Em tudo fazer a Vontade de Deus

Nisto consiste a felicidade neste nosso caminhar. Não esqueçamos que estamos a caminho do Paraíso e não vivamos como se aqui já fosse o Paraíso, disse São Gregório.

DIVINO PAI ETERNO

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O olhar do Pai sobre nós, seus filhos que tanto ama.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Como foi progredindo a sua alma, depois que começou a obedecer e o pouco que lhe aproveitava resistir às graças de Deus e como Sua Majestade ia lhe fazendo maiores.


LIVRO DA VIDA - SANTA TERESA DE JESUS DE ÁVILA

   

CAPÍTULO 24. Prossegue o mesmo assunto e diz como foi progredindo a sua alma, depois que começou a obedecer e o pouco que lhe aproveitava resistir às graças de Deus e como Sua Majestade  ia lhe fazendo maiores.

1. Ficou minha alma tão calma por causa desta confissão, que parecia que não havia coisa a que não me dispusesse a fazer; e assim comecei a mudar em muitas coisas, ainda que o confessor não me apertasse, antes parecia fazer pouco caso de tudo. Com isto movia-me mais, porque me levava pela via de amar a Deus e como  me deixava libertada e não me constrangia, se à isto  não me pusesse por amor.

Estive assim quase dois meses, pondo todo o meu esforço em resistir aos regalos e graças de Deus. Quanto ao exterior, via-se a mudança, porque já o Senhor começava a dar-me ânimo para passar por algumas coisas que pareciam exageros como diziam pessoas que me conheciam e até as pessoas da mesma casa. E do que eu antes fazia, tinham razão, que era em extremo; mas, naquilo a que era obrigada pelo hábito e profissão que tinha, ficava muito aquém.

2. Lucrei, deste resistir a gostos e regalos de Deus, o ensinar-me Sua Majestade; porque antes eu julgava que, para Ele me dar regalos na oração, era preciso muito retiro e quase não ousava mexer. Vi depois o pouco que isso fazia no caso; porque, quanto mais procurava distrair-me, mais me cobria o Senhor daquela suavidade e glória que parecia que me rodeava toda e que por nenhuma parte poderia fugir e assim era. Tinha eu tanto cuidado, que me causava pesar. O Senhor fazia mais graças e em assinalar a Sua ação muito mais do que costumava, nestes dois meses, para que eu melhor entendesse que não estava mais em minha mão.

Comecei a sentir de novo amor à Sacratíssima Humanidade. Começou-se a assentar a oração como edifício que já tinha alicerce e eu a afeiçoar-me a mais penitência, de que andava descuidada por serem tão grandes minhas enfermidades. Disse-me aquele homem santo que me confessou, que algumas coisas não me poderiam fazer mal.

Porventura me dava Deus tanto mal porque, como eu não fazia penitência, queria me dar Sua Majestade. Mandava-me fazer algumas mortificações não muito saborosas para mim. Tudo fazia, porque me parecia que me mandava o Senhor, e dava-lhe graça para que me mandasse de maneira a que eu lhe obedecesse.

Minha alma já ia sentindo qualquer ofensa que fizesse a Deus, por pequena que fosse, de maneira que, se tinha alguma coisa supérflua, não podia descansar até que a eliminasse. Fazia muita oração para que Deus me tivesse de Sua mão; pois tratava com Seus servos, não permitia que se voltasse atrás, o que me parecia ser grande delito, e eles perderem crédito por mim.

3. Neste tempo veio a este lugar o Padre Francisco, que era duque de Gandia e havia já alguns anos que, deixando tudo, entrara na Companhia de Jesus. Procurou o meu confessor, e o cavaleiro que falei- e também  vinha me ver - que eu lhe falasse e desse conta da oração que tinha, pois sabia que ele ia muito adiante em ser muito favorecido e regalado por Deus; como   quem tinha deixado muito por Ele, já nesta vida lhe pagava.

Assim, depois de me ter ouvido, disse-me que era espírito de Deus e lhe parecia que já não era bom resistir-Lhe mais. Até então havia sido bem feito, mas que começasse sempre a oração por um passo da Paixão e, se depois o Senhor me levasse o espírito, não Lhe  resistisse, mas o deixasse levar a Sua Majestade, não o procurando eu.

Como quem ia bem adiante, deu o remédio e o conselho, pois fazia nisto muito a experiência. Disse que já era erro o resistir mais. Eu fiquei muito consolada e o cavaleiro também; alegrou-se muito com que dissesse que era espírito de Deus e sempre me ajudava e dava conselhos no que podia, que era muito.

4. Neste tempo mudaram o meu confessor deste para outro lugar, o que eu senti  muito, porque pensei que havia de voltar a ser ruim e não me parecia possível achar outro como ele. Ficou a minha alma como num deserto, muito desconsolada e temerosa. Não sabia que fazer de mim. Uma parenta minha tratou de me levar para sua casa e logo cuidei de procurar outro confessor nos da Companhia.

Foi o Senhor servido que eu começasse a ter amizade com uma senhora viúva, de muita qualidade e oração, que tratava muito com eles. Fez-me confessar com seu confessor e estive em sua casa muitos dias; vivia ali perto. Eu consolava-me por tratar muito com eles porque, só de entender a santidade de seu trato, era grande o proveito que a minha alma sentia.

5. Este Padre começou a pôr-me em maior perfeição. Dizia-me que, tudo para contentar a Deus, não havia de deixar nada por fazer; também com muita prudência e brandura, porque não estava ainda a minha alma nada forte, mas sim muito tenra, em especial em deixar algumas amizades que tinha.

Embora não ofendesse a Deus com elas, era muita a afeição e parecia-me  que era ingratidão deixá-las e assim dizia-lhe, pois não ofendia a Deus, porque havia eu de ser desagradecida. Disse-me que encomendasse o caso a Deus por alguns dias e rezasse o hino Veni Creator para que me inspirasse naquilo que era o melhor. Tendo estado um dia muito em oração e suplicado ao Senhor que me ajudasse a contentá-Lo em tudo, comecei o hino; e estando-o a dizer, veio-me um arroubamento tão súbito que quase me tirou de mim, coisa de que eu não pude duvidar, por que foi muito claro.

Foi a primeira vez que o Senhor me fez esta graça de arroubamentos. Compreendi estas palavras: já não quero que tenhas conversações com homens, senão com anjos.
A mim me causou isto muito espanto, porque o movimento da alma foi grande e muito em espírito me foram ditas estas palavras e assim me atemorizei, embora, por outra parte, me desse grande consolo, o qual me ficou depois de sossegar. A meu parecer, isso foi causado pela novidade.

6. Isto tem-se cumprido bem, pois nunca mais pude ficar com amizade, nem ter consolação, nem amor particular, senão a pessoas que percebo que  têm a Deus e O procuram servir.

Se não entendo isto, ou que é pessoa que trata de oração, é para mim cruz penosa tratar com alguém. Nem isso está na minha mão, nem faz ao caso serem parentes ou amigos. Isto é assim sem dúvida, segundo o meu parecer.

7. Desde aquele dia fiquei tão animada para deixar tudo por Deus, como se Ele, naquele momento - não me parece ter sido mais - quisesse deixar outra a Sua serva. Assim, não foi necessário que me tornassem a mandar; porque o confessor, como me via tão apegada a isto, não tinha ousado dizer determinadamente que o fizesse.

Devia estar aguardando que o Senhor operasse, como o fez. Nem pensei podê-lo conseguir, porque  eu mesma já  tinha tentado, mas era tanta a pena que me dava que, como coisa em que me parecia não haver inconveniente, o deixava. Aqui já me deu o Senhor liberdade e força para o pôr por obra. Assim o disse ao confessor e deixei tudo, conforme me mandou. Fez muito proveito à pessoa com quem eu tratava, ver em mim esta determinação.

8. Seja Deus bendito para sempre que, num momento, me deu a liberdade para que eu, com todas as diligências quantas tinha feito em muitos anos, não tinha podido alcançar por mim;  mesmo fazendo muitas vezes tão grande esforço, que me prejudicava à saúde. Como foi feito por Quem é poderoso e Senhor verdadeiro de tudo, nenhuma pena me causou.

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