Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Continua a tratar do primeiro grau de oração e dá uns conselhos para algumas tentações que o demônio apresenta algumas vezes. É muito proveitoso.



Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

        CAPÍTULO 13. Continua a tratar do primeiro grau de oração e dá uns conselhos para algumas tentações que o demônio apresenta algumas vezes. É muito proveitoso.

1. Parece-me bem falar sobre algumas tentações que tenho visto ter no princípio -algumas tenho-as tido - e dar alguns avisos sobre coisas que julgo necessárias.

Procure andar ao princípio com alegria e liberdade, porque há pessoas que parece que se vai embora a devoção se se descuidam um pouco. Bom é cada qual andar com temor para não se fiar nem pouco nem muito de si mesmo, pondo-se em ocasiões em que  é fácil ofender a Deus.

Isto é muito necessário até já se estar muito forte na virtude. E não há muitos que o estejam tanto que, metidos em ocasiões favoráveis ao seu natural, se possam descuidar.

Que sempre - enquanto vivemos, e até por humildade - é bom conhecer a nossa miserável natureza. Mas há muitas coisas em que se pode, como já disse, ter recreação, mesmo para se voltar mais forte à oração. Em tudo é preciso discrição.

2. Ter grande confiança, pois convém muito não apoucar os desejos, mas esperar de Deus que, se nos esforçamos, pouco a pouco -embora não seja logo -poderemos chegar aonde muitos santos chegaram com Seu favor.

Se eles nunca se tivessem determinado a desejá-lo e pouco a pouco pô-lo por obra, nunca teriam subido a tão alto estado. Quer Sua Majestade e é amigo de almas animosas, logo que andem com humildade e sem nenhuma confiança em si. Não tenho visto a nenhuma destas que se fique cá por baixo neste caminho, nem a nenhuma alma cobarde - sob capa de humildade que ande em muitos anos o que essas outras andam em muito poucos.

Espanta-me o muito que faz neste caminho o animar-se a grandes coisas; porque, embora depois a alma não tenha forças, dá um voo e chega a muito, ainda que - como avezinha que tem fracas penas - se canse e fique mais algum tempo.

Isto aproveitou-me muito como aquilo que diz Santo Agostinho: «Dá-me, Senhor, o que me mandas e manda o que quiseres». Pensava muitas vezes que S. Pedro nada tinha perdido em se lançar ao mar, embora depois temesse.

Estas primeiras determinações são grande coisa, ainda que, neste primeiro estado, seja preciso ir-se detendo e ater-se à discrição e parecer do mestre; mas há que olhar-se para que seja de tal forma, que não ensine a andar como sapos nem se contente com que a alma se faça só caçar lagartixas.

A humildade, no entanto, sempre à frente para se compreender que não hão de vir - estas forças - das nossas.

4. Mas é preciso entendermos como tem que ser esta humildade, porque penso que o demônio faz muito mal, a fim de que não vão muito adiante almas que têm oração, fazendo-lhes compreender mal a humildade, e que lhes pareça soberba o ter grandes desejos e querer imitar os santos e desejar o martírio.

Logo nos diz ou dá a entender que as coisas dos santos são para admirar, mas não para as fazermos nós que somos pecadores.
Isto também o digo eu; mas temos de olhar ao que é de espantar  e ao que é de imitar. De fato, não seria bem que uma pessoa fraca e enferma se expusesse a muitos jejuns e penitências ásperas, e fosse para um deserto onde não pudesse dormir nem tivesse que comer, ou coisas semelhantes.

Mas sem pensar que nos podemos esforçar com o favor de Deus a ter um grande desprezo do mundo, a não estimar honras, nem estar preso ao dinheiro. Temos uns corações tão apertados, que parece nos há de faltar a terra em querendo-nos descuidar um pouco do corpo para darmos ao espírito.

Depois nos parece que ajuda ao recolhimento ter muito bem consertado tudo o que é preciso, porque os cuidados inquietam a oração.

A mim, isto me pesa; termos tão pouca confiança em Deus e tanto amor próprio, que nos inquiete este cuidado. E assim é que, onde o espírito está tão pouco acostumado como isto, umas ninharias nos dão tão grande trabalho como a outros coisas grandes e de muito valor.

E, a nosso juízo, presumimos de espirituais!

5. Parece agora para mim esta maneira de caminhar para querer conciliar corpo e alma para não perder aqui na terra o descanso e gozar lá no Céu de Deus. E assim será, se andarmos em justiça e apegados à virtude, mas é passo de galinha; nunca com ele se chegará à liberdade de espírito.

Maneira muito boa de proceder, me parece, para o estado de casados, que hão de viver conforme à sua vocação; mas para outro estado, de maneira alguma desejo tal maneira de aproveitar, nem me farão crer que é boa.

Tenho-a experimentado e sempre me ficaria assim, se o Senhor, por Sua bondade, não me tivesse ensinado outro atalho.

6. Ainda que, nisto de desejos, sempre os tive grandes, procurava isto que tenho dito: ter oração e viver a meu belo prazer. Creio que, se tivesse tido quem me lançasse a voar, mais  teria eu me empenhado em que estes desejos fossem com obras.

Mas são - por nossos pecados - tão poucos e tão contados os que não tenham neste caso discrição demasiada, que julgo ser isto causa bastante para os que começam, não chegarem mais depressa a uma grande perfeição.

O Senhor nunca falta, nem é por Ele que há falha; nós é que somos os faltosos e miseráveis.

7. Também se podem imitar os santos procurando solidão e silêncio e muitas outras virtudes, que não nos matarão estes negros corpos que tão concertadamente se querem levar para desconcertar a alma.

E o demônio ajuda muito a torná-los inaptos; quando vê um pouco de temor. Mais não quer para nos dar a entender que tudo nos há de matar e tirar a saúde; até o ter lágrimas faz-nos temer cegar...

Passei por isto e por isso o sei, e não sei que melhor vista nem
saúde podemos desejar que perdê-la por tal causa.

Como sou tão doente, até que me determinei a não fazer caso do corpo nem da saúde, sempre estive atada, sem valer para nada; é ainda agora faço bem pouco. Mas quis Deus que eu entendesse este ardil do demônio; e quando ele me punha diante 'ó perder a saúde', dizia: «Pouco vai em que eu morra».

Quando era o descanso: «Não tenho necessidade de descansar, mas sim de cruz». E assim outras coisas. Vi claramente que, em muitas, muitas delas, embora eu de fato fosse muito doente, era tentação do demônio ou frouxidão minha.

Desde que não ando com tantos cuidados e não sou tão amimada, tenho muito mais saúde.

Assim vai muito de, nos princípios - ao começar a ter oração - não se preocupar com os pensamentos. Creiam o que digo, porque sei isto por experiência. E, para que repreendam em mim, poderá também aproveitar o dizer estas minhas faltas.

8. Outra tentação que  logo há muito de ordinário, é desejar que todos sejam muito espirituais, pois começam a saborear o  sossego e o lucro que ele traz. Desejar isto não é mal; o procurá-lo é que poderá não ser bom se não há muita discrição e dissimulação para proceder de modo a não parecer que querem ensinar; porque neste caso, quem quiser fazer algum bem, precisa de ter virtudes muito fortes para não causar tentação aos outros.

Aconteceu isto comigo - e por isso o compreendo - quando procurava, como já tenho dito, que outras tivessem oração. Como, por um lado, me viam enaltecer o grande bem que era ter oração e por outro lado me viam com grande pobreza de virtudes, trazia-as eu tentadas e desatinadas, como depois me disseram.

E tinham sobrada razão, porque não percebiam como se podia harmonizar uma coisa com a outra. E fui eu causa de não terem por mal o que de si o era, por verem que o fazia algumas vezes, parecendo-lhes haver algum bem em mim.

9. E isto faz o demônio: parece se ajudar com as boas virtudes que temos para autorizar - no que pode - o mal que pretende. Por pouco que este seja, quando é numa comunidade, deve ganhar muito, quanto mais que, o que eu fazia de mal, era muito, muito. E assim, em muitos anos, só três aproveitaram o que eu lhes dizia; mas depois, quando o Senhor já me havia  dado mais forças na virtude, em dois ou três anos aproveitaram muitas, como depois direi.

E, além disto, há outro grande inconveniente que é prejudicar a
alma; pois o que mais temos de procurar ao princípio é de cuidar
só dela, fazendo de conta que não há na terra senão Deus e ela; e isto é o que muito lhe convém.

10. Dá ainda outra tentação que é sentir pena dos pecados e faltas que se vêem nos outros. É que todas elas vêm com capa de zelo pela virtude que é preciso entender e andar com cuidado.

O demônio persuade que sentir pena dos pecados é só por  querer que não se ofenda a Deus e Sua honra, e logo querem remediar. Ficamos tão inquietos com isto que impede a oração, e o maior mal é pensar que é virtude e perfeição e grande zelo de Deus.

Deixo então a pena que dão os pecados públicos - se o houvesse por costume - duma Congregação ou os males da Igreja, dessas heresias onde vemos perderem-se tantas almas. Este pesar é muito bom e, como tal, não inquieta.

A certeza será pois, para a alma que tiver oração, descuidar-se de tudo e de todos e tomar conta de si mesma e em contentar a Deus. Isto convém muito, muito, porque, se fosse dizer os erros que tenho visto cometer, confiados na boa intenção! ...

Procuremos, pois, atender sempre às virtudes e às coisas boas que virmos nos outros e tapar seus defeitos com os nossos grandes pecados. E com esta maneira de agir - embora não se faça logo com perfeição ganha-se uma grande virtude, que é: 'de termos a todos por melhores do que nós'.

E começa-se a lucrar por aqui com o favor de Deus que é necessário em tudo, e, quando falta, são desnecessários os esforços. Supliquemos-Lhe que nos dê esta virtude, pois, fazendo o que está em nossas mãos, Deus não faltará.

11. Atendam também a este aviso os que consideram muito o entendimento, tirando de uma coisa, muitas outras coisas e conceitos. Aos que não podem trabalhar com ele - como a mim  acontecia - não há mais a dizer senão que tenham paciência até que o Senhor lhes dê em que se ocupem, e luz, pois podem tão pouco por si mesmos, que o entendimento mais os embaraça que ajuda.

Pois voltando aos que ponderam, digo para não irem todo o tempo nisso; embora seja muito meritório, porque - como é oração saborosa parece que não há de ter dia de domingo, nem momento que não seja de trabalho. Logo julgam perderem  tempo e eu tenho por grande ganho esta perda.

Mas antes - como tenho dito - imaginem-se diante de Cristo e, sem cansaço do entendimento, estejam falando e regalando-se com Ele, sem se cansarem compondo razões, mas apresentando-Lhe necessidades e a razão que Ele tem para não nos sofrer ali; uma coisa a um tempo e outra a outro, para que se não canse a alma de comer sempre o mesmo manjar.

Estes são muito gostosos e proveitosos - se o paladar se acostuma a comer deles - e trazem consigo grande sustento para dar à alma vida e grandes lucros.

12. Quero me explicar melhor, porque estas coisas de oração são todas elas muito difíceis e, se não se encontra mestre, é muito mais difícil de entender. Isto faz que, embora eu quisesse abreviar - e bastava apenas mencioná-las, para o bom entendimento de quem me mandou escrever estas coisas da oração, a minha rudeza não dá lugar para dizer e dar a entender em poucas palavras uma coisa que tanto importa ser bem declarada.

Eu sofri tanto que tenho dó dos que começam só com livros porque é coisa estranha quão diferentemente se entende o que ali se vê, depois de experimentado.

Pois, voltando ao que dizia, ponhamo-nos a pensar num passo da
Paixão, digamos,  quando o Senhor estava atado à coluna. Anda
o entendimento rebuscando o que ali há a considerar: as grandes dores e pena que Sua Majestade teria naquela solidão e outras muitas coisas que, se o entendimento é vivo, poderá deduzir daqui.

E então, se se é letrado? Este é o modo de oração por que todos tem que começar, continuar e acabar; é  excelente e seguro caminho, até que o Senhor os leve a outras coisas sobrenaturais.

13. Digo «todos»; mas, no entanto, há muitas almas que tirarão mais proveito de outras meditações do que na da sagrada Paixão pois, assim como há muitas moradas no Céu, há muitos caminhos.

Algumas pessoas aproveitam considerando-se no inferno, outras no Céu - e afligem-se em pensar no inferno -outras na morte. Algumas, se são ternas de coração, doem-se muito de pensar sempre na Paixão e regalam-se e tiram fruto em contemplar o poder e a grandeza de Deus nas criaturas e o amor que nos teve, o qual se manifesta em todas as coisas. E é admirável maneira esta de proceder não deixando, no entanto, muitas vezes a Paixão e vida de Cristo, que é de onde nos veio e vem todo o bem.

14. É necessário que esteja  avisado sobre o que começa, para verem o que aproveita mais. Para isto, é muito necessário ter mestre experimentado; que, se não,  pode errar muito e trazer uma alma sem entender nem deixar que ela se entenda a si mesma. Pois, como esta sabe que é grande mérito estar sujeita a um mestre, não ousará sair daquilo que lhe mandam.

Eu tenho encontrado almas encurraladas e angustiadas por não terem experiência quem as ensinava, que me faziam lástima. Algumas nem sabiam já o que fazer de si; porque, não entendendo eles o espírito, afligem alma e corpo e impedem o aproveitamento.

Uma, que tratou comigo, tinha-a o mestre atada, havia oito anos; não a deixava sair do próprio conhecimento. E o Senhor tinha-a já em oração de quietude e assim passava muito trabalho.

15. Embora o conhecimento próprio jamais se deve deixar, não há alma tão gigante que não tenha muitas vezes de tornar a ser menino e de mamar (e isto jamais se esqueça e quem sabe   direi mais vezes, porque importa muito). É que não há estado de oração tão elevado que não seja muitas vezes necessário tornar ao princípio.

E os pecados e conhecimento próprio é o pão com que todos os
manjares  tem que comer, por delicados que estes sejam, neste
caminho de oração e sem este pão elas não se poderiam sustentar.

Mas há de se comer com conta e medida. Depois que uma alma se vê já rendida e entende claramente que em si não tem coisa boa, e se sente envergonhada diante de tão grande Rei, e vê o pouco que Lhe paga para o muito que Lhe deve, que necessidade há de gastar aqui o tempo? Mas sim irmos a outras coisas que o Senhor nos põe diante e não há razão para que as deixemos, pois Sua Majestade sabe melhor do que nós o que nos convém comer.

16. Portanto, importa muito que o mestre seja de bom entendimento - e que tenha experiência. Se com isto tem letras, é grandíssima coisa; mas, se não  podem se encontrar estas três coisas juntas, as duas primeiras importam mais, porque letrados podem procurar para com eles comunicarem quando tiverem necessidade.

Digo que nos princípios, se eles não têm oração, aproveitam pouco as letras? Não digo que não se trate então com letrados, porque espírito que não vá fundado na verdade, mais o quisera sem oração.

Grande coisa é ter letras, porque estas nos ensinam  o que pouco sabemos e nos dão luz e, apoiados nas verdades da Sagrada Escritura, fazemos o que devemos. De devoções tolas, livre-nos Deus!...

17. Quero me explicar melhor, pois creio que me meto em muitas coisas. Sempre tive esta falta de não me saber dar a entender - como já tenho dito - senão à custa de muitas palavras.

Começa uma freira a ter oração; se um simplório a dirige e se a este assim achar, dará a entender que é melhor  obedecer  a ele do que ao superior; e isto sem malícia, mas pensando que acerta, porque se não é religioso, parecerá que é assim.

E, se é mulher casada, dirá que é melhor, quando haveria de atender à sua casa, estar em oração, ainda que descontente o marido. E assim não saberá ordenar nem o tempo nem as coisas, para que tudo vá conforme à verdade. Por faltar  a luz, não a dá aos outros ainda que queira.

E embora pareça que para isto não são precisas letras, a minha opinião foi sempre e será que qualquer cristão procure tratar - se puder - com quem as tem boas e, quanto mais, melhor. E os que vão por caminho de oração têm disto maior necessidade, e tanto maior, quanto mais espirituais.

18. E não se engane dizendo que letrados sem oração não são para quem a tem. Tenho tratado com muitos e, de há uns anos para cá, tenho-os procurado mais sendo maior a necessidade e sempre fui amiga deles. E embora alguns não tenham experiência, não aborrecem o espírito nem o ignoram; porque na Sagrada Escritura que estudam, sempre encontram a verdade do bom espírito.

Tenho para mim que pessoa de oração que trate com letrados, se ela se não quiser enganar, não a enganará o demônio com ilusões, pois creio que os demônios temem de grande modo as letras humildes e virtuosas, sabendo que serão descobertos e sairão com perda.

19. Disse isto porque há opiniões de que os letrados não são para gente de oração, se não têm espírito. Já disse que é necessário mestre espiritual; mas se este não for letrado, é grande inconveniente.

Contudo, será de muita ajuda tratar com eles, desde que sejam virtuosos; porque, embora não tenham espírito, aproveitar-nos-á e Deus lhes dará a entender o que têm de ensinar e até os fará espirituais para nosso proveito.

E isto não o digo sem o ter experimentado e aconteceu-me a mim com mais de dois. Digo que, para se render uma alma a estar de todo sujeita a um só mestre, erra muito se não procurar que seja tal como fica dito.

Se for religioso, há que estar sujeito ao seu Prelado, a quem porventura faltarão todas as três coisas, - o que não será já pequena cruz -sem que ele, de sua própria vontade, sujeite o seu entendimento a quem o não tenha bom.

Pelo menos disto nunca eu  pude me convencer a mim mesma nem me parece que convém. Se é secular, louve a Deus porque pode escolher a quem há que estar sujeito e não perca esta tão virtuosa liberdade; antes esteja sem nenhum até o encontrar.

O Senhor lhe dará, desde que vá tudo fundado em humildade e com desejo de acertar. Eu louvo-O muito - e nós as mulheres e os que não têm letras sempre Lhe havíamos de dar infinitas graças - por haver quem, com tantos trabalhos, tenha alcançado a verdade que nós, ignorantes, ignoramos.

20. Espantam-me muitas vezes letrados - religiosos em especial -com o trabalho com que ganharam o que sem nenhum trabalho, mais que o de perguntar, aproveitei . E que haja pessoas que  não querem aproveitar disto!

Não o queira Deus! Vejo-os sujeitos aos trabalhos da Religião, que são grandes, com penitência e mau comer, rendidos à obediência que é certo para mim, algumas vezes, de grande confusão e, além disso, mau dormir, tudo trabalho, tudo cruz.

Parece que seria grande mal se alguém, por sua culpa, perdesse tanto bem. E poderá ser que pensemos que alguns de nós estamos livres destes trabalhos e vivendo a nosso prazer, dando-nos eles tudo já pronto - que, por termos um pouco mais de oração,   temos de ter vantagens em tantos trabalhos.

21. Bendito sejais Vós, Senhor, que tão inábil e sem proveito me
fizestes; mas louvo-Vos muito, por despertardes a tantos que nos despertem. Havia de ser muito contínua a nossa oração por esses que nos esclarecem. Que seríamos sem eles entre tão grandes tempestades como agora tem a Igreja? Se alguns tem havido ruins, mais resplandeceram os bons. Praza ao Senhor que os tenha de Sua mão e os ajude para que nos ajudem. Amém.

22. Muito tenho saído propositadamente do que comecei a dizer; mas tudo é a propósito para os que começam, a fim de que comecem caminho tão alto, de maneira a irem metidos no verdadeiro caminho. Pois, voltando ao que dizia, de pensar em Cristo atado à coluna, é bom discorrer um pouco e pensar nas penas que ali teve e por que as teve e quem é Aquele que as teve e o amor com que as passou. Mas não se canse em andar sempre a buscar isto, antes se fique ali com Ele, aquietado o entendimento.

Se puder ocupá-lo em ver que o Senhor o olha, e acompanhe-O, e fale, e peça, e humilhe-se, e regale-se com Ele, e lembre-se que não merecia estar ali.

Quando puder fazer isto - embora seja logo de princípio, ao começar a oração, achará grande proveito, pois dá grandes lucros este modo de oração; pelo menos teve-os a minha alma.
Não sei se acerto em o dizer; V. Mercê o verá. Praza ao Senhor que eu acerte em O contentar sempre. Amém.


LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila

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