Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

DIVINO PAI ETERNO
O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Trata de como foi perdendo as graças que o Senhor lhe tinha feito e começou a ter perdida a vida . Diz do mal que há em não serem muito enclausurados os mosteiros de monjas.


 

Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus de Ávila

   CAPÍTULO 7. Trata de como foi perdendo as graças que o
Senhor lhe tinha feito e começou a ter perdida a vida . Diz 
do mal que há em não serem muito enclausurados os
mosteiros de monjas.

1. Comecei pois assim, de passatempo em passatempo, de vaidade em vaidade, de ocasião em ocasião, a me meter tanto em muitas grandes ocasiões e  a minha alma ficando tão estragada em vaidades, que já tinha vergonha, pela particular amizade que tratava na oração  tornando a chegar a Deus. Ajudou a isto que, ao crescerem os pecados, começou a faltar vontade e gosto nas coisas de virtude. Via eu muito claramente, meu Senhor, que isto faltava a mim por eu Vos faltar a Vós.

Este foi o maior engano que o demônio podia me fazer sob
aparência de humildade: comecei a temer fazer oração por me ver tão perdida; me parecia melhor andar como os demais - pois sendo ruim era das piores e rezar o que estava obrigada e vocalmente não tendo oração mental e tanta intimidade com Deus, eu merecia estar com os demônios e enganava as pessoas, porque, no exterior, tinha boa aparência.

Assim, não posso culpar a casa onde estava, porque eu, com a minha manha, procurava que tivessem uma boa opinião de mim. Embora não com consciência, fingindo a santidade; porque nisto de hipocrisia e vanglória, glória seja dada a Deus, jamais me recordo de O ter ofendido, no que possa entender. 

Em eu me vendo nessa situação me dava tanta pena, que o demônio ficava com perda e eu ficava com lucro; e assim, nisto muito pouco  tem me tentado.
Porventura se Deus permitisse que nisto me tentasse tão fortemente como em outras coisas, também cairia; mas Sua Majestade até agora me tem guardado, seja para sempre bendito, pois até me pesava muito o me terem em boa opinião: porque bem sabia eu o que havia em mim.

2. Isto de não me terem por tão ruim, era porque me viam tão moça e metida em tantas ocasiões e ficava muitas vezes na solidão rezando e lendo, falava muito de Deus, era amiga de fazer pintar Sua imagem em muitas partes e de ter oratório e fazer com que nele houvesse coisas que fizessem devoção; não falar mal dos outros; e outras coisas deste teor que tinham aparência de virtude. E eu, estimava coisas que no mundo não se costuma ter estima. Com isto, me davam tanta e até mais liberdade que às outras muito mais antigas e tinham em mim grande segurança. 

Porque, tomar liberdade e fazer coisa sem licença - digo falar por buracos ou muros, ou de noite -, julgo que nunca poderia resolver a fazê-lo num mosteiro, nem jamais o fiz, porque o Senhor me teve de Sua mão. 

Parecia-me, com advertência e propósito, que a visão que tinha   as outras que me viam como boa era muito mal, como se fosse bem outras coisas que fazia. Em verdade, o mal não era tão consciente, como isto seria, ainda que fosse muito.

3. Por isto me parece que me fez grande mal o não estar em um
mosteiro enclausurado; porque a liberdade que as boas podiam ter sem culpa (que mais não eram obrigadas, pois não se prometia clausura), a mim, que sou ruim, ter-me-ia decerto levado ao inferno, se com tantos remédios e meios o Senhor, com muito particulares graças,  não tivesse me tirado deste perigo. 

E, assim, julgo ser grandíssimo perigo um mosteiro de mulheres com liberdade, e mais me parece passo para caminhar ao inferno para as que quiserem ser ruins, do que remédio para suas fraquezas. Isto não se entende a respeito de mim, porque há nele tantas que servem muito bem e com muita perfeição ao Senhor, que Sua Majestade não pode deixar, por Sua bondade, de as favorecer e não é dos mosteiros muito abertos e nele se guarda toda a religião, senão de outros que sei e tenho visto.

4. Digo que me causa grande lástima o Senhor ter necessidade de fazer particulares chamamentos - e não uma vez, senão muitas - para que se salvem, segundo estão autorizadas as honras e recreações do mundo e tão mal terem entendido aquilo a que estão obrigadas. Praza a Deus não tenham por virtude o que é pecado, como muitas vezes eu o fazia; e há tão grande dificuldade em fazê-lo entender que é preciso que o Senhor ponha nisto muito bem em Sua mão.

Se os pais ouvissem meu conselho, dir-lhes-ia: porque não olham por onde suas filhas levam o caminho da salvação, mas vendo mais perigo que no mundo, olhem ao menos ao que toca à sua honra. Antes as querem casar muito baixamente, que colocá-las em mosteiros semelhantes, se não são muito bem inclinadas - e praza a Deus isto lhes aproveite -, ou as tenham em sua casa. 

Então, se uma quer ser ruim, não o poderá encobrir senão por pouco tempo; aqui muito, muito tempo, ainda que por fim o descubra o Senhor, e não só faz mal à ela, senão a todas; e às vezes as pobrezinhas não têm culpa, porque vão pelo que encontram. E é lástima que haja muitas que se querem afastar do mundo e, pensando que vão servir ao Senhor e se afastar dos perigos do mundo, se encontram em dez mundos juntos, que nem sabem como se valer, nem remediar. 

A mocidade, sensualidade e demônio as convida e inclina a seguir algumas coisas que são mesmo do mundo; vêem ali que o têm por bom, a modo de dizer.

Parece-me que, em parte, são como os desventurados hereges, que querem se cegar e dar a entender que é bom aquilo que seguem e assim crêem sem o crer... É que dentro de si têm quem lhes diga o que é mal.

5. Oh! grandíssimo mal, grandíssimo mal o dos religiosos - falo
agora tanto de mulheres como de homens - que vivem onde se não guarda religião, onde, num mosteiro, há dois caminhos: de virtude e religião e de falta de espírito de religião (e ambos quase andam por igual...) Mas digo mal: não por igual, pois por nossos pecados caminha-se mais no imperfeito e, como dele há mais seguidores, é mais favorecido. 

Usa-se tão pouco da verdadeira religião, que mais há-de temer o frade e a freira, que deveras querem começar a seguir totalmente a sua vocação, aos de sua mesma casa, do que a todos os demônios; e mais cautela e dissimulação há-de ter para falar da amizade que deseja ter com Deus, que de outras amizades e afeições que o demônio ordena nesses mosteiros. 

Não sei porque nos espantamos de que haja tantos males na Igreja; pois os que deviam ser exemplos de virtude onde todos as fossem haurir, têm tão apagado o labor que, com o seu espírito, os Santos deixaram nas religiões. Praza à Divina Majestade pôr remédio a isto como vê que é necessário. Amém.

6. Comecei eu, pois, a ter estas conversas, não me parecendo -como via que usavam - que delas havia de vir à minha alma o
mal e a distração que depois entendi haver em semelhantes
tratos. Parecia-me que, coisa tão geral como é esta convivência em muitos mosteiros, não me faria a mim mais mal de que a outras que eu via serem boas. Não via que eram muito melhores e, o que para mim era perigo, para outras não o seria tanto. Alguém, duvido que deixe de ter, embora não seja mais que  tempo mal gasto. 

Estando eu, pois, com uma pessoa - bem nos princípios de a conhecer - o Senhor quis me dar a entender que não me convinham aquelas amizades, e avisar-me e iluminar-me em tão grande cegueira. Apresentou-se Cristo diante de mim com muito rigor dando-me a entender o que aquilo Lhe pesava. Vi-O com os olhos da alma mais claramente de que O poderia ver com os olhos do corpo e me ficou tão impresso que isto foi há mais de vinte e seis anos e me parece que o tenho presente. Fiquei muito espantada e perturbada e não queria voltar a ver mais a pessoa com quem estava.

7. Fez-me muito mal não saber que era possível ver sem ser com os olhos do corpo. E o demônio ajudou para que eu assim julgasse, dando-me a entender que isso era impossível; o que  me tinha aparecido que podia ser o demônio, e outras coisas deste gênero, embora sempre ficava um parecer-me que era Deus e não imaginação. Mas, como não era do meu gosto, eu me fazia a mim mesma desmentir. E, como não ousei tratar disto com ninguém e como depois voltaram a fazer-me grande impertinência, assegurando-me não haver mal em ver semelhante pessoa, que nem perdia honra, mas antes a ganhava, voltei à mesma conversação e até, em outras épocas, a outras, porque foram muitos os anos em que tomei esta recreação pestilencial. 

A mim, no entanto, não me parecia - como estava nela - tão má como isso, ainda que, às vezes, visse claramente não ser boa. Mas nenhuma me causou distração como esta que digo, porque lhe tive muita afeição.

8. Estando eu outra vez com a mesma pessoa, vimos vir até nós - e outras pessoas que ali estavam também o viram - uma coisa à maneira dum sapo grande, com muita mais ligeireza do que estes costumam andar. Do lugar donde ele veio, não posso eu entender como pudesse haver semelhante parasita no meio do dia, nem nunca lá tem havido. A impressão que em mim causou não me parece sem mistério; e isto tão pouco me esqueci! Oh! grandeza de Deus, e com quanto cuidado e piedade estáveis me avisando, por todos os modos, e que pouco me aproveitei!

9. Havia ali uma freira, minha parente, antiga e grande serva de Deus e de muita religião. Esta também me avisava algumas vezes; e não só eu não a acreditava, mas desgostava-me com ela e parecia-me que se escandalizava sem ter porquê.
Disse isto para que se entenda a minha maldade e a grande bondade de Deus e quanto tinha merecido eu o inferno com tão grande ingratidão; e também para que, se o Senhor ordenar e for servido que a qualquer tempo leia isto alguma freira, veja a minha experência aprendendo a lição.
E a todas eu lhes peço, por amor de Nosso Senhor, que fujam de semelhantes recreações. Praza a Sua Majestade se desengane de mim alguma de quantas enganei, dizendo-lhes que não era mal e assegurando tão grande perigo com a cegueira que trazia, que de propósito não as queria eu enganar. Pelo mau exemplo que lhes dei- como disse - fui causa de grandes males, não pensando que fazia tanto mal.

10. Estando eu mal, nesses primeiros dias, antes que eu 
soubesse valer por mim mesma, davam-me grandíssimos desejos de fazer bem aos outros; tentação esta muito ordinária dos que começam, embora a mim me sucedesse bem.
Como queria tanto ao meu pai, desejava-lhe o bem que me parecia que teria em ter oração - pois a meu ver nesta vida não podia haver nada melhor de que ter oração - e assim, por rodeios, conforme pude, comecei a fazer com que a tivesse. Dei-lhe livros a propósito.

Como era tão virtuoso, como já ficou dito, assentou tão bem nele este exercício que, em cinco ou seis anos - julgo que seria - estava tão adiantado que eu louvava muito ao Senhor e dava-me
grandíssimo consolo. Foram muito grandes os trabalhos que teve de muitas maneiras; e todos passou com muitíssima conformidade. Ia me ver muitas vezes, pois se consolava tratando coisas de Deus.

11. Já depois de eu andar tão distraída e sem ter oração, como via que ele pensava eu era como costumava ser, sofri por o enganar.
É que estive mais de um ano sem ter oração, parecendo-me mais humildade. Esta foi, como depois direi, a maior tentação que tive porque, por meio dela, eu acabar-me-ia de perder. Com a oração, se um dia ofendia a Deus, outros voltava a recolher-me e a afastar-me mais das  más ocasiões. 

Como o bendito homem me vinha com isto, tornou se-me duro vê-lo tão enganado, pensando que eu tratava com Deus como costumava e disse-lhe que já não tinha oração, embora não dissesse a causa. Dei-lhe as minhas enfermidades por desculpa, porque embora sarasse daquela tão grave, sempre até agora as tenho tido e bem grandes e de muitas maneiras. 

De tempos para cá, não com tanta força, mas não me deixam. Em especial tive durante vinte anos vômitos pela manhã: até depois do meio-dia acontecia-me não poder desjejuar e algumas vezes até mais tarde.

Depois que frequento mais amiúde a comunhão, é à noite, antes de me deitar que, com muito mais custo, o tenho de provocar com uma pena ou outra coisa; porque se o não faço, é muito o mal que eu sinto. Quase nunca estou - a meu parecer - sem muitas dores e algumas vezes bem fortes, em especial no coração; embora o mal que me tomava muito de contínuo seja agora muito de longe a longe.

Da forte paralisia e das outras enfermidades de febres que
costumava ter muitas vezes, encontro-me boa há oito anos. Destes males dá-se-me já tão pouco que muitas vezes folgo, parecendo-me que em algo se serve o Senhor.

12. E meu pai acreditou ser esta a causa, porque como ele não dizia mentira, julgou, conforme ao que eu tratava com ele, que também eu não a havia de dizer. Disse-lhe, para que melhor o acreditasse - pois bem via eu que para isto não havia desculpa -, que muito fazia já em poder rezar o Ofício no coro. Embora tão pouco isto fosse causa bastante para deixar uma coisa para a qual não são precisas forças corporais, mas só amar e o costume. E o Senhor dá sempre oportunidade quando queremos.

Digo "sempre" porque, embora com as circunstâncias e até
enfermidades, impeça algumas vezes muitos momentos de solidão, não deixa de ter outros em que há saúde para isto. E na própria enfermidade e ocasiões está a verdadeira oração -quando é alma que ama - no oferecer aquilo e lembrar-se por Quem o sofre e conformar-se com isso e com mil coisas que se oferecem. Aqui exercita o amor; pois não é forçoso que misericórdia para ele e que sempre O servíssemos, que considerássemos que tudo acaba. Dizia-nos, com lágrimas, a pena grande que tinha de não O ter ele servido,
que quisera ser frade - digo, ter sido- e dos mais rigorosos que
houvesse.

Tenho por certo que, quinze dias antes de morrer, lhe deu o Senhor a entender que não havia de viver. Porque até aí, embora estivesse mal, não o pensava; depois, apesar de ter muitas melhoras e de lhe dizerem os médicos, nenhum caso fez disso. Só atendia em ordenar a sua alma.

13. Foi seu principal mal uma dor muito grande de costas, que
jamais o deixava; algumas vezes era tão intensa, que o afligia muito.
Disse-lhe que, visto ser tão devoto de quando o Senhor levava a
cruz às costas, pensasse que Sua Majestade lhe queria dar a sentir alguma coisas do que Ele tinha passado com aquela dor. Consolou se tanto que, me parece, nunca mais o ouvi queixar-se.
Esteve três dias com muita falha de cabeça; no dia que morreu lhe tornou a dar o Senhor todo inteiro que nos espantávamos, e teve-o até que, no meio do Credo, dizendo-o ele mesmo, expirou. Ficou como um anjo; que assim me parecia a mim que ele era - a modo de dizer - na alma e disposição, pois a tinha muito boa.

Não sei para que disse isto senão para culpar mais minha ruim vida, depois de ter visto tal morte e entender tal vida; para me parecer de algum modo que com tal pai, eu havia  de melhorar. Dizia seu confessor - que era dominicano, muito grande letrado - que não duvidava de que tivesse ido direito ao Céu, porque havia alguns anos que o confessava e louvava sua pureza de consciência.

14. Este Padre dominicano que era muito bom e temeroso de Deus, foi-me de grande proveito. Confessei-me com ele e tomou a peito o fazer bem à minha alma e dar-me a compreender a perdição que trazia. Fazia-me comungar de quinze em quinze dias e, pouco a pouco, começando a tratar com ele, falei da minha oração. Disse-me que não a deixasse; de qualquer modo, não me podia causar senão proveito. Comecei a voltar a ela - embora não a afastar-me das ocasiões - e nunca mais a deixei.

Passava uma vida trabalhosíssima, porque na oração entendia
melhor minhas faltas. Por uma parte, me chamava Deus; por outra, eu seguia o mundo. Davam-me grande alegria todas as coisas de Deus; traziam-me atada as do mundo. Parece que queria juntar estes dois contrários, tão inimigos um do outro, como são vida espiritual e alegrias, gostos e passatempos sensíveis: Na oração passava grande trabalho, porque o espírito não era senhor, mas escravo; e assim não me podia encerrar dentro de mim (que era todo o modo de proceder que eu levava na oração) sem encerrar comigo mil vaidades.

Passei assim muitos anos, que agora me espanto como tive força
bastante para o sofrer sem que deixasse uma ou outra coisa. Bem sei que deixar a oração já não estava em minha mão, porque me segurava nas Suas Aquele que me queria para me dar maiores graças.

15. Oh! Valha-me Deus, se eu houvesse de dizer as ocasiões das
quais - nestes anos - Deus me tirava, e como eu me tornava a meter nelas, e dos perigos de perder totalmente o crédito de que me livrou!
Eu, a fazer obras para descobrir o que era, e o Senhor a encobrir os males e a descobrir alguma pequena virtude, se a tinha, e a fazê-la grande aos olhos de todos, de maneira que sempre me tinham em muito. Porque, embora algumas vezes transluzissem as minhas vaidades, como viam outras coisas que lhes pareciam boas, não o acreditavam.

Já tinha visto o Sabedor de todas as coisas ser assim necessário, para que, depois, nas que tenho tratado de Seu serviço, me dessem algum crédito; Sua soberana largueza, não atendia aos meus grandes pecados, senão os desejos que muitas vezes tinha de O servir e a pena de não ter fortaleza em mim para o pôr por obra.

16. Oh! Senhor da minha alma! Como poderei agradecer as graças que nestes anos me fizestes? E como, no tempo em que eu mais Vos ofendia, em breve me dispúnheis com grandíssimo
arrependimento para que gozasse de Vossos regalos e graças! Na verdade, escolhíeis, meu Rei, o mais delicado e penoso castigo que para mim podia haver, como quem bem sabia o que me havia de ser mais penoso; com grandes regalos castigáveis meus delitos.

E não creio dizer desatinos - embora seria bem que estivesse
desatinada -voltando de novo agora à memória a minha ingratidão e maldade. Era tão mais penoso para meu modo de ser receber graças quando
tinha caído em graves culpas, que receber castigos; uma só dessas
graças - parece-me podê-lo dizer com certeza - me desfazia e
confundia mais e fatigava de que muitas enfermidades com outros grandes trabalhos juntos. Porque isto via eu que o merecia e parecia-me que pagava algo dos meus pecados (embora tudo era pouco, porquanto eles eram muitos), mas ver-me a receber de novo graças pagando tão mal as recebidas, é um gênero de tormento para mim terrível, e creio que para todos os que tiverem algum conhecimento ou amor de Deus, e isto até por uma natural virtude podemos deduzir. 

Estas eram minhas lágrimas e tristeza ao ver o que sentia,
vendo que estava em vésperas de tornar a cair, embora minhas
determinações e desejos então - por aquele momento, digo -
estivessem firmes.

17. Grande mal é uma alma achar-se sozinha entre tantos perigos. Parece-me que, se eu tivesse tido com quem tratar tudo isto, ajudar-me-ia a não tornar a cair, sequer por vergonha, já que não a tinha de Deus. Por isso aconselharia eu aos que têm oração - em especial ao princípio - que procurem amizade e trato com outras pessoas que tratem do mesmo. É coisa importantíssima, ainda que não seja senão ajudarem-se uns aos outros com suas orações, quanto mais que há muitos mais lucros. E pois que nas conversas e amizades humanas, mesmo não sendo muito boas, se procuram amigos com quem descansar e para mais gozar ao contar aqueles prazeres vãos, não sei por que não se há-de permitir a quem começar de verdade  a amar a Deus e a servi-Lo,  tratar com
algumas pessoas seus prazeres e trabalhos: que de tudo têm os que têm oração. Porque, se é verdadeira a amizade que quer ter com Sua Majestade, não haja medo de vanglória; e quando o primeiro movimento acometa, sai dele com mérito. Creio que, andando com esta intenção quem tratar isto aproveitará a si e aos que o ouvirem; sairá mais ensinado; até sem saber como, ensinará a seus amigos.

18. Quem tiver medo ter vanglória ao falar disto, também a terá de ouvir missa com devoção, se o virem, e em fazer outras coisas que, sob pena de não ser cristão, não pode deixar de fazer por medo de vanglória. Isto é tão importante para almas que não estão fortalecidas na virtude - por terem tantos contrários e até amigos para os incitar ao mal -, que nem sei como o louvar. 
Parece-me que o demônio tem usado deste ardil como coisa que muito lhe importa: que os bons se escondam tanto para não dar a perceber a qeum de verdade quer  e procura  amar e contentar a Deus; e tem incitado a que se descubram outras amizades pouco honestas, tão em uso, que já parece que se toma por solenidade e se publicam as ofensas que nestes casos se fazem a Deus.

19. Não sei se digo desatinos. Se o são, V. Mercê os rasgue, e se não o são, suplico-lhe que ajude a minha ignorância, acrescentando aqui o muito que me falta. Andam as coisas do serviço de Deus já tão fracas, que é necessário guardarem-se as costas uns aos outros, os que O servem, para irem adiante, segundo se tem por bom o andarem em vaidades e contentos do mundo. Para estes, há poucos olhos. Mas se um começa a se dar a Deus, há tantos que murmuram, que lhe é necessário buscar companhia para se defender, até que já esteja forte e não lhe pese padecer. E, se não, ver-se-á em grandes apertos.

Penso que seria por isto que usavam alguns santos irem para os
desertos. É um gênero de humildade o não se fiar de si, mas crer que, em atenção àqueles com quem conversa, o ajudará Deus.

Cresce a caridade ao ser comunicado, e há mil bens que eu não
ousaria dizer se não tivesse grande experiência do muito que isto importa. Verdade é que eu sou mais fraca e ruim que todos os nascidos; mas creio não perderá quem, humilhando-se, embora seja forte, não se tenha a si mesmo por tal e creia nisto a quem tenha experiência. De mim sei dizer que, se o Senhor não me descobrisse esta verdade e dado meios para que eu muito de ordinário tratasse com pessoas que têm oração, caindo e levantando-me, eu iria dar direto no
inferno. 

Para cair havia muitos amigos que me ajudassem; para
levantar-me achava-me tão só que agora me espanto como não
estava sempre caída, e louvo a misericórdia de Deus. Era só Ele que me dava a mão.
Seja bendito para sempre. Amém.


LIVRO DA VIDA - Santa Teresa de Jesus de Ávila 

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