Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila
CAPÍTULO 11. Diz a razão por que não se ama a Deus com
perfeição em tempo breve. Começa a declarar, em uma
comparação, quatro graus de oração. Vai tratando aqui do
primeiro. É muito proveitoso para os que começam e para os
que não têm gostos na oração.
1. Falando agora dos que começam a ser servos do amor -
não me parece outra coisa nos determinarmos a seguir
neste caminho da oração a Quem tanto nos amou - é uma dignidade
tão grande que me delicio estranhamente em pensar nela; porque o
temor servil logo desaparece se, neste primeiro estado, vamos como devemos ir.
Oh! Senhor da minha alma e Bem meu! Por que não quisestes que, querendo uma alma amar-Vos o quanto pode, deixar tudo para melhor se empregar neste amor de Deus, ela logo gozasse ao subir à posse deste amor perfeito? Disse mal: deveria ter dito e queixar-me por nós não querermos, pois toda a culpa é nossa de não se gozar logo de tão grande dignidade.
Pois, em chegando a ter este verdadeiro amor de Deus com perfeição, ele traz consigo todos os bens. Fazemo-nos, no entanto, tão difíceis e somos tão tardios em darmos tudo a Deus que, como Sua Majestade não quer que gozemos de coisa tão preciosa senão a grande preço, não acabamos de nos dispor.
2. Bem vejo que não há na terra tão grande bem que se possa comprar ; mas, se fizéssemos tudo o que pudermos para não nos
apegarmos às coisas dela, e todo o nosso cuidado e atos fosse com as coisas do Céu, creio sem dúvida que, muito em breve nos daria este bem, se, em breve, de tudo nos dispuséssemos, como alguns santos o fizeram.
Mas, quando parece que damos tudo, oferecemos a Deus a
renda e os frutos e ficamos com a raiz e a posse. Determinamos
ser pobres - e é de grande merecimento - mas muitas vezes
tornamos a ter cuidados e fazemos diligência para não nos faltar,
não só o necessário, senão também o supérfluo, e em procurar
amigos que nos dêem.
E assim pomo-nos em maior cuidado e, talvez em, perigo, para que nada nos falte do que antes tínhamos em possuir a fazenda.
Parece também que renunciamos à honra de ser religiosos ou ao já ter começado a ter vida espiritual e a seguir a perfeição, e não nos têm ainda tocado num ponto de honra, quando nos esquecemos que já a demos a Deus e nos queremos tornar a adornar com ela e a tomar-lhe - como dizem - das mãos. E depois de O termos -de livre vontade, ao que parece - feito Senhor dela!... Assim é com todas as outras coisas.
3. Estranha maneira de buscar amor de Deus! E logo o queremos às
mãos cheias, como se costuma dizer. Termos as nossas afeições,
visto que não procuramos efetuar nossos desejos, nem acabamos
de os levantar da terra e, muitas consolações espirituais, não está
bem nem me parece que se coadune uma coisa com a outra.
E assim, porque se não acaba de dar tudo junto, não colocamos
junto este tesouro. Praza ao Senhor que, gota a gota, no-lo dê Sua
Majestade, embora seja nos custando todos os trabalhos do mundo.
4. Muito grande misericórdia faz Ele a quem dá graça e ânimo para
se 'determinar a procurar este bem com todas as forças, porque,
quando se persevera, não se nega' Deus a ninguém.
Pouco a pouco vai habilitando o ânimo para que se saia com esta vitória. Digo ânimo, porque são tantas as dificuldades que o demônio apresenta a princípio para que não comecem de fato este
caminho, como quem sabe o dano que daqui lhe vem, porque não só
perde aquela alma mas muitas.
Se quem começa se esforça, com o favor de Deus, para chegar ao cume da perfeição, creio que jamais vai sozinho ao Céu; sempre leva muita gente atrás de si; como a bom capitão, dá-lhe Deus quem vá em sua companhia.
Põe-lhe diante o demônio tantos perigos e dificuldades, que é preciso muito ânimo para não voltar atrás, senão muito e muito favor de Deus.
5. Falando, pois, dos primeiros tempos dos que já estão determinados a prosseguir este bem e a sair-se com esta empresa
(que do resto, do que comecei a dizer de mística teologia - creio que se chama assim - falarei mais adiante), é nestes primeiros tempos que têm o maior trabalho; porque são eles os que trabalham, conquanto seja o Senhor a dar-lhes os meios para isso.
Nos outros graus de oração o mais é prazer, ainda que, primeiros, medianos e últimos, todos levem suas cruzes embora diferentes. Por este caminho, por onde foi Cristo, hão-de ir os que O seguem, se não se querem perder; e bem-aventurados trabalhos que ainda cá nesta vida tão sobejamente se pagam.
6. Terei de me aproveitar de alguma comparação, embora as
quisesse evitar por ser mulher e escrever simplesmente o que me
mandam; mas esta linguagem de espírito é tão má em declarar aos
que não têm letras, como eu, terei de buscar algum meio e
poderá ser que mais vezes não acerte com a comparação; servirá
para dar recreação a V. Mercê ver tanta ignorância.
Parece-me agora ter lido ou ouvido esta comparação, que, como
tenho má memória, nem sei onde nem a que propósito; mas, para o
meu, contenta-me agora. Há-de fazer conta, quem principia, que
começa a plantar um horto em terra muito infrutífera, que, temi muito más ervas, para que nele se deleite o Senhor.
Sua Majestade arranca as más ervas e vai plantando as boas. Façamos pois de conta que isto já está feito quando uma alma se determina a ter oração e já dela começou a usar. Com a ajuda de Deus, devemos procurar, como bons hortelãos, que cresçam estas plantas e ter cuidado de as regar para que se não percam, mas que venham a dar flores de grande perfume, a fim de recrear a este Senhor nosso e Ele venha deleitar-Se muitas vezes a este horto e a gozar entre estas virtudes.
7. Pois vejamos agora de que maneira se pode regar, para que
entendamos o que temos de fazer, o trabalho que nos há-de custar, se é maior que o ganho, e quanto tempo se há-de ter.
Parece-me a mim que se pode regar de quatro maneiras: ou
tirando água dum poço, que é à custa de grande trabalho; ou com aparelho hidráulico para tirar água do poço, em que se tira com um torno (tenho-a tirado assim algumas vezes) e é com menos trabalho que este outro e tira-se mais água; ou de um rio ou arroio, e com isto se rega muito melhor, pois fica mais farta a terra de água e não é preciso regar tão amiúde, e é com muito menos trabalho do hortelão; ou com chover muito, que a rega o Senhor sem trabalho nenhum nosso e é sem comparação muito melhor que tudo o que ficou dito.
8. Aplicar estas quatro maneiras de ter água, com que
se há-de sustentar este horto - porque, sem ela, se perderá -, é o que a mim me faz caso. Pareceu-me poder assim declarar algo de quatro graus de oração em que o Senhor, por Sua bondade, tem
posto algumas vezes a minha alma.
Praza a Sua bondade eu acerte a dizê-lo de maneira que aproveite uma das pessoas que me mandaram escrever. A esta tem o Senhor levado - em quatro meses - muito mais adiante do que eu estava ao fim de dezessete anos.
Tem-se disposto melhor e assim, sem trabalho seu, rega este
pomar com todas estas quatro águas; embora a última ainda não lhe seja dada senão em gotas; mas vai de modo que depressa se engolfe nela, com a ajuda do Senhor. Gostarei que se ria; se lhe parecer desatino a maneira de declarar.
9. Daqueles que começam a ter oração, podemos dizer que são os que tiram água do poço. É muito à sua custa, como tenho dito, porque se hão-de cansar em recolher os sentidos e, como estão acostumados a andar distraídos, é forte trabalho.
Têm necessidade de se irem acostumando a não lhes dar nada de ver nem ouvir, e até mesmo de o pôr por obra nas horas de oração, de estar em solidão e, apartados de tudo, pensar na sua vida passada embora isto, no entanto, primeiros e últimos, todos o hão-de fazer muitas vezes; ainda que haja mais e menos neste pensamento, como depois direi.
Ao princípio ainda lhes dá pesar, porque não acabam de perceber se se arrependem dos pecados; e,: sim, que o fazem, pois se determinam a servir a Deus tão verdadeiramente. Hão-de procurar pensar na vida de Cristo e cansa-se nisto o entendimento.
Até aqui nós o podemos conseguir por nós mesmos, entende-se
com o favor de Deus, pois sem ele já se sabe que nem podemos ter
um bom pensamento. Isto é começar a tirar água do poço, e praza
ainda a Deus que a haja! Ao menos não falta por nossa parte, pois a vamos tirar e fazemos o que podemos para regar estas flores.
E é Deus tão bom que, quando por motivos que Sua Majestade sabe - e porventura para grande proveito nosso -, Ele quer que o poço esteja seco, mesmo sem água sustenta as flores e faz crescer as virtudes, fazendo nós, como bons hortelãos, o que está em nossas mãos.
Chamo aqui água às lágrimas, e, embora não as haja, à ternura e ao
sentimento interior de devoção.
10. Que fará pois, aqui, quem vê durante muitos dias que não há
mais que secura e desgosto e dissabor, e sente tão má vontade para vir tirar água? Pois, tudo deixaria se não se lembrasse que dá prazer e serve ao Senhor da horta, e não olhasse a não perder tudo quanto já serviu, e ainda ao que espera ganhar com o grande trabalho que é deitar muitas vezes o balde ao poço e tirá-lo sem água?
E muitas vezes lhe acontecerá até nem para isto se lhe alçarem os braços, nem poder ter um bom pensamento, porque este trabalhar com o entendimento - entendido está - é o tirar água do poço.
Pois, como digo, que fará aqui o hortelão? Alegrar-se e consolar-se e ter por grandíssima graça o trabalharem horto de tão grande
Imperador. E visto saber que O alegra naquilo, e seu intento não
há-de ser de contentar-se a si mesmo senão a Ele, louve-O muito; o Senhor tem nele confiança pois vê que, sem pagar-lhe nada, tem tão grande cuidado do que lhe encomendou.
Ajude-O a levar a cruz e pense que toda a vida nela viveu. Não queira aqui seu reino, nem deixe jamais a oração; e assim determine-se - embora esta aridez lhe dure toda a vida - a não deixar Cristo cair sob o peso da cruz.
Tempo virá em que se lhe pague tudo por junto. Não tenha medo de perder o trabalho. A bom amo serve, para ele está olhando. Não faça caso de maus pensamentos; olhe que também os representava o demônio a São Jerônimo no deserto.
11. Têm seu preço estes trabalhos, que, como quem os passou
muitos anos, são grandíssimos, quando tirava uma gota de água
deste bendito poço pensava que me fazia Deus graça.
E parece-me que para estes trabalhos é preciso mais ânimo de que para outros muitos do mundo. Mas tenho visto claramente que Deus não os deixa sem grande prémio ainda nesta vida, pois é bem certo que, numa só hora das que, desde então para cá, o Senhor de Si mesmo me tem dado a gostar, ficam - a meu parecer - pagas todas as angústias que passei muito tempo para me manter em oração.
Tenho para mim que o Senhor quer dar muitas vezes no princípio, e outras vezes no fim, estes tormentos e outras muitas tentações que se oferecem, para experimentar a Seus amadores e saber se
poderão beber o cálice e ajudá-Lo a levar a cruz, antes de lhes
confiar grandes tesouros.
E para bem nosso, creio, quer Sua Majestade levar-nos por aqui, para entendermos bem o pouco que somos. É que depois as graças são de tão grande dignidade, que antes que no-las dê, quer que - por experiência - vejamos primeiro a nossa miséria, para que não nos aconteça como a Lúcifer.
12. Que fazeis Vós, Senhor meu, que não seja para maior bem da
alma que entendeis já ser Vossa e que se põe em Vosso poder para
seguir-Vos por onde fordes até à morte da cruz, e que está
determinada a ajudar-Vos a levá-la e a não Vos deixar só com ela?
Quem vir em si esta determinação, não, não tem que temer! Gente
espiritual não tem de que se afligir; postos já em tão alto grau, como é querer tratar a sós com Deus e deixar os passatempos do mundo, o mais difícil está feito. Louvai por isto a Sua Majestade e confiai na Sua bondade, porque nunca faltou a Seus amigos.
Tampai os olhos para não pensar, porque dá devoção àquele em tão poucos dias, e não a mim em tantos anos. Acreditemos que é tudo para maior bem somos nossos, senão Seus. Grande graça nos faz em querer que queiramos cavar no horto do qual é Senhor e permanecermos junto d'Ele que, de certeza, está conosco.
Se Ele quer que cresçam estas plantas e flores, a uns, com dar-lhes água que tiram deste poço, a outros, sem ela, que se me dá a mim? Fazei, Senhor, o que quiserdes, não Vos ofenda eu, não se percam as virtudes, se alguma já me destes, só por Vossa bondade.
Padecer quero, Senhor, pois Vós padecestes. Cumpra-se em mim de todas as maneiras a Vossa vontade e não praza a Vossa Majestade que coisa de tanto preço, como Vosso amor, se dê a gente que Vos serve só por gostos.
13. Há de se notar muito - e digo-o porque o sei por experiência -
que a alma que neste caminho espiritual de oração mental começa a
caminhar com determinação e pode por si mesma conseguir não
fazer muito caso, nem de se consolar nem desconsolar muito, quer
lhe faltem estes gostos e ternura, quer lhes dê o Senhor, tem já
andado grande parte do caminho.
Não tenha medo de voltar atrás, por mais que tropece, porque o edifício vai começado em firme fundamento. Sim, não está o amor de Deus em ter lágrimas nem nestes gostos e ternura, que na maior parte os desejamos e consolamos com eles, mas sim em servi-Lo com justiça e fortaleza de ânimo e humildade. Mais me parece isto receber, que darmos nós alguma coisa.
14. Para mulherzinhas como eu; fracas e com pouca fortaleza, parece-me convir o que Deus agora faz comigo: levar-me com delícias para que possa sofrer alguns trabalhos que Sua Majestade quis dar-me. Mas que servos de Deus, homens de tomo, de letras, de entendimento, façam tanto caso como vejo fazer, de que Deus não lhes dá devoção sensível, dá-me desgosto ouvir. Não digo que não a tomem, se Deus lhe der, e a tenham em muito, porque então terá Sua Majestade visto que convém; mas, quando a não tiverem, não se aflijam e entendam que não é necessária, pois Sua Majestade não a dá, e andem senhores de si. Creiam que é falta; eu o tenho experimentado e visto. Creiam que é imperfeição e não andar com liberdade de espírito, senão fracos para acometidas.
15. Isto não o digo tanto para os que começam, (embora faça tanto
finca-pé nisto, porque lhes importa muito começar com esta
liberdade e determinação), mas para outros; pois haverá muitos, e
há realmente, que começaram e nunca mais acabam.
E creio ter nisto grande parte este não abraçar a cruz desde o princípio, e andarão aflitos parecendo-lhes que não fazem nada! Em deixando obrar o entendimento, não o podem sofrer e, porventura, é então que cresça a vontade e cobra forças e eles não o entendem.
Temos de pensar que o Senhor não olha para estas coisas, que embora a nós nos pareçam faltas, não o são. Sua Majestade conhece a nossa miséria e baixo natural bem melhor do que nós mesmos, e sabe que estas almas já desejam pensar n'Ele e amá-Lo sempre.
Esta determinação é o que Ele quer; esta outra aflição, que damos a nós mesmos, não serve senão para inquietar a alma e, se
estava incapaz de aproveitar durante uma hora, esteja quatro.
Porque, muitas vezes nasce da indisposição corporal. Tenho grandíssima experiência disto e sei que é verdade, porque o tenho observado com cuidado e tratado depois com pessoas espirituais.
Somos tão miseráveis que, a encarceradinha desta pobre alma participa das misérias do corpo. As mudanças do tempo e a variabilidade de humores muitas vezes fazem que, sem culpa sua, não possa fazer o que quer, mas que padeça de todas as maneiras.
E quanto mais a quiserem então forçar, pior é e mais dura o mal; haja, pois, discrição para ver quando assim é e não afoguem a pobre. Entendam que são enfermos; mude-se a hora da oração e muitas vezes será alguns dias.
Passem como puderem este desterro, que é farta a má ventura de uma alma que ama a Deus, ver que vive nesta miséria e que não
pode o que quer, por ter a tão mau hóspede, como é este corpo.
16. Disse "com discrição", porque algumas vezes o demônio fará
isto; e assim é bom nem sempre deixar a oração, quando há grande
distraimento e perturbação no entendimento; nem sempre
atormentar a alma obrigando-a ao que não pode.
Há outras ocupações exteriores, de obras de caridade e de leitura; mas às vezes nem mesmo para isto estará. Sirva então ao corpo por amor de Deus, para que ele sirva outras muitas vezes a alma; e tome alguns passatempos santos de conversação - que o sejam - ou ir passear ao campo, conforme aconselhar o confessor.
Em tudo é grande coisa a experiência, pois dá a entender o que nos convém e em tudo se se serve a Deus. Suave é Seu jugo e é grande negócio não levar a alma arrastada, como se diz, mas com suavidade, para seu maior aproveitamento.
17. Assim, torno a avisar - e ainda que o diga muitas vezes nada se
perde com isso - pois importa muito: de securas, de inquietação e
distraimento dos pensamentos, ninguém se deprima nem aflija.
Se quer ganhar liberdade de espírito e não andar sempre atribulado, comece por não se espantar com a cruz e verá como o Senhor também lhe ajuda a levar, e a alegria com que anda e o proveito que tira de tudo. Porque já se vê que, se do poço não mana água, nós não lha podemos pôr. Verdade é que não havemos de ficar descuidados para a tirar, quando a haja; porque então já Deus quer, por este meio, multiplicar as virtudes.
LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila

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