Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O bem que possui quem se exercita na oração, há muitos santos e almas boas que o têm escrito - digo - da oração mental. Glória seja dada a Deus por isso!


Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila


    CAPÍTULO 8. Trata do grande bem que lhe fez não ter deixado de todo a oração para não perder a alma, e quão excelente remédio é para ganhar o perdido. Persuade para que todos a tenham. Diz como é grande o ganho, embora a tornem a deixar por algum tempo.

1. Não sem motivo ponderei tanto este tempo da minha vida, pois
bem vejo que não dará gosto a ninguém ver coisa tão ruim. É certo
que eu queria que se aborrecessem todos que isto lessem, vendo uma alma tão pertinaz e ingrata para com Aquele que tantas graças lhe tem feito; e queria ter licença para dizer as muitas vezes que neste tempo faltei a Deus.

2. Por não estar apoiada nesta forte coluna da oração, passei neste mar tempestuoso quase vinte anos. Ora com estas quedas, mal me levantava  e tornava a cair - e em vida de perfeição baixa, que nenhum caso fazia de pecados veniais; e dos mortais, embora os temesse, não era como devia ser, pois não me separava dos perigos. 

Sei dizer que é uma das vidas mais penosas que se pode imaginar; nem gozava de Deus, nem achava contentamento no mundo. Quando estava nos contentamentos do mundo, lembrando-me do que devia a Deus, era com pesar; quando estava com Deus, as afeições do mundo me desassossegavam. Isto é guerra tão penosa que não sei como a pude sofrer um mês, quanto mais tantos anos.

No entanto, vejo claramente, a grande misericórdia que o Senhor me fez: já que havia de tratar com o mundo, que tivesse ânimo para ter oração. Digo ânimo, porque não sei para que coisa, de todas que há na terra, é preciso maior que para trair o rei, e saber que ele o sabe, e não lhe tirar da frente. Porque, embora sempre estejamos diante de Deus, parece-me que levará a porto de salvação como, ao que agora parece, levou a mim. Praza à Sua Majestade que eu não volte a me perder.

5. O bem que possui quem se exercita na oração, há muitos santos e almas boas que o têm escrito - digo - da oração mental. Glória seja dada a Deus por isso! E mesmo que assim não fosse, embora eu seja pouco humilde, não sou tão soberba que disto ousasse falar.

Daquilo que tenho experiência, posso dizer que, por males que faça quem começou a ter oração, não a deixe, pois é o meio por onde pode tornar a emendar-se e, sem ela, será muito mais dificultoso. E não o tente o demônio, do mesmo modo que a mim, que a deixei por humildade. Creia que não podem faltar as palavras do Senhor, arrependendo-nos de verdade e determinando-nos a não O ofender, Ele volta à amizade que tinha e a dar as graças que antes dava, e, às vezes, muito mais se o arrependimento o merecer.

A quem ainda não a começou, por amor do Senhor lhe rogo, não
necessite de tanto bem. Não há aqui que temer senão que desejar.
Mesmo quando não for avante mas se esforçando em ser perfeito que mereça os gostos e regalos que Deus dá a estes, pouco a pouco irá entendendo o caminho para o Céu; e se persevera, espero eu na
misericórdia de Deus, pois ninguém O tomou por amigo que não lhe
pagasse. 

E outra coisa não é, a meu parecer, oração mental, senão
tratar de amizade - estando muitas vezes tratando a sós - com quem sabemos que nos ama. 

E se ainda não O amais (porque para que seja verdadeiro o amor e para que dure a amizade precisa encontrar  as condições: a do Senhor já se sabe, não pode ter falta; a nossa é ser viciosa, sensual, ingrata), não podeis por vós mesmas chegar a amá-Lo, porque não é da vossa condição; mas, vendo o muito que é ter a Sua amizade e o muito que vos ama, passais por esta pena estando muito com Quem é tão diferente de vós.

6. Oh! bondade infinita do meu Deus, que parece que Vos vejo e me vejo nesta sorte! Oh! regalo dos anjos, que eu, quando Vos
vejo, queria desfazer em amar-Vos! 

Quão certo é sofrerdes Vós por quem não sofre por Vós e Vós estais com ele! Oh! que bom amigo sois, Senhor meu, como vai regalando e sofrendo e esperais que se afaça à Vossa condição e, entretanto, sofreis Vós a sua!

Tomais em conta, meu Senhor, os momentos de quem Vos quer, e
com um ponto de arrependimento esqueceis o que Vos temos ofendido.

Tenho visto isto claramente por mim, e não vejo, meu Criador, por
que todo o mundo não procura chegar-se a Vós por meio desta
particular amizade; os maus - que não são como Vós- para
que os façais bons em suportarem que Vós estejais com eles,
sequer ao menos duas horas cada dia, embora eles não estejam
convosco senão com mil revoltas de cuidados e pensamentos do
mundo, como eu fazia. 

Por este esforço que fazem em querer estar em tão boa companhia, pois vedes que a princípio não podem mais, nem depois de algumas vezes, Vós forçais, Senhor, os demônios
para que não os tentem e cada dia tenham menos força para os
tentar, e dais a eles força para vencer. Sim, Vida de todas as vidas, que não matais a nenhum dos que se fiam de Vós e Vos querem por amigo, mas lhes sustentais a vida do corpo com mais saúde e a dais à alma.

7. Não entendo o medo dos que temem começar a ter oração
mental, nem sei porque o hão-de ter. Bem sabe se meter o
demônio para nos fazer mal de verdade, se com medos me faz não
pensar no que ofendi a Deus, porque muito Lhe devo, em que há
inferno e há glória, e nos grandes trabalhos e dores que passou por mim.

Esta foi toda a minha oração, quando andava nestes perigos. Nisto
pensava quando podia; e muitas, muitas vezes, durante alguns anos, tinha mais conta em desejar que se acabasse a hora que eu tinha para mim determinando ali estar e em escutar quando batia o
relógio, do que em outras coisas boas. 

Muitas vezes não sei que penitência grave me poderia oferecer que eu não a fizesse de melhor vontade que recolher-me a ter oração.
E certo é que era tão incomportável a força que o demônio me fazia ou o meu mau costume para que não fosse à oração, e a tristeza que me dava entrando no oratório que, para me forçar, era preciso valer-me de todo o meu ânimo que dizem não é pequeno. 

E tem-se visto  ter-me dado Deus muito mais que de mulher (senão que o tenho empregado mal) e por fim, ajudava-me o Senhor.
Depois de eu ter assim me forçado, achava-me com mais quietude e regalo do que algumas vezes que tinha desejo de rezar.

8. Pois se, coisa tão ruim como eu, tanto tempo sofreu pelo Senhor-e vê-se claramente que por aqui se remediaram todos os meus males -que pessoa, por má que seja, poderá temer? 

Porque por muito que seja, não será tantos anos depois de ter recebido tantas graças do Senhor. E, quem poderá desconfiar, se tanto me suportou, só porque desejava e procurava algum lugar e tempo para que estivesse comigo, e isto algumas vezes sem vontade, e só pela grande força que eu fazia, ou me  fazia o Senhor? 

Pois, se aos que não O servem, mas O ofendem, a oração lhes vai tão bem  e lhes é tão necessária, e se ninguém pode com verdade encontrar dano que ela lhe possa causar, que seja maior que o de não a ter, os que servem a Deus e O querem servir, porque a hão-de deixar? 

Por certo que, se não é para passar com mais trabalho os trabalhos da vida, eu não o posso entender; ou então para fechar a Deus a porta, a fim de que por ela não lhes dê alegria. 

Em verdade lhes tenho pena, pois à sua custa servem a Deus. Aos que tratam de oração, o mesmo Senhor lhes paga, pois, por um pouco de trabalho dá gosto para que com Ele passem os trabalhos.

9. Porque destes gostos que o Senhor dá aos que perseveram na
oração muito se tratará mais adiante, nada direi aqui; só digo que
para estas graças tão grandes que a mim tem feito, a porta é a
oração. Fechada esta porta, não sei como as fará, porque, embora queira entrar a deleitar-se com uma alma e cumulá-la de bens, não terá por onde, pois a quer só e limpa e com grande vontade de receber Seus dons. Se Lhe pomos muitos tropeços e não fazemos nada para os tirar, como há-de vir a nós? E queremos que nos faça Deus grandes graças!

10. Para que vejam Sua misericórdia e o grande bem que foi para
mim não ter deixado a oração e lição, direi aqui - pois importa tanto que isto se entenda - a bateria que faz o demónio a uma alma, a fim de a ganhar, e o artifício e misericórdia com que o Senhor procura chamá-la de novo a Si, e se guardem dos perigos de que não me guardei. 

E sobretudo, por amor de Nosso Senhor e pelo grande amor
com que nos anda atraindo para que voltemos a Ele, peço que se
guardem das ocasiões; uma vez metidas nelas, não há que fiar
quando tantos inimigos nos combatem e tantas fraquezas há em nós para nos defendermos.

11. Quisera eu saber descrever o cativeiro em que, nestes tempos,
trazia a minha alma. Bem entendia eu que estava cativa, mas não
acabava de entender em que, nem podia de todo crer que coisas que os confessores não me agravavam tanto, fossem tão más como eu o sentia na minha alma. Disse-me um, indo eu a ele com escrúpulos, que embora tivesse subida contemplação, não havia inconveniente em semelhantes ocasiões e tratos.

Isto era já lá para o fim, que eu já ia, com o favor de Deus, afastando-me mais dos grandes perigos, mas sem fugir de todo da ocasião.
Como me viam com bons desejos e ocupação de oração, parecia-lhes que fazia muito; mas minha alma entendia que não era fazer
aquilo a que estava obrigada por Aquele a quem tanto devia. 

Lástima lhe tenho agora do muito que passou e do pouco socorro que encontrou por toda a parte, a não ser de Deus, e da muita entrada que tinha para seus passatempos e contentos com o dizerem-lhe que eram lícitos.

12. O tormento nos sermões não era pequeno. Era afeiçoadíssima a eles, de modo que, se via algum pregar com espírito e bem, cobrava-lhe particular afeição, sem o procurar, que não sei quem me infundia. 

Quase nunca me parecia tão mau o sermão que não o
ouvisse de boa vontade, embora no dizer dos que o ouviam não
pregasse bem. Se era bom, era para mim muito particular recreação.

De falar de Deus ou de ouvir falar d'Ele, quase nunca me cansava; e isto depois que comecei a ter oração. Por um lado, tinha grande
consolo nos sermões; por outro atormentavam-me, porque ali
compreendia eu que não era o que devia ser e, em grande parte, por culpa minha. Suplicava ao Senhor que me ajudasse, mas, devia
faltar - ao que agora me parece - o não pôr eu de todo a confiança
em Sua Majestade nem perder totalmente a que punha em mim.

Buscava remédio, fazia diligências; mas não devia compreender que tudo aproveita pouco se, perdida totalmente a confiança em nós mesmos, não a pomos em Deus.
Desejava viver, pois bem entendia que não vivia, antes pelejava com uma sombra de morte e não havia quem me desse vida nem a podia eu tomar. E Quem ma podia dar tinha razão de não me socorrer, pois tantas vezes me havia chamado a Si e eu O havia deixado.

LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila 

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