ReligionenLibertad.com
Brinquedos quebrados
Juan Manuel de Prada - 2 agosto 2012 - religionenlibertad.com
Perguntava Olegário Gonzalez de Cardedal, em um magnífico terço, se Deus é um brinquedo quebrado, tal como aventura-se o super valorizado Terno Galvan. Deixando à parte a afirmação de Terno (que nem sequer tem a grandeza desesperada do deicida Nietzsche e mais parece ocorrência de ateísta estufado como repolho) e aceitando que -como assinalava nosso muito querido teólogo- «a realidade infinita de Deus transborda sempre nossa compreensão», quisera adicionar algumas humildes considerações complementárias às que González de Cardedal exibia em seu artigo.
Concluia nosso autor que, se bem que a presença social do religioso diminuiu nas últimas décadas, a necessidade de Deus se mantém intata: «A religião desistiu de ser política para ser relação pessoal e comunitária com Deus que ilumina toda a vida humana», afirmava com otimismo. Porém a frase nos deixa um certo gosto de insatisfação: não só porque as expressões «política» e «comunitária» sejam em sua origem quase sinônimas ( e embora estejamos conscientes de que na linguagem atual e intenção do autor tentar descrever realidades diferentes, a verdade é que tais realidades são necessariamente relacionadas), mas também porque, uma vez que a religião desistiu da política, muito mal pode «iluminar toda a vida humana», da qual a política é parte consubstancial. O que ocorreu, bastante, é que a religião desistiu, com efeito, da política (e da economia, e da ciência, e da arte, e da cultura, e de tantas e tantas outras realidades seculares); e, inevitavelmente, se ficou prisioneira no âmbito da conciência, deixando de «iluminar a vida inteira».
O realismo tomista sempre teve claro que as realidades seculares eram autônomas da religião, mas subordinadas a ela, como os planetas que giram em órbitas concêntricas em torno ao sol. Em nosso tempo, pelo contrário, tais realidades seculares se negam a receber a luz solar -sobrenatural- que a religião lhes prestava; e assim se converteram em planetas tenebrosos de órbita errática, enquanto a religião, confinada na consciência, ficou reduzida à idéia ou sentimento, emoção ou estado espiritual... que é reconhecida, no máximo, certo valor consolador, como a qualquer outro placebo; mas de modo algum o valor de iluminar a vida inteira.
Este confinamento da religião na «estrutura da conciência» e sua retirada da política explica a situação atual, que Leão XIII delineia profeticamente em sua encíclica Inescrutabili Dei: «Supressão geral das verdades mais altas; altivez dos caracteres que não suportam autoridade legítima; uma causa permanente de dissensões que não cessa de produzir lutas atrozes entre eles; desprezo às leis que regem os costumes e protegem a justiça; impensada administração e dispêndio dos bens públicos; a falta de vergonha dos que, ao tempo que cometem os maiores atropelos, tentam apresentar-se como os defensores da pátria, da liberdade e do direito; a peste mortal que se insinua como uma serpente por todas as classes da sociedade e não lhe deixa nem um momento de repouso, preparando-lhe novas revoluções e desenlaces calamitosos».
O homem deu na estranha loucura de crer que Deus é uma mera «estrutura de sua conciência». E uma religião assim acaba esgostando-se; pois não vendo a grandeza infinita de Dios encarnada nas realidades seculares, o homem entabola com o Deus de sua conciência uma «relação pessoal» que, ou bem degenera em puro emotivismo, ou bem se converte em relação familiar «de tu a tu», a qual cria um deus à sua medida. Assim os homens se convertem em brinquedos quebrados.
www.juanmanueldeprada.com
Gostou desse artigo? Comente-o com teus amigos e conhecidos:
http://religionenlibertad.com/articulo.asp?idarticulo=24055
Nenhum comentário:
Postar um comentário