, quando quis o Senhor que me
viessem estes arroubamentos tão grandes que, até mesmo estando
entre muitas pessoas, não lhes podia resistir, e assim, com muita
pena minha, se começaram a divulgar. Desde que os tenho, não
sinto tanto esta pena, senão o que disse em outra parte - não me
recordo em que capítulo -, o qual é muito diferente em muitas coisas
e de maior preço; pois, em começando esta pena de que agora falo,
parece que o Senhor arrebata a alma e a põe em êxtase, e assim não
há lugar para ter pena nem padecer, porque vem logo o gozar.
Seja bendito para sempre, que tantas mercês faz a quem tão mal
corresponde a tão grandes benefícios.
 

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